terça-feira, 6 de outubro de 2009

Tanto o cinema quanto o estacionamento

("Meu caro Pedro, muito obrigado pela mensagem e pela crônica, que li com prazer. Vc leva jeito! Uma sugestão: procure uma oficina de crônicas. Há muitas, agora, e em geral funcionam bem. Desejo-lhe sucesso - nas crônicas e na medicina! Abrs. Moacyr". Tal manifestação de apoio do nosso grande Moacyr Scliar, a quem mandei há algum tempo "Vaga na ABL'', texto que inclusive já postei aqui, me motivou a antecipar esta crônica, que escrevi ontem, animado com a mensagem)


Certa vez conheci no Pida, bar em frente à faculdade onde ocorrem todos as festas e trotes de início de semestre, uma moça bem bacana. Morena, alta (não tão alta a ponto de eu ter de me preocupar com meus modestos 1,71m), quartanista de pedagogia, uma garota muito interessante. Papo vai, papo vem, trocamos telefone e depois decidimos nos encontrar. Minha sugestão não foi lá das mais originais: cinema no shopping, mas para um primeiro encontro sempre me parece uma boa escolha.
É bastante conveniente esta opção. Sugiro que nos encontremos na livraria local e chego alguns minutos antes, com pretensões de localizar previamente alguns livros interessantes, com cujos títulos ou autores tenho certa familiaridade (não preciso necessariamente ter lido os volumes) e fico nalgum ponto estratégico da loja de modo que, quando nos encontrarmos, passaremos obrigatoriamente por tais livros e eu discorrerei sobre eles, da forma mais natural já imaginada. É importante tentar impressionar no primeiro encontro, cada um tem seu modo, este é um dos meus.
Como é completamente impossível chegar depois das mulheres nos encontros, por mais atrasado que eu imagine estar, sempre consigo localizar os livros que quero nas livrarias. Mas tem de ser feito na medida certa. É só pra moça saber que você é antenado nas coisas, não um nerd abobalhado. Falar sobre Jorge Amado, Moacyr Scliar e até um Machado soa bem. Paulo Coelho e Augusto Cury já são meio controversos. Agora, se por uma fatalidade qualquer seu dedo apontar para alguma capa em que se leia “Ditado por Lucius”ou outra coisa que lembre a Zibia Gaspareto, sua noite estará seriamente comprometida.

Na noite em questão, depois do encontro inicial na livraria fomos comprar as entradas para o cinema. Quando nos aproximamos do guichê notamos uma grande faixa que informava: ''Quinta do beijo: os casais que se beijarem na frente do caixa pagarão meia entrada''. Comecei a prever ali que as coisas não iam dar muito certo. Eu teria de mudar o velho plano do papinho culto na hora dos trailers, da mão deslizando pela cabeça da poltrona até o abraço completo durante os minutos iniciais do filme, daquela cena inevitável de horizonte, planejada por todos os produtores de filme para que casais de primeiro encontros arrisquem o primeiro beijo, e todo o resto desse ritual secular. Mas onde que esse o dono do cinema estava com a cabeça em concordar com essa promoção?
Pois bem, improvisemos, então. A atmosfera claramente mudou, nem eu nem ela sabíamos o que esperar um do outro quando chegasse a hora de pegar os ingressos. Minha situação era muito pior, eu é quem deveria tomar a iniciativa, fosse qual fosse. Resolvi que quando chegasse a hora, eu lançaria um olhar fatal, daria uma piscadinha e iria me aproximando numa velocidade adequada, mas somente até os 90% da distância total, porque aprendi com Hitchie, o conselheiro amoroso, que os últimos 10% são com elas.
A medida que a fila foi avançando, fiquei ensaiando algumas piscadelas olhando para a parede, tentando conter o crescente nervosismo. Quando chegou a fatídica hora, a senhora do caixa nos abriu um sorriso e ficou esperando alguma reação, mas vendo que nada acontecia, levantou o queixo num gesto claro que significava ''vai ou não vai''. Tomei coragem, olhei pra a moça e lancei a piscadinha, infelizmente, devido à tensão, ou à repetição forçada do movimento durante o ensaio, a singeleza da coisa se perdeu e parecia que eu estava tendo um espasmo muscular. Antes mesmo de eu começar a aproximação, a moça se virou para a vendedora e pediu firmemente ''nós queremos duas meias-entradas para estudantes mesmo”.

Foi um golpe duro, pensei por alguns instantes que o encontro tinha ido por água abaixo, mas eu não podia desistir tão facilmente, afinal de contas já havia investido algum dinheiro na compra dos tickets. Por exigir esforço dobrado, numa situação deveras desfavorável, me lembro pouco dos pormenores da conversação e de toda a sequência que levou à consumação do fato. Consegui contornar tudo e as coisas deram certo. Só fomos atrapalhados pela escolha infeliz dos assentos, que faziam um barulho terrível que incomodou metade da plateia. Raras foram as oportunidades em que escutei tanta gente pigarreando e fazendo comentários em meio tom dirigidos a mim. Numa delas eu e uma outra garota (devíamos ter uns 16 anos) erramos o horário da sessão e tivemos que assistir ''O espanta tubarões'', uma animação infantil. É fácil imaginar o furor da criançada e a indignação de seus pais ao ver um jovem casal curtindo o escurinho do cinema de maneira que os primeiro o fariam no mínimo dali a uns oito anos e os outros já deixaram de fazer também há algum tempo.
Sou cinéfilo inveterado, e quando não vou ao cinema acompanhado também não gosto muito de ser atrapalhado pelas manifestações dos casaizinhos apaixonados. A concentração no filme fica especialmente prejudicada quando existe um casal a menos de cinco poltronas de distância e a gente tá naquela fase meio zero a zero. Mas o que se há de fazer? O cinema foi feito pra todos, inclusive hoje em dia fabricam as poltronas com braços móveis, para facilitar a vida e movimentação dos mais afoitos. Não podemos reclamar.
Se o filme foi bom ou ruim não posso afirmar com clareza, mas sai do cinema satisfeito por ter colocado as coisas nos conformes. Pegamos a última sessão do dia, portanto a única alternativa possível era pegar o carro no estacionamento e ir embora. O carro dela, que no caso me daria uma carona de volta para casa.
O estacionamento custou apenas quatro reais, mesmo valor da entrada do cinema. Eu, como manda os bons costumes, paguei tudo. Enquanto nos dirigíamos para o carro, feliz da vida por ter me saído relativamente bem depois de todos os reveses, resolvi puxar papo, mal desconfiando que ainda estava por vir a gafe-mór.

Eu: O preço das coisas aqui é mais barato do que lá em São Paulo
A moça: ------------------
Eu: Tanto do cinema quanto do estacionamento.

Sabe quando estamos meio distraídos e pensamos que a pessoa vai concordar com o que acabamos de falar, ou dar sequência à conversa, e por isso acaba nem ouvindo direito o que a pessoa disse? Pois então, foi isso que aconteceu comigo naquela hora. Eu juraria que os tracinhos da fala da moça poderiam ser substituídos por algo do tipo ''de que coisas você está falando''. Quando na verdade o que ela tinha dito era ''você quer que eu te devolva o dinheiro do cinema?''

Por uma sorte absurda ela percebeu rápido o que tinha acontecido e me salvou de acabar a noite sem carona e sem nada. Demos risada juntos da situação e voltamos para casa. Ela deve ter me achado um cara muito divertido, até porque na semana seguinte combinamos de assistir DVD no meu apartamento. Um programa menos sujeito a atribulações. Mesmo assim eu consegui me complicar.
Para combinar com o estilo do programa, resolvi comprar vinho e chocolate, e num primeiro momento parece que agradei. A única coisa com a qual não me preocupei foi em saber se eu tinha um abridor de vinhos em casa. Passei minutos constrangedores com a garrafa no meio das pernas, tentando empurrar a rolha garrafa abaixo usando uma caneta Bic.
Nessa altura do campeonato já devo ter acabado com todas chances de me dar bem com qualquer moça que esteja lendo este texto. Mas se até daquela vez as coisas deram certo, não deve haver muito mais com que se preocupar. Aprendi que ser divertido (com certa moderação) é um ponto positivo, talvez essencial. No mais, o que vale é a intenção.

10 comentários:

guigasmatta disse...

Aeww...Pedritaa...vibrei com sua crônica lek...sério msm...c tah mandando muitaoo mlk...continue sempre atualizando pq eu me divirto mto mlk... hahaha

PS: O Coyotee...volta a atacar...velho...1001 hostorias e nenhum final feliz...assim complica pow!!!

abraço mlk!!!

Marchewicz disse...

aeuihaeuihaeuhaeu
tanto do cinema... quanto do estacionamento
essa foi épica

Felps disse...

Cara! Mandou muito com a crônica. Continuo um seguidor assíduo.
Abração.

Jack disse...

Grande Pedrão... como já te falei pessoalmente, continuo afirmando que suas crônicas estão maravilhosas. Parabéns, continue assim e quando ficar famoso n esqueça dos seus primeiros fãs...
Abraço meu quirido

demian disse...

esta angariando fãs de peso é. hehe grande pedrao, apesar de nao ter comentado ainda, acho que sou um dos leitores mais dedicados. ficou otima, espero outras

Arthur disse...

Ainda acho que és um garanhão!
hahahahaha

A clareza das palavras toma conta do ambiente e seduz até o mais cético!

abraço!

andré disse...

hahhahahaha
muito boa,
a parte do vinho eu nao sabia ainda hehe abraço

Digão disse...

uhehuauhehu
dxa eu terminar d dar risada aki, msm jah a par dos fatos, ouvido algumas vezes foi impossível não acordar o pessoal aki em casa...
ficou mt boa!

e parabéns pelos elogios recebidos... tu sabes q tem o dom

deveria mandar algum texto pra zibia tb, mas ai sendo ele psicografado por MIXA e ditado por PAULUS

Vitor Correia disse...

Olá Pedro,
Sou fã do Scliar e concordo com ele: Você leva jeito. Sou professora de Português de uma amiga sua, que me indicou as crônicas.
Abraço, Adelina

Anônimo disse...

Super legal e divertido! Adorei

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.