sábado, 21 de abril de 2012

Último dia em Paris

Eu estava no Père-Lachaise procurando o túmulo do Jim Morisson quando encontrei um simpático casal, ele inglês, ela espanhola, mapa do cemitério na mão, a procura da morada eterna não só do vocalista dos Doors, mas como de uma dezena de outros figurões que por escolha ou acaso, jazem no terreno do 20º Arrondissement, em Paris.
 Em frente ao túmulo do Morrison há uma árvore com diversas inscrições de fãs, a maior e mais evidente delas clamando um dos sucessos da banda “Show me the way to the next whisky bar”. Foi defronte a ela que o casal resolveu me convidar para tomar uma cervejinha depois da caça aos túmulos.Tive de dar uma desculpa esfarrapada qualquer, pois sabia exatamente o que tinha na carteira: 3 passes de metrô e 5 euros, nada mais.
 No dia seguinte eu voltaria ao Brasil, e o dinheiro que levei para a viagem, depois de lambanças aeroportuárias e inconsequências etílicas, tinha literalmente acabado (na verdade há muito tempo, se não fosse o violão emprestado com qual resolvi improvisar alguns acordes e levantar uns trocados numa praça, durante minha estadia de um mês em Heidelberg).
 Evadiu-se o casal, e eu tracei meu plano: Um passe do metrô para ir à Basilica de Sacré Coeur, outro para voltar ao albergue. Cinco euros pagavam um lanche do McDonalds, e mais uma passagem de metrô garantiria minha chegada ao aeroporto no dia seguinte. Estando dentro da aeronave, não precisaria me preocupar em ser servido apenas de goiabinha ou clube social, e no mais, estando em Paris, me parecia uma boa ideia encarnar Gil Pender, alter-ego do Woody Allen no Meia-Noite em Paris, e ver no que ia dar.

A visita à Sacré Coeur foi um dos pontos altos da viagem. A basílica em si é bem bonita, mas o melhor de tudo foi o fato de que quando cheguei , havia uns artistas de rua tocando grandes sucessos para uma multidão sentada nas escadarias que dão acesso à basílica. Juntei-me a massa, de um lado uma japonesaiada (eles estão por toda parte), do outro o que parecia ser uma família local, mas estando por ali, impossível saber. O mundo inteiro estava ali, um pessoal da África vendendo barbantes entrelaçados multicoloridos para colocar no punho, paquistaneses vendendo crepe, turistas da América, Oceania, Antártida, Palhoça, todos ali, juntos, ouvindo os cantores entoarem os grandes sucessos.
 Sem nenhum compromisso em absoluto, apenas com a obrigação de voltar à terrinha no dia seguinte, permiti-me ficar por ali, a lembrar do que tinham sido aqueles dois meses de Europa, dos amigos e família que em breve eu reveria, da quantidade de gente, lugares e situações novas que conheci. Será que alguma coisa havia mudado? Do que serviu aquela viagem?
 Voltando ao albergue, parei no pub que ficava no piso térreo e a troco de nada comecei a conversar com uma funcionária egípcia que lá trabalhava. Nisso mais gente foi chegando ao balcão, pessoas que a conheciam, e por tabela me inseri na conversa. Papo vai, papo vem, uma caneca de cerveja surge a minha frente, depois outra, e mais uma. Meia-hora depois estava eu em outra mesa, conversando, num exemplar portunhol, com duas argentinas, uma mexicana e uma espanhola. “Como você fala bem espanhol”, me incentivaram elas, puramente reconhecendo meu esforço. E eu, achando que estava me dando muito bem (percepção ligeiramente bêbada) ainda perguntei: mas meu sotaque tá mais pro da Espanha, Argentina ou México? Entreolharam-se e com um sorriso amarelo de canto de boca, quase em uníssono, responderam: “Nenhum”.
 Uma bola fora de leve e quando menos esperei estava noutra mesa, de uma turma colombiana muito animada. Tenho foto dessa turma, qualquer hora posto; eles foram muito legais comigo, foram eles que me lembraram de que eu tinha um voo no dia seguinte e sugeriram que eu fosse me deitar, depois de perdida a conta de canecas de cerveja (tudo por conta de terceiros) e de eu ter convidado a funcionária egípcia para ir comigo até a salinha de bagagens a 1h da manhã.
 Uma noite até que bem-comportada comparada a uma outra, nesta mesma Paris, no início da viagem, quando, depois de algumas garrafas de vinho e uma gorfada na Lan House de um albergue, um amigo meu foi encontrado por mim dormindo dentro do elevador, subindo e descendo por sei lá quanto tempo.

 O que de fato mais marcou foi o crepúsculo na Sacré Coeur, sem nuvens, especificamente a hora em que os artistas estavam cantando “Imagine”, do John Lennon. E eu a ver toda aquela gente dos quatro cantos encontrando-se, conversando, observando, conhecendo-se, trocando ideias (literalmente) e percebendo como é rico e importante esse intercâmbio. Ouvindo as palavras de Lennon lembrei-me de alguns amigos meus que são viajantes por natureza, que se sobra algum dinheiro, estão de mochila nas costas se jogando pelo mundo e, lembrando-me de suas posturas diante do mundo e das outras pessoas, ficou muito claro a importância disso tudo.

 Volto a recordar um trecho célebre do Amyr Klink: “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver".

3 comentários:

Arthur Pompilio Astrogildo da Silva disse...

Muito bom meu amigo! essa frase do Amyr Klink arrazou! temos que trocar umas impressoes europeias.

M disse...

com certeza se ganha muito mais do que carimbos no passaporte..

Manoela disse...

Excelente!
Adorei o texto e consegui "ver" vc fazendo tudo isso kkkkk realmente a sua cara! ;)
E concordo, não tem coisa melhor que viajar e conhecer o mundo...

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.