terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Na fila do banco

Há lugares que possuem um grande potencial para gerar confusões. Ressalto as filas de banco em dia de pagamento, ônibus lotado em dia de chuva e saídas de estádio quando o time local perde. Todas elas provocam um grau crescente de irritabilidade nas pessoas que qualquer espirro vira motivo de confrontos fatais. Hoje não fui a jogo, não peguei ônibus e, embora não seja dia de pagamento, provoquei uma importante confusão numa fila de banco.
Antes de narrar o acontecimento, gostaria de tecer alguns breves comentários sobre duas invenções relativamente recentes que vieram para acabar com a paciência dos cidadãos de bem:
Celulares que funcionam como radinhos de pilha e dispensam os fones de ouvido, dando a oportunidade do dono do aparelho de compartilhar seu gosto musical com todos aqueles que estejam há um raio de cem metros de distância.
Igrejas evangélicas de fundo de garagem, fabricantes de fanáticos religiosos que não conseguem finalizar uma frase sequer sem um “glória a Deus” e te chamam de irmão sem nunca ter te visto antes.
Juntem esses dois itens e comecem a calcular a dimensão do meu problema.
Acontece que estava eu numa fila da Caixa Econômica Federal para fazer um simples depósito na conta de um amigo, numa tarde exemplar, na qual o sistema de depósito por envelopes não estava funcionando e havia apenas dois caixas para atender a uma fila de mais de trinta pessoas, sendo um deles caixa preferencial para idosos, gestantes e pessoas com deficiências, quando começo a ouvir um barulho chato vindo das proximidades.
A qualidade do som era terrível, mas me esforçando, consegui identificar uma canção gospel oriunda de um aparelho celular pendurado na cintura de um sujeito que acabara de entrar na fila. Não tinha como aquilo acabar bem. A fila foi avançando com velocidade desprezível, e o camarada continuava com o aparelho ligado. Eu estava conformado com toda aquela demora da fila, mas a entrada do sujeito mudou a conjuntura de maneira inaceitável.
Já perdi a conta de quantas vezes me arrependi por não ter reclamado de situações que me incomodavam. Seja por causa desses malditos celulares que o povo põe pra tocar em locais inapropriados (entenda-se inapropriado qualquer lugar que não seja a rua ou a própria casa), por ver jovens sentados nos coletivos e não cedendo seus lugares para os idosos; ver velhos tarados encochando mocinhas indefesas nesses mesmos coletivos abarrotados, entre tantos outros absurdos cotidianos. Tenho a certeza de que a maioria das pessoas acabam passando uma vontade tremenda de fazer alguma coisa a respeito, mas raramente o fazem. Acabam sendo permissivas e nada muda.
Devo admitir que não é fácil fazer uma intervenção dessas. Embora me sentisse como porta-voz da maioria das pessoas da fila, chegar do nada e mandar alguém desligar o aparelho celular exige um certo cuidado, tendo em vista que uma pessoa desse gabarito provavelmente não acataria a reclamação e sua investida poderia ser completamente em vão, além de provocar possíveis represálias. Nessas horas o tempo começa a passar mais ligeiro, e enquanto eu pensava na melhor abordagem, de repente me vi sendo o próximo a ir ao caixa. Foi quando forcei um olhar sério, encarei o sujeito e disse:

-O senhor tem fone?
-Como?
-O senhor tem fone de ouvido?
-Fone de ouvido? Tenho, mas tá em casa.
-Então faça o favor de desligar o celular, ninguém aqui é obrigado a ouvir as músicas que o senhor quer.
-Você quer que eu faça o quê?
-Que desligue o aparelho (querendo dizer “essa merda”), é proibido fazer isso. Aqui não é a rua, não é lugar público.
-Tá te incomodando?
-Tá! Imagina se todo mundo aqui trouxesse o celular e ficasse ouvindo sua música como o senhor tá fazendo.
-Posso ficar com ele aqui grudado do ouvido?
(A resposta que eu queria dar nessa hora era: “Enfia isso no *** e vê se o som chega no ouvido”)
-Não! E se não desligar logo, quando sair da fila chamo o segurança. Além de proibido é questão de bom senso, educação.
-Que educação o quê! Ô meu filho, que é isso, Deus também te ama.

Nesse momento eu desisti. Como é que você vai debater com uma pessoa dessas? Lá na “Igreja Quadrangular dos Apóstolos que se sentaram a direita de Jesus na Última Ceia”, devem ter dito que é bonito louvar a Deus sobre todas as coisas, mas não explicaram que ouvir cânticos de louvor numa fila de banco não vai angariar novos fiéis, muito pelo contrário.
Fiz calmamente o depósito (mentira, minhas mãos estavam tremendo de nervoso) e antes de sair do banco, como prometido, fui ao segurança pedir que repreendesse “o cara que estava ouvindo, descabidamente, música em alto volume na fila do caixa”. Em meio a minha denúncia, percebi o sujeito do celular espreitando, certificando-se se da seriedade da minha promessa.
Sai do banco com a sensação de dever cumprido. Desejei que o ato servisse de motivação, para que as pessoas que estivessem ali fizessem igual quando se vissem frente a outras situações semelhantes. Pra dizer a verdade imaginei uma saída triunfal, com o pessoal da fila me aplaudindo, ou coisa que o valha. Fiquei até com certa dúvida se não exagerei no gesto. Também não fiquei pra ver se o guardinha foi repreender o moço. Mas tenho certeza que ele pensará duas vezes antes de ouvir música pelo celular numa fila de banco.

4 comentários:

Maia disse...

fila de banco eh uma coisa neh..
eu sempre pensei que devia ter um livro que se passasse "em tempo real".... numa fila de banco! hahha
ou seria um tédio total...ou extremamente genial hahaha


gostei!

Marchewicz disse...

eueaihuaiehaueihaueiae
pelo menos nao era rap
q dize
sei lah qual eh pior...

Arthur Pompilio Astrogildo da Silva disse...

Antes de mais nada é necessario dizer aos senhores acima de 60 anos que parecem ter 50 forem ridicularizados em filas de banco convém dizer: Calma! eu tenho procuração! Isso rejuvenece em todos os niveis, até de piada sem graça.
Mas que sujeito temente a Deus não Amigo Pedro tão temente quanto demente. Seria mais feliz se o infeliz tivesse fones de ouvido, deve ser pq ele acha sempre q esta em outro lugar e não onde ele está, quem sabe, nada casa dele, porém o exemplo é passar a ira"divina" adiante e repreender os "Aparecidinhos" q ficam a espreita de uma oportunidade divina.

Arthur disse...

e pensar: imagina se o Arthur estivesse aqui!
querido, eu tenho pavor, repugnancia.. é uma coisa ridícula esta merda de celular tocando musica!
eu teria outros metodos de resolucao.. nocivos, invasivos!
haha

mto bom!!

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.