sábado, 4 de agosto de 2012

De plantão na escrita (sexta-noturno/ 3º horário)


(Antes de tudo: parabéns, minha amiga Camilinha, aproveite muito seu dia)

Acabei de chegar da festa Junina (força de expressão) da 07.2, minha turma de medicina que está há menos de um ano da formatura. Pra ser mais exato, acabei de chegar do HU, depois do March e Guigo terem suturado a perna do Thiagão, que num golpe de azar e desatenção canelou um certo desnível lá na ACM.
Não sei o porquê dessa necessidade de escrever, mas agora tenho sentimentos muito bons, e compartilhá-los não vai fazer mal a mim nem a ninguém.
 Hoje me emocionei ao ouvir dois grandes amigos e grandes seres humanos, Ricardo (Repolho) e Ronaldo, levantando a hipótese de serem médicos de família. São, acima de tudo, caras de uma inteligência ímpar, e pessoas de um caráter irretocável, que não precisam provar nada pra ninguém, e que me fizeram ganhar a noite pela simples possibilidade de investirem numa causa que eu há algum tempo aprendi a acreditar: a Medicina de Família e Comunidade.
Sinto-me bem por estar em casa e não estar muito bêbado depois de uma festa. Sinto-me bem pelos abraços e palavras sinceras que troquei hoje. Sinto-me bem por saber que serão poucas as pessoas que lerão esse texto; não pelo número em si, mas por saber que as que ainda acessam este espaço são as que saberão entender um pouco melhor as coisas que escrevo e suas razões de ser.
Hoje fechei de fazer dois plantões no feriado de novembro em troca de uma grana que me possibilitará pagar três meses de prestação da Kombi que a galera da Rep (Real República Tcheca) tá comprando (alias, ideia de quem? Né não, Julio!), e eu to fazendo questão de ajudar. Só fico imaginando as festas e viagens com ela, pô...vai ser "Stronda"!
Toda vez que saio pra festa lembro-me da galera da Rep, não tem jeito. Fico uns dias sem ver e sinto saudade como se fosse da minha família, que, alias, nesses dias ando sentindo bastante falta. O Pingo tá doente, a Vó Teresa morreu...as vezes o telefone não é suficiente.
 Por falar nisso, esses dias tentei ligar pro Kendi, pra ver se ele anda acompanhando o Palmeiras, e não consegui. Ê muleque que faz falta...do mesmo jeito que o Mestre, o Castor e o Mek, que faz tempo que não vejo. Do Gui não preciso falar, é hours concours.
 De qualquer jeito, não deixo de aparecer na rep, afinal, naquele lugar não tem bode nem tristeza. Não a toa que eu e o Fer ficamos até as 6h da manhã no meio da semana tomando cerveja (será essa a hora de parar, Vitor? Hehe) e ouvindo samba, falando de Tarantino a Chico, na companhia do Whisky, que ridiculamente quis dormir as 3h40.
É, o Joãozinho vai mesmo vir morar comigo e com o André, que noticia boa! Por essa e por outras fico pensando o tempo todo que tenho muita sorte. Mas não posso jogar a responsabilidade para o acaso. Tudo na vida tem uma causa, às vezes o que acontece é que a gente não consegue enxergá-la. E ainda perdemos a chance de tentar aprender com nossos acertos, dizendo que foi tudo uma casualidade. É, ou não é, Marcus?
Acho que tenho estado na hora certa e no lugar certo. Isso inclui estar sentado escrevendo às 4h da manhã, estar amanhã no plantão da cirúrgica, correndo com o Chami ou o Cauê no domingo a tarde, ou, como disse o Ronaldo hoje, imaginando estarmos nós todos, incluindo ele, eu, Repolho e o grande mestre Paulo Poli, lutando por um mesmo ideal. 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Para Vó Teresa


- Oi, Dô! (forma como minha irmã, e parte da minha família por parte materna me chama) Quem diria que a vó ia te ver dirigindo!  - Foi o que disse minha avó a primeira vez que fui buscá-la em sua casa pra almoçar conosco, nalgum domingo de anos atrás.

- Quem sabe a vó não vê sua formatura! - Era o que ela dizia desde então, como se a vida na velhice fosse uma questão de resistir ao tempo para poder presenciar as conquistas dos entes queridos.

Vó Teresa quase não tinha estudo, trabalhou num frigorífico, onde recusou a promoção ao cargo de balancista, pois tinha medo de não conseguir anotar corretamente os números que a balança mostrava quando pesavam as carnes. Isso não a impediu de ser uma boa esposa, boa mãe, boa avó.
Hoje partiu sem conseguir ver minha formatura. Já estava bastante frágil, e com certeza, esteja onde estiver, está tranquila. Deixou uma família fantástica, que tem muito orgulho dela.

Em sua homenagem, recupero uma crônica que escrevi certa vez que fui visitá-la; uma das boas lembranças que deixou:

Para ela, que sempre gostava de falar em terceira pessoa, dizia sempre “A vó te ama!”, digo agora: “Vó, o Dô te ama! Obrigado por tudo”

terça-feira, 3 de julho de 2012

Pequeno adendo futebolístico


(A intenção dos comentários deste texto, não é de ofender ninguém, bem como qualquer conteúdo do blog. Caso alguém assim se sinta, dê sua opinião e o conteúdo será revisado)

Ainda não foi decidido, nem de forma aristocrática e muito menos por maioria de votos, se o futebol faz parte das coisas regidas pela lógica e probabilidade ou das regidas pelo cosmos e entidades sobrenaturais. Como tudo no universo, e os clubes futebolísticos nele inseridos, parece, por diversos fatores, e principalmente boas e más gestões de diretoria e patrocínio, que se trata de ciclos. Ora ganha-se muito, ora ganha-se nada.
Passado este preâmbulo que talvez explique menos que entrevista de centroavante depois de uma furada na pequena área, em semifinal que o time perdeu por 1x0, o fato concreto é que não parece lógico que o Corinthians, um time quase sempre competitivo, tenha demorado tanto tempo para chegar tão perto de ganhar o título da Libertadores. Eu, como palmeirense que se preze, nessas horas não dou a mínima para a lógica, e por mais que um dia “Dê a lógica”, seria bom que isso demorasse mais 102 anos e eu não fosse obrigado a presenciá-la.
 É, de certa maneira, cômica a forma apocalíptica como se encara essa final, como se fosse as Ilhas Faroé se classificando para a Copa, ou um Congolês que só nadou uma vez, (e num açude), em toda vida, conseguindo completar os 200m livre nas olimpíadas. A diferença é que ninguém, salvo os próprios corinthianos, aplaudirá. Mérito (?) dos “maloqueiros e sofredores, graças a Deus”, que fazem de seu time o maior motivo de aversão nacional, e gostam disso. Mas futebol é assim mesmo, alguém terá de ganhar e rivalidade até certo ponto é saudável.
               
Resolvi puxar o assunto pra dizer que apesar de qualquer coisa, não é certo, como a principio até eu pensei, imaginarmos que uma eventual conquista do arquirrival venha a suprimir o fato de que estamos a beira de ganhar um título nacional depois de mais de uma década. É a pior equipe que chega a uma final desde que sou palmeirense, ou seja, desde que me entendo por gente. Não tem Cesar Sampaio e Roberto Carlos, nem Evair e Edmundo de 93, 94. Não tem Rivaldo, Djalminha, Cafú, Luizão e Muller de 96. Alex, Arce, Junior, Zinho, Paulo Nunes e Oséas de 99, mas estamos aí.
Nenhum de nós, por conta disso, deixou de torcer pelo Palmeiras, apesar de más gestões, contratações sempre duvidosas, resultados vexaminosos, de ser por vezes chamado de Guarani da capital, entre outros. São 12 anos com apenas um paulista, e daí? Vamos deixar tudo pra trás e acreditar mais uma vez que esse será o gatilho para um novo ciclo, de muito mais prestígio, vitórias e títulos. Difícil do jeito que está? De algum jeito tem de começar! Se a galinhada não ganhar, tanto melhor, infinitamente melhor. Mas o dia seguinte é Palmeiras! Se esse ano for, pelos outros, lembrado pelas conquistas alheias, tanto faz. A gente vai ganhar essa Copa do Brasil!
               
E pra entrar no clima da decisão, deixo um link do cara que pra minha geração, foi o maior ídolo de todos e que sirva de espelho para os jogadores que estão aí:
               
http://www.youtube.com/watch?v=hAw_hVzbKOg

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A música e nós


Ontem fui a um concerto na Sala São Paulo e saí querendo escrever um tratado sobre música. Não sobre música em si, por motivos óbvios, mas sobre nossa relação com ela. Contudo, a coisa mais longa que escrevi mal encheria um panfleto e, ao me lembrar disso, tratei de usar meu “poder” de síntese e tentar comunicar meus arroubos epifânicos em uma ou duas páginas, na qualidade atual de cronista amador.

É impensável um mundo sem música. Eu, e tenho certeza que muita gente, já acorda com alguma música na cabeça. Uma das grandes vantagens da modernidade é que dá para apenas virar para o lado e, em uma dúzia de teclas e cliques, ouvir qualquer versão que você quiser daquela música na mesma hora.
E ficamos ruminando músicas o dia todo. Somos cercados de sons, que quando entram em concordância, são reconhecidos instintivamente e de imediato como entidade imprescindível e parte integrante de nós mesmos. Claro que dependendo das experiências auditivas e vivências que a pessoa teve durante sua existência, a interpretação de “sons concordantes” pode variar muito. Apesar disso, acredito que, quando uma pessoa está com sua atenção voltada para determinado estímulo, no caso sonoro (ou seja, está plenamente consciente, sem pensar na morte da bezerra ou no que vai fazer se ganhar na mega-sena) quando a harmonia é atingida, ela é intuitivamente percebida. Não precisa de nenhum conhecimento prévio para isso.
               
  Ontem isso ficou bem claro pra mim. Meu conhecimento sobre música erudita é bem limitado, mas com atenção, e certamente por mérito dos músicos, do regente e do idealizador do concerto, aquilo me dava a impressão de poder se passar tranquilamente por popular. Era a sabedoria buscando naturalmente a harmonia, a arte dando o exemplo nítido de que o bom e o belo se tornam justos por conceito, e dando por fim uma sensação de paz, que é a razão última, direta ou indireta, de qualquer atitude do ser humano.
Paz esta que pode ser alcançada pela música de outras formas. A sensação não foi muito diferente de fazer parte do maior karaokê humano de que já participei, entoando Na na na na, hey Jude! Debaixo de um temporal, durante 7 minutos, que poderiam durar 70, no final do show do Paul McCartney. Ou cantar de cabo a rabo todas as músicas de Los Hermanos na companhia de grandes amigos na turnê que fizeram pelo Brasil. Ou ainda ouvir João Gilberto cantando baixinho, embalando o sono santo de vários dias; um reggae na república, ou num luau na praia.

A música exerce tanta influência em nossa vida, que os comerciantes, sabidos que só eles, criaram em certas lojas um sensor na etiqueta das roupas, que quando você vai prová-las, é lido e começa, no provador, a tocar músicas que estimulem a compra. Por exemplo: você vai provar uma bermuda de praia e quando entra no provador, começa a tocar uma música do Jack Johnson.
 Não é a toa que elegemos músicas de nossas vidas, músicas de namoro, da época de faculdade, que nos fazem lembrar momentos, pessoas ou lugares. O mais interessante é que todos podemos não só apreciar como também fazer música. Alguns talvez não desenvolvam habilidades técnicas para tocar algum instrumento, (o que no fundo é só uma questão de vontade e muito treino) mas todos tem um potencial latente e único: a voz, que é definitivamente o instrumento musical mais incrível que existe, talvez por ser o único não criado pelo homem.  É só compreender o que cabe a cada um. Não poderia a Fernanda Takai cantar as músicas da Janes Joplin, ou o Zé Ramalho ser vocalista dos Bee Gees, mas todos são igualmente eficientes, e agradáveis por reconhecerem seus potenciais
                
As experiências vividas são ditas únicas e intransferíveis, com toda a razão. No entanto, com um pouco de esforço, há de se transmitir um pouco das sensações e aprendizados dos grandes e singelos momentos, não para que aprendamos com erros e acertos alheios, mas para ficarmos mais vigilantes quando circunstâncias similares nos aparecerem à frente. A atenção é de certa forma uma virtude, que quando empregada da maneira correta pode nos fazer entender muito mais sobre música e nós mesmos.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Crônica n. 50


Esta é uma crônica que tem tudo pra dar errado, fadada a ser uma grande porcaria. Já começou mal, com um título pretensiosamente grandioso, o que já furta a gênese do propósito das crônicas. E quando ganha peso (pô, Pedrão, 50 crônicas?! Agora vai, hein!) não presta, porque ela é conceitualmente leve, mesmo que trate de assunto sério.
 Oras, pra que mesmo serve uma crônica? Por que, raios, deveríamos ler uma crônica? Ou pra que alguém se submete a escrever um troço desses? Porque será que ela fica relegada à última página dos cadernos dos periódicos, ou perdida em meio a uma notícia sobre a excursão das baleias francas ao litoral brasileiro e uma propaganda das Casas Bahia? Uma crônica, apesar de geralmente se referir a um fato concreto, notícia por natureza, nunca terá seu conteúdo revelado na manchete do jornal.
Mas elas devem ser respeitadas, e faço desta crônica em particular, uma metalinguagem propagandista, como um samba de Vinícius, ou um poema de Drummond (no propósito, não na qualidade, evidentemente); defendo o gênero com unhas e dentes, e que sejam eles o bom-humor e a reta palavra.
                
O cerne é narrar um fato cotidiano, e embutir nele algum senso crítico, uma reflexão, ou uma sacada humorística qualquer, que nos aproxime uns aos outros e nos lembre de que apesar de estarmos vivendo cada um seu contexto, sua história, somos pessoas muito similares. Que esteja a zona do Euro em crise, a Antártida derretendo, outra Galáxia sendo descoberta, ou o Neymar jogando bem (ou mal), há muita coisa acontecendo conosco e em nossa volta, que só se tornam pequenas porque nos induzem a pensar assim. 
As redes sociais deram um jeito de que conseguíssemos uma auto-elevação ao “status” de notícia, mas isso já é outra história, não digo nem que é bom nem ruim. Tudo (ou quase tudo) tem seus dois lados.
Contudo, isso não é só obra da não-ficção, noticias, reportagens e afins. A ficção também tem lá sua culpa. Os heróis que as histórias nos contam são sempre produto de um desastre de laboratório, ingestão de um produto químico, irradiação, cruzamento de humano com alienígena ou coisa que o valha. E com seus super-poderes salvam o planeta, ou pelo menos os Estados Unidos. Qual o estímulo que temos para valorizar nossas histórias, e contá-las? Passamos nós mesmos por nossos desafios diários, trapalhadas na festa da firma, términos de namoros, pisamos na merda indo para um batizado, presenciamos a morte de alguém, choramos, rimos, relevamos, seguimos vivendo, sentindo múltiplas emoções desencontradas e, apesar disso, somos levados a acreditar que isso tudo é muito banal.
               
A crônica existe para nos divertir, ao passo que, por vezes, nos induz a uma ou outra reflexão de maneira leve, não enfiada goela abaixo. Não vai falar nunca sobre um assunto qualquer que não nos parece dizer respeito, sobre as quais não temos poder de ação. Vai sempre nos puxar de canto, seja lá onde nossa cabeça estiver enfiada, lá nas nuvens, debaixo da terra, num passado remoto, ou, como na maioria das vezes, em assuntos que não dependem da gente, e dizer: “Olha que coisa curiosa que aconteceu comigo ontem! Com você também já ocorreu? Será que todo mundo é assim? Ah! A gente não presta mesmo...”
               
  E que não falte assunto para as próximas 50!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Achados e perdidos


Senhor, desculpe o mau-jeito, vim correndo da chuva, já de saída perdi a hora, bem como o guarda-chuva, como pode perceber, mas nem é isso que vim procurar. Trouxe uma lista aqui, porque ando também perdendo a memória. Sei que não vai estar tudo aí, mas tem muita coisa que eu perdi, e não lembro onde, como ou quando, mas tenho que começar a procurar por algum lugar.
 Perdi tanta coisa pelo caminho... Onde é que está a lista? Até os cabelos, veja só! Acho que de tudo, só não perdi mesmo o juízo. Mas não sei se isso é bom.
 Devo ter deixado a lista em algum lugar. Perdi, hehe! Mas veja aí, por favor, não tem o meu sonho de juventude? Aposto que alguém o levou por engano, eles são todos tão parecidos, não é mesmo?

E aqueles dois ou três amores que tive na vida? Será que não foi aqui? Faz tanto tempo, me distraí com o trabalho, acabei perdendo também. Ah, mas aposto que aquelas chances de dizer às pessoas que amo o quanto elas foram importantes pra mim, essas não tem como não estarem por aí, pelo menos uma ou outra. Dá uma procurada melhor, deixa eu entrar aí que eu conheço bem como é.
 Não, meu senhor, relógio eu perdi também, mas isso a gente compra em qualquer esquina. Quero saber das coisas que não voltam, dessa categoria, será que não tem nada aí? Puxa, mas a minha lista era tão grande, revisei ela tantas vezes que perdi a conta.

Olha, o senhor não tá facilitando pro meu lado. Tem um monte de coisa aí que eu sei que ninguém vem buscar, nem percebe que perdeu. Eu trouxe aqui um material que talvez interesse pro senhor. Se achar que vale a pena, a gente faz negócio. Veja só, tá sobrando aqui pra mim: arrependimento. Dá pra trocar por alguma coisa? Eu tenho de monte. Vale pelo menos uma chance de passar ridículo? De ficar bêbado com os amigos e pular de roupa na Lagoa da Conceição. Ou de chegar na menina mais bonita da escola e dizer que to apaixonado, roubar um beijo, roubar no truco. Aprender a tocar violão, pedir o divórcio, mandar algum imbecil tomar no cú, mesmo que eu ganhe um olho roxo depois. Algum desses? Nenhum?!
               
 “Não temos nada parecido com chances perdidas”. É isso que o senhor tem a me dizer a essa altura do campeonato? Ora, é melhor o senhor sumir daqui antes que eu perca a cabeça! Vá para o diabo e leve consigo todos esses relógios, celulares, carteiras e chaves perdidas. O que eu quero agora é achar algo que valha a pena. Será que dá tempo? Vou lá pra fora ver o que é que tá tendo.
 Mas e aquele guarda-chuva ali? O preto, semi-automático. Eu tinha um tão parecido... 

sábado, 19 de maio de 2012

Sonhos de uma geração


- Pois é, minha filha! Levou um tombo, quebrou a costela, deu hemorragia...foi terrível! Isso, minha sogra!...
   Eu lia o “Clube da Luta” dentro de um ônibus que subia a Av. Angélica, as 7h15 da manhã, rumo ao meu estágio em geriatria no Hospital das Clínicas, quando percebi uma senhora bonachona narrando em alto e bom som, pelo celular, uma pequena tragédia doméstica que acometera sua sogra.
   Há um segundo atrás Tyler Durden dizia que há uma categoria de homens e mulheres jovens e fortes que querem dar a própria vida por algo. Mas que a propaganda faz essas pessoas irem atrás de carros e roupas de que não precisam. E que gerações tem trabalhado em empregos que odeiam para poder comprar coisas de que realmente não precisam. Que não temos uma grande guerra em nossa geração, ou uma grande depressão, mas na verdade temos, sim, uma grande guerra de espírito. Temos uma grande revolução contra a cultura. E a depressão é a nossa vida.
 Mais um pouco a senhora bonachona trocou de assunto e falava sobre alguma coisa que envolvia “ciclos de amaciante”, e que “por favor, não esqueça de estender as cuecas do meu marido, que ele anda sem, e se esquecer, amanhã não vai ter o que usar”.
               
  Ler no ônibus, ainda mais numa cidade como São Paulo, é a melhor coisa que se tem a fazer. É um paradoxo muito grande estar lendo “Elogio à Loucura”, ou uma biografia do Che Guevara e parar por uns segundos pra reparar nos seus companheiros de coletivo. O que será que essa galera tá pensando. Dá pra viajar legal analisando o cenário.
  Aprendi isso quando fazia cursinho, e subia aquela mesma Av. Angélica, para aprender uma porção de coisas que nos é cobrada para que passemos numa prova e vá aprender outras porções de coisas que nos darão condição de trabalhar em empregos que imaginamos que seja o melhor que podemos fazer. Hoje subo a Av. Angélica para aprender a tratar de velhos, o que, de fato, talvez seja o melhor que possa fazer.
 Olho em volta e vejo uma montoeira de gente de olhar vago, ainda acordando, todos em silêncio, (menos a senhora bonachona, que depois de quase quinze minutos de conversa, se despede da pessoa do outro lado da linha; mas não podemos culpá-la, já que a tarifa é de 25 centavos por ligação), como disse o Tyler, indo trabalhar em funções que detestam, ou não. Simplesmente, “era o que tava tendo”.
               
E nós? Doamos sangue, reciclamos lixo, escrevemos alguma citação bacana no mural do Facebook e achamos que estamos fazendo nossa parte. E no grosso da coisa, continuamos perseguindo os ideais da propaganda. “O meu sonho de consumo (FAIL!) é dirigir uma Lamborghini e ter uma casa em Jurerê, ou em Alphaville”. Como diz o grande Milton Leite: “Que beleeeza”!
Daqui uns anos estaremos as 7h15 da manhã, de cara amarrotada, olhar vago, num coletivo ou numa Lamborghini, pensando, quem sabe, em um dia ir trabalhar de helicóptero. E ter uma casa em Miami. Viver é isso, então?
               
“Advice for the Young at heart: Soon you Will be older. When you gonna make it work?” (Tears for fears, boa banda dos anos 80)

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.