quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Tio Giba

Espaaaalmaa Zéééttiii!!!
O ano devia ser 93 ou 94. O palco do jogo, um estreito corredor de um sobradinho no subúrbio paulistano, o Zetti na verdade era eu, com algo entre 6 e 7 anos, me estropiando no chão de concreto a cada ponte que dava para alcançar as cobranças de faltas batidas por meu Tio Gilberto, que interpretava Evair, Zinho, Rivaldo, Roberto Carlos e ao mesmo tempo atacava de Luciano do Valle na narração.
O tio Giba é o ser humano mais apaixonado por futebol que já conheci. Mais por obra dele e de minha tia Déa do que de meu pai que hoje torço pelo verdão. Há fotos de quando eu era bebê, no carrinho, vestindo camisas verde e brancas maiores que meu corpo inteiro, “coisa do seu tio Giba”.
A casa do Tio Giba é toda decorada com objetos do palmeiras, na cozinha canecas com o símbolo desenhado, adesivos na janela, na sala, pôsteres enquadrados com as formações campeãs dos títulos brasileiros da década de 90, campeonato paulista, libertadores. Há ainda uma ou outra caravelinha espalhada pela casa, aludindo ao fato de que, como cedo me ensinara tio Giba, Palmeiras e Vasco da Gama são torcidas irmãs.
Tio Giba respirava futebol. Quando presente nas festinhas da família, mobilizava grande parte dos parentes (que entendiam pouco ou quase nada de futebol) em análises complicadíssimas sobre formações táticas, características individuais de cada jogador, rememorava com vivos detalhes atuações antológicas de determinado craque, escalava times vencedores. Longe de ser chato, Tio Giba no último natal escalou o time do palmeiras completo que perdeu para o Inter de Limeira a final do campeonato Paulista de 1984. A família toda se entristeceu com a derrota.
Conta meu pai que houve um tempo em que tio Giba e Tia Déa percorriam o estado todo atrás dos jogos do verdão, tradição esta que hoje é mantida por seus filhos e netos. Segundo a tia Dea, o Juninho foi até Uberaba dia desses só pra assistir a um jogo.
Tio Giba além de torcedor fanático era também tapeceiro. Por ocasião da construção de um novo quarto na casa onde eu morava, lá nesses idos de início da década de 90, entre uma ou outra grande defesa de Zetti, lembro-me dele dizendo “Pedrinho, vou fazer uma poltrona de estofado verde pra você por no seu quarto novo”. Achei aquilo o máximo, na minha cabeça de menino, uma poltrona devia ser algo imponente. E ainda verde! Todos saberiam que eu era um torcedor do palmeiras muito respeitável.
Por muitos domingos eu esperei no portão de casa o Chevette cor de creme do Tio Giba e da Tia Déa trazendo a notícia de que a poltrona havia ficado pronta, coisa que nunca aconteceu, e eu fui esquecendo aos poucos. Aos poucos também foram rareando as visitas do Tio Giba à nossa casa. Tia Déa, que jamais deixou de nos visitar, comentava que Tio Giba tornara-se uma pessoa cada vez mais reclusa, mal saia de casa. Assim mesmo, nas festas de final de ano, ocasião quase exclusiva em que o via, ele me parecia sempre o mesmo, falando de futebol, sua risada divertida, fala mansa, barba por fazer.

Mudei-me para Florianópolis há mais de três anos e desde então acho que vi o Tio Giba duas vezes (uma delas no natal que ele contou da final do campeonato de 1984). Falo com meus pais quase todos os dias pelo telefone, e há cerca de um mês, lembro-me de minha mãe comentando que a Tia Déa disse que o Tio Giba andava com hábitos estranhos, que outro dia havia acordado no meio da madrugada e começou a trocar as gavetas do guarda-roupa no escuro.
Poucos dias depois ligo lá pra casa e dizem que o Tio Giba havia caído sei lá onde, batido a cabeça e levado ao hospital. Lá acabaram por detectar um tumor no SNC. Daí pra frente as informações começaram a ficar desencontradas, até porque é difícil mesmo as pessoas entenderem o que se passa, e muitas vezes se negam a enxergar a gravidade da situação. A única coisa que eu sabia é que os médicos diziam ser inoperável.
Por ocasião do último feriado, voltei para São Paulo, e ainda planejando com meu pai a programação para aqueles dias, ele perguntou “e o que você acha de ver o Tio Giba?”. Na terça-feira pela manhã, eu meu pai vestimos camisas do palmeiras (tinha certeza que o tio ia se alegrar) e fomos visitá-lo. Chegando lá, vi o tio deitado na cama, com uma sonda no nariz, emagrecido, muito emagrecido, olhos abertos fixos no teto, trajando uma camisa do Palmeiras e uma calça do Vasco.
Não tive coragem de chegar e perguntar “Tudo bem?”. A resposta seria “Tudo bem”, porque invariavelmente as pessoas respondem isso em qualquer situação. “E aí tio, como é que tá o Palmeiras?”, foi como decidi começar. Ele levantou o polegar num sinal de “jóia”, e bem lentamente foi virando a mão para baixo, abriu um sorriso e disse “vai mal, Pedrinho”. Falei mais algumas coisas, e então meu pai começou a falar, oportunidade que tive para perguntar para a Tia Dea qual era de fato a situação.
Ela me levou para outro quarto, me deu alguns exames para ver, e enquanto eu lia o laudo “Astrocitoma, comprometendo os lobos temporal, frontal, occipital, etc, etc” foi me dizendo que os médicos disseram que não iam operar, pois a sobrevida seria de menos de um ano, e em estado vegetativo, e só com a quimioterapia a sobrevida seria de cinco meses. Eu conseguia sentir em mim o nó na garganta dela, pensei em abraçá-la, mas foi quando ouvi: “Pedrinho, Pedrinho”. Era meu tio me chamando.
Voltei para o outro quarto. Quando me viu, ele estendeu a mão esquerda no ar, segurei-a e ele levou até junto a sua face, beijou-a e com os olhos marejados disse “Pedrinho, Pedrinho, gosto tanto desse menino!”. Eu não sabia muito bem o que fazer, apenas disse “Tio, também gosto muito do senhor” e retribuí-lhe o beijo na mão.
Depois de curto silêncio meu pai falou que tínhamos de ir embora, pois em breve eu pegaria vôo de volta para Florianópolis. Disse ainda “Giba, fica tranqüilo que já já você vai sarar”, beijou-lhe a testa e fez sinal para irmos embora. Descíamos os três as escadas quando ainda ouvimos o Tio Giba dizer “Manda um beijo para a Isadora” (minha irmã).
Foi a última vez que vi meu tio. Ontem a noite meus pais telefonaram dizendo que ele havia falecido. Meu pai, sujeito de rara sensibilidade fizera questão (apesar de não ter transparecido) que eu visse meu tio aquele dia, pois imaginava que pudesse de fato ser a última. A Sociedade Esportiva Palmeiras perdeu um grande torcedor, o maior que conheci, e eu, um tio querido, do qual só tenho boas lembranças. Quando quiser me lembrar dele, vai ser com carinho e saudade que me virão em mente o Chevette cor de creme chegando no domingo, ou sua voz inconfundível gritando “Zéééttiii”.

3 comentários:

julian disse...

Belo!
Realmente tocante!
E nesses momentos de reflexões, qnd a morte nos atinge, que damos mais valor pras pessoas importantes de nossas vidas. Dolorido? Com certeza, mas gostaria de ter a chance de dar o último beijo consciente em todos que eu amo.
Boas lembranças, boas marcas, tive um momento fã do Tio Giba com a leitura.

PS. comento essa homenagem vendo o verdão jogar, ganhou um torcedor pra essa noite..haha

Arthur disse...

grande palestra italia!
não foi um torcedor a menos..
foi um q entrou pra história! =D

mas o vasco??! po! eu como bom flamenguista... =/

abraço, pedro!

Arthur Pompilio Astrogildo da Silva disse...

Acredito mesmo a gente tem que repensar em como reagir, em como encarar situações... rerrerreavaliar como a gente diagnostica as coisas. Mas por vezes o silencio é a melhor coisa a se fazer... pensar em paz interior...

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.