quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Conversas de botas batidas

(Quebrando um pouco o ritmo, antes que venha a crônica do PraiaMed para acabar com a ânsia de meus novos amigos cearenses e de todos aqueles que seguem as minhas presepadas e de nossa trupe, posto hoje um texto de caráter mais reflexivo, que escrevi quando da minha última ida à terrinha)


Quarta-feira passada fui visitar minha avó. Ela mora numa casa de repouso no mesmo bairro de São Paulo onde fica a casa da minha família. Trata-se de um grande imóvel térreo, cheio de velhinhas simpáticas (alguns poucos velhinhos também) e funcionários muito pacientes e bem-intencionados.
A vó Teresa é minha única avó ainda viva. De alguns poucos anos para cá, quando, desde a morte de meu avô, passou a morar sozinha, ela foi ficando gradativamente mais debilitada e dependente, sofrendo quedas mil, esquecendo panelas no fogo e se adoentando com grande facilidade. A única solução possível foi a casa de repouso, pois todos os seus filhos trabalham e não havia a mínima possibilidade de dar toda a atenção e cuidados que uma senhorinha de mais de oitenta anos, nas condições em que se encontrava minha avó, necessitaria.
Pois bem, na tarde de quarta-feira fui visita-la. Quando lá cheguei, passei pela sala de estar/visitas e segui pelo corredor para uma área comum onde estavam muitas velhinhas desenhando e pintando. Ali não encontrei minha avó, no entanto de imediato ouvi sua voz vinda de um lugar próximo e descobri que ela estava no banheiro lavando as mãos; já havia finalizado sua atividade.
Ao sair do banheiro e me ver (de perto, pois ao meu primeiro sinal, quando estava a cerca de dois metros de distância, ela me respondeu com um ''pois não'') ficou felicíssima e fomos nos sentar na sala de visitas, para colocar o papo em dia.
A vó parecia muito bem. Das ultimas vezes que eu a vi, ela parecia bastante cansada, falava muitas abobrinhas, além de ser muito queixosa, demorava para responder, o que parecia demandar um esforço tremendo. Desta vez foi diferente, a vó estava bastante animada, perguntou da faculdade, falou sobre a família toda, que a Fernanda vai ser madrinha do Wagner, que o Cesinha vai casar, falou das amigas da casa, que a Dona Isabel e a Dona Teresinha haviam falecido a pouco, reclamou que suas coisinhas andavam sumindo lá na casa, entre outros eventos de seu cotidiano.
Estava eu estranhando o fato de até então a vó não ter inventado nenhuma história sem pé nem cabeça, que sempre acontecia quando recebia visitas. Uma hora aconteceu.
Depois de ter perguntado quanto tempo faltava para minha formatura, comentou que o prefeito de São Paulo disse numa entrevista que estava faltando emprego para médicos, mas que não havia nada a temer pois quem precisasse arrumaria um ''bico'' na televisão, inclusive me perguntou se eu não havia aparecido no programa ''Namoro na TV''.

Resolvi que seria melhor mudar de assunto e perguntei sobre Dona Neide, uma senhora de pouca idade e super lúcida que também mora lá, mas que nunca recebe visita de seus filhos e familiares. (O que em verdade não é fato isolado e nem raro em instituições como esta). A vó disse que ela estava bem e que deveria estar desenhando, e em menos de meio minuto a Dona Neide em pessoa apareceu e juntou-se a nós.
Vó Teresa – Ô Neide! Olha quem tá aqui! Meu neto, ele mora no interior (moro em Florianópolis). Vai ser médico.
Neide – Ah! Muito prazer (essa foi nossa quinta apresentação, no mínimo)...Nossa, Dona Teresa, eu tava lá pintando as escamas do meu peixe, mas eram muitas, ainda não consegui terminar.
Vó Teresa – Eu vi, a senhora pinta muito bem. Eu fiz lá umas garrancheiras e botei meu nome. Tá bom. Uma casa e uma árvore...parecia um barraco (risos)...Mas e seus filhos não vem hoje?
Neide – Não, hoje é dia de feira. Sabe, meus filhos são feirantes, cada dia num lugar, é difícil para eles me visitarem.
...(silêncio)...(nisso chega uma outra senhorinha e se senta numa poltrona em frente a nós).
Neide – Bom, vou lá terminar as escamas do peixe que eu fiz, são tantas.
Vó Teresa – Ah! Foi um peixe que você fez? Deve ter ficado muito bonito!
Nisso eu e a vó resolvemos dar atenção à senhora que havia a pouco sentado de frente a nós. Ao que parecia, ela também não havia recebido visitas e ficou contente com nossa intervenção. Seu nome era Maria, disse que nascera em Uberaba, no que minha avó comentou ''meu filho ia muito pra lá''. (meu tio morou um tempo em Uberlândia, cidade vizinha). Perguntei-lhe porquê resolveu vir pra São Paulo, e ela respondeu que veio para esquecer seu primeiro namorado.

A partir daí seguiu-se uma narrativa e tanto. Dona Maria contou-nos que quando tinha dezesseis anos namorava um moço pelo qual era apaixonada. Eram muito felizes até que um dia descobriu que o rapaz havia engravidado outra mocinha da cidade, e portanto, era obrigado a casar-se com ela. Contou-nos que foi ao casamento, e que depois da cerimônia foi a única pessoa que permaneceu na igreja, e que ali chorou muito, como nunca fez nem antes, nem depois em toda vida. Passados alguns meses seus patrões mudaram-se para São Paulo e ela pediu para vir junto, pois achava que conseguiria começar nova vida, sem pensar em seu antigo amor.
Engano seu, disse-nos que esquecer o primeiro amor é coisa das mais impossíveis. Chegou a casar-se, teve dois filhos. Tocou a vida, mas sempre com o moço na lembrança. Contou-nos então, que certo dia, há muitos anos, estava ela numa cabine de telefone público, no Bairro do Limão, quando sentiu uma mão tocar-lhe o ombro. Quando virou-se, de pronto reconheceu-o, era seu antigo e primeiro amor. Ele disse-lhe que não conseguia tirá-la do pensamento, que ficou sabendo de seu paradeiro e resolveu ir atrás, pois não poderiam ser felizes de outra forma senão um ao lado do outro.
Disse Dona Maria ter respondido que não era mais possível, que ela possuía uma família, marido, filhos, que a chance já havia passado, não dava mais. Ele apesar de muito triste, compreendeu e foi embora. Depois disso nunca mais se encontraram. Peguntei-lhe se ela havia voltado a Uberaba (no que vó Teresa comentou ''meu filho ia muito pra lá, dizem que a comida é boa''), e ela respondeu que só duas vezes, a passeio.

Não foi a primeira nem a segunda história com ares fantásticos que ouvi durantes as visitas que fiz a minha avó desde que lá fixou moradia. Histórias de infância, de amores impossíveis, de chegadas e partidas. Histórias maravilhosas, as vezes muitos tristes, mas que, verdadeiras ou não, nesta época da vida já não faz diferença. Grande parte dessas narrativas foram lapidadas durante longo tempo, a partir do momento em que todos aqueles projetos e sonhos de toda uma vida não tem mais como tomar lugar no mundo real, e ficam sendo remoídos na lembrança, até que o pessoa, impossibilitada de lidar eternamente com a tal frustração, passa a contar a ''versão ideal'' da história, até que de tanto repeti-la, passa realmente acreditar ser esta a verdadeira.
Mostrar interesse e dar crédito a essas fábulas é o mínimo que podemos fazer ao ouvi-las, proporcionando algum tipo de alento àqueles que, já sem muitas perspectivas futuras, não tem outro remédio senão tentar fazer com que os outros acreditarem que a passagem delas pela vida teve algo minimamente importante, e digno de ser lembrado.

5 comentários:

Arthur disse...

Já diziam os antigos: "Escutem os mais experientes."
Por muito achei bobagem... Hoje creio ser uma rota para nossas vidas. Os velhinhos estão velhinhos e estão muito mais sabidos!

A cada semana vamos nos deliciando com as palavras soltas deste cara!

Abraço

disse...

Todo mundo quer seu amor de cinema... a dona Maria conseguiu a dela =D
(os amores mais bonitos sempre tem um quê de invenção!)
Suas crônicas continuam ótimas!

(Espero poder furar fila quando for ganhar minha dedicatória no dia do lançamento! =D )

Marchewicz disse...

como diria minha falecida bisa (emilía ou milka em polones) quando chegava alguem que por culpa dos anos ela nao lembrava...
- vó milka esse é o andré seu bisneto.. filho do rogério.
- aé?!! meus parabéns!e dava um sorriso

Gabriela Martins disse...

Adorei o texto coração! Em um momento curioso da minha vida descobri que uma pessoa muito especial na minha vida escreve muito bem! E como a Dona Maria eu ainda vou contar pra alguem quando velinha a historia dessa pessoa especial...
saudades

Egon disse...

Boa Pedrão.

Minha Primeira Postagem. Vou continuar acompanhando.

Muito boa mesmo.

Parabéns

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.