domingo, 19 de setembro de 2010

Pequena pausa cotidiana para as eternas reflexões

Acabo de receber o motorista Hudson, que veio pegar um rim direito para levar ao aeroporto, de onde o órgão seguirá para Chapecó, onde será transplantando. À minha frente está meu notebook, onde escrevo, e através do qual agora toca The Beatles. À minha esquerda um bloco de páginas xerocadas do caderno de otorrino de uma colega de sala, devido a eminência da prova desta matéria; do lado esquerdo o “Guia do viajante independente pela Europa”, aberto no mapa de Londres e, um pouco além, um papel com o telefone de mais de trinta hospitais de Santa Catarina, aos quais há pouco telefonei indagando sobre novas suspeitas de morte encefálica. Estou, portanto, num dia típico do meu estágio na central de transplantes.
Um pouco além, noutra mesa, uma das enfermeiras que trabalha aqui na divisão técnica monta uma documentação relativa a uma doação de córneas, enquanto me lembro que estou perdendo uma festa universitária por conta deste plantão de 24h. A esta hora (22h30) está boa parte de meus amigos fazendo o esquenta para a festa (que será open bar, fato que não justificaria em absoluto a suspensão do tradicionalíssimo ritual que antecede todas as festas), enquanto paro e reparo na figura da enfermeira que encontra-se a poucos metros de mim.
Loira, algo entre 1,65 e 1,70, ligeiramente gordinha, calculo estar chegando nos 40, solteira, sem filhos. Não se trata do que vocês estão pensando. Juro. Estou apenas imaginando se era algo parecido com montar documentação relativa a doação de córneas numa sexta-feira a noite o que ela imaginava estar fazendo ao atingir os 40 anos, quando tinha a minha idade. Não que isso seja muito ruim, claro que não, mas é que agora ouvindo o George Harrison solando em “Till There was you”, um dos primeiros solos que aprendi quando comecei a tocar violão, fico me imaginando tocando junto ao meu filho (que também quererá tocar violão e gostará de Beatles) numa sexta-feira a noite quando tiver por volta dos 40.
Não sei se minha companheira de plantão é solteira e não tem filhos por opção. Outra enfermeira aqui da central está para ganhar seu primeiro filho, aos 32 anos, solteira. Enfim, o fato é que elas estão me levando a refletir sobre nossos desejos e frustrações. Eu por mim mesmo já sou um pensador nato, cheio de indagações e questionamentos. Andei acessando textos que escrevi há cerca de cinco anos e me deparei com os mesmos tipo de reflexão que tenho até hoje. Mesmo tendo mudado de cidade, estar há mais de três anos na faculdade e neste período ter conhecido dezenas de novas pessoas com uma rica pluralidade de opiniões, a única coisa que acontece é a adição de novas perguntas sem que as antigas sejam respondidas. Quanto mais se raciocina, mais longe parece ficar a solução. Não à toa inventaram a dialética.
Se tudo acontecesse conforme eu gostaria, quando eu tiver o dobro da minha idade, num domingo ensolarado como promete ser depois de amanhã, eu levaria meu(s) filho(s) à Arena Parque Antártica assistir o verdão. Veria-os ensaiar os primeiros acordes no violão quando chegasse exausto do trabalho no meio da semana, tocaria junto com eles uma outra dos Beatles, fazendo parcerias a la Lennon e McCartney, e planejaria viagens inesquecíveis ao lado da mulher com quem decidira passar o resto dos meus dias.
Bonito, não? Guardados os gostos pessoais, seus planos são parecidos? Entretanto, olhe ao seu redor e veja o saco de frustrações que é a vida. Pode ser que tudo dê certo, e nos manteremos sempre otimistas. Mas parece ser necessário iludir-se periodicamente para que possamos aguentar a ideia de que grande parte daquilo que planejávamos não aconteceu; convencendo-se de que há coisas tão ou mais interessantes de se viver, e que você só se deu conta delas através da oportunidade gerada pela negação dos sonhos não realizados. No meio disso tudo confundem-se resilientes e conformistas, e não há muito como escapar. É estatístico.
Olho para a pilha de xerox e lembro que independente dos meus futuros rebentos, hoje preciso aprender a reconhecer e tratar uma otite, enquanto o aparelho de fax apita a chegada de mais uma notificação de doação de córnea e cresce minha inveja de não estar curtindo a festa com meus amigos. Ainda assim, o Ringo entoando “With a little help from my friends” me lembra que embora ainda não conheça a mulher com quem decidirei viver o resto dos meus dias (assim imagino), em breve farei uma viagem que sem dúvidas será inesquecível. Voltemos ao mapa de Londres...

8 comentários:

Manoela disse...

Gostei! E fazia tempo mesmo que vc tinha abandonado o blog!
Tem umas coisas bem legais nesse texto!Me fizeram refletir tb...
Beijinhos, Pe!

Guigo disse...

Grande Pedro que é o Bial, mas é um poeta!!! hahahah
Reflexões sobre a vida... doação de órgãos... viagens... dai eu me pergunto: Drauzio Varella da ufsc? hehehhe
Abraço Pedrão

Ps. Lendário 542 agora com PFC!!!

Guigo disse...

Errata no comentário..: uahuahuah
Leia-se: Grande Pedro que não é o Bial, mas é um poeta!!!

camilinha disse...

haiahui O guigo tá certo, é um poeta mesmo!
Lindo o texto..
E concordo, quanto mais o tempo passa, menos eu resolvo meus conflitos e mais dúvidas me surgem!
Beijoss.

wesley disse...

Pedrão agora você foi com tanta complexidade ou melhor prolixidade...(risos) gostei de ver melhor de ler. grande abraço

Ronaldo disse...

E iremos juntos na Arena Paletra acompanhar mais um titulo do verdao! heheheh

abraço

disse...

esses dias eu fui ver um blog que eu tinha há 7 anos...aliás, sempre invento blog porque é legal ver como seus valores mudam com o tempo e desde nova achava diário muito coisa de mulherzinha =D
enfim...
tinha lá no perfil do meu blog, como sonho, fazer facul de medicina em floripa...achei engraçado, uma vez que eu sequer conhecia floripa na época.
não tem como saber se o que planejamos vai dar certo, mas só tendo algum objetivo pra ao menos tentar chegar lá, né?!

com 40 anos vou estar casada, feliz,morando perto da minha família e com 3 filhos! a parte do futebol eu dispenso, haha!

pedro, sempre muito fã dos teus textos! é um dom que admiro e invejo muito.
Um beijo!

Aparício Neto disse...

Pedro:

Velho, obrigado pela visita no meu blog! Te respondi lá, e passei aqui pra conhecer o teu trabalho.
Parabéns então, ótimos textos, muito bem escritos. Ganhaste um fã.
Grande abraço, aparece sempre!!!

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.