sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Respeitável pança


Não faz muitos dias, meu grande amigo Whisky e eu jantávamos, as 17h, no RU da UFSC (uma tradição muito antiga que temos; sempre ali perto da máquina de suco nos arredores da saída) quando contei-lhe que havia alcançado uma das resoluções do último réveillon: baixar dos 70kg. “Agora só falta perder a pança de chope”, completei.
“Perder a pança? Mas pra quê? Queria eu ter uma pança de chope. Tem coisa mais respeitável?” Whisky, que até pouco tempo atrás tinha o porte físico comparável ao do Woody Allen, serviu de gatilho para uma das maiores epifanias que tive nos últimos tempos.  
 Saí do RU com um orgulho sem precedentes da minha pança. Oras, sábio Whisky! Não há (ou não deveria haver) quem tenha coragem de recriminar a quase onipresente discreta protuberância, saliência, ou lomba no andar baixo do abdome, adquirida, em sua maioria, pelos jovens em geral à época universitária.
Mas veja lá, não pode ser aquela pança avacalhada, que remete ao seu significado original, parte digestiva dos ruminantes que antecede o barrete e o folhoso. Há de ser a inevitável pança, cujo portador, com IMC no máximo limítrofe para o sobrepeso, adquiriu por ter aproveitado (e muito) a companhia dos amigos nos mais amigáveis pés-sujos da cidade, discutindo futebol, mulheres e os homéricos porres de outrora, além dos incontáveis esquentas para as festas universitárias, e as noites de solidão em que deveria estar estudando, mas resolveu juntar a turma pra tocar violão e tomar aquela(s) cervejinha(s).
               
Engraçado como a partir de então comecei a imaginar a minha pança como melhor definidora de mim mesmo. Como se, quem reparasse nela, pudesse de maneira inequívoca dizer: “Esse cara tá prestes a se formar médico, mas deixou de estudar metade da faculdade pra tocar violão, escrever crônicas, festar, beber, e tentar (em vão), agora, no final de tudo, perder essa pança, que é o que há de melhor nele”.
As respeitáveis panças são produtos quase filosóficos. Quem tem a pança de chope (a autêntica) é existencialista por natureza, sendo capaz de parafrasear Nietzsche, Sartre, Heidegger ou Kierkegaard, mesmo que não tenha a menor ideia do que se trata. Com algum esforço, poderiam ser os novos Chicos (o Buarque ou o César) ou Noéis (o Rosa ou o papai), dependendo do rumo para o qual a barriga deslanchasse. A pança de chope pressupõe habilidades únicas, e uma capacidade ímpar de valorizar as mais excêntricas e concêntricas variáveis do sexo oposto.
                
A pança será meu trunfo do próximo verão. Esperarei de forma convicta que a moça meio intelectual, meio de esquerda, que passeia descompromissada por Jurerê internacional (as moças meio intelectuais, meio de esquerda não costumam frequentar Jurerê internacional, mas vamos seguir sonhando) deduza através de minha pança (de maneira certa ou errada, isso pouco importa), que sou um rapaz viajado, cuca fresca, leitor de Paulo Freire e Xico Sá, ouvinte de sambas antigos, bom de papo, entre outras coisas quaisquer, mas que só uma pança de chope pode levar a imaginar.
E que as outras moças, as que não são meio intelectuais nem meio de esquerda (e salve Família Prata!) essas sim, frequentadoras de Jurerê Internacional, quando estiverem já quase envesgando e com o cotovelo esfolado depois de ter levado um lindo capote ocasionado por uns champanhes a mais, confundam o salutar volume extra de tecido adiposo com uma barriga tanquinho fabricada em academia, e assim, que eu e meus parceiros pseudo-filósofos e originalmente boêmios tenhamos o merecido (mesmo que deturpado) reconhecimento, e possamos desfrutar da glória de ter a honrosa pança de chope.
                
No fundo, talvez o Whisky tenha apenas me dado a desculpa necessária para encarar o fato de que seria impossível perder essa pança. Talvez chegando a desnutrição severa, ou algo que o valha. Mas depois daquela janta ela virou uma entidade sagrada, a ser defendida com unhas e dentes, ou melhor, chopes e cervejinhas.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Tia Ciça


Hoje, 19 de outubro, é aniversário de meu pai. Tentei reunir palavras sinceras e bastante positivas para desejar-lhe, mesmo sabendo que por telefone e de supetão acaba que sempre sai mais ou menos as mesmas coisas. Inclusive é por isso que, sempre que consigo, gosto de escrever alguma coisa para as pessoas em datas especiais.
- Oi pai, parabéns! Muitas felicidades, saúde, que você tenha um ótimo dia. Tudo bem por aí?
- Filho, tenho uma notícia triste. (Como a voz do meu pai já estava embargada, na fração de segundo que levou para ele tomar fôlego, fiz uma pesquisa relâmpago em minha mente: todos os meus avós já se foram e ninguém da família estava doente, a noticia realmente deveria ser ruim). – A Tia Ciça. Ela morreu hoje.
Ainda não sabiam com segurança a causa da morte, ela foi encontrada descordada de manhã, pela moça que limpava sua casa, e a perícia estava por vir. Eu, que mal consegui proferir algo decente para desejar pelo aniversário de meu pai, me vi tentando dizer algo que substituísse o maior abraço do mundo, para ampará-lo pela perda de sua irmã, justo no dia de seu aniversário.
Ontem mesmo meu pai me enviava fotos da minha infância para eu usar nas preparações para minha formatura. Imagino-o dormindo com uma sensação boa, nostálgica, revigorado para seu aniversário. Mas como disse certo sábio “Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana às vezes parece não fazer parte do projeto da Criação”.
               
 Já mencionei Tia Ciça em outras oportunidades. Há vezes em que falo de maneira um pouco cômica sobre trejeitos, manias ou particularidades de familiares e uso codinomes para eles. Tia Ciça, em minhas crônicas, era Tia Nêna, “a tia dos presentes que ninguém usa”.
 Lidar com a morte nunca é fácil. A ideia de que você nunca mais vai ver a pessoa é muito ruim, e pensar nas reuniões da família sem a tia Ciça é muito, muito triste. É a saudade como o avesso de um parto, parafraseando Chico. Daí você começa a lembrar das histórias que viveram juntos, da voz da pessoa, de sua forma de lidar com os outros, da risada, de como se sentia bem ao lado dela. E então fica triste, porque tudo isso foi embora.
Tia Ciça era uma pessoa bastante espiritualizada, dava aulas num centro espírita, e tinha ideias firmes sobre vida, morte e seus propósitos. Pensar que ela está cumprindo tudo aquilo em que acreditava dá força para encarar a perda, sendo a morte uma etapa inevitável, parte do processo evolutivo, e que por Tia Ciça, foi cumprida de maneira rápida e inesperada, sem direito a preparos nem ensaios. E quem conhece sua história, sabe que ninguém melhor que ela para lidar com situações desse tipo.

Duro pensar também quantos ao nosso redor irão sem preparo e sem ensaio. E é inevitável. Isso deixa em primeiro plano a ideia de pararmos de encrencar com bobagens e fazermos sempre o melhor que pudermos aos nossos familiares e as pessoas que amamos. E então, na hora em que “a indesejada das gentes” chegar, pensar na pessoa querida e poder dizer “Estou triste, mas não poderia ter sido melhor”.
 Tia Ciça deixa uma grande lacuna na família, e os natais sem ela certamente não serão mais os mesmos. É uma imagem muito carinhosa que tenho, ao imaginar noutro plano, Tia Ciça fazendo a alegria das pessoas, presenteando-as com toalhas, meias e loções pós-barba.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Aêêêê Castooor


Ontem acordei (noutra segunda-feira em que não havia a menor condição de ir ao hospital), desci as escadas da RRT, encontrei uma galera no sofá e perguntei: “E agora, o que falta acontecer?”
Botando as malas no carro há quase 6 anos, lá em São Paulo, era impossível prever o que viria nos próximos anos. Mais imprevisível ainda era imaginar a existência de uma tal de Real República Tcheca.
Ter a chance de ficar doente de tão bêbado todo santo final de semana na companhia dos moradores, ex-moradores, futuros moradores (?) e seus agregados, em minha opinião é a maior honra que uma pessoa afim de aproveitar a vida universitária poderia ter. Limites?! A gente definitivamente não vê por lá.
 É neguinho quase caindo da Kombi (transporte oficial da RRT; ESPERA-SE UM NOME DE BATISMO URGENTE!), tomando saideira de 5 litros em 3 pessoas, (depois de no mínimo 3 litros cada 1, e com uma festa em menos de 2 horas por vir) estropiando joelho no meio de festa e tendo que ser levado pra hospital, fazendo churrasco, tocando violão, pegando uma menina poucos minutos depois de ela estar aos prantos e ser ovacionado, tocando berrante às 2h da manhã...tudo num dia só. E se você visse, entre 200, uma foto na página da UOL com um cara mordendo uma menina na Oktoberfest, o que pensaria? “Esse aí é da safra RRT” é uma boa opção.
Sei lá que tipo de conjunção cósmica foi feita pra dar tão certo de tantas pessoas tão especiais fazerem parte de uma mesma casa. Pode também parecer um grande desastre, os vizinhos que o digam; o pessoal, entre outros, tem a mania de chegar bebaço de festas e como se não fosse o bastante, cantar (berrar) “Don’t let me down” na garagem, as 6h da manhã. Ossos do oficio.
                
Ao pensar na galera, lembro automaticamente de uma expressão que usamos muito, e sobre a qual um amigo certa vez escreveu. “Mano”:
Ao dizer “mano”, você está dizendo que tem uma relação sincera, fiel (mas que permite uns tropeços) e íntima com alguém. Intimidade que permite desde uma revelação bombástica sobre uma obscuridade até um peido sujo. E que permite rir disso tudo. O emprego de “mano” sugere uma amizade gigante, inseparável ou, pelo menos, muito difícil de romper. Amizade pautada em admiração constante, mesmo reconhecendo as manias, defeitos e trejeitos do outro. Implica respeito. Muito respeito. Vontade de estar junto e de aproveitar os momentos como se não houvesse eminentes compromissos chatos em seguida. Monotemas e pluritemas são de praxe. Uma relação que permite diferentes ritmos e algum grau de distanciamento físico, o que adiciona uma dose de energia efusiva no reencontro. É um compartilhar de alegrias, tristezas, entusiasmos e frustrações. Um fluxo de emoções fraternais múltiplas, sem nenhum laço consangüíneo. E é raro poder falar “mano” com todos esses significados juntos. Se existe esse privilégio... melhor aproveitar!
               
  Um dia a história dessa casa vai ser contada. Não por mim, pois a memória segue meio atrapalhada por fazer parte desta coisarada toda. Inclusive, num fim de semana, ou numa quarta feira, se você quiser um pouco de zueira, naquele lugar não tem bode nem tristeza, e cada um segue sua natureza. Mas leva um trocado, tá rolando engradado...

sábado, 8 de setembro de 2012

Pelo prazer de escrever


Há 10 dias estou em Barcelona. Ver uma cidade tão bem comunicada por metrô, trânsito tranquilo, vivenciando a medicina de família e comunidade em sua máxima potência me dá ganas de dar meus pitacos nas iminentes eleições municipais do Brasil. Mas não, hoje é sábado a noite, 22h, hora local. Talvez saia mais tarde, muito provável. Por ora, abri uma cervejinha (o litrão tá mais barato que no Brasil, dá-lhe crise da zona do Euro!), abri um Doritos tira-gosto, e pus Cole Porter pra rolar na vitrola (you tube). Oras, isso lá é momento de criticar governos ou dar lição de moral?
Ontem fui a um bar e sentei-me a uma mesa com gente do Brasil, Escócia, Inglaterra, Estados Unidos e França. Não consegui me sintonizar muito bem na conversa, com meu inglês enferrujado, e a cabeça meio chumbada do esquenta solo que tinha feito em casa. Tô aqui todo esse tempo só falando castellano (meia-boca); inglês com a música alta do bar não tava com nada.
O que salvou foi que a música alta do bar, que em dado momento era o “Quebra-cabeça” completo. Álbum antológico do Gabriel, o Pensador, presente em todas as casas brasileiras que tinham algum moleque nascido entre 1980 e 1990. Tenho muita facilidade pra dormir, mas me lembro claramente de uma noite, sei lá que idade tinha, em que no dia seguinte ia ao recém-falecido Play Center, (estamos ficando velhos, “Geração Play Center”!), fiquei a noite toda acordado de ansiedade e colocava pra tocar várias vezes seguidas a “Festa da música tupiniquim, que tá rolando aqui na rua Antonio Carlos Jobim...”, que era a musica  que eu mais gostava.
Claro que fiquei muito feliz ontem quando começou a tocar as músicas do quebra-cabeça; minha cabeça bêbada pensando: “nunca que quando escutei isso pela primeira vez imaginava que ia escutar as mesmas músicas num bar a trocentos quilômetros de distância, com gente do mundo todo, numa época em que to investindo na minha formação. Caramba (eufemismo), vou ser médico!”.
                
Se Barcelona estivesse no Brasil seria a melhor cidade do mundo. Moraria nela facilmente. Mas fica muito caro morar aqui e ir ver os amigos e entes queridos com certa frequência. Claro que se fosse no Brasil (provavelmente) nunca chegaria a ser a cidade que é, mas enfim. Penso que digo isso só porque é a primeira vez que fico tanto tempo sem ver ninguém que conheço. Durante todas as viagens e períodos da minha vida, eu tinha ao menos uma pessoa bem próxima ao lado. O máximo de dias que fiquei por conta própria foram dois. Êta saudade braba! Ainda mais pra um “facebookless” por opção, como eu.
 Mas é bom também, com o distanciamento conseguimos ver as coisas cotidianas através de uma perspectiva mais pura, sem influência alheia. “Pense por você mesmo”. É o quarto mandamento de uma série de 10, que escrevi numa cartolina que fixei na parede do meu quarto em Floripa. Estando aqui, isso não só é muito possível, como a única opção.
Como num período sabático, afora meu estágio com um grande mestre em comunicação clínica e entrevista motivacional, hoje, por exemplo, tive tempo de assistir (youtube, grande you tube!) uma palestra de quase 2 horas da Marilena Chauí, e quase terminei um livro do Valter Hugo Mãe, que achei que não ia conseguir terminar nunca (é muito bom, mas difícil), 190 páginas em mais de três meses. Talvez bata algum recorde com esse ritmo.
                
Can Cargol (Casa Caracol, em catalão) é o nome da república em que estou morando durante minha estadia por aqui. Pessoal alternativo, tem muito a agregar a um paulistano, morador do sul do país, acostumado a convenções e tecnologias facilitadoras (“nem sempre o mais fácil é o mais correto”– Mário Sérigo Cortella) . Vamos acampar em Menorca, uma das Ilhas Baleares, no fim do mês. Ah, e vou assistir a um jogo da Champeons League, além de participar de uma manifestação, próxima terça-feira, reclamando dos impostos abusivos que a Catalunha paga ao governo espanhol, e também reivindicar a independência, claro.
 Bom, a cerveja tá acabando, o teclado já tá bem lambuzado por causa dos dedos sujos de Doritos e saliva, e a noite barcelonesa está a espera. Hasta luego.

Barcelona, 08 de setembro de 2012

sábado, 25 de agosto de 2012

Novo episódio da eterna busca


Ultimamente anda me dando vontade de rever vários filmes, reler vários livros, reescutar vários discos e rever algumas pessoas. Anda parecendo-me que tudo o que temos que entender já nos foi apresentado, mas passou despercebido por termos os olhos, mente e coração destreinados. E mais: em última análise, tudo o que precisamos entender desenvolve-se a partir de nós mesmos, já somos o pacote completo, e as experiências e vivências, nosso manual de instrução. As vezes temos que ler alguns capítulos inúmeras vezes para entender o nosso funcionamento.
Achei muito interessante quando uma amiga recentemente me contou que acha ter acertado na escolha de fazer residência médica em pediatria, pois, diz ela, é incrível o quanto aprendemos com as crianças. Isso me fez até avaliar a análise de um filósofo e educador que gosto muito, Mário Sergio Cortella, quem diz (inclusive no título de um livro seu) que “Não nascemos prontos”. Ora, tudo na natureza, os demais elementos, funcionam de forma intuitiva, automática, pois não tem intelectualidade. Somos nós também parte da natureza, logo, nascemos sabendo o que fazer. Podemos não ter boa memória disso, mas no começo tinhamos muito mais certeza do que fazer. Crianças sabem o que fazer!  Sabem se divertir, sabem reclamar por alimento quando precisam, tem criatividade para resolver seus conflitos. Daí, somos inseridos numa sociedade que nos faz pensar e agir de forma pouco natural e quando chegamos à fase adulta, já perdemos todas essas capacidades infantis e achamos o máximo como agem as crianças e os velhos, esses últimos, depois de muito penar na fase adulta (a meia idade, que pode muito bem ser comparada a idade média, como situada historicamente, a fase da decadência, das trevas) voltam a entender como deveríamos ter levado a vida o tempo todo.
                
Em poucos dias embarco para Barcelona, é grande a expectativa. Mas...expectativa de quê? De que aconteçam muitas coisas? De que eu aprenda coisas que de outra forma não aprenderia, de que viva experiências que em outro lugar seria impossível? De que tudo seja uma grande festa, baderna, pessoas diferentes, sei lá, esperar de tudo um pouco. Mas e se não for nada disso? Pode ser tudo calmo e tranquilo, normal, e isso também pode ser muito bom. Pode ser que eu volte querendo assistir mais Woody Allen, lendo mais Tchekov e Cristovão Tezza, agindo exatamente da mesma forma, com as mesmas pessoas. E provavelmente isso é o que melhor tem a acontecer, independente da intensidade da viagem. Será preocupante se no final eu entender que devem acontecer mudanças drásticas na forma como levo a vida.

As mudanças tem de ser lentas e graduais. Conheço pessoas que mudam radicalmente depois de certa experiência, seja uma viagem, um relacionamento, algumas aulas, enfim. O resultado disso é que a pessoa se torna uma caricatura da projeção que tem do “ideal”, e fica eternamente à sombra de sua autêntica essência. Física e mentalmente perdida no tempo e espaço, é percebida desta forma por qualquer pessoa a sua volta, menos por ela mesma.
As viagens, as leituras, as canções, as vivências e convivências, são objetos de reflexão. É triste vivermos isso tudo com medo de errar. Erros e acertos são dois lados da mesma moeda. O que vale é a experiência. Isso não quer dizer que devemos ficar alegres se erramos o tempo todo. O erro por si só causa certo sofrimento, mas é bom na medida em que é um agente inevitável, companheiro ubíquo, que quando tratado da forma ideal (= corrigido), serve como motor evolutivo. Seguiremos errando em alguma medida (que bom!).
Pois bem, só erra ou acerta que sai do lugar. E sair do lugar não implica necessariamente em fazer grandes viagens. É um pouco sobre tudo o que diz um famoso poema de Edson Marques, mas atribuído a Clarisse Lispector (como quase toda citação descontextualizada) chamado “Mude”. http://www.artelivre.net/html/literatura/al_literatura_edson_marques.htm

Ademais, é um pouco triste pensar que nos tempos atuais, a curiosidade, um dos maiores gatilhos na busca de novas verdades, esteja direcionada a coisas tão pequenas, como pormenores (e na maioria das vezes, depreciativos) da vida alheia, o que não costuma agregar nada a ninguém. Seria interessante se as pessoas tivessem um pouco mais de curiosidade sobre qual o papel que lhes cabe no mundo, e desta forma, como costumava dizer outro grande filósofo, Jorge Angel Livraga, deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos.
                 
Esta investigação é eterna e mutável. Barcelona: o próximo episódio da minha.

domingo, 12 de agosto de 2012

Lições Olímpicas


Pois bem, os Jogos Olímpicos de Londres chegaram ao fim. Esqueçamos o quadro de medalhas, se o usarmos como instrumento de análise, teremos de lançar mão a várias variáveis e um turbilhão de explicações/subterfúgios possíveis não vão ajudar a mascaram o óbvio: que somos uma nação constituída em sua maioria por pessoas mentalmente desequilibradas (“pipoqueiros”, mesmo).
Os competidores brasileiros são apenas um reflexo de como age toda a nação em seu cotidiano. Culpá-los pelo fracasso é como xingar o cobrador do ônibus pelo preço da passagem ou pela qualidade da frota viária. Quantas vezes as equipes ou atletas brasileiros tiveram a chance de vencer, mas por um revés no meio da partida, não tiveram a capacidade de reverter a situação? Nossa capacidade de reação frente a adversidades é quase nula, só conseguimos nos dar bem quando a situação é extremamente favorável.
                
Alguém realmente acha que se o momento não fosse bom, Lula teria sido um bom governante? Qual a educação que ele recebeu para isso? (Veja, não estou falando sobre ter ou não ter ensino superior). Seja qual for a vocação de uma pessoa, seja ela a de liderança ou de conduzir bem uma bola de futebol, ela tem de ser amparada pelo bom desenvolvimento dos potenciais latentes do ser humano. Estou falando de atenção, concentração, inteligência (física, intelectual e EMOCIONAL), criatividade, entre tantos outros.
A educação tal qual a concebemos atualmente nas escolas está muito longe de nos ensinar essas coisas. E nem mesmo esta que aí está recebe os investimentos adequados.Para isso, há de se mudar urgentemente a noção de progresso que hoje está em voga. Conceito este que está intimamente atrelado ao poder financeiro e ao consumismo (é para isso que as pessoas se preparam: para saber aquilo que lhes dará mais dinheiro). De que adianta dizer agora que a maioria da população brasileira é pertencente a classe média, se o principal índice objetivo disso é o aumento estratosférico de pessoas obesas, sobretudo as crianças?
Colocar dinheiro na mão de pessoas mal-educadas (de acordo com o conceito supracitado, independente da classe social) é totalmente contraproducente. Quanto mais dinheiro, mais se gasta, e apenas com “bens” de consumo. O resultado é uma nação composta por famílias mal estruturadas, ora sem a mínima condição, nem para nutrir a prole, ora com filhos obesos, que literalmente cagam e andam para o que deve realmente ser feito, e que, no máximo, ajudam a manter nosso “status” de nação com mais horas por mês nas redes sociais (belo título, hein!).
                
Alias, como escreveu certa vez Carlos Heitor Cony: “Sem poupar a verdade, a honra alheia, a decência mínima que todo o cidadão deve cultivar, a internet está servindo como cloaca de ressentimentos, inveja, calúnias, impotência existencial, fracassos profissionais, constituindo-se numa mídia clandestina e irresponsável, onde vale tudo.” Certamente não é neste meio que encontraremos a educação necessária para mudar alguma coisa.
Não tenho dúvidas de que existem pessoas muito boas, que enxergam todo o cenário, mas como disse Martin Luther King: “Para que o mal vença, basta que as pessoas boas não façam nada” e o que eu vejo ao meu redor é exatamente isso, nem mais nem menos. Pessoas realmente boas, que dizem saber o que é certo fazer, mas não fazem nada. Daí, um ou outro posta uma charge (tem de ser charge, porque se for texto ninguém presta atenção) falando sobre alguma corrupção do governo no Facebook, e acha que está fazendo seu dever como cidadão, sem se dar conta de que ele mesmo já está corrompido há tempos. Não me excluo do contexto, mas estou tentando.

“Sou brasileiro, não desisto nunca” (?). Mal conseguimos reconhecer que a renúncia é um dos nossos maiores vícios. Entre atletas e obesos, se continuar do jeito que está, seguiremos "pipocando na missão".

sábado, 4 de agosto de 2012

De plantão na escrita (sexta-noturno/ 3º horário)


(Antes de tudo: parabéns, minha amiga Camilinha, aproveite muito seu dia)

Acabei de chegar da festa Junina (força de expressão) da 07.2, minha turma de medicina que está há menos de um ano da formatura. Pra ser mais exato, acabei de chegar do HU, depois do March e Guigo terem suturado a perna do Thiagão, que num golpe de azar e desatenção canelou um certo desnível lá na ACM.
Não sei o porquê dessa necessidade de escrever, mas agora tenho sentimentos muito bons, e compartilhá-los não vai fazer mal a mim nem a ninguém.
 Hoje me emocionei ao ouvir dois grandes amigos e grandes seres humanos, Ricardo (Repolho) e Ronaldo, levantando a hipótese de serem médicos de família. São, acima de tudo, caras de uma inteligência ímpar, e pessoas de um caráter irretocável, que não precisam provar nada pra ninguém, e que me fizeram ganhar a noite pela simples possibilidade de investirem numa causa que eu há algum tempo aprendi a acreditar: a Medicina de Família e Comunidade.
Sinto-me bem por estar em casa e não estar muito bêbado depois de uma festa. Sinto-me bem pelos abraços e palavras sinceras que troquei hoje. Sinto-me bem por saber que serão poucas as pessoas que lerão esse texto; não pelo número em si, mas por saber que as que ainda acessam este espaço são as que saberão entender um pouco melhor as coisas que escrevo e suas razões de ser.
Hoje fechei de fazer dois plantões no feriado de novembro em troca de uma grana que me possibilitará pagar três meses de prestação da Kombi que a galera da Rep (Real República Tcheca) tá comprando (alias, ideia de quem? Né não, Julio!), e eu to fazendo questão de ajudar. Só fico imaginando as festas e viagens com ela, pô...vai ser "Stronda"!
Toda vez que saio pra festa lembro-me da galera da Rep, não tem jeito. Fico uns dias sem ver e sinto saudade como se fosse da minha família, que, alias, nesses dias ando sentindo bastante falta. O Pingo tá doente, a Vó Teresa morreu...as vezes o telefone não é suficiente.
 Por falar nisso, esses dias tentei ligar pro Kendi, pra ver se ele anda acompanhando o Palmeiras, e não consegui. Ê muleque que faz falta...do mesmo jeito que o Mestre, o Castor e o Mek, que faz tempo que não vejo. Do Gui não preciso falar, é hours concours.
 De qualquer jeito, não deixo de aparecer na rep, afinal, naquele lugar não tem bode nem tristeza. Não a toa que eu e o Fer ficamos até as 6h da manhã no meio da semana tomando cerveja (será essa a hora de parar, Vitor? Hehe) e ouvindo samba, falando de Tarantino a Chico, na companhia do Whisky, que ridiculamente quis dormir as 3h40.
É, o Joãozinho vai mesmo vir morar comigo e com o André, que noticia boa! Por essa e por outras fico pensando o tempo todo que tenho muita sorte. Mas não posso jogar a responsabilidade para o acaso. Tudo na vida tem uma causa, às vezes o que acontece é que a gente não consegue enxergá-la. E ainda perdemos a chance de tentar aprender com nossos acertos, dizendo que foi tudo uma casualidade. É, ou não é, Marcus?
Acho que tenho estado na hora certa e no lugar certo. Isso inclui estar sentado escrevendo às 4h da manhã, estar amanhã no plantão da cirúrgica, correndo com o Chami ou o Cauê no domingo a tarde, ou, como disse o Ronaldo hoje, imaginando estarmos nós todos, incluindo ele, eu, Repolho e o grande mestre Paulo Poli, lutando por um mesmo ideal. 

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.