sábado, 10 de julho de 2010

Na contagem regressiva

E se você ligasse a televisão no noticiário, fosse ler seu e-mail, ou estivesse dirigindo do trabalho para casa e ficasse sabendo pelo rádio que descobriu-se que o mundo acabará em 24h. E que não se trata de nenhuma previsão de Nostradamus ou Walter Mercado, mas sim de alguma coisa perfeitamente crível. O que você faria?
Isso já deve ter passado pela cabeça de quase todo mundo. A ideia já foi explorada em outras crônicas, novelas, canções, e naturalmente, também tenho minha teoria: Acho que se o Armargeddon fosse confirmado, seja lá qual fosse o desfecho, as pessoas iriam reagir basicamente de duas formas e o mundo se bipolarizaria. De um lado haveria a maior orgia já vista no planeta (juntamente também, devido ao nervosismo e falta de concentração inerentes a ocasião, o maior índice de broxamentos já registrado) e do outro, razoavelmente menor, haveria gente orando, pedindo um final misericordioso, se arrependendo e tentando garantir absolvição pelos pecados terrenos, ou algo que o valha. Eu tentaria juntar a galera e organizar a “festa do apocalipse”. Haveria também aqueles se excederiam no “esquenta” para o fim dos tempos e “queimaria a largada”, acabando-se antes do resto da turma.
Seria possível também que por um acesso de ansiedade, além de serem pegas totalmente desprevenidas, as pessoas não soubessem muito bem como lidar com a situação e não fizessem nada de especial. Outros, por preguiça, se convenceriam de que aproveitaram bem tudo o que tinha para ser vivido, e se contentariam em tomar sua última cervejinha assistindo da varanda a indiferença dos cachorros e passarinhos, que teriam o privilégio de não entenderem nada do que estaria se passando.

Enfim, o mundo um dia acaba, seja para todo mundo de uma vez, ou para uma pessoa só, e a isso chamamos de morte. Mas saber com exatidão quando vai acontecer deve ser algo muito tenso.
Assisti dias atrás a um filme que retratava os últimos dias de um sujeito no corredor da morte. Quando isso acontece, eles tem direito a algumas “regalias”, entre elas pedir qualquer coisa para sua última refeição. Refleti bastante a respeito, caso estivesse nesta situação. Fiquei em dúvida se pediria arroz, feijão e carne moída, com bacon e azeitonas (sem caroço), feitas pelo meu pai, ou um pastel de feira, de carne com queijo, acompanhados de um grande copo de caldo de cana com limão. Parece uma reflexão besta, e realmente deve ser, mas me fez pensar sobre os pequenos prazeres do dia-a-dia, e a importância que ganham imaginando-se situações-limite, como esta. É um exercício mental bacana de se fazer, de fato chega-se a algumas conclusões.
Ainda pensei que se a escolha fosse a carne moída, ainda pediria uma cervejinha, de preferência uma Original ou Serramalte, só que nesta ocasião eu teria de escolher alguém para dividir o momento, pois assim como parte do prazer de fumar está em manusear o cigarro (que fique claro que eu não fumo, mas já estudei bastante sobre o assunto), acender o isqueiro, e ver-se baforando a fumaça, parte do prazer de tomar uma gelada (sim, eu bebo; sem mais detalhes) está nela ser de garrafa, de deitar o copo para que não faça espuma enquanto a despeja (caso não seja uma longneck e você beba no bico) fazer um brinde a uma coisa qualquer (e aí que entra a companhia), e sentir a sensação única dela descendo pela garganta no(s) primeiro(s) gole(s).
Agora imagine-se tomando sua última cerveja.

Entretanto, há uma situação oposta a essas sobre as quais conversamos até agora. A de você saber que alguém vai passar dessa pra melhor. É “muito mais fácil” (e aqui essas aspas vão muito bem), saber que alguém de quem você gosta vai morrer, nem que seja daqui a pouco, do que se isso acontecer de supetão. Pois assim você terá o direito de se redimir, de quitar as diferenças, de dizer o quanto gosta da pessoa, entre todas as outras coisas que te deixará com a consciência em paz quando ela se for. Diferente dessas tragédias que acontecem por aí. Um bêbado atravessa a estrada, pega a contra-mão e mata alguém que você conhece, e que você por algum motivo tolo brigou da última vez que viu, e por isso vai ficar um bom tempo com dor na consciência, se perguntando porque ligava para coisas tão pequenas, e não aproveitava melhor o tempo que tinham juntos.
Não digo que devemos fazer provas de amor toda vez que as pessoas que amamos saem pela porta de casa, imaginando que podem ser atropeladas na próxima esquina. Digo apenas que se nos importássemos menos com detalhes e mesquinharias, fossemos um pouco mais capazes de dizer coisas agradáveis e sermos gentis, estaríamos melhor prevenidos nesses casos de desastre. Utilizando-se desses artifícios, e acrescentando um pouco mais de coragem e ousadia, mesmo quando a situação não for tão favorável, ter sonhos maiores e se permitir tentar alcançá-los, quem sabe se um dia a coisa toda for mesmo acabar assim de repente, não poderemos nos dar o luxo de simplesmente sentar e olhar os cachorros e passarinhos.

5 comentários:

Arthur disse...

Porra. Muito bom texto...
É o tipo de conversa que faz a pessoa sentar e pensar um pouquinho no que vai fazer da vida...
Em alguns textos que escrevo evidencio o tema "simplicidade".. Talvez seja algo que nos falta e precisamos desabafar com os papéis.. Não que seja uma imposição para os outros, mas o simples fato de se deixar tocar pelo assunto já nos faz pessoas melhores.
Pensem nisso.
abraço, Pedro!

Manoela disse...

Gostei. Muito! =)

camilinha disse...

Que lindo! Sempre penso nisso, e concordo!! Só não concordei com a ultima refeição haha ;)

andré disse...

hahahahhahaha
achei o começo muito descontraído, hehehehe, exaltamento do esquenta, hahahaha, já o restante me lembra boas conversas reflexivas entre amigos, mandou bem
abraço mano

Guigo disse...

Massa o texto Pedrão! Boto fé! hehe

Ps. Bebo, sem mais detalhes também.

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.