Não eram nem oito da manhã quando a professora de psiquiatria pediu a atenção dos alunos. Não porque conversavam entre si, mas porque seus olhos miravam ora a projeção no quadro, ora a tela do note/netbook nos quais digitavam, até que a busca por um olhar qualquer que viesse de encontro ao seu ficou angustiante demais para dar seqüência ao que dizia. Todos (ou quase todos) estavam prestando atenção à aula, mas não à pessoa que a conduzia. A professora, por sua vez, não estava brava ou indignada conosco, estava com pena.
Deixou por alguns minutos o assunto sobre o qual discorria de lado, e falou de maneira bastante franca sobre sua angústia. Falou ainda sobre as implicações desta forma de agir (ouvir o que lhe fala uma pessoa sem emprestar-lhe o olhar) em nossa futura profissão, dos prós e contras desses novos dispositivos eletrônicos em nossa área de atuação e culminou falando, de forma inevitável, sobre a relação médico-paciente.
Não foi preciso que inventassem o computador para que muitos dos médicos jogassem fora tudo aquilo que aprenderam sobre tal relação. Basta papel e caneta. É o paciente falando (quando não interrompido pelo médico) e o doutor ali, escrevendo, cabeça baixa, prontuário, solicitação de exames, receituário.
Ser um bom médico não é somente saber acertar diagnósticos e prescrever corretamente os medicamentos. Escrever sobre isso me parece “chover no molhado”. A quantidade de vezes que presenciei condutas lamentáveis em consultas médicas justificariam facilmente uma abordagem sobre o assunto, no entanto, acho bastante pertinente falar um pouco sobre outra relação que se torna cada dia mais preocupante, a relação médico-pc.
“Felizes aqueles com mais de vinte anos, pois viveram um pouco off-line”. Isso li na revista de uma companhia aérea, numa das vezes que ia ou vinha de São Paulo. E de fato, cada vez mais cedo somos apresentados aos equipamentos eletrônicos, que nos possibilitam entrar em contato com qualquer pessoa que habite este planeta, seja lá onde ela estiver, menos ao seu lado. Criamos perfil nas redes sociais que nos permite “ser” aquilo que julgamos mais atrativo para aqueles com quem desejamos nos “socializar”.
Facebook, Twitter, blogs, MSN...A pessoa cria para si e sobre si a realidade que quiser. Ela tirou 2 mil fotos na vida, das quais 1990 ficaram medonhas. Ela vai e coloca no álbum as dez que ficaram razoáveis, mas nas quais está irreconhecível (com um óculos de sol gigantesco, de perfil, fazendo bico), uma frase de impacto na página inicial (que não tem absolutamente nada a ver com qualquer coisa que você já ouviu ela falando “em vida”) e de meia em meia hora vai informando o que vai fazer ou está fazendo (“vou tomar banho”, “estudando para a prova”, “corrida na beira-mar” - essa última geralmente é mentira) e ainda assim deixa meia dúzia de janelas do MSN abertas pois quando terminadas essas atividades voltará a sua vida virtual.
Bricadeiras a parte, é iminente a fragilidade das relações humanas nos tempos atuais, e não há como não as atrelar ao cada vez mais fácil acesso à internet. Desde a mocinha tímida detrás do seu notebook que durante a aula ouve a professora falando sobre tricíclicos e, (como ela não se lembra o que são tricíclicos) em vez de vencer a timidez e perguntar à professora do que se trata, recorre, via wireless, à wikipédia, até o rapaz apaixonado que só é capaz de se declarar por MSN, a rede possui comemorativos que fazem para muitos, essa “second life” muito mais atraente do que aquela que Deus pôde nos oferecer.
Mas quem adoecerá não será a foto de óculos gigante, de perfil e fazendo bico. O corpo terá de deixar a Matrix e procurar médico no mundo real. O Dr. Google pode até lhe dar algumas pistas do que se trata aquela dor, aquela mancha ou caroço que apareceu de repente, mas sem o médico, o Dr. Google não fará com que ela desapareça sozinha. E é aí que entramos nós, seres igualmente seduzidos pelos tentáculos virtuais, mas que para boa prática de nosso ofício, temos que oferecer nossa empatia, atenção e compreensão àqueles que nos procuram.
E tudo isso começa pelo olhar. Pode ser o único momento da vida da pessoa que está na sua frente, em que ela está encarando alguém olho no olho, mas você precisa estar preparado para isso. Você escolheu isso. E não se iluda, sua capacidade de relacionar-se e a qualidade de suas abordagens é inversamente proporcional ao tempo que você dedica ao seu pc. Talvez nossa geração não enxergue isso com tanta clareza, justamente pelo fato de ainda ter vivido um pouco num tempo em que a web apenas nos instigava a curiosidade, e não a víamos como ferramenta fundamental à sobrevivência. A geração que está vindo ai não só a vê como uma ferramenta, um meio para chegar a determinados fins, como a vê como um fim em si mesma, ao passo que a vida fora da internet num futuro não tão distante será vista como algo exótico.
Prego que a relação médico-pc tem de ser vivida em doses homeopáticas. Prego que a relação de qualquer pessoa com a internet seja desta maneira. Talvez eu seja apenas um saudosista encrencando com as modernidades e os rumos inevitáveis e inalteráveis do mundo e da nossa sociedade, mas não consigo ver uma forma em que o bom exercício da medicina dispense os fundamentos das relações interpessoais predominantes e valorizados outrora. Pense nisso.
domingo, 10 de abril de 2011
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Projeto Beija-Flor
Pouco antes de entrar na faculdade fui professor voluntário num projeto em que dava aulas para crianças carentes de uma escola pública aqui da zona oeste de São Paulo. O Projeto Beija-Flor (depois explico o nome) funcionava num espaço cedido pela Paróquia São Domingos Sávio, onde alunos de 1ª a 5ª série, selecionados pelos professores devido a problemas de aprendizado, passavam as tardes de segunda à sexta-feira, teoricamente a fim de que rendessem mais nos estudos.
O projeto era composto por pessoas com diversas formações (poucas realmente com alguma formação superior), mas com bom coração e vontade de sobra para ajudar de alguma forma aquelas crianças. A tarefa não era das mais fáceis, entendam o porquê: Pessoas graduadas para dar aula àquelas crianças, que apesar de tudo o que aprenderam (ou deveriam ter aprendido) não conseguem fazer com que elas obtenham desempenho escolar satisfatório, mandam tais crianças para “aulas de reforço” ministradas por pessoas que desconhecem qualquer metodologia pedagógica, sequer para lidar com crianças autodidatas, que dirá com as problemáticas. Soma-se a isso o fato de que criaturas no auge da infância, depois de manhãs intermináveis com lápis e borracha na mão, apareciam no projeto para fazer o apontador trabalhar, e repetir tudo aquilo que se pudessem não teriam feito nem no primeiro turno.
Meus primeiros dias de projeto foram um tanto quanto desanimadores, pois me parecia óbvia a pouca eficácia da coisa. Mas não demorou muito para entender o real intuito daquele projeto.
Todas as crianças eram provenientes de uma favela aqui do bairro. Crianças que desde cedo já são acostumadas a todo tipo de malandragem e entendem o mundo de uma perspectiva bastante ruim. Foi nos primeiros dias que vi uma menininha ensinando a outras que uma pessoa só morre quando fica velha ou “de tiro”.
Fazer com que aquelas crianças ficassem a maior parte do tempo longe deste meio, e tentar de alguma forma, em meio a exercício de tabuada e ditados, exercer alguma influência positiva em suas ações e pensamentos, era uma grande sacada. Ainda mais naquela faixa etária; era como tentar plantar uma semente e regar por um curto espaço de tempo, torcendo para que pudesse vingar por si só depois de algum tempo.
E lá ia eu as terças e sextas-feiras, ajuda-los com os deveres. Volta e meia inventava alguma atividade diferente. Certa vez peguei uma apostila de dinâmicas para crianças e adolescentes, emprestada de um amigo psicólogo e resolvi aplicar uma das que estavam descritas. Reuni-as numa das salas e anunciei “hoje a gente vai fazer um dinâmica”. “Ebaaa!!”, “Ah, tio!! Dinâmica??”. Nenhuma delas tinha qualquer idéia do que se tratava.
Pedi que cada um deles pegasse um papel e nele escreve seus cinco maiores sonhos. Depois disso feito, disse-lhes que cada sonho desses cabia numa maleta, e que todos eles estavam indo viajar, levando tais maletas. No meio do caminho aconteciam quatro diferentes infortúnios, como o aparecimento de um tigre, do qual eles tinham que escapar e carregando aquele tanto de bagagem, não era possível, então tinham que, aos poucos, irem se desfazendo das maletas, contendo os sonhos. No final, restava uma só maleta, um só sonho.
Expliquei-lhes que aquela viagem era uma metáfora da própria vida, que carregamos conosco idéias e planos, os quais muitos, devido os rumos que tomamos, tem de ser deixados para trás, mas que nem por isso deveríamos deixar de sonhar etc. Eles ouviram atentos, e no fim me olhavam com cara de paisagem. Quando eu mal percebia já estava um amarrando o cadarço do tênis do colega na cadeira, outro fabricando um aviãozinho de papel. Obviamente eles não tinham capacidade de abstrair a coisa toda e refletir sobre ela, e no fundo essa nem era a minha intenção. Mas para mim foi bem significativo. Guardo até hoje o papel com os sonhos daqueles que participaram da dinâmica, e agora transcrevo alguns, com os erros gramaticais e ortográficos devidamente corrigidos (em maiúsculas, o sonho que eles carregaram até o fim):
1) Conhecer os Rebeldes (personagens de uma novela da época)
2) Ajudar minha família
3) Que minha irmã arrume um trabalho
4) QUE A MINHA AVÓ MELHORE DO PROBLEMA QUE ELA TEM E FIQUE BOA
5) Comer um prato de macarronada
1) Criar jogos de vídeo-game e ter um também
2) Ter um carro com motor envenenado
3) IR AS ESTRELAS
4) Ser um bom agente
5) Que meu pai construa o quarto de cima
Eram crianças como outras quaisquer. As meninas com o sonho de conhecer os artistas da televisão, os meninos de ter um carro possante; que apesar de viver uma realidade difícil, entendiam o valor da família e sonhavam alcançar o impossível. Eu mesmo pensava que se tivesse a mesma idade, teria alguns deles como melhores amigos.
Houve vezes em que os levei ao parque jogar bola, empinar pipa. A dificuldade que eles tinham na separação silábica transformava-se numa habilidade incomum com a linha e cerol na mão, ou a bola nos pés. Eu ficava orgulhoso quando os via dar “relo” nas outras pipas, até saia correndo pra ajudar a buscá-las onde quer que caíssem.
Isso tudo durou seis meses. Num fim de tarde fui à vizinhança deles a fim de despedir-me. Não sabia ao certo onde era a casa de cada um. Logo que cheguei à rua, dei de cara com dois dos meninos com quem eu me dava melhor. Eles foram me guiando até a casa de cada um.
Foi uma tarefa pesada. Batia de porta em porta, dizia que estava indo morar longe e apesar de imaginar o futuro nada fácil que estava à espera deles, o mundo a oferecer-lhes as piores oportunidades, desejava-lhes toda sorte do mundo, que tudo desse certo.
Quando chegou ao final sobraram aqueles mesmos meninos que me ajudaram a encontrar todas as casas. Repeti para eles o mesmo discurso que disse aos demais, abracei-os e anunciei a partida. Não funcionou. Nem eles, nem eu fizemos qualquer movimento que indicasse que realmente estávamos com intenção de ir embora. Conversávamos mais alguns minutos e repetíamos a mesma ladainha algumas vezes.
Naquele mesmo dia tinha combinado com alguns outros amigos uma despedida numa pizzaria, de forma que eu não podia ficar ali muito tempo. Disse isso a eles, junto com “agora é de verdade, eu to indo embora mesmo”. Um deles encheu os olhos de lágrimas. Abracei-o e mirei o rosto do outro, ele estava sério, e me disse: “Não tio, eu não vou chorar porque eu sei que a gente ainda vai se ver”. E assim procedeu, não derramou uma lágrima sequer. Abracei-o também e parti. Eu também estava com o peito apertado, nó na garganta. Preferi não olhar para trás.
Estava na pizzaria, no meio daquelas disputas antológicas de quem consegue comer mais pedaços, quando meu telefone tocou. Era a mãe do menino que disse que não choraria porque tinha certeza de que nos veríamos novamente. Disse que ele chegou em casa aos prantos. Que ficou um tempão deitado em seu colo, enquanto ela explicava que a vida é assim, que as pessoas vão embora, e eles aos soluços dizendo que entendia, mas não conseguia segurar. Disse-me ainda que só tinha visto seu filho chorando daquele jeito quando o pai dele tinha falecido. Fiquei pensando se tal informação não passava de uma valorização da coisa em si, mas no fundo pouco importava. A gente vai vivendo sem saber muito o que esperar das pessoas com quem encontramos, e sem saber se vai deixar algo de bom para elas. As partidas são parte inevitável da existência, e é muito gostoso lembrar daqueles que deixamos e pensar “valeu a pena”.
O Projeto Beija-flor leva esse nome devido àquela fábula que conta sobre um incêndio numa floresta. Todos os animais correm para escapar do fogo, enquanto apenas o beija-flor segue em sentido contrário. O elefante curioso pára e presta atenção no que faz o beija-flor. Quando entende, indaga-o: “Beija-Flor, pra que você se presta ao trabalho de ir até o rio e pegar apenas uma gota de água e depositar no meio do fogaréu? Não vai adiantar de nada!” E o beija-flor responde: “Estou apenas fazendo minha parte. Quem sabe se cada um fizesse a sua...”
O projeto era composto por pessoas com diversas formações (poucas realmente com alguma formação superior), mas com bom coração e vontade de sobra para ajudar de alguma forma aquelas crianças. A tarefa não era das mais fáceis, entendam o porquê: Pessoas graduadas para dar aula àquelas crianças, que apesar de tudo o que aprenderam (ou deveriam ter aprendido) não conseguem fazer com que elas obtenham desempenho escolar satisfatório, mandam tais crianças para “aulas de reforço” ministradas por pessoas que desconhecem qualquer metodologia pedagógica, sequer para lidar com crianças autodidatas, que dirá com as problemáticas. Soma-se a isso o fato de que criaturas no auge da infância, depois de manhãs intermináveis com lápis e borracha na mão, apareciam no projeto para fazer o apontador trabalhar, e repetir tudo aquilo que se pudessem não teriam feito nem no primeiro turno.
Meus primeiros dias de projeto foram um tanto quanto desanimadores, pois me parecia óbvia a pouca eficácia da coisa. Mas não demorou muito para entender o real intuito daquele projeto.
Todas as crianças eram provenientes de uma favela aqui do bairro. Crianças que desde cedo já são acostumadas a todo tipo de malandragem e entendem o mundo de uma perspectiva bastante ruim. Foi nos primeiros dias que vi uma menininha ensinando a outras que uma pessoa só morre quando fica velha ou “de tiro”.
Fazer com que aquelas crianças ficassem a maior parte do tempo longe deste meio, e tentar de alguma forma, em meio a exercício de tabuada e ditados, exercer alguma influência positiva em suas ações e pensamentos, era uma grande sacada. Ainda mais naquela faixa etária; era como tentar plantar uma semente e regar por um curto espaço de tempo, torcendo para que pudesse vingar por si só depois de algum tempo.
E lá ia eu as terças e sextas-feiras, ajuda-los com os deveres. Volta e meia inventava alguma atividade diferente. Certa vez peguei uma apostila de dinâmicas para crianças e adolescentes, emprestada de um amigo psicólogo e resolvi aplicar uma das que estavam descritas. Reuni-as numa das salas e anunciei “hoje a gente vai fazer um dinâmica”. “Ebaaa!!”, “Ah, tio!! Dinâmica??”. Nenhuma delas tinha qualquer idéia do que se tratava.
Pedi que cada um deles pegasse um papel e nele escreve seus cinco maiores sonhos. Depois disso feito, disse-lhes que cada sonho desses cabia numa maleta, e que todos eles estavam indo viajar, levando tais maletas. No meio do caminho aconteciam quatro diferentes infortúnios, como o aparecimento de um tigre, do qual eles tinham que escapar e carregando aquele tanto de bagagem, não era possível, então tinham que, aos poucos, irem se desfazendo das maletas, contendo os sonhos. No final, restava uma só maleta, um só sonho.
Expliquei-lhes que aquela viagem era uma metáfora da própria vida, que carregamos conosco idéias e planos, os quais muitos, devido os rumos que tomamos, tem de ser deixados para trás, mas que nem por isso deveríamos deixar de sonhar etc. Eles ouviram atentos, e no fim me olhavam com cara de paisagem. Quando eu mal percebia já estava um amarrando o cadarço do tênis do colega na cadeira, outro fabricando um aviãozinho de papel. Obviamente eles não tinham capacidade de abstrair a coisa toda e refletir sobre ela, e no fundo essa nem era a minha intenção. Mas para mim foi bem significativo. Guardo até hoje o papel com os sonhos daqueles que participaram da dinâmica, e agora transcrevo alguns, com os erros gramaticais e ortográficos devidamente corrigidos (em maiúsculas, o sonho que eles carregaram até o fim):
1) Conhecer os Rebeldes (personagens de uma novela da época)
2) Ajudar minha família
3) Que minha irmã arrume um trabalho
4) QUE A MINHA AVÓ MELHORE DO PROBLEMA QUE ELA TEM E FIQUE BOA
5) Comer um prato de macarronada
1) Criar jogos de vídeo-game e ter um também
2) Ter um carro com motor envenenado
3) IR AS ESTRELAS
4) Ser um bom agente
5) Que meu pai construa o quarto de cima
Eram crianças como outras quaisquer. As meninas com o sonho de conhecer os artistas da televisão, os meninos de ter um carro possante; que apesar de viver uma realidade difícil, entendiam o valor da família e sonhavam alcançar o impossível. Eu mesmo pensava que se tivesse a mesma idade, teria alguns deles como melhores amigos.
Houve vezes em que os levei ao parque jogar bola, empinar pipa. A dificuldade que eles tinham na separação silábica transformava-se numa habilidade incomum com a linha e cerol na mão, ou a bola nos pés. Eu ficava orgulhoso quando os via dar “relo” nas outras pipas, até saia correndo pra ajudar a buscá-las onde quer que caíssem.
Isso tudo durou seis meses. Num fim de tarde fui à vizinhança deles a fim de despedir-me. Não sabia ao certo onde era a casa de cada um. Logo que cheguei à rua, dei de cara com dois dos meninos com quem eu me dava melhor. Eles foram me guiando até a casa de cada um.
Foi uma tarefa pesada. Batia de porta em porta, dizia que estava indo morar longe e apesar de imaginar o futuro nada fácil que estava à espera deles, o mundo a oferecer-lhes as piores oportunidades, desejava-lhes toda sorte do mundo, que tudo desse certo.
Quando chegou ao final sobraram aqueles mesmos meninos que me ajudaram a encontrar todas as casas. Repeti para eles o mesmo discurso que disse aos demais, abracei-os e anunciei a partida. Não funcionou. Nem eles, nem eu fizemos qualquer movimento que indicasse que realmente estávamos com intenção de ir embora. Conversávamos mais alguns minutos e repetíamos a mesma ladainha algumas vezes.
Naquele mesmo dia tinha combinado com alguns outros amigos uma despedida numa pizzaria, de forma que eu não podia ficar ali muito tempo. Disse isso a eles, junto com “agora é de verdade, eu to indo embora mesmo”. Um deles encheu os olhos de lágrimas. Abracei-o e mirei o rosto do outro, ele estava sério, e me disse: “Não tio, eu não vou chorar porque eu sei que a gente ainda vai se ver”. E assim procedeu, não derramou uma lágrima sequer. Abracei-o também e parti. Eu também estava com o peito apertado, nó na garganta. Preferi não olhar para trás.
Estava na pizzaria, no meio daquelas disputas antológicas de quem consegue comer mais pedaços, quando meu telefone tocou. Era a mãe do menino que disse que não choraria porque tinha certeza de que nos veríamos novamente. Disse que ele chegou em casa aos prantos. Que ficou um tempão deitado em seu colo, enquanto ela explicava que a vida é assim, que as pessoas vão embora, e eles aos soluços dizendo que entendia, mas não conseguia segurar. Disse-me ainda que só tinha visto seu filho chorando daquele jeito quando o pai dele tinha falecido. Fiquei pensando se tal informação não passava de uma valorização da coisa em si, mas no fundo pouco importava. A gente vai vivendo sem saber muito o que esperar das pessoas com quem encontramos, e sem saber se vai deixar algo de bom para elas. As partidas são parte inevitável da existência, e é muito gostoso lembrar daqueles que deixamos e pensar “valeu a pena”.
O Projeto Beija-flor leva esse nome devido àquela fábula que conta sobre um incêndio numa floresta. Todos os animais correm para escapar do fogo, enquanto apenas o beija-flor segue em sentido contrário. O elefante curioso pára e presta atenção no que faz o beija-flor. Quando entende, indaga-o: “Beija-Flor, pra que você se presta ao trabalho de ir até o rio e pegar apenas uma gota de água e depositar no meio do fogaréu? Não vai adiantar de nada!” E o beija-flor responde: “Estou apenas fazendo minha parte. Quem sabe se cada um fizesse a sua...”
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Cinco filmes, cinco dias, vinte reais
Poucos momentos são tão aborrecidos como os que minha mãe anuncia que vamos ao shopping porque ela e minha irmã vão comprar roupas para mim. Sim, já tenho lá meus vinte e tantos anos e ainda é minha mãe quem escolhe minhas roupas. Nenhuma vergonha quanto a isso, e se dependesse de mim poderia permanecer assim até que fosse chegada a hora de um de nós ir para debaixo da terra.
Sou bem desligado nesses assuntos, quase sempre aprovo o que minha mãe e minha irmã compram. Não faço a menor questão de acompanhá-las em sua peregrinação de loja em loja, nas quais passam horas intermináveis, felizes da vida por escolherem vinte e sete peças de roupa diferentes e na maioria das vezes não levar nada. Sempre que era convecido ou obrigado a ir junto, escolhia a primeira coisa que via pela frente, para indignação e frustração de minha mãe. Não à toa, quando eu era pequeno, um dos pesadelos mais frequentes tinham como cenário aquelas grandes redes de lojas de roupas, tipo a CeA, onde eu invariavelmente me perdia de meus pais e aqueles cabideiros ganhavam vida e passavam a me perseguir pela loja sem fim.
Em contrapartida, há escolhas muito mais agradáveis, como um livro para presentear(-se) ou um filme para alugar. Numa livraria ou locadora sim, posso passar horas a fio e, mimetizando minha mãe, tomar nas mãos e fingir que vou levar vinte e sete itens e muitas vezes levar um, ou nenhum. Ainda por cima sem o contrangimento de ter de passar dezenas de vezes pelo fiscal do provador, que sabe muito bem que as pessoas que realmente intencionam comprar alguma coisa, geralmente não passam por ali mais do que duas ou três vezes.
Houve um tempo em que eu e um dos amigos com quem divido o apartamento em Floripa alugávamos no mínimo um filme por semana, bolamos até um complicado método na seleção dos títulos, mas que sempre terminava com o palpite do Emanuel, funcionário meio gordo, meio japonês, única pessoa realmente confiável naquele lugar. Digo isso porque pessoas como o Emanuel são estremamente raras hoje em dia, o que parece até um paradoxo.
Não sei que critérios os donos de locadoras utilizam para escolher seus funcionários, mas é arriscadíssimo pedir a opinião deles na hora de escolher um filme. É incrível a capacidade que eles tem de juntar falta de bom senso com mau gosto e dar sempre os piores palpites. Houve época em que já quis ser dono de locadora, eu mesmo seria o palpiteiro da clientela. Já cansei de planejar este empreendimento, depois de passar pela fase em que a dúvida era ser bombeiro ou marceneiro.
Em minha imaginação, minha locadora não faria parte de uma grande rede, uma Blockbuster, e sim uma pequena locadora meio mal localizada, mas com o diferencial das boas indicações e por isso muito bem difundida e frequentada, devido ao boca a boca. Claro que eu não poderia trabalhar lá em tempo integral, por isso, inevitável contratar ao menos um funcionário, que passaria por um critério de seleção que iria muito além do 2o grau completo.
"Fulano, o que você sabe sobre Hitchcock? Truffaut e Godard? Gosta dos irmãos Coen? Qual é a melhor atuação do Marlon Brando, em sua opinião? O que pensa sobre Kubrick? E Spielberg? Cite vinte filmes do Woody Allen, eleja seu favorito e justifique. O que sabe sobre cinema nacional? Qual seu filme favorito?"
Talvez a entrevista começasse por essa última pergunta, pouparia tempo. Outro amigo meu contou que certa vez estava numa roda de amigos conversando sobre cinema, cada um dizendo qual era seu filme favorito, quando um sujeito me lança "Debi e Loide". Todo mundo olha com cara de espanto, no que ele se explica "Calma pessoal, me refiro ao Debi e Loide 2 - Quando Debi conheceu Loide". Se um camarada desses entrasse na minha locadora pedindo emprego seria abatido a tiros.
A gente cresce e percebe que essas coisas geralmente não dão muito certo, no náximo eu mesmo seria contratado de uma videolocadora e na melhor das hipóteses seria considerado um novo Emanuel. Infelizmente hoje já não posso mais imaginar que serei bem sucedido em minha profissão a ponto de poder investir na abertura de minha própria locadora. Não por achar que não obterei êxito como médico, mas porque as videolocadoras estão condenadas ao seu fim.
Atualmente não faz o menor sentido pagar oito reais (em média) por um lançamento 24h. É possível baixar filmes da internet com qualidade blue-ray gratuitamente, pratica cada vez mais comum e que faz com que as locadoras aumentem o preço da locação sem qualquer escrúpulo. É o mesmo destino reservado às lojas de cds e qualquer mercadoria que possa ser adquirida pela rede. A venda de tais produtos serão restritos cada vez mais aos colecionadores.
Apesar de também ser usuário do utorrent, sempre que posso prestigio as escassas promoções do tipo "cinco filmes, cinco dias, vinte reais", que ainda existem numa locadora aqui perto da minha casa em São Paulo. Lembro-me de uma das vezes que lá estive; ouvia palpites sóbrios de um funcionário sobre uns filmes do Oliver Stone, quando um grupinho de garotos, de uns onze ou doze anos, se aproximou com murmúrios de "pergunta você", "não, não, pergunta você", até que um deles se aproximou do funcionário e meio sem jeito indagou "Você tem Espantalhos 2?". Achei graça da coisa, imaginei que cenas como essa acontecerão cada vez menos, dada a iminente obsolescência do estabelecimento e, após alguns instantes de pesquisa no sistema, o funcionário volta e diz: "Desculpe, não encontrei, mas temos alguns bons desse gênero em VHS". "Ah! Não, obrigado". Ainda pudemos ouvir quando, imaginando-se longe o suficiente para não ser ouvido, um dos meninos perguntou ao amigo o que era um VHS.
Querendo ou não, há processos e rumos contra os quais não temos muito como lutar. Mas não tenho dúvidas de que, perante a traquinagem de um neto ou apenas para argumentar longevidade, ainda direi: "Sou da época em que se alugava filme em locadora e se copiava mapa em papel vegetal".
Sou bem desligado nesses assuntos, quase sempre aprovo o que minha mãe e minha irmã compram. Não faço a menor questão de acompanhá-las em sua peregrinação de loja em loja, nas quais passam horas intermináveis, felizes da vida por escolherem vinte e sete peças de roupa diferentes e na maioria das vezes não levar nada. Sempre que era convecido ou obrigado a ir junto, escolhia a primeira coisa que via pela frente, para indignação e frustração de minha mãe. Não à toa, quando eu era pequeno, um dos pesadelos mais frequentes tinham como cenário aquelas grandes redes de lojas de roupas, tipo a CeA, onde eu invariavelmente me perdia de meus pais e aqueles cabideiros ganhavam vida e passavam a me perseguir pela loja sem fim.
Em contrapartida, há escolhas muito mais agradáveis, como um livro para presentear(-se) ou um filme para alugar. Numa livraria ou locadora sim, posso passar horas a fio e, mimetizando minha mãe, tomar nas mãos e fingir que vou levar vinte e sete itens e muitas vezes levar um, ou nenhum. Ainda por cima sem o contrangimento de ter de passar dezenas de vezes pelo fiscal do provador, que sabe muito bem que as pessoas que realmente intencionam comprar alguma coisa, geralmente não passam por ali mais do que duas ou três vezes.
Houve um tempo em que eu e um dos amigos com quem divido o apartamento em Floripa alugávamos no mínimo um filme por semana, bolamos até um complicado método na seleção dos títulos, mas que sempre terminava com o palpite do Emanuel, funcionário meio gordo, meio japonês, única pessoa realmente confiável naquele lugar. Digo isso porque pessoas como o Emanuel são estremamente raras hoje em dia, o que parece até um paradoxo.
Não sei que critérios os donos de locadoras utilizam para escolher seus funcionários, mas é arriscadíssimo pedir a opinião deles na hora de escolher um filme. É incrível a capacidade que eles tem de juntar falta de bom senso com mau gosto e dar sempre os piores palpites. Houve época em que já quis ser dono de locadora, eu mesmo seria o palpiteiro da clientela. Já cansei de planejar este empreendimento, depois de passar pela fase em que a dúvida era ser bombeiro ou marceneiro.
Em minha imaginação, minha locadora não faria parte de uma grande rede, uma Blockbuster, e sim uma pequena locadora meio mal localizada, mas com o diferencial das boas indicações e por isso muito bem difundida e frequentada, devido ao boca a boca. Claro que eu não poderia trabalhar lá em tempo integral, por isso, inevitável contratar ao menos um funcionário, que passaria por um critério de seleção que iria muito além do 2o grau completo.
"Fulano, o que você sabe sobre Hitchcock? Truffaut e Godard? Gosta dos irmãos Coen? Qual é a melhor atuação do Marlon Brando, em sua opinião? O que pensa sobre Kubrick? E Spielberg? Cite vinte filmes do Woody Allen, eleja seu favorito e justifique. O que sabe sobre cinema nacional? Qual seu filme favorito?"
Talvez a entrevista começasse por essa última pergunta, pouparia tempo. Outro amigo meu contou que certa vez estava numa roda de amigos conversando sobre cinema, cada um dizendo qual era seu filme favorito, quando um sujeito me lança "Debi e Loide". Todo mundo olha com cara de espanto, no que ele se explica "Calma pessoal, me refiro ao Debi e Loide 2 - Quando Debi conheceu Loide". Se um camarada desses entrasse na minha locadora pedindo emprego seria abatido a tiros.
A gente cresce e percebe que essas coisas geralmente não dão muito certo, no náximo eu mesmo seria contratado de uma videolocadora e na melhor das hipóteses seria considerado um novo Emanuel. Infelizmente hoje já não posso mais imaginar que serei bem sucedido em minha profissão a ponto de poder investir na abertura de minha própria locadora. Não por achar que não obterei êxito como médico, mas porque as videolocadoras estão condenadas ao seu fim.
Atualmente não faz o menor sentido pagar oito reais (em média) por um lançamento 24h. É possível baixar filmes da internet com qualidade blue-ray gratuitamente, pratica cada vez mais comum e que faz com que as locadoras aumentem o preço da locação sem qualquer escrúpulo. É o mesmo destino reservado às lojas de cds e qualquer mercadoria que possa ser adquirida pela rede. A venda de tais produtos serão restritos cada vez mais aos colecionadores.
Apesar de também ser usuário do utorrent, sempre que posso prestigio as escassas promoções do tipo "cinco filmes, cinco dias, vinte reais", que ainda existem numa locadora aqui perto da minha casa em São Paulo. Lembro-me de uma das vezes que lá estive; ouvia palpites sóbrios de um funcionário sobre uns filmes do Oliver Stone, quando um grupinho de garotos, de uns onze ou doze anos, se aproximou com murmúrios de "pergunta você", "não, não, pergunta você", até que um deles se aproximou do funcionário e meio sem jeito indagou "Você tem Espantalhos 2?". Achei graça da coisa, imaginei que cenas como essa acontecerão cada vez menos, dada a iminente obsolescência do estabelecimento e, após alguns instantes de pesquisa no sistema, o funcionário volta e diz: "Desculpe, não encontrei, mas temos alguns bons desse gênero em VHS". "Ah! Não, obrigado". Ainda pudemos ouvir quando, imaginando-se longe o suficiente para não ser ouvido, um dos meninos perguntou ao amigo o que era um VHS.
Querendo ou não, há processos e rumos contra os quais não temos muito como lutar. Mas não tenho dúvidas de que, perante a traquinagem de um neto ou apenas para argumentar longevidade, ainda direi: "Sou da época em que se alugava filme em locadora e se copiava mapa em papel vegetal".
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Retrato da saudade
A sequência lógica da coisa é viver, pensar, digerir e escrever. Desde que iniciei minha viagem pela Europa, quando acontece alguma coisa divertida ou diferente penso “quando voltar vou escrever sobre isso”, e de fato há bastante coisas sobre as quais pretendo discorrer, assim que tiver um tempo exclusivo para pensar sobre elas e arranjá-las da melhor forma no papel. Entretanto, por ora estou em Heidelberg, pequena e acolhedora cidade ao Sul da Alemanha, em meio a um estágio que serviu de desculpa primordial para tal viagem, com uma coceira insustentável nos dedos. É preciso escrever.
Até porque a mim não soa tão comovente alguém escrevendo “sentia saudades” ou “senti saudades”. Muito mais arrebatador um “sinto saudades”, e realmente as sinto. Andava procurando a melhor forma de expressá-la, talvez uma frase bacana e simples, emblemática ao menos a ponto de quem ler copiar e colar no nick do MSN, e o que de mais genuíno vem à cabeça é “Puta que pariu! Que saudade da terrinha!”
O Amir Klynk tem frases bacanas, daquelas que a gente que escreve fica pensando “puxa vida, como não tive essa sacada antes” sobre viagens e o viajar. Diversas vezes pensei nelas durante minha viagem, mas o que mais vinha à mente durante este período, sem mentir, era o Jorge Ben Jor cantando “moro num país tropical, abençoado por Deus...”
Que vontade absurda de comer feijão com arroz e carne moída! Pastel de feira com caldo de cana, então! Melhor até mudar de assunto. Saudade de ouvir todo mundo falando em português, de me sentir em casa, de realmente estar em casa. Dormir encostado no travesseiro já moldado ao formato da sua cabeça, embalado pelos fogos e gritos de “gol” numa quarta-feira a noite (os campeonatos estaduais já começaram!), acordar com o vizinho inconveniente ouvindo pagode enquanto lava o carro na garagem, as dez da manhã.
Saudade de fazer aquele churrascão com a rapaziada, pão com lingüiça e cerveja a dar com pau. Roda de violão em Canasvieiras, as loiras do curso de farmácia desfilando no bar do CCS, fazer esquenta para uma festa universitária qualquer. Agora é férias pra todo mundo, mas essa lonjura toda antecipa e aguça as sensações.
É mister, entretanto, deixar claro que isto aqui não se trata de lamúrias proveniente de dias mal aproveitados. Longe disso! Caríssimos, não carecerão de fartas risadas e nós na garganta, tudo a seu tempo. Mas é que essa coisa da saudade, exige um modus operandi diverso, escrevo agora enquanto os outros dormem, para, além de tudo, ainda poder esbanjar como num poema da antologia de Vinicius e ao final, no canto direito escrever “Heidelberg, 2011”.
Saudade tenho ainda de acordar num domingo e ao som de Billy Holliday descer as escadas do sobradinho lá de São Paulo e sentir o cheiro da massa que meu pai prepara, percorrer a casa e quase tropeçar no Pingo, que me levaria correndo até provavelmente a lavanderia, onde minha mãe estaria estendendo contente minhas roupas (não que ela goste de estender roupas, mas é que como não moro com eles, até ver-se estendendo minhas roupas, sinal de que estou em casa, faz com que seu dia seja melhor). Saudade de abrir o jornal e planejar o que fazer no próximo final de semana, ler a coluna do Drauzio, do Scliar ou do Rubem Alves. Até a da Barbara Gancia valeria. E quando desse a hora do almoço acordar minha irmã com um grito ao pé da escada (relembrando que é uma manhã de domingo).
Não falta tanto, São Paulo em três semanas e Floripa em seis. Ao voltar não peço nada. Claro que será bem bacana ser recebido com um pratão de arroz, feijão e carne moída; um churrasquinho de comemoração também não cairia mal. Caindo, no entanto, de forma inevitável no velho clichê, o que mais vale é entender que toda dessa saudade nada mais é do que o atestado definitivo de que a vida andava boa, de que vivo cercado de pessoas fantásticas, e fica a expectativa de que este período de alguma forma esteja servindo de aprendizado para aproveitar melhor essa coisarada toda.
Puta que pariu! Que saudade da terrinha!
Até porque a mim não soa tão comovente alguém escrevendo “sentia saudades” ou “senti saudades”. Muito mais arrebatador um “sinto saudades”, e realmente as sinto. Andava procurando a melhor forma de expressá-la, talvez uma frase bacana e simples, emblemática ao menos a ponto de quem ler copiar e colar no nick do MSN, e o que de mais genuíno vem à cabeça é “Puta que pariu! Que saudade da terrinha!”
O Amir Klynk tem frases bacanas, daquelas que a gente que escreve fica pensando “puxa vida, como não tive essa sacada antes” sobre viagens e o viajar. Diversas vezes pensei nelas durante minha viagem, mas o que mais vinha à mente durante este período, sem mentir, era o Jorge Ben Jor cantando “moro num país tropical, abençoado por Deus...”
Que vontade absurda de comer feijão com arroz e carne moída! Pastel de feira com caldo de cana, então! Melhor até mudar de assunto. Saudade de ouvir todo mundo falando em português, de me sentir em casa, de realmente estar em casa. Dormir encostado no travesseiro já moldado ao formato da sua cabeça, embalado pelos fogos e gritos de “gol” numa quarta-feira a noite (os campeonatos estaduais já começaram!), acordar com o vizinho inconveniente ouvindo pagode enquanto lava o carro na garagem, as dez da manhã.
Saudade de fazer aquele churrascão com a rapaziada, pão com lingüiça e cerveja a dar com pau. Roda de violão em Canasvieiras, as loiras do curso de farmácia desfilando no bar do CCS, fazer esquenta para uma festa universitária qualquer. Agora é férias pra todo mundo, mas essa lonjura toda antecipa e aguça as sensações.
É mister, entretanto, deixar claro que isto aqui não se trata de lamúrias proveniente de dias mal aproveitados. Longe disso! Caríssimos, não carecerão de fartas risadas e nós na garganta, tudo a seu tempo. Mas é que essa coisa da saudade, exige um modus operandi diverso, escrevo agora enquanto os outros dormem, para, além de tudo, ainda poder esbanjar como num poema da antologia de Vinicius e ao final, no canto direito escrever “Heidelberg, 2011”.
Saudade tenho ainda de acordar num domingo e ao som de Billy Holliday descer as escadas do sobradinho lá de São Paulo e sentir o cheiro da massa que meu pai prepara, percorrer a casa e quase tropeçar no Pingo, que me levaria correndo até provavelmente a lavanderia, onde minha mãe estaria estendendo contente minhas roupas (não que ela goste de estender roupas, mas é que como não moro com eles, até ver-se estendendo minhas roupas, sinal de que estou em casa, faz com que seu dia seja melhor). Saudade de abrir o jornal e planejar o que fazer no próximo final de semana, ler a coluna do Drauzio, do Scliar ou do Rubem Alves. Até a da Barbara Gancia valeria. E quando desse a hora do almoço acordar minha irmã com um grito ao pé da escada (relembrando que é uma manhã de domingo).
Não falta tanto, São Paulo em três semanas e Floripa em seis. Ao voltar não peço nada. Claro que será bem bacana ser recebido com um pratão de arroz, feijão e carne moída; um churrasquinho de comemoração também não cairia mal. Caindo, no entanto, de forma inevitável no velho clichê, o que mais vale é entender que toda dessa saudade nada mais é do que o atestado definitivo de que a vida andava boa, de que vivo cercado de pessoas fantásticas, e fica a expectativa de que este período de alguma forma esteja servindo de aprendizado para aproveitar melhor essa coisarada toda.
Puta que pariu! Que saudade da terrinha!
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Roleta Russa
Há algumas semanas estava de plantão na central de transplantes, onde estagio, quando lá pelas tantas recebemos uma notificação de um potencial doador oriundo de Chapecó (cidade do oeste catarinense). Um jovem de 21 anos, estava para iniciar os testes comprobatórios para morte encefálica (condição sine qua non para ser doador). A causa da morte: ferimento por arma de fogo, o motivo: Roleta Russa.
Incredulidade, indignação, pena. Uma mistura de sentimentos passava por todos nós ali da central. “Como é que alguém ainda faz uma coisa dessas hoje em dia?” Supusemos que o garoto deveria estar sob efeito de álcool, ou alguma droga, querendo justificar de alguma forma o que parecia algo completamente sem cabimento.
Estudando medicina nos deparamos quase diariamente com pessoas que voluntária ou involuntariamente, acabam abreviando suas vidas. Pessoas que ingerem pesticidas, veneno para rato, que tomam dois litros de cachaça por dia, que comem muito, e mal, não se exercitam, que fumam dois maços de cigarro por dia, ou um, ou meio. A diferença entre elas é apenas o tempo em que cada um desses mecanismos leva para dar cabo a vida do indivíduo.
Durante o curso acabei me envolvendo bastante com a área de pneumologia, em especial com o tema tabagismo. Faço parte de um grupo que está desenvolvendo um estudo sobre o assunto, e já participei de cursos de abordagem a pacientes tabagistas, entre outros. Embora haja grande conscientização por parte da população sobre os malefícios do tabagismo, sua cessação continua sendo um enorme desafio.
Conheço gente inteligentíssima, tenho amigos pós-graduados e até professor de pneumologia que fuma! E como é que se faz a abordagem de pessoas como essas, quando se trata de convencê-las a parar de fumar? O discurso que eu usava era a seguinte: “Você deve saber até melhor do que eu que cigarro faz mal, não vou ficar te azucrinando, mas se um dia você estiver querendo parar, pode me procurar que eu te ajudo”. Certo? ERRADO!
O grande problema é que muita gente não consegue visualizar o dano a longo prazo que o cigarro faz. Não é a figurinha de um pulmão podre no verso do maço que vai detê-los. Devemos fazê-los crer que (e aqui vai uma forçada da barra) que fumar é praticamente uma Roleta Russa. Parece bastante dramático querer comparar um maço de cigarros a um revólver, mas reparem bem:
não só de câncer de pulmão morre um tabagista (e a chance de um tabagista desenvolvê-lo é 1 em cada 10). Existe também o câncer de boca e de garganta. Além disso, existe a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) que segundo projeções, será a terceira maior causa de morte no mundo em dez anos. Menos de 15% dos fumantes desenvolverão DPOC, mas quase 90% dos que possuem essa doença, são tabagistas. Fumar é um dos maiores fatores de risco para o infarto, entre inúmeras morbidades que são agravadas pelo seu uso.
Some todas essas probabilidades e verá que a chance de um fumante morrer por causa de seu vício é maior do que o 1/6 do projétil de um revolver encontrar sua cabeça se resolver “brincar” de roleta russa, com o agravante que você não morrerá instantaneamente, mas passará anos com uma qualidade de vida sofrível, sendo torturado diariamente física e mentalmente por causa de sua condição.
Pare e reflita que hoje nos parece um absurdo que já tenha sido permitido fumar dentro de aviões. “Nossa, as pessoas fumavam dentro e aviões!”, diríamos nós. Daqui um tempo, graças a essa nova lei que proíbe fumar em lugares fechados, em vigor em cidades como Florianópolis e São Paulo, acredito que estaremos dizendo “Nossa, as pessoas fumavam dentro das baladas!”. Penso que devemos ser otimistas e audaciosos, trabalhando para que um dia se seja possível que as futuras gerações numa conversa qualquer possam dizer: “Nossa, as pessoas fumavam!”.
Incredulidade, indignação, pena. Uma mistura de sentimentos passava por todos nós ali da central. “Como é que alguém ainda faz uma coisa dessas hoje em dia?” Supusemos que o garoto deveria estar sob efeito de álcool, ou alguma droga, querendo justificar de alguma forma o que parecia algo completamente sem cabimento.
Estudando medicina nos deparamos quase diariamente com pessoas que voluntária ou involuntariamente, acabam abreviando suas vidas. Pessoas que ingerem pesticidas, veneno para rato, que tomam dois litros de cachaça por dia, que comem muito, e mal, não se exercitam, que fumam dois maços de cigarro por dia, ou um, ou meio. A diferença entre elas é apenas o tempo em que cada um desses mecanismos leva para dar cabo a vida do indivíduo.
Durante o curso acabei me envolvendo bastante com a área de pneumologia, em especial com o tema tabagismo. Faço parte de um grupo que está desenvolvendo um estudo sobre o assunto, e já participei de cursos de abordagem a pacientes tabagistas, entre outros. Embora haja grande conscientização por parte da população sobre os malefícios do tabagismo, sua cessação continua sendo um enorme desafio.
Conheço gente inteligentíssima, tenho amigos pós-graduados e até professor de pneumologia que fuma! E como é que se faz a abordagem de pessoas como essas, quando se trata de convencê-las a parar de fumar? O discurso que eu usava era a seguinte: “Você deve saber até melhor do que eu que cigarro faz mal, não vou ficar te azucrinando, mas se um dia você estiver querendo parar, pode me procurar que eu te ajudo”. Certo? ERRADO!
O grande problema é que muita gente não consegue visualizar o dano a longo prazo que o cigarro faz. Não é a figurinha de um pulmão podre no verso do maço que vai detê-los. Devemos fazê-los crer que (e aqui vai uma forçada da barra) que fumar é praticamente uma Roleta Russa. Parece bastante dramático querer comparar um maço de cigarros a um revólver, mas reparem bem:
não só de câncer de pulmão morre um tabagista (e a chance de um tabagista desenvolvê-lo é 1 em cada 10). Existe também o câncer de boca e de garganta. Além disso, existe a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) que segundo projeções, será a terceira maior causa de morte no mundo em dez anos. Menos de 15% dos fumantes desenvolverão DPOC, mas quase 90% dos que possuem essa doença, são tabagistas. Fumar é um dos maiores fatores de risco para o infarto, entre inúmeras morbidades que são agravadas pelo seu uso.
Some todas essas probabilidades e verá que a chance de um fumante morrer por causa de seu vício é maior do que o 1/6 do projétil de um revolver encontrar sua cabeça se resolver “brincar” de roleta russa, com o agravante que você não morrerá instantaneamente, mas passará anos com uma qualidade de vida sofrível, sendo torturado diariamente física e mentalmente por causa de sua condição.
Pare e reflita que hoje nos parece um absurdo que já tenha sido permitido fumar dentro de aviões. “Nossa, as pessoas fumavam dentro e aviões!”, diríamos nós. Daqui um tempo, graças a essa nova lei que proíbe fumar em lugares fechados, em vigor em cidades como Florianópolis e São Paulo, acredito que estaremos dizendo “Nossa, as pessoas fumavam dentro das baladas!”. Penso que devemos ser otimistas e audaciosos, trabalhando para que um dia se seja possível que as futuras gerações numa conversa qualquer possam dizer: “Nossa, as pessoas fumavam!”.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Tio Giba
Espaaaalmaa Zéééttiii!!!
O ano devia ser 93 ou 94. O palco do jogo, um estreito corredor de um sobradinho no subúrbio paulistano, o Zetti na verdade era eu, com algo entre 6 e 7 anos, me estropiando no chão de concreto a cada ponte que dava para alcançar as cobranças de faltas batidas por meu Tio Gilberto, que interpretava Evair, Zinho, Rivaldo, Roberto Carlos e ao mesmo tempo atacava de Luciano do Valle na narração.
O tio Giba é o ser humano mais apaixonado por futebol que já conheci. Mais por obra dele e de minha tia Déa do que de meu pai que hoje torço pelo verdão. Há fotos de quando eu era bebê, no carrinho, vestindo camisas verde e brancas maiores que meu corpo inteiro, “coisa do seu tio Giba”.
A casa do Tio Giba é toda decorada com objetos do palmeiras, na cozinha canecas com o símbolo desenhado, adesivos na janela, na sala, pôsteres enquadrados com as formações campeãs dos títulos brasileiros da década de 90, campeonato paulista, libertadores. Há ainda uma ou outra caravelinha espalhada pela casa, aludindo ao fato de que, como cedo me ensinara tio Giba, Palmeiras e Vasco da Gama são torcidas irmãs.
Tio Giba respirava futebol. Quando presente nas festinhas da família, mobilizava grande parte dos parentes (que entendiam pouco ou quase nada de futebol) em análises complicadíssimas sobre formações táticas, características individuais de cada jogador, rememorava com vivos detalhes atuações antológicas de determinado craque, escalava times vencedores. Longe de ser chato, Tio Giba no último natal escalou o time do palmeiras completo que perdeu para o Inter de Limeira a final do campeonato Paulista de 1984. A família toda se entristeceu com a derrota.
Conta meu pai que houve um tempo em que tio Giba e Tia Déa percorriam o estado todo atrás dos jogos do verdão, tradição esta que hoje é mantida por seus filhos e netos. Segundo a tia Dea, o Juninho foi até Uberaba dia desses só pra assistir a um jogo.
Tio Giba além de torcedor fanático era também tapeceiro. Por ocasião da construção de um novo quarto na casa onde eu morava, lá nesses idos de início da década de 90, entre uma ou outra grande defesa de Zetti, lembro-me dele dizendo “Pedrinho, vou fazer uma poltrona de estofado verde pra você por no seu quarto novo”. Achei aquilo o máximo, na minha cabeça de menino, uma poltrona devia ser algo imponente. E ainda verde! Todos saberiam que eu era um torcedor do palmeiras muito respeitável.
Por muitos domingos eu esperei no portão de casa o Chevette cor de creme do Tio Giba e da Tia Déa trazendo a notícia de que a poltrona havia ficado pronta, coisa que nunca aconteceu, e eu fui esquecendo aos poucos. Aos poucos também foram rareando as visitas do Tio Giba à nossa casa. Tia Déa, que jamais deixou de nos visitar, comentava que Tio Giba tornara-se uma pessoa cada vez mais reclusa, mal saia de casa. Assim mesmo, nas festas de final de ano, ocasião quase exclusiva em que o via, ele me parecia sempre o mesmo, falando de futebol, sua risada divertida, fala mansa, barba por fazer.
Mudei-me para Florianópolis há mais de três anos e desde então acho que vi o Tio Giba duas vezes (uma delas no natal que ele contou da final do campeonato de 1984). Falo com meus pais quase todos os dias pelo telefone, e há cerca de um mês, lembro-me de minha mãe comentando que a Tia Déa disse que o Tio Giba andava com hábitos estranhos, que outro dia havia acordado no meio da madrugada e começou a trocar as gavetas do guarda-roupa no escuro.
Poucos dias depois ligo lá pra casa e dizem que o Tio Giba havia caído sei lá onde, batido a cabeça e levado ao hospital. Lá acabaram por detectar um tumor no SNC. Daí pra frente as informações começaram a ficar desencontradas, até porque é difícil mesmo as pessoas entenderem o que se passa, e muitas vezes se negam a enxergar a gravidade da situação. A única coisa que eu sabia é que os médicos diziam ser inoperável.
Por ocasião do último feriado, voltei para São Paulo, e ainda planejando com meu pai a programação para aqueles dias, ele perguntou “e o que você acha de ver o Tio Giba?”. Na terça-feira pela manhã, eu meu pai vestimos camisas do palmeiras (tinha certeza que o tio ia se alegrar) e fomos visitá-lo. Chegando lá, vi o tio deitado na cama, com uma sonda no nariz, emagrecido, muito emagrecido, olhos abertos fixos no teto, trajando uma camisa do Palmeiras e uma calça do Vasco.
Não tive coragem de chegar e perguntar “Tudo bem?”. A resposta seria “Tudo bem”, porque invariavelmente as pessoas respondem isso em qualquer situação. “E aí tio, como é que tá o Palmeiras?”, foi como decidi começar. Ele levantou o polegar num sinal de “jóia”, e bem lentamente foi virando a mão para baixo, abriu um sorriso e disse “vai mal, Pedrinho”. Falei mais algumas coisas, e então meu pai começou a falar, oportunidade que tive para perguntar para a Tia Dea qual era de fato a situação.
Ela me levou para outro quarto, me deu alguns exames para ver, e enquanto eu lia o laudo “Astrocitoma, comprometendo os lobos temporal, frontal, occipital, etc, etc” foi me dizendo que os médicos disseram que não iam operar, pois a sobrevida seria de menos de um ano, e em estado vegetativo, e só com a quimioterapia a sobrevida seria de cinco meses. Eu conseguia sentir em mim o nó na garganta dela, pensei em abraçá-la, mas foi quando ouvi: “Pedrinho, Pedrinho”. Era meu tio me chamando.
Voltei para o outro quarto. Quando me viu, ele estendeu a mão esquerda no ar, segurei-a e ele levou até junto a sua face, beijou-a e com os olhos marejados disse “Pedrinho, Pedrinho, gosto tanto desse menino!”. Eu não sabia muito bem o que fazer, apenas disse “Tio, também gosto muito do senhor” e retribuí-lhe o beijo na mão.
Depois de curto silêncio meu pai falou que tínhamos de ir embora, pois em breve eu pegaria vôo de volta para Florianópolis. Disse ainda “Giba, fica tranqüilo que já já você vai sarar”, beijou-lhe a testa e fez sinal para irmos embora. Descíamos os três as escadas quando ainda ouvimos o Tio Giba dizer “Manda um beijo para a Isadora” (minha irmã).
Foi a última vez que vi meu tio. Ontem a noite meus pais telefonaram dizendo que ele havia falecido. Meu pai, sujeito de rara sensibilidade fizera questão (apesar de não ter transparecido) que eu visse meu tio aquele dia, pois imaginava que pudesse de fato ser a última. A Sociedade Esportiva Palmeiras perdeu um grande torcedor, o maior que conheci, e eu, um tio querido, do qual só tenho boas lembranças. Quando quiser me lembrar dele, vai ser com carinho e saudade que me virão em mente o Chevette cor de creme chegando no domingo, ou sua voz inconfundível gritando “Zéééttiii”.
O ano devia ser 93 ou 94. O palco do jogo, um estreito corredor de um sobradinho no subúrbio paulistano, o Zetti na verdade era eu, com algo entre 6 e 7 anos, me estropiando no chão de concreto a cada ponte que dava para alcançar as cobranças de faltas batidas por meu Tio Gilberto, que interpretava Evair, Zinho, Rivaldo, Roberto Carlos e ao mesmo tempo atacava de Luciano do Valle na narração.
O tio Giba é o ser humano mais apaixonado por futebol que já conheci. Mais por obra dele e de minha tia Déa do que de meu pai que hoje torço pelo verdão. Há fotos de quando eu era bebê, no carrinho, vestindo camisas verde e brancas maiores que meu corpo inteiro, “coisa do seu tio Giba”.
A casa do Tio Giba é toda decorada com objetos do palmeiras, na cozinha canecas com o símbolo desenhado, adesivos na janela, na sala, pôsteres enquadrados com as formações campeãs dos títulos brasileiros da década de 90, campeonato paulista, libertadores. Há ainda uma ou outra caravelinha espalhada pela casa, aludindo ao fato de que, como cedo me ensinara tio Giba, Palmeiras e Vasco da Gama são torcidas irmãs.
Tio Giba respirava futebol. Quando presente nas festinhas da família, mobilizava grande parte dos parentes (que entendiam pouco ou quase nada de futebol) em análises complicadíssimas sobre formações táticas, características individuais de cada jogador, rememorava com vivos detalhes atuações antológicas de determinado craque, escalava times vencedores. Longe de ser chato, Tio Giba no último natal escalou o time do palmeiras completo que perdeu para o Inter de Limeira a final do campeonato Paulista de 1984. A família toda se entristeceu com a derrota.
Conta meu pai que houve um tempo em que tio Giba e Tia Déa percorriam o estado todo atrás dos jogos do verdão, tradição esta que hoje é mantida por seus filhos e netos. Segundo a tia Dea, o Juninho foi até Uberaba dia desses só pra assistir a um jogo.
Tio Giba além de torcedor fanático era também tapeceiro. Por ocasião da construção de um novo quarto na casa onde eu morava, lá nesses idos de início da década de 90, entre uma ou outra grande defesa de Zetti, lembro-me dele dizendo “Pedrinho, vou fazer uma poltrona de estofado verde pra você por no seu quarto novo”. Achei aquilo o máximo, na minha cabeça de menino, uma poltrona devia ser algo imponente. E ainda verde! Todos saberiam que eu era um torcedor do palmeiras muito respeitável.
Por muitos domingos eu esperei no portão de casa o Chevette cor de creme do Tio Giba e da Tia Déa trazendo a notícia de que a poltrona havia ficado pronta, coisa que nunca aconteceu, e eu fui esquecendo aos poucos. Aos poucos também foram rareando as visitas do Tio Giba à nossa casa. Tia Déa, que jamais deixou de nos visitar, comentava que Tio Giba tornara-se uma pessoa cada vez mais reclusa, mal saia de casa. Assim mesmo, nas festas de final de ano, ocasião quase exclusiva em que o via, ele me parecia sempre o mesmo, falando de futebol, sua risada divertida, fala mansa, barba por fazer.
Mudei-me para Florianópolis há mais de três anos e desde então acho que vi o Tio Giba duas vezes (uma delas no natal que ele contou da final do campeonato de 1984). Falo com meus pais quase todos os dias pelo telefone, e há cerca de um mês, lembro-me de minha mãe comentando que a Tia Déa disse que o Tio Giba andava com hábitos estranhos, que outro dia havia acordado no meio da madrugada e começou a trocar as gavetas do guarda-roupa no escuro.
Poucos dias depois ligo lá pra casa e dizem que o Tio Giba havia caído sei lá onde, batido a cabeça e levado ao hospital. Lá acabaram por detectar um tumor no SNC. Daí pra frente as informações começaram a ficar desencontradas, até porque é difícil mesmo as pessoas entenderem o que se passa, e muitas vezes se negam a enxergar a gravidade da situação. A única coisa que eu sabia é que os médicos diziam ser inoperável.
Por ocasião do último feriado, voltei para São Paulo, e ainda planejando com meu pai a programação para aqueles dias, ele perguntou “e o que você acha de ver o Tio Giba?”. Na terça-feira pela manhã, eu meu pai vestimos camisas do palmeiras (tinha certeza que o tio ia se alegrar) e fomos visitá-lo. Chegando lá, vi o tio deitado na cama, com uma sonda no nariz, emagrecido, muito emagrecido, olhos abertos fixos no teto, trajando uma camisa do Palmeiras e uma calça do Vasco.
Não tive coragem de chegar e perguntar “Tudo bem?”. A resposta seria “Tudo bem”, porque invariavelmente as pessoas respondem isso em qualquer situação. “E aí tio, como é que tá o Palmeiras?”, foi como decidi começar. Ele levantou o polegar num sinal de “jóia”, e bem lentamente foi virando a mão para baixo, abriu um sorriso e disse “vai mal, Pedrinho”. Falei mais algumas coisas, e então meu pai começou a falar, oportunidade que tive para perguntar para a Tia Dea qual era de fato a situação.
Ela me levou para outro quarto, me deu alguns exames para ver, e enquanto eu lia o laudo “Astrocitoma, comprometendo os lobos temporal, frontal, occipital, etc, etc” foi me dizendo que os médicos disseram que não iam operar, pois a sobrevida seria de menos de um ano, e em estado vegetativo, e só com a quimioterapia a sobrevida seria de cinco meses. Eu conseguia sentir em mim o nó na garganta dela, pensei em abraçá-la, mas foi quando ouvi: “Pedrinho, Pedrinho”. Era meu tio me chamando.
Voltei para o outro quarto. Quando me viu, ele estendeu a mão esquerda no ar, segurei-a e ele levou até junto a sua face, beijou-a e com os olhos marejados disse “Pedrinho, Pedrinho, gosto tanto desse menino!”. Eu não sabia muito bem o que fazer, apenas disse “Tio, também gosto muito do senhor” e retribuí-lhe o beijo na mão.
Depois de curto silêncio meu pai falou que tínhamos de ir embora, pois em breve eu pegaria vôo de volta para Florianópolis. Disse ainda “Giba, fica tranqüilo que já já você vai sarar”, beijou-lhe a testa e fez sinal para irmos embora. Descíamos os três as escadas quando ainda ouvimos o Tio Giba dizer “Manda um beijo para a Isadora” (minha irmã).
Foi a última vez que vi meu tio. Ontem a noite meus pais telefonaram dizendo que ele havia falecido. Meu pai, sujeito de rara sensibilidade fizera questão (apesar de não ter transparecido) que eu visse meu tio aquele dia, pois imaginava que pudesse de fato ser a última. A Sociedade Esportiva Palmeiras perdeu um grande torcedor, o maior que conheci, e eu, um tio querido, do qual só tenho boas lembranças. Quando quiser me lembrar dele, vai ser com carinho e saudade que me virão em mente o Chevette cor de creme chegando no domingo, ou sua voz inconfundível gritando “Zéééttiii”.
domingo, 19 de setembro de 2010
Pequena pausa cotidiana para as eternas reflexões
Acabo de receber o motorista Hudson, que veio pegar um rim direito para levar ao aeroporto, de onde o órgão seguirá para Chapecó, onde será transplantando. À minha frente está meu notebook, onde escrevo, e através do qual agora toca The Beatles. À minha esquerda um bloco de páginas xerocadas do caderno de otorrino de uma colega de sala, devido a eminência da prova desta matéria; do lado esquerdo o “Guia do viajante independente pela Europa”, aberto no mapa de Londres e, um pouco além, um papel com o telefone de mais de trinta hospitais de Santa Catarina, aos quais há pouco telefonei indagando sobre novas suspeitas de morte encefálica. Estou, portanto, num dia típico do meu estágio na central de transplantes.
Um pouco além, noutra mesa, uma das enfermeiras que trabalha aqui na divisão técnica monta uma documentação relativa a uma doação de córneas, enquanto me lembro que estou perdendo uma festa universitária por conta deste plantão de 24h. A esta hora (22h30) está boa parte de meus amigos fazendo o esquenta para a festa (que será open bar, fato que não justificaria em absoluto a suspensão do tradicionalíssimo ritual que antecede todas as festas), enquanto paro e reparo na figura da enfermeira que encontra-se a poucos metros de mim.
Loira, algo entre 1,65 e 1,70, ligeiramente gordinha, calculo estar chegando nos 40, solteira, sem filhos. Não se trata do que vocês estão pensando. Juro. Estou apenas imaginando se era algo parecido com montar documentação relativa a doação de córneas numa sexta-feira a noite o que ela imaginava estar fazendo ao atingir os 40 anos, quando tinha a minha idade. Não que isso seja muito ruim, claro que não, mas é que agora ouvindo o George Harrison solando em “Till There was you”, um dos primeiros solos que aprendi quando comecei a tocar violão, fico me imaginando tocando junto ao meu filho (que também quererá tocar violão e gostará de Beatles) numa sexta-feira a noite quando tiver por volta dos 40.
Não sei se minha companheira de plantão é solteira e não tem filhos por opção. Outra enfermeira aqui da central está para ganhar seu primeiro filho, aos 32 anos, solteira. Enfim, o fato é que elas estão me levando a refletir sobre nossos desejos e frustrações. Eu por mim mesmo já sou um pensador nato, cheio de indagações e questionamentos. Andei acessando textos que escrevi há cerca de cinco anos e me deparei com os mesmos tipo de reflexão que tenho até hoje. Mesmo tendo mudado de cidade, estar há mais de três anos na faculdade e neste período ter conhecido dezenas de novas pessoas com uma rica pluralidade de opiniões, a única coisa que acontece é a adição de novas perguntas sem que as antigas sejam respondidas. Quanto mais se raciocina, mais longe parece ficar a solução. Não à toa inventaram a dialética.
Se tudo acontecesse conforme eu gostaria, quando eu tiver o dobro da minha idade, num domingo ensolarado como promete ser depois de amanhã, eu levaria meu(s) filho(s) à Arena Parque Antártica assistir o verdão. Veria-os ensaiar os primeiros acordes no violão quando chegasse exausto do trabalho no meio da semana, tocaria junto com eles uma outra dos Beatles, fazendo parcerias a la Lennon e McCartney, e planejaria viagens inesquecíveis ao lado da mulher com quem decidira passar o resto dos meus dias.
Bonito, não? Guardados os gostos pessoais, seus planos são parecidos? Entretanto, olhe ao seu redor e veja o saco de frustrações que é a vida. Pode ser que tudo dê certo, e nos manteremos sempre otimistas. Mas parece ser necessário iludir-se periodicamente para que possamos aguentar a ideia de que grande parte daquilo que planejávamos não aconteceu; convencendo-se de que há coisas tão ou mais interessantes de se viver, e que você só se deu conta delas através da oportunidade gerada pela negação dos sonhos não realizados. No meio disso tudo confundem-se resilientes e conformistas, e não há muito como escapar. É estatístico.
Olho para a pilha de xerox e lembro que independente dos meus futuros rebentos, hoje preciso aprender a reconhecer e tratar uma otite, enquanto o aparelho de fax apita a chegada de mais uma notificação de doação de córnea e cresce minha inveja de não estar curtindo a festa com meus amigos. Ainda assim, o Ringo entoando “With a little help from my friends” me lembra que embora ainda não conheça a mulher com quem decidirei viver o resto dos meus dias (assim imagino), em breve farei uma viagem que sem dúvidas será inesquecível. Voltemos ao mapa de Londres...
Um pouco além, noutra mesa, uma das enfermeiras que trabalha aqui na divisão técnica monta uma documentação relativa a uma doação de córneas, enquanto me lembro que estou perdendo uma festa universitária por conta deste plantão de 24h. A esta hora (22h30) está boa parte de meus amigos fazendo o esquenta para a festa (que será open bar, fato que não justificaria em absoluto a suspensão do tradicionalíssimo ritual que antecede todas as festas), enquanto paro e reparo na figura da enfermeira que encontra-se a poucos metros de mim.
Loira, algo entre 1,65 e 1,70, ligeiramente gordinha, calculo estar chegando nos 40, solteira, sem filhos. Não se trata do que vocês estão pensando. Juro. Estou apenas imaginando se era algo parecido com montar documentação relativa a doação de córneas numa sexta-feira a noite o que ela imaginava estar fazendo ao atingir os 40 anos, quando tinha a minha idade. Não que isso seja muito ruim, claro que não, mas é que agora ouvindo o George Harrison solando em “Till There was you”, um dos primeiros solos que aprendi quando comecei a tocar violão, fico me imaginando tocando junto ao meu filho (que também quererá tocar violão e gostará de Beatles) numa sexta-feira a noite quando tiver por volta dos 40.
Não sei se minha companheira de plantão é solteira e não tem filhos por opção. Outra enfermeira aqui da central está para ganhar seu primeiro filho, aos 32 anos, solteira. Enfim, o fato é que elas estão me levando a refletir sobre nossos desejos e frustrações. Eu por mim mesmo já sou um pensador nato, cheio de indagações e questionamentos. Andei acessando textos que escrevi há cerca de cinco anos e me deparei com os mesmos tipo de reflexão que tenho até hoje. Mesmo tendo mudado de cidade, estar há mais de três anos na faculdade e neste período ter conhecido dezenas de novas pessoas com uma rica pluralidade de opiniões, a única coisa que acontece é a adição de novas perguntas sem que as antigas sejam respondidas. Quanto mais se raciocina, mais longe parece ficar a solução. Não à toa inventaram a dialética.
Se tudo acontecesse conforme eu gostaria, quando eu tiver o dobro da minha idade, num domingo ensolarado como promete ser depois de amanhã, eu levaria meu(s) filho(s) à Arena Parque Antártica assistir o verdão. Veria-os ensaiar os primeiros acordes no violão quando chegasse exausto do trabalho no meio da semana, tocaria junto com eles uma outra dos Beatles, fazendo parcerias a la Lennon e McCartney, e planejaria viagens inesquecíveis ao lado da mulher com quem decidira passar o resto dos meus dias.
Bonito, não? Guardados os gostos pessoais, seus planos são parecidos? Entretanto, olhe ao seu redor e veja o saco de frustrações que é a vida. Pode ser que tudo dê certo, e nos manteremos sempre otimistas. Mas parece ser necessário iludir-se periodicamente para que possamos aguentar a ideia de que grande parte daquilo que planejávamos não aconteceu; convencendo-se de que há coisas tão ou mais interessantes de se viver, e que você só se deu conta delas através da oportunidade gerada pela negação dos sonhos não realizados. No meio disso tudo confundem-se resilientes e conformistas, e não há muito como escapar. É estatístico.
Olho para a pilha de xerox e lembro que independente dos meus futuros rebentos, hoje preciso aprender a reconhecer e tratar uma otite, enquanto o aparelho de fax apita a chegada de mais uma notificação de doação de córnea e cresce minha inveja de não estar curtindo a festa com meus amigos. Ainda assim, o Ringo entoando “With a little help from my friends” me lembra que embora ainda não conheça a mulher com quem decidirei viver o resto dos meus dias (assim imagino), em breve farei uma viagem que sem dúvidas será inesquecível. Voltemos ao mapa de Londres...
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- Pedro
- Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.