quinta-feira, 12 de novembro de 2009

501 A

Ontem, após finalizar um pratão de arroz, feijão e frango ouvi outro perguntar se eu tinha comido alface.
Antes de ontem, um colega meu de sala achou graça de um de nós, que enquanto lhe dava carona ligou para casa pra saber se os demais já haviam jantado.
Há quase um mês, três de nós fomos assistir à primeira comunhão do outro que resta.

Há pouco menos de dois anos, ao acordar acendi a luz do quarto e me deparei com duas folhas de papel sulfite dobradas sobre meu criado-mudo. Antes de desdobrá-las passei os olhos ao redor do quarto e vi as malas prontas: Estava indo embora.
Ainda sentado na cama resolvo abrir o papel e nele leio palavras carinhosas e encorajadoras de minha irmã. Depois de terminar a carta, entro no banheiro, ligo o chuveiro, sento na patente e apesar do nó na garganta as lágrimas me escapam. Começo a sentir ali a falta da minha família.
Mudei-me sozinho de São Paulo para Florianópolis para fazer faculdade. Iria deixar de ver as pessoas com as quais convivi durante vinte anos. Certamente não seria fácil.
Quando aqui cheguei, fui morar com um amigo de São Paulo e mais dois amigos dele do curso. Passado meio ano, um deles se mudou e outro amigo meu de São Paulo passou na faculdade daqui e veio morar conosco. Continuamos em quatro.
O começo como previsto foi difícil. Apesar de todas as festas e novidades da vida universitária, nos primeiros meses a saudade de casa era quase insuportável e eu não passava um dia sem fazer a contagem regressiva para o próximo feriado prolongado, quando voltaria a ver a família.
E então veio o inevitável. Passa-se o tempo e criam-se raízes. É a rotina (que você lutou tanto pra conseguir), as pessoas que convivem com você e que estão na mesma situação, com as quais você se identifica e, principalmente, o nascimento de uma nova família.
Longe de mim querer comparar minha família lá em São Paulo (meus pais e minha irmã) com esses marmanjos que mal tomam banho e dividem a casa comigo aqui em Floripa. É muito confortável deitar pra dormir a noite e lembrar que tenho uma família que me ama e que sente minha falta lá longe. Que sempre que eu voltar, vou encontrar a cama pronta, vou acordar e ter o café na mesa, os abraços, os carinhos, as broncas e tudo mais.
Mas acontece que família é um troço doido, que na minha concepção tem muito a ver com sentimento, com valores, com respeito e admiração recíproca (apesar dos pesares). É engraçado atribuir a esses três manés que moram comigo, que nem sabem direito o que querem da vida, essa palavra tão forte.
E quando digo que é um troço doido, é doido mesmo. Na maioria das vezes parece que a gente tá lidando com um irmão, mas por vezes, um ou outro faz o papel de pai e se der na telha, até de mãe. E haja paciência quando isso acontece, o pessoal interpreta à altura.
O que faz desses três uma família pra mim? Tentarei explicar:


É sair reclamando das luzes acesas pela casa, perguntando se o pai é sócio da Light..
É acordar cedo de domingo e chamar pra assistir a Fórmula 1.
É regular o refrigerante por ver o outro engordando sem parar.
É sentir vontade de voltar pra casa ao final do dia só pra falar e ouvir abobrinhas.
É brigar pelo melhor espaço no sofá na hora do filme.
É emprestar e pegar dinheiro e nunca ter certeza absoluta do tamanho da dívida.
É querer manipular o rádio do carro.
É ir à missa junto.
É brigar pela panela mal lavada (ou não lavada) na vez do outro de lavar a louça.
É ver o outro dormindo no sofá há duas horas enquanto deveria estar estudando e ainda lhe dar mais um prazo de quinze minutinhos antes de acordá-lo para os deveres.
É ver o outro pegando uma gata e sentir inveja.
É ver o outro pegando uma baranga e sentir inveja também.
É ver de longe o outro, feliz da vida, dando risada de uma coisa qualquer e se sentir bem com isso...

5 comentários:

camilinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
camilinha disse...

Eu ia achar linda de qquer forma, mas gostei mais depois da nossa conversa no final da festa da Sabrina! :))
Beeeijo.

Jehbinha disse...

Ahhhh como eu quero er uma vida assim tbm =[[[ ... pq tudo é tão dificil? =[

Sinto sua falta. Quando vc volta para SP? preciso te contar um monte de coisas. Te amo de montão

Maíra disse...

"É ver o outro pegando uma baranga e sentir inveja também."
ehuaheuaehaueha
sem comentários esses 4! :)

Peeeeedro, não vou ter outra oportunidade de te falar isso até segunda... então deixa eu te encher o saco por aqui mesmo por causa do teu timeco! kkkk

Arthur disse...

Queres um abraço, cara?! haha
boa hein! palavras sinceras!!
=D

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.