domingo, 27 de março de 2016

O momento brasileiro e uma grande oportunidade para a medicina

“Se soubesse que algo me seria útil, mas prejudicial a minha família, eu o tiraria da minha mente. Se conhecesse algo que fosse útil à minha família, mas não a pátria, procuraria esquecê-lo. Se conhecesse algo que fosse útil à minha pátria, mas danoso ao gênero humano, eu o consideraria um crime”.
(“Pensamentos” – Montesquieu)

“De todas as coisas existentes algumas estão sob o nosso poder e outras não.
...A realidade do bem está naquilo que está debaixo do seu controle”.
(“A Arte de Viver” – Epicteto)

                Vivemos um momento importante no Brasil. Muitas pessoas estão descontentes com diversas questões de ordem política e social, e vivem a angústia de se imaginarem de mãos atadas, de não conseguirem contribuir para a mudança daquilo com que não concordam. A verdade é que, no fundo, sempre há o que fazer. Para quem tem a intenção profundamente sincera de fazer o bem, nunca faltará lugar. Por vezes a angústia vem das ações possíveis não surtirem uma mudança de amplo alcance, mas há lugar para todos na construção de um país melhor. Num determinado segmento da sociedade, a oportunidade está escancarada. Trata-se da medicina, através da Medicina de Família e Comunidade.
                Sabemos que um dos vários pontos frágeis do sistema é a saúde. O SUS é uma das grandes conquistas sociais do Brasil nas últimas décadas, mas até hoje não alcançou toda a sua potencialidade, dentre outros porque não foi acompanhada por uma adequada oferta de recursos humanos, especialmente médicos, para que ele pudesse se estruturar de maneira eficaz.
                Há muitas décadas a educação médica brasileira volta a formação dos médicos para o ambiente hospitalar, orientados para as especialidades focais (como cardiologia, dermatologia, radiologia) em detrimento da formação generalista. Isso não quer dizer que as estas especialidades não sejam importantes, muito pelo contrário, mas da forma como está organizado, com a quantidade atual de especialistas em cada área, surge um sistema de saúde oneroso e pouco resolutivo.
                Em qualquer país que tenha se proposto a assegurar um sistema de saúde público e universal, e que tenha dado certo, a exemplo de Inglaterra, Canadá e Espanha, é fundamental que ele seja alicerçado numa Atenção Primária a Saúde (APS) forte. É neste cenário que se inserem os Médicos de Família e Comunidade (MFC).
O MFC é um profissional generalista, que acompanhada os indivíduos, suas famílias e a comunidade (por trabalhar sempre com uma população fixa) durante toda a sua trajetória de vida. O MFC tem ampla formação, por isso é capaz de realizar desde consultas de pré-natal, passando pelo tratamento de problemas crônico-degenerativos, infecciosos, emocionais, acompanham o processo de morte, além de fazer alguns procedimentos cirúrgicos, caso o local onde trabalhe forneça condições para tal.
                O MFC não fica somente no consultório, ele também faz visitas domiciliares a pessoas que não possuem condições de ir à Unidade de Saúde, bem como realiza outras atividades em outros espaços da comunidade. Uma das grandes vantagens de acompanhar as pessoas e suas famílias por um longo período é a criação do vínculo. Por acreditar na determinação social como parte do processo saúde-doença das pessoas, ou seja, perceber a influência da relação da pessoa com o ambiente onde vive, onde trabalha, com as pessoas com quem convive e consigo mesmo, o MFC consegue atuar numa esfera que vai muito além da prática clínica.
                Isso exige uma série de competências que passam das habilidades de comunicação a um engajamento sócio-político, para que a figura deste médico não seja apenas um reprodutor do status-quo, onde vê no paciente apenas uma máquina que é consertada e continuar sendo explorada em seu trabalho. Quando consegue transpor esta barreira, o MFC é, dentre as opções postas hoje para quem se gradua em medicina, aquele com maior potencial de transformação social, podendo contribuir, além de tudo, com a formação de sujeitos mais autônomos, mais críticos, com maior capacidade de lutar por si mesmos e por um país melhor.
                Apesar dos esforços feitos recentemente, como a mudança nas diretrizes curriculares dos cursos de medicina e a expansão das vagas de residência em Medicina de Família e Comunidade, há de haver um maior interesse por parte dos médicos e estudantes de medicina de se enveredarem por este caminho.
                Sabemos que são muitos os entraves para essa escolha, dentre os quais o não reconhecimento e valorização pelos pares de profissão, pela família e outros setores da sociedade. Para superar isso, vários outros esforços simultâneos tem de ser feitos, como ampla divulgação em vários veículos midiáticos. (Quem sabe inclusive um Médico de Família como protagonista da novela das oito?).
                Os desafios são grandes, mas está lançado o convite: Médicos e futuros médicos, existe a possibilidade de um papel muito importante, um protagonismo na construção de um SUS melhor, e de um país melhor. Ela se chama Medicina de Família e Comunidade. Vamos nessa? 

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.