domingo, 24 de janeiro de 2010

Casório moderno

Sábado passado foi celebrado o matrimônio de um primo meu. Casou-se aos 32 anos, o que não teria o menor cabimento há um século atrás. Naquela época, com essa soma de anos o cidadão já estava na meia idade, com a prole mais ou menos encaminhada e sua esposa já uma senhora distinta, de roupas com ares viuvescos, afinal de contas, com as condições de vida existentes, o sujeito que passasse dos 50 já estava no lucro.
Hoje, aos 32, das duas, uma: ou o indivíduo, aquele movido a paixões fulminantes, está no quarto casamento, com um saldo de pelo menos um filho por cada um deles, ou está oficializando a vida conjugal mais ou menos nesta época. São os tempos modernos, que trouxeram a expectativa de vida para cima dos 70 e a consciência de que dá tempo de fazer muita coisa, não precisa afobação.
Pois bem, de lá pra cá, não só o perfil do casal mudou, mas também todo o certame matrimonial. Há muito tempo não havia casamento na família. Eu devia ter uns 12 anos quando fui ao último, e as diferenças eram gritantes, imaginem se comparadas aos do início do século passado.
Casamentos de hora em hora, nos quais todo o garbo do atraso da noiva se perde em meio a multas dadas pelas igrejas por esse costume visto por elas como descabido. Meu pai ainda me contou que há padres, como o da paróquia aqui do nosso bairro que, se a cerimônia deveria começar as 20h e acabar as 20h40, e a noiva decidir tradicionalmente atrasar meia-horinha, fazem o casório em 10 minutos.
Fico pensando como é que acontece nessas ocasiões. Alguma parte da cerimonia o padre tem de pular. Nem que ele reze a missa tal qual um jogo de futebol transmitido pelo rádio, não conseguiria dar conta do recado. Mas que pelo menos haja bom senso.
Imagine o padre dando as instruções para os noivos e padrinhos: “Minha filha, você tem que percorrer esse corredor em meio minuto, não dá pra ficar posando pra foto. Padrinhos e madrinhas, no final da cerimônia, nada de congratulações exageradas. Vou pular aquela parte do prometo amar-te e respeitar-te até o fim dos nossos dias, essa coisa protocolar. Ah, e já fiquem com as alianças no bolso, não vai dar tempo de entrar a daminha de honra”.

Casamentos são bacanas. Reúnem pessoas que você só vê ali e nos funerais. Dia de ficar sabendo que a tia-avó do primo distante enviuvou, que o outro tio foi à bancarrota, perceber que aquela priminha encorpou e tá uma moçona, entre outras novidades pertinentes. Sento-me para aguardar o início do casório e noto que a igreja está relativamente vazia. Comento isso com meu pai e ele argumenta que é fim de ano, nas vésperas de natal, muita gente viajando, e além do mais, a festa já foi.
Como assim a festa já foi? “Pois é, um amigo do seu primo emprestou um salão de festas pra ele, só que final de semana retrasado, então ele preferiu economizar esse dinheiro e fez naquele dia mesmo”. E pra onde nós vamos depois daqui? “Pra uma churrascaria”.
Achei o fim da picada. Pô, há tradições e tradições. O padre querer fugir do protocolo é uma coisa, agora adiantar a festa para duas semanas antes do próprio casamento não dá! Parece justo que duas pessoas jovens, iniciando a vida de casados, tenham de juntar dinheiro para outras coisas, como montar a casa e tal. Mas até as mais pobres famílias fazem vaquinha caso haja necessidade, para que haja um festão. Segundo um amigo meu, na pequena cidade onde ele vive, a tradição é que a festa seja paga pelo pai da noiva. Alias quando ele contou essa história lá, o pessoal ficou alarmado. Chocado mesmo. Ou seja, em cada lugar um costume, mas NUNCA a festa antes! Apesar disso dizem que foi bem bacana, infelizmente não pude ir.
Um capítulo a parte é a escolha das canções que tocarão durante a cerimônia. Estão gradativamente substituindo as músicas eruditas por grandes sucessos da rádio, cinema ou telenovela. “Jesus, alegria dos homens” de Bach, deve ter sido tocada pela última vez no casamento dos meus pais. Sábado passado chegou a tocar até “Amigos para sempre”, que espero, não tenha nenhuma subjetividade particular ou conotações de ato-falho. Não me surpreenderei se daqui uns anos, algum casal moderninho resolver trocar a marcha Nupcial por “We are the champions”, ou coisa que o valha.
Outra coisa peculiar em meio a toda essa modernidade, mas essa todo mundo faz, e é de fato bastante pertinente, é a tal lista de presentes. O casal fecha uma lista com uma loja de artigos para casa e os convidados escolhem, dentre os utensílios, com qual presenteará os noivos. Pelo menos não se corre o risco de ganhar um barco de madeira de decoração, que possui dois metros e não caberá em canto algum, ou um lustre pavoroso, que deixará o casal constrangido quando a pessoa que deu visitar a moradia deles e perceber que ele não só não está pendurado no teto, como não está guardado em lugar nenhum. Apesar disso, soa-me estranho pensar que demos aos noivos um ralador de legumes.

Se a modernidade vem para ajudar, deveria criar um mecanismo diferente, ou até mesmo banir aquelas congratulações aos noivos depois do fim da cerimônia. Forma-se uma fila gigantesca, da qual sempre fazem parte vários furões, ou outros ainda mais espertos que dão a volta por trás e cutucam os noivos pelas costas para evitar toda a fila. E ela anda mais devagar do que fila de banco no dia do pagamento. Bom seria se ficasse um fiscal, ou até mesmo o padre, ao lado nos noivos cronometrando o tempo entre dizeres e abraços, o qual não deveria ultrapassar cinco ou dez segundos por pessoa.
Sábado passado pensei em abandonar a fila e ir bater papo com o Ricardo Prado, aquele grande nadador brasileiro dos início dos anos 80. Ele foi treinador do meu primo e estava lá para prestigiar o casamento. Vi-o na porta da igreja, iria apresentar-me como seu grande fã, dizer-lhe que também sou nadador e inventar algumas conquistas e outras lorotas, já que provavelmente nunca mais o veria. Cheguei a sair da fila, mas não mais o encontrei ali.
Depois fiquei sabendo que ele se enganou em relação ao horário e assistiu ao casamento errado. Deve ter passado a cerimonia inteira impressionado; como meu primo estava diferente, realmente um homem já! E no final, enquanto estávamos, a família toda, em meio a ultrapassagens um tanto quanto desnecessárias, rumando à churrascaria, num comboio que mais parecia aquele desenho “a corrida maluca”, ainda deve ter ficado horas numa outra fila interminável para cumprimentar as pessoas erradas.
À parte essas considerações, os casamentos continuam sendo fantásticos. Todos estes são detalhes, que mesmo somados têm importância diminuta no contexto geral. Independente do dia da festa, da escolha das músicas, da rapidez da cerimônia, enquanto ela estiver acontecendo, as pessoas se emocionarão, porque a noiva estará sempre absurdamente bonita, porque antigos e reprimidos amores agora se tornam impossíveis, porque os filhos estão partindo para uma nova vida, uma nova família, e porque todo o arranjo do acontecimento foi escolhido por seus protagonistas que, num dos dias mais importantes de suas vidas, transbordam uma felicidade comovente, que nos envolve e faz de tudo isso que por ora discorri, algo completamente irrelevante.

PS: Ando meio cansado desses meus finais nada renitentes. Por ora, me parecem inevitáveis.

Um comentário:

isa disse...

Imagino você observando nossa família e chocado com a churrascada depois haha
teamoe beijinho

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.