segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sobre o valor de pessoas e palavras

Dona Terezinha sentiu fortes dores abdominais seguidas de vômitos, foi levada ao hospital, onde lhe apertaram a barriga, tiraram sangue, raio-x, depois disseram-lhe que tinha de operar. Quando menos esperava tinha uma máscara no rosto e alguém dizendo que ia ser “só uma espetadinha” e então dormiria tranquila.
Acordou num quarto do hospital com o marido de um lado e três pacientes nas outras camas espalhadas pelo ambiente. Continuava sentindo dores, que um doutor veio lhe dizer pela manhã que logo passaria. Não só não passou como somou-se a uma febre, mais agulhas, mais dor, um aparelhinho que escorre gel pela barriga e lá estava ela com a máscara no rosto e alguém lhe dizendo que ia dormir.

Desta vez quando acordou ainda estava com uma máscara no rosto, mas não tinha dor. Tudo ficou meio nebuloso, viu o marido de jaleco branco, grama no teto e vozes lhe cochichando. Perdeu completamente a noção do tempo.
A próxima lembrança é uma conversa com outro senhor de jaleco branco, lhe dizendo “A senhora tem 2 anos de vida”. Depois disso, casa.

De concreto, Dona Terezinha tinha agora uma concha de retalhos na barriga e a certeza da hora da partida. Além disso uma pilha de remédios que em pouco tempo decorou como tinha de tomar, fraqueza, falta de ar, um marido calado e tabagista pesado.
Os dias se arrastaram e Dona Terezinha desenvolveu uma mistura de medo, vergonha e incapacidade de dividir com qualquer pessoa a ideia de sua morte marcada. O marido, se se lembrava ou sabia, nada dizia; os demais, ela preferia poupar.
Sobre o veredicto não havia dúvidas. Dona Terezinha sabia bem que era “Deus no céu, e os doutores na Terra”, não haveriam de errar. E como Deus sabe o que faz, não poderia ela entregar-se. Viver dignamente o resto dos dias era o que lhe restava.
Tomava os remédios corretamente, dava conta dos afazeres domésticos, assistia televisão e sentia dores. Ademais, crescia-lhe apenas a curiosidade de como seria o fatídico dia. Sentiria uma dor terrível? Onde? No peito provavelmente. Ou morreria dormindo? Viria uma senhora de capuz negro e foice na mão? Um menino de cabelos cacheados e auréola? Ninguém? Ficaria tudo preto? Ou branco?

Dona Terezinha arrastou os 2 anos com o chinelo e uma barriga que crescia e doía lenta e progressivamente. Ficou mais pesada e calada. Sua segunda maior dúvida era qual roupa vestir para a morte. Escolheu um vestido velho, mas confortável. “Quanto menos sofrer, melhor”. Chegado o dia, ficou bastante ansiosa, o coração acelerou, passou o dia com dores de cabeça, e para completar, estava gripada, com o nariz a lhe escorrer o tempo todo. O marido, se sabia de algo, limitou-se a fumar meio maço de cigarros a mais.
Por convenção própria, imaginou que seria meia-noite. Pôs o vestido, sentou-se na poltrona da sala. Apenas para disfarçar, ligou a televisão em volume baixo. Repousou as mãos sobre o peito, sentindo as batidas do coração, e esperou.

Uma semana depois fui chamado a fazer uma visita domiciliar à Dona Terezinha, que se dizia extremamente frustrada e aborrecida com a morte. Além de muito brava, não tinha fôlego para ir da sala à cozinha. Uma enorme barriga toda remendada, pernas inchadas, olhos amarelos, e o marido pigarreando.
Estávamos eu, a enfermeira e uma técnica de enfermagem. Quando saímos da casa, os olhares e palavras que não trocamos somaram-se as percepções quanto a vida, a morte, a medicina, o valor das pessoas, e das coisas que dizemos.
Estava tudo embaralhado.

domingo, 13 de abril de 2014

Poderosas armas humanas

Um grande ser humano certa vez disse: “há pessoas que sentem a chuva, outras apenas se molham”. Puxa, dá pra aprender tanta coisa nessa vida! “Seiscentos anos de estudo, ou seis segundos de atenção?”

Lá em Sombrio eu atendia uma média de 25 a 30 pessoas por dia. E a coisa que eu mais tinha de escrever era a data nos receituários. Isso me fazia ver o tempo passando. E passava rápido, porque o trabalho era bom. Nada (ou quase nada) era automático e cada consulta uma oportunidade nova de aprender e ensinar.

 Conheci o verdadeiro poder da vontade, poder esse que pode passar desapercebido por toda uma vida, sem nem desconfiar que temos. Pacientes que chegaram a mim fumando 60 cigarros por dia e, mesmo em meio a conturbados contextos familiares, conseguiram parar de fumar. Os que emagreceram da forma correta, as que tiveram coragem de largar o emprego, as que se deram chance a novos relacionamentos após os 50 ou 60 anos. Os que entenderam que as coisas são como são, e não como a gente quer. Mas mesmo assim, há coisas que dependem da gente, e outras não.

Por trás disso tudo, eu entendi que de tudo o que eu fazia, aquilo que mais ajudava, o que mais fazia sentido e diferença, não dependia de eu ser ou não ser médico. As pessoas podem ajudar a mudar a vida umas das outras a qualquer momento.         

 
O fato de você desejar bom dia, apertar com vontade a mão de quem lhe responde, sorrir e olhar diretamente nos olhos pode causar um impacto extremamente positivo. Mostrar interesse e atenção é fundamental, mas até aí nenhuma grande novidade. Conheci duas grandes armas que mudam o dia, e talvez a vida das pessoas com quem a gente convive, e como expus, não precisa ser médico para usar.

Trata-se da capacidade de elogiar e de confiar. Experimente. Veja, quando, seja de forma particular ou pública, você elogia alguém. Ressalta suas virtudes, diz-lhe o quão importante ela é para os outros, para si, e para ti. Mostre pra ela quantas pequenas boas coisas ela faz durante o dia, e durante a vida, mas que passam desapercebidas pois o foco está sempre voltado para qualquer outra coisa.

Pegue todas essas virtudes, e deposite sua confiança nelas. Olhe fundo nos olhos e diga “Você é um pessoa muito boa, gosto de você e confio em você. Vai fundo que eu tenho certeza que você consegue.” Ou ainda “Vamos conseguir juntos”.

Não tenha medo de se aproximar das pessoas, é possível ser afetuoso de forma muito respeitosa em qualquer relação. A medicina nada mais é do que uma relação interpessoal dentro de um contexto. Não é possível realmente fazer a diferença na vida de alguém sem envolver-se com ela.

 
Se, no fundo, você imagina que alguma pessoa não tem absolutamente nenhuma virtude (o que só pode ser uma ilusão, e nos iludimos com frequência) tente pensar não no que a pessoa é, mas sim no que ela pode vir a ser. Gosto de pensar assim com relação ao mundo: Não aprecio muito o jeito em que ele se encontra, mas gosto muito do jeito que eu imagino que ele possa vir a ser. E por isso faço questão de trata-lo bem, e tentar melhorá-lo a cada dia, tendo em mente que melhorá-lo é melhorar a mim e ajudar os outros a fazer o mesmo.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Rota de fuga

Vivemos um momento muito peculiar.
                
Não há a menor coerência entre aquilo que se pensa, aquilo que se diz, e aquilo que se faz. As pessoas pensam X, e acordam para viver Y. E de uns tempos pra cá, “ganharam” a chance de dizer W.
Todos querem um mundo melhor, mas ninguém age de acordo. É impossível um mundo melhor com os sonhos e objetivos traçados pela grande maioria. De idealistas o mundo está cheio, falta compromisso.
Ninguém mais vive de forma autêntica. Todos (ou quase todos) vivem para alcançar alguma coisa que parece interessante aos olhos de alguém. Todos querem ser reconhecidos, todos querem ser amados.
O mundo está abarrotado, como diz Milton Nascimento, de pessoas que “não vivem, apenas aguentam”, ou nas palavras de Mick Hucknall “for the poor, no time to be thinking, they are too busy finding ways.” Pois bem, aos que cabe fazer alguma coisa, nada fazem.              Particularmente, me soa muito triste, talvez até maldade, pessoas que tiveram uma boa “educação”, ou ao menos uma posição privilegiada no que tange a compreensão do mundo, terem objetivos tão individualistas. Minha geração definitivamente não vai resolver nada. Estamos cavando (com gosto) a jazida de qualquer vestígio de processo civilizatório, de humanidade.
                
As metas de vida traçadas tem por direção 180 graus contrárias àquilo que é necessário para um mundo melhor. Defendem uma saúde melhor para todos, mas as atitudes e escolhas visam apenas os que podem pagar caro. Defendem o combate a violência, mas são extremamente excludentes e preconceituosos (aberta ou veladamente, até mesmo com piadinhas “inocentes”) contra negros, homossexuais, e outras “minorias”. Defendem uma melhor educação, mas na parte que lhes cabe, dentro de casa, perpetuam o pensamento do que é MEU, do poder, do “quanto mais excludente o meu saber, minha compra, meus bens, mais destaque terei”.
Ora, em nossa sociedade democrática, tudo isso e possível. E aí estamos, no mundo totalmente desarticulado, onde a maior confusão é entre meios e fins. Uma casa é um meio para ter algum descanso e conforto, um carro é um meio de transporte, internet é meio de comunicação.
 “Preciso ganhar sei lá quantos mil reais pra ter uma boa casa, pra ter um bom carro, pra ter um computador, e na internet postar fotos da minha casona, e do meu carrão, e da minha grande viagem, e da minha namorada peituda, que está comigo porque eu tenho uma casona, um carrão, e porque faço grandes viagens...”
Uma foto do cassino, uma da peituda, e o próximo post é “Dilma incompetente”, ou qualquer outro palpite dispensável. Não por estar certo ou errado, mas simplesmente pela incoerência. Atreve-se o sujeito a opinar sobre hepatologia? Sobre termodinâmica? Botânica, ou escalas melódicas e pentatônicas? Política é um ramo do saber como outro qualquer. Se elegemos qualquer um apenas porque fala bem ou parece bem intencionado, isso é uma falha do nosso sistema, (educacional, inclusive e sobretudo) e bem grave.
                
Pois bem, de maneira mais intimista: trata-se no fundo, uma rota de fuga, essa tal de internet, né?! Pois pensamos uma coisa (X), vivemos outra (Y), que não tem nada a ver. Mas podemos fingir. E podemos chamar essa farsa de W.


Como ecoa esse W...

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Outro conto de Natal


                Acordou ressaqueado e era véspera de Natal. Não se lembrava de nada; observando o ambiente ao redor, movendo o mínimo de músculos possível, foi lembrando aos poucos dos fatos que não dependiam da noite anterior: 61 anos, aposentado, divorciado (duas vezes), e até então, aliás até onde sabia, ainda não havia herdeiros a quem delegasse o legado de nossa miséria. Do rádio-relógio que deveria estar tocando sozinho há boas horas saia Feliz Navidad de um coral infantil. Foi à geladeira e pegou uma Long Neck para acabar um pouco com a dor de cabeça.

                Há tempos em que sentia-se na obrigação de não dar satisfações a ninguém, nem a ele mesmo, de forma que não se importou tanto com o fato de não se recordar dos eventos recentes. Da varanda do seu esconderijo do milésimo andar de um edifício do Morumbi, criou o hábito de observar, a la James Stewart, a vida secreta da favela fronteiriça com o muro de seu condomínio.

                Sua vizinha-personagem favorita estava recolhendo roupas do varal. Mãe de três filhos, já a vira estendendo aquelas mesmas roupas inúmeras vezes, algumas delas tragando um baseado, enquanto o marido trabalhava e as crianças estavam na escola. Ele mesmo, em solidariedade, e para sentir-se de alguma forma conectado com aquela mulher, também acendia um.

                Nessas horas lembrava da cena repetida toda manhã: A mãe levando os filhos até o portão, onde passava outra mãe com uma dúzia de crianças, a conduzi-las a escola. Dava uma última ajeitada na roupa de um, uma penteada nos cabelos de outro, as vezes alguma presumível bronca, beijava os três, que seguiam com as mochilinhas pesadas: cadernos e livros que tinham a mesma função social de um tijolo. Ele olhava aquilo e pensava não só no que via através da sacada, mas dentro dela também.

                Deixou-se estar ali e já na quarta long neck, quando a ressaca se revertia em porre outra vez, teve uma ideia, que lhe soou despretensiosa e brilhante. Na cidade que nunca para, os shoppings ficam abertos até as 18h na véspera de Natal. Dirigiu(-se) ao mais próximo e estourou o cartão de crédito em brinquedos e uma fantasia de papai Noel. Seria o bom velhinho dos filhos da mulher dos varais.

               
                Perto da meia-noite trajou-se de vermelho e barba branca postiça. Olhou no espelho e se sentiu ridículo, na verdade envergonhado. Nada que uma dose dupla de Jack Daniels não resolvesse. Ligou o rádio “And so this is Christmas, and what have you done?”...mais uma dose…”quem seja feliz quem souber o que é o bem”, meia dose, outra olhada no espelho, uma lágrima...”marcas do que se foi, sonhos que vamos ter, como um novo dia nasce, novo em cada amanhecer”...mais duas doses, uma de whisky e outra de coragem. Botou o saco nas costas, e saiu pela porta.

                Dizem que foi o natal mais incrível não só das crianças, mas também dos adultos de todo o  bairro vizinho. Dizem também que houve um papai Noel encontrado desacordado em cima de uns sacos de lixo numa rua próxima. Dizem que um papai Noel fez o melhor discurso sobre o amor e sobre o espírito natalino numa praça daquela região. Dizem que papai Noel não existe.
                Dizem também que foi a primeira vez em que o Papai Noel foi visto descendo das alturas não de trenó, mas de um elevador panorâmico.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Obrigado, São Judas Tadeu

Hoje é dia de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis. Era pra ele que eu rezava quando queria passar no vestibular. Antes de começar as provas, lia a oração. Algumas vezes os fiscais de prova iam ver do que se tratava aquele papelzinho, que mais parecia uma cola.
O resultado do vestibular saiu dia 28/12/2006, todo dia 28 se comemora o dia de São Judas. Coincidência? Logo saiu o resultado, atravessei a cidade de São Paulo junto a meu pai e minha irmã (minha mãe estava fazendo compras na 25 de março) rumo a igreja de São Judas. Lá agradeci muito e jurei que voltaria ao menos uma vez por ano. Não cumpri. Que seria de nós se os santos resolvessem vingar-se pelas promessas não cumpridas? Melhor sempre apelar pra São Longuinho que fica mais fácil.
                
Mesmo assim tenho a impressão que São Judas está feliz comigo. Aconteceu tanta coisa nesses últimos 7 anos! “Temos que viver o que temos que viver, viveremos plenamente em qualquer lugar, e fazer da vida o livro que sempre quisemos ler.” São Judas deve estar feliz porque sabe que eu não tive que ir até sua igreja para estar com ele.
Deve estar mais feliz ainda por saber que talvez eu entenda que ele é na verdade mais uma das tantas representações daquilo que todos nós devemos procurar acumular, aliás as únicas coisas dignas de real acúmulo: Conhecimento e sentimentos bons. O resto é provisório.
                
Aqui em Sombrio hoje faz Sol, é segunda-feira, mas é feriado (dia do servidor público), sou médico, toco violão e gosto de escrever. Faço filosofia, tenho muitos amigos e uma família sensacional. Também existem problemas, que ajudam a entender coisas e crescer. A maré tá boa, então vamos pegar carona.
E pra quem ainda não entendeu, é tudo nosso, tudo de todo mundo. Tudo! Empresto as palavras de outro mestre, e agradeço mais um dia. Obrigado, São Judas Tadeu!

“You may say I’m a dreamer, but I’m not the only one. I hope someday you'll join us, and the world will live as one” (John Lennon).

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Trintões

É bom chegar numa determinada etapa da vida e se sentir bem relacionado. Não me refiro a conhecer pessoas importantes, e sim ter grandes amigos, ou pelo menos relações muito sinceras (o que no fundo quer dizer “pessoas importantes”). Mais do que isso, percebe que a coisa virou atemporal (em amplo sentido): tenho amigo de menos de 20 e mais de 50 anos. Dentre eles, há uma turma que abandonou a velha escola, toma o mundo feito coca-cola e, não sei se por coincidência, estão chegando juntos aos 30.
Esqueçam as canções. “Meus vinte anos de boy, that’s over baby”? “Tenho 25 anos de puro sangue e América do sul”? “não abro mão nem por você nem por ninguém, quero mais saber dos meus 20 e poucos anos”? Eles sim serão os autênticos trintões; tenho certeza de que ao badalar das 0h irão dizer “preparem-se, que o melhor vai começar”.      

Inesquecível ser acordado as 5h da manhã com o convite “vem beber na Rep, é um desafio, tem cerveja infinita”, ou no meio da madrugada, no auge da bebedeira, receber um tercinho da avó, como prova de coisas que até um “chacoalho” provariam. Presenciar e ajudar a quebrar cadeira, impressora, garrafas, copos e afins num momento de total vandalismo foi uma das coisas mais cheias de significado das quais já participei. E pô, “a gente acabou de se conhecer, mas você não me empresta uma...”. Encho esta página e mais um calhamaço de bater Senhor dos Anéis, e não conto tudo de engraçado, bizarro e muito feliz que passamos juntos.
                
Das mais profundas conversas às maiores idiotices (essas muito mais numerosas que aquelas), a vontade que dá é dizer ao mundo: orbitem ao redor desses caras, que tudo vai ser melhor, a viagem vai ser muito mais divertida, ao som de Elvis, Elis, Pato Fu e algo que valha mais que 300 reais. Nesta viagem já embarquei, e como costumo dizer, há viagens que começam e nunca terminam.
                
Mas só responde: “Foi a cerveja ou a mordida?”


Dedicado a Julio, Gabriel, Negão e Cris (Menção honrosa ao Gui, que não chegou aos 30 mas é como se tivesse chegado, huahua).

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Discurso de formatura

Um dia é sempre chegada a hora, e hoje chegou talvez a mais importante delas. Quando digo isso, não é pelo fato de termos colado grau e (pode ainda não parecer, mas) sermos oficialmente médicos. Digo isso porque hoje se encerra o que provavelmente foram os melhores anos das nossas vidas.
 Foram seis anos que mudaram completamente nossa capacidade de interagir com o mundo.  A medicina certamente tem grande parcela nisso, mas foram experiências únicas e intransferíveis, que por força não do acaso, mas do mérito do que nós vivemos juntos,  que vão nos dizer como conduzir nossas vidas daqui pra frente. 
 Foi um aprendizado intenso, numa época da vida muito suscetível a tudo. Acaba que o compartilhamento dessas experiências gera uma carga afetiva muito grande entre nós, a ponto de chegarmos agora, olharmos pras pessoas ao lado, e que alguns anos atrás não tinham nada a ver com sua vida, e querer dizer: eu gostaria de ter você por perto de mim pra sempre. Mas não é assim que a vida funciona.
Dentro da Universidade, ao longo desses anos, assumimos distintos papéis. Entramos aqui calouros, nos tornarmos veteranos. E fomos pesquisadores, monitores, bolsistas, estagiários, organizadores de eventos científicos e de eventos nem tão científicos assim... E fomos até palhaços, fomos cobaias dos amigos. Fomos mágicos, fomos padres com balões, jogadores de futebol americano, líderes de torcida. Fomos alunos, aprendizes, acadêmicos, doutorandos. E de tudo aquilo que fomos, ao olhar para trás hoje, percebemos que o mais importante é aquilo que não entra em currículo lattes algum: fomos muito felizes!
 É bem provável que amanhã no baile, seja a última vez que alguns de nós nos vejamos. Mas isso não deve ser encarado com fatalismo, ou como um problema. Temos sorte de viver numa época em que a comunicação é muito fácil, então embora nossas escolhas nos levem a lugares distintos, as grandes amizades continuarão. O grande problema, esse sim, inescapável, é a saudade. Todo mundo já sentiu, mas dessa vez podem ter certeza vai ser muito ruim, não tem o que fazer, mas vai passar.

Quando a saudade bate, engraçado como a gente acaba sentindo falta daquilo que é mais sutil... os tais pequenos momentos do dia-a-dia, que por estarem tão presos a sua rotina, dão a impressão de que não irão acabar nunca.
Por exemplo, os longos intervalos que passávamos entre as aulas jogando conversa fora no bar do CCS, a fila do RU, o café na Videoteca, os torneios de Poker, os churrascos na ACM.
Sentiremos saudade até daquele desespero coletivo que motivava virar as noites com os colegas antes das provas, daquelas tardes intermináveis no anatômico, de ir para a praia depois da faculdade.
Sentiremos saudade de fazer fantasias em grupo, de montar maquete para o AVG e de gastar um bom tempo ensaiando um teatro ou uma atividade educativa no Posto. Sentiremos saudade de ter “um bom tempo” disponível.
Sentiremos saudade de fazer plantão com a nossa dupla, de dividir barraca no Intermed, das rodinhas de violão, das fogueiras de festa junina.
Sentiremos saudade inclusive dos pais e mães adotivos que tivemos por todo esse Brasil: foram muitos colchões espalhados no chão em Cascavel, em Sombrio, em Curitibanos, em Aracaju, em Blumenau, em Goiânia, em Natal, em São Paulo, em Tibagi, em Balneário Camboriu, em Curitiba... e até em Biguaçu.
E de repente, tudo acaba. Cada um vai para um lado, cada um passa em uma prova... (outra prova!). Alguém vai casar. Alguém vai engravidar. E vamos virar padrinhos dos filhos dos amigos. E vamos virar padrinhos de casamento. Vamos sonhar em marcar um novo encontro, mas nem sempre as agendas vão bater. Vamos enfim, virar adultos de verdade... mas que, a cada encontro, tornar-se-ão novamente aqueles adolescentes cheios de sonhos e expectativas. Vamos sentir orgulho ao perceber que cada um seguiu o seu caminho e por exercer o seu talento com dedicação, brilha. Temos um orgulho enorme da nossa turma.

E é impressionante perceber o quanto a gente mudou. E apesar disso, reconhecer que o mais importante permaneceu, que é o caráter, e que isso, a gente trouxe de casa. Aliás, uma das coisas mais importantes que a gente percebe nesses anos, é que, todas as relações, todos os laços que a gente cria durante a faculdade, servem, sobretudo pra nos fazer entender o quão imensurável e incomparável é amor que tem por nós os nossos pais e as nossas mães.
 É provável que só entendamos a intensidade desse sentimento quando formos nós mesmos os pais e as mães. Por ora, como não conseguimos imaginar palavras que expressassem o tamanho da nossa gratidão, o que podemos dizer é apenas que, para aqueles de nós que desejaremos ser pais e mães, que consigamos seguir ao máximo o exemplo de vocês, e quem sabe um dia possamos estar aí, onde vocês estão agora, comemorando uma vitória como essa.

Doutores e doutoras, mas agora somos médicos. E não foi a outorga de grau realizada há poucos minutos que nos define como tal. Claro que pra efeitos legais sim, mas é que o que nos define como médicos é algo que vai muito além do título. Também não são as habilidades técnicas que adquirimos durante o curso, a capacidade de analisar imagens, números, elaborar raciocínios complexos, apesar disso tudo ser fundamental para o bom exercício da profissão.
O que melhor nos define como médicos é o desejo profundo e o interesse sincero em cuidar de pessoas. O que move o verdadeiro médico é a compaixão. Dominar o conhecimento, porém fazer a diferença na vida de seus pacientes... este é o desafio, colegas, com o qual nos deparamos a partir de agora.
No fundo, o que viemos fazer aqui foi buscar as ferramentas e desenvolver as capacidades necessárias pra que possamos cumprir da melhor maneira essa nossa vocação, pois infelizmente para ser médico não bastam boas intenções.
E é certo que aqui as encontramos. Aqui tivemos grandes mestres e orientadores. Os exemplos práticos de nossos professores permitiram-nos compreender que nunca existirá na Medicina o último livro a ser estudado, o último artigo a ser lido. Estudamos muito para entrar nessa Universidade. E estudamos muito para sair dessa Universidade. Portanto vamos embora daqui, hoje, com o compromisso de continuar estudando. Não temos a obrigação de saber tudo, mas temos sim a obrigação de admitir que, por não saber tudo, é necessário sempre pesquisar e se manter atualizado dentro desta ciência de evolução constante.
Sairemos daqui para sermos médicos nos lugares mais diversos imagináveis... mas levaremos todos, em comum, um diploma com um emblema desenhado no canto, aonde se lê “Universidade Federal de Santa Catarina”. Não esqueçamos disso! Afinal, não é porque tenhamos nos formado que iremos deixar de lado aquele grito de guerra que tantas vezes cantamos em voz alta “Eu amo essa escola e o nome dela eu vou dizer”. Honrar o nome da Escola também é agir, diariamente, dentro dos preceitos de ética e moral que aqui nos foram ensinados...

Pra finalizar gostaria de lembrar uma situação do início do curso, quando estava uma pequena parte da turma em aula prática, frente a uma paciente. Naquela época nós sabíamos muito pouco sobre diagnóstico e tratamento das doenças. Mal sabíamos como direcionar as perguntar, de forma que o que pudemos oferecer foram coisas simples, como atenção, cordialidade, empatia e bom-senso. Ao final da consulta, a olhos destreinados poderia parecer que objetivamente nós não havíamos resolvido nada daquela paciente. Mesmo assim, ela se levantou com um sorriso no rosto, fez questão de abraçar cada um, agradeceu muito, e nos desejou boa sorte. Ali nós começávamos a entender o que é a medicina.
 Logo depois, quando estávamos sozinhos, éramos nós que não conseguíamos esconder o sorriso do rosto, e foi quando um de nós falou: “Nossa, imagina quando a gente souber alguma coisa, e estivermos soltos aí pelo mundo, quanta coisa boa a gente não vai conseguir fazer!”. Pois, pessoal, parece que chegou a hora.
Muito obrigado.

Maíra Luciana Marconcini
Pedro Mendonça de Oliveira

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.