sábado, 3 de julho de 2010

Novos Horizontes

Engraçado a quantidade de pessoas naturais de diferentes estados brasileiros que reclama para si a característica de não ter sotaque. Claro que isso não vale para cariocas, gaúchos ou a turma do nordeste em geral, mas bastante gente realmente acha que o povo ao qual pertence possui uma cadência “neutra” quando fala.
Semana passada conversei sobre isso em duas situações diferentes: a primeira, tomando chop de vinho junto a um casal de amigos brasilienses e a segunda almoçando no restaurante universitário, num domingo após a missa, com um colega capixaba, e nas duas oportunidades, as pessoas não tinham a mínima dúvida de que não possuíam sotaque algum e usaram a mesma comparação: “Sabe o William Bonner apresentando o Jornal Nacional? É assim que a gente fala”.
“Claro, claro” foi minha resposta, pensando intimamente, como bom paulistano que sou, que definitivamente quem não tem sotaque somos nós. E convicto de que, se bobeasse, o William Bonner tivesse sido criado aqui pela vizinhança.

À parte o sotaque, é interessante também como carregamos pré-conceitos sobre o povo de determinada região, que muitas vezes não confere com a realidade quando de fato conhecemos as pessoas daquela localidade. Nem todo carioca é malandro ou todo baiano é preguiçoso. Nem todo gaúcho tem tendências homossexuais assim como nem todo mineiro só vive de pão de queijo. Isso parece óbvio, mas é inegável que se somos apresentados a um novo colega de trabalho carioca, antes de conhece-lo bem, achamos que ele vai nos passar a perna, se ele for baiano, melhor não pedir favores senão vai demorar uma eternidade para serem feitos; quando você voltar do almoço vai ter uma rede estendida no meio do escritório e, se for gaúcho, ficará com um pé atrás se ele te convidar para tomar uma cervejinha depois do expediente.
Há menos de uma semana fui com alguns amigos num barzinho lá em Floripa e acabamos conhecendo umas moças que estavam na mesa ao lado. Comecei conversando com uma carioca, que afirmava que os paulistas são convencidos e superficiais. “Só olham a casca (“caixxxca”)”, dizia ela. Passamos uns bons minutos conversando, perguntei o que fazia da vida (resposta: “sucesso”), o que estava fazendo em Floripa e sobre o vida cultural do Rio. Perguntei sobre a boemia da Lapa, shows no Circo Voador, Fundição Progresso, sobre a Vila Isabel (gosto muito de Noel Rosa), entre outros. O papo fluía bem, até quando apresentei um amigo goiano, o que causou um grande abalo nos rumos da noite.
“Goiânia? Sério? Olha amigas, ele é de goiânia! Adoro sua terra, o povo de lá, só tem gente boa, mulher bonita...”. Meia duzia de palavras, uma música sertaneja bem dançada e a fatura já havia sido feita. Fiquei refletindo sobre aquele papinho todo de “olhar somente a casca”, resolvi pedir mais um chopinho e me prometi que da próxima vez jurarei que sou de Goiás.

Acho bonito o sentimento que cada um tem por sua terra. Alguns se excedem e acham que só o lugar onde nasceu é que presta. Isso por vezes gera grandes discussões. Todo radicalismo tende a ser um pé no saco, e como disse um conhecido meu certa vez, nunca vale a pena discutir com um chato radicalista: você acaba caindo no mesmo nível mas ele sempre ganha a discussão porque tem experiência.
Mas no geral, as pessoas falam com um orgulho ingênuo sobre suas raízes. Estudando com uma turma na qual há pessoas de vários cantos do país, estou ciente de que tenho muito a conhecer. Alguns lugares nem é preciso conviver com alguém que lhe diga que lá é bacana de se visitar. Costumo dizer que depois de ler Jorge Amado e escutar Dorival Caymmi tenho receio de ir a Bahia e não querer voltar nunca mais. Fernando de Noronha é Hors Concours e Bonito todo mundo que foi também sempre coloca no top 3.
Até hoje não conheci muitos dos clássicos pontos turísticos do país, mas tenho a sorte de ter bons amigos, que me fizeram conhecer lugares talvez tão legais quantos estes clássicos, tanto que estou idealizando uma futura empreitada literária, que será batizada de: “Rumos do Fumaça: Um guia turístico para quem gosta de vassourar”, (aos desavisados, Fumaça é meu apelido na faculdade, e traduzindo: “vassourar” = aproveitar a vida de forma louca e inconsequente), onde serão dadas dicas de como aproveitar bem sua visita à Festa do Pinhão em Lages, Balneário Gaivota no sul catarinense, micro-cidades do noroeste paranaense, a rota do xadrez mineiro, entre outros.
Enquanto isso não acontece, me permito emprestar uma frase de um grande viajante que, por ora, possui coisas mais interessantes a dizer a respeito de alguns assuntos sobre os quais resolvi discorrer por aqui.

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”(Amyr Klink)

8 comentários:

Arthur disse...

Bem. Eu estava no momento em que o goiano entrou. Hahahahaha

Porra! Ri mesmo! Muito bom e divertido este texto, Pedrão!

"Só os pés podem tocar aquele caminho tão sonhado! Pise e abuse!"

abraço, Moinnxxxtro!

camilinha disse...

E sabe que eu vou ser uma das primeiras a comprar a tua obra né? haha

Manuela disse...

É, com certeza vai ser um guia muito interessante!!

Beijo

Manoela disse...

Que sutileza pra definir "vassourar" uahuahauaha
Mto bom Pê... mas dizer que paulistano não tem sotaque... Hehehhe

Arthur Rotta disse...

Estereótipos... Qual o da paulista?

Arthur Rotta disse...

é, vai ao encontro. Me passou despercebido o comentário da carioca... Ela tem razão, em geral as pessoas pensam isso dos paulistas.

Além disso, tenho a impressão de que o pessoal da parte setentrional do país vejam os paulistas e os sulistas como preconceituosos, conservadores e "frios" se é que me entende. E olha, acho que pelo menos quanto a isso, eles tem um pouco de razão quanto a boa parte do povo que habita esse lado do país.

Anônimo disse...

Com certeza paulistano não tem sotaque! ;) rsrs

Parabéns pelo texto Pedro, excelente!!!

bjãooo Li

Anônimo disse...

paulistano não tem sotaque... nossa fala é o português na sua essência...
lindo..
;D

hehehe


;**
Maia

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.