Porco, um grande amigo da época de colégio, abriu um restaurante na Vila Jaguara, em localização suspeita: poucos metros do restaurante do próprio pai. Aliás, o motivo de tal localização foi um dos grandes assuntos entre mim e meus amigos, que em dado sábado, fomos provar a recomendadíssima feijoada de lá, tomar umas cervejinhas, caipirinhas, cachacinhas, e prestigiar nosso mais novo amigo-empreendedor.
Estavámos lá, Brunão, Digão, Guigas, Caião, Égon, Betinho, eu e o próprio Porco, relembrando os causos de outrora. Em meio a muito torresmo, couve com bacon e farofa, vieram histórias antológicas, protagonizadas por garotos que à época planejavam sei lá o que, se é que planejavam alguma coisa; apenas jogavam futebol com latinha de refrigerante amassada no recreio e agora, de repente, estão se formando médicos, engenheiros, economistas, abrindo restaurantes, dirigindo caminhões, casando, tendo filhos, sendo presos, entre outras atividades não convencionais.
Muito papo furado, muita risada, e num estalo a constatação: “Faz sete anos que a gente se formou!”. Isso não foi dito na roda, foi uma constatação interna, não ia atrapalhar uma narração empolgante sobre um episódio da viagem de formatura de Porto Seguro, seria um desperdício de história. Mas o fato é que muita coisa mudou de lá pra cá.
Uns com muito peso, outros com muita grana, ouvimos até um “agora sou rico e tenho um carrão”, e todos com uma bagagem e tanto nas costas. Apesar dos monotemas e pluritemas de praxe, passado um breve período pós-prandial a turma começou a se dispersar: um foi jogar seu sagrado futebol de sábado, outro pro escritório, outro ainda encontrar a namorada; acabamos que só ficamos Digão, o Porco e eu, enturmando vez ou outra com o restante das demais pessoas freqüentadoras do restaurante.
Depois de perdida a conta das garrafas de cerveja e algumas caipirinhas o papo começou a ficar mais filosófico, e o Porco percebeu isso de forma peculiar: “O papo tá muito sério, cêis não conseguem administrar a cerveja no tulipa, tá esquentando toda vez, vou trocar por copos americanos”. E assim procedeu.
O papo era mesmo sério, estamos ficando velhos. As expectativas aumentam, as responsabilidades aumentam, e muitas perguntas batem na cara. Compromisso sério ou Carnaval? Excesso ou falta de trabalho? Novidades ou mesmices? Mais jovens ou mais velhos? Muitos ou poucos amigos? Lembrar ou esquecer? Encarar ou evitar? Focar, expandir, distorcer? Ambição ou resignação? Esforço ou naturalidade? Simplicidade ou complexidade?
Como disse o Nico, outro grande amigo meu, se fosse simples, não haveria tantas perguntas complexas.
Não há nada pior do que dar-se conta de que uma oportunidade passou. É muito difícil entendermos as coisas enquanto estamos passando por elas, mas a constatação óbvia é que cada vez mais estamos por nossa conta, não há como voltar e cada vez menos a quem apelar.
A vida vai passando e há de se decidir o tamanho dos goles que vamos nos servir dela. E aí? Tulipa ou copo americano?
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Felicidade - Produto adulterado
Se você perguntar a alguém “O que é felicidade?” a resposta será, quase sempre, alguma variação de “são pequenos momentos, pequeno gestos, feita de pequenos instantes”, e que a felicidade “anda por ai escondida, e que você tem de saber encontrá-la”, que temos que aprender a viver as “pequenas felicidades”.
É impressionante como conseguiram nos vender essa ideia: de que a felicidade é um “plus”, uma recompensa, um “algo a mais”. Ou pior ainda, que a felicidade será alcançada depois que conseguirmos uma série de coisas: um bom emprego, um bom salário, uma boa casa, uma família sem problemas... Aí sim, quando tivermos tudo isso, seremos felizes. É claro que se a felicidade for isso, temos que começar a enxergá-la em pequenos momentos. Mas não parece muito justo, nem faz tanto sentido.
A maioria das pessoas acorda dia após dia para ir trabalhar em algo que, na melhor das hipóteses, considera suportável. Alguém que dedica a maior parte do seu tempo a fazer algo que não gosta, pelo qual não é valorizado, e que só faz porque é o maior salário que consegue ganhar (afinal precisamos ao menos pagar as contas), não vai ter nem energia física, nem mental para dedicar sequer àqueles momentos, ou “instantes” que conceitua como “felicidade”.
Pra inicio de conversa, recebemos uma educação que pouco ou nada nos incentiva a acharmos nossas verdadeiras vocações. Muitos chegam à beira do vestibular (afinal, em nossa sociedade entende-se que todos tem de “formar-se” em alguma coisa) procurando suas vocações em revistas ou fazendo testes vocacionais.
Ninguém é totalmente burro ou não é bom em nada, mas acontece que todos recebem o mesmo tipo de educação, num mesmo ritmo, e em momento algum são valorizadas, nem sequer procuradas, as habilidades especificas de cada um. Daí, se alguns conseguem acompanhar as aulas e tirar boas notas, entende-se que todos deveriam conseguir, e castiga-se aqueles que não se dão bem com o sistema.
Todos saem da fôrma (formatura) sabendo mais ou menos qual o lugar certo de marcar o “X”, alguns sabem falar outras línguas, outros se dão muito bem com cálculos, a maioria sai sabendo um monte de baboseiras que nunca serviu nem servirá para nada (além de passar de ano), mas poucos sabem alguma coisa sobre si mesmos, canalizam suas energias para as coisas erradas, não sabem se relacionar, não sabem ser tolerantes, tem o conceito de justiça completamente deturpado e jamais terão a certeza de estarem fazendo a coisa certa.
Inteligência não é sinônimo exclusivo de intelectualidade. Abrange o emocional, o físico, a intuitivo e como você articula tudo isso. Felicidade é uma conquista inteligente e que todos, sabendo ou não onde botar o “X”, são capazes de alcançar.
A verdadeira felicidade jamais deveria ser uma exceção, coisa pequena, fugaz.
O caminho não é fácil, já está tudo muito enraizado e a solução depende de muitos fatores, internos e externos. Mas temos que partir de algum lugar.
Parece-me interessante tentarmos ao menos servir de mapa para que as gerações futuras tenham uma compreensão maior, e comprem o produto original.
É impressionante como conseguiram nos vender essa ideia: de que a felicidade é um “plus”, uma recompensa, um “algo a mais”. Ou pior ainda, que a felicidade será alcançada depois que conseguirmos uma série de coisas: um bom emprego, um bom salário, uma boa casa, uma família sem problemas... Aí sim, quando tivermos tudo isso, seremos felizes. É claro que se a felicidade for isso, temos que começar a enxergá-la em pequenos momentos. Mas não parece muito justo, nem faz tanto sentido.
A maioria das pessoas acorda dia após dia para ir trabalhar em algo que, na melhor das hipóteses, considera suportável. Alguém que dedica a maior parte do seu tempo a fazer algo que não gosta, pelo qual não é valorizado, e que só faz porque é o maior salário que consegue ganhar (afinal precisamos ao menos pagar as contas), não vai ter nem energia física, nem mental para dedicar sequer àqueles momentos, ou “instantes” que conceitua como “felicidade”.
Pra inicio de conversa, recebemos uma educação que pouco ou nada nos incentiva a acharmos nossas verdadeiras vocações. Muitos chegam à beira do vestibular (afinal, em nossa sociedade entende-se que todos tem de “formar-se” em alguma coisa) procurando suas vocações em revistas ou fazendo testes vocacionais.
Ninguém é totalmente burro ou não é bom em nada, mas acontece que todos recebem o mesmo tipo de educação, num mesmo ritmo, e em momento algum são valorizadas, nem sequer procuradas, as habilidades especificas de cada um. Daí, se alguns conseguem acompanhar as aulas e tirar boas notas, entende-se que todos deveriam conseguir, e castiga-se aqueles que não se dão bem com o sistema.
Todos saem da fôrma (formatura) sabendo mais ou menos qual o lugar certo de marcar o “X”, alguns sabem falar outras línguas, outros se dão muito bem com cálculos, a maioria sai sabendo um monte de baboseiras que nunca serviu nem servirá para nada (além de passar de ano), mas poucos sabem alguma coisa sobre si mesmos, canalizam suas energias para as coisas erradas, não sabem se relacionar, não sabem ser tolerantes, tem o conceito de justiça completamente deturpado e jamais terão a certeza de estarem fazendo a coisa certa.
Inteligência não é sinônimo exclusivo de intelectualidade. Abrange o emocional, o físico, a intuitivo e como você articula tudo isso. Felicidade é uma conquista inteligente e que todos, sabendo ou não onde botar o “X”, são capazes de alcançar.
A verdadeira felicidade jamais deveria ser uma exceção, coisa pequena, fugaz.
O caminho não é fácil, já está tudo muito enraizado e a solução depende de muitos fatores, internos e externos. Mas temos que partir de algum lugar.
Parece-me interessante tentarmos ao menos servir de mapa para que as gerações futuras tenham uma compreensão maior, e comprem o produto original.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Precisamos registrar
O ano de 2011 foi sensacional. O mundo e a forma como as pessoas estão organizando-o continuam algo um tanto desanimador (hoje li, por mais absurdo que pareça, que o homem que dirige uma nação, no caso, Hugo Chaves, suspeita que o fato de que vários líderes latino-americanos estejam com câncer faça parte de alguma conspiração). Entretanto, no meio da bagunça, à nossa maneira, conseguimos fazer mais um ano valer a pena.
Acho fundamental que registremos de alguma forma aquilo que nos fez distinguir-nos uns dos outros nesse período, afinal de contas, ninguém duvida que seja na diferença que a gente cresce, e estamos aqui pra levar a melhor vida que conseguirmos, o que só é possível se realmente enxergarmos o que é de fato bom, especificamente pra cada um de nós, e não o que a maioria nos impõe (não que por vez ou outra não possamos ou devamos aderir à massa).
Eu gosto de escrever, então, já há algum tempo, escrevo crônicas e outras formas de texto que, entre outros, me servem de recordação para as coisas importantes pelas quais vou passando. Quem acompanha meu blog sabe disso. Há quem goste de tirar fotos, quem escreva em diário, já conheci até quem fale para um gravador. Mas é importante que se registre. Nossa memória não é tão boa selecionadora de fatos importantes, por vezes deixamos pra trás momentos simples, mas formadores de caráter, em detrimento de alguma bobagem absurda que não deveríamos dar a menor importância.
Acho que vale o exercício. Quais as situações e experiências verdadeiramente importantes pelas quais você passou esse ano, que dizem respeito somente a você, e que o distingue dos demais? Afinal, todos acordamos e dormimos, nos alimentamos, fomos estudar ou trabalhar e ouvimos “Assim você me mata” querendo ou não, o tempo todo (não estou dizendo que seja ruim). Mas existem coisas que só você ou um pequeno grupo de pessoas presenciou ou viveu, e é isso que vai fazer a diferença, se você se lembrar delas.
Posso começar dando o exemplo. Neste ano eu:
- Ganhei dinheiro tocando violão nas ruas de outro país; aprendi que com um pouco de coragem e criatividade a gente se vira.
- Fui médico e palhaço na Amazônia, onde descobri que uma realidade totalmente diferente e desprovida de muitos recursos que temos, pode ser tão boa ou melhor do que a nossa.
- Recebi meus pais pela primeira vez na minha casa em Florianópolis (primeira viagem de avião da minha mãe)
- Passei quase todos os finais de semana na Real República Tcheca, onde fiz grandes amigos.
- Comecei a estudar filosofia
- Convenci um amigo a não seguir determinado rumo em sua carreira, por acreditar que aquela não era sua verdadeira vocação.
- Fiz meu primeiro parto. Foi da Júlia, que nasceu em 27/10/2011.
- Vi grandes amigos se formando médicos (aliás, sem exageros, o mundo se torna um pouco menos desanimador com a 06.1 formada).
E por aí vai. Cada um tem pra si o que fez a diferença. No entanto, esquecemo-nos que somos a soma das pequenas e grandes escolhas que fazemos diariamente. Não conseguimos responder sequer a perguntas como: Por que eu penso desta maneira? Como eu cheguei até aqui? Por que eu decidi chegar até aqui?
E o que mudou?
“What more can you be than the things they say you’ve been?” (Mick Hucknall)
Acho fundamental que registremos de alguma forma aquilo que nos fez distinguir-nos uns dos outros nesse período, afinal de contas, ninguém duvida que seja na diferença que a gente cresce, e estamos aqui pra levar a melhor vida que conseguirmos, o que só é possível se realmente enxergarmos o que é de fato bom, especificamente pra cada um de nós, e não o que a maioria nos impõe (não que por vez ou outra não possamos ou devamos aderir à massa).
Eu gosto de escrever, então, já há algum tempo, escrevo crônicas e outras formas de texto que, entre outros, me servem de recordação para as coisas importantes pelas quais vou passando. Quem acompanha meu blog sabe disso. Há quem goste de tirar fotos, quem escreva em diário, já conheci até quem fale para um gravador. Mas é importante que se registre. Nossa memória não é tão boa selecionadora de fatos importantes, por vezes deixamos pra trás momentos simples, mas formadores de caráter, em detrimento de alguma bobagem absurda que não deveríamos dar a menor importância.
Acho que vale o exercício. Quais as situações e experiências verdadeiramente importantes pelas quais você passou esse ano, que dizem respeito somente a você, e que o distingue dos demais? Afinal, todos acordamos e dormimos, nos alimentamos, fomos estudar ou trabalhar e ouvimos “Assim você me mata” querendo ou não, o tempo todo (não estou dizendo que seja ruim). Mas existem coisas que só você ou um pequeno grupo de pessoas presenciou ou viveu, e é isso que vai fazer a diferença, se você se lembrar delas.
Posso começar dando o exemplo. Neste ano eu:
- Ganhei dinheiro tocando violão nas ruas de outro país; aprendi que com um pouco de coragem e criatividade a gente se vira.
- Fui médico e palhaço na Amazônia, onde descobri que uma realidade totalmente diferente e desprovida de muitos recursos que temos, pode ser tão boa ou melhor do que a nossa.
- Recebi meus pais pela primeira vez na minha casa em Florianópolis (primeira viagem de avião da minha mãe)
- Passei quase todos os finais de semana na Real República Tcheca, onde fiz grandes amigos.
- Comecei a estudar filosofia
- Convenci um amigo a não seguir determinado rumo em sua carreira, por acreditar que aquela não era sua verdadeira vocação.
- Fiz meu primeiro parto. Foi da Júlia, que nasceu em 27/10/2011.
- Vi grandes amigos se formando médicos (aliás, sem exageros, o mundo se torna um pouco menos desanimador com a 06.1 formada).
E por aí vai. Cada um tem pra si o que fez a diferença. No entanto, esquecemo-nos que somos a soma das pequenas e grandes escolhas que fazemos diariamente. Não conseguimos responder sequer a perguntas como: Por que eu penso desta maneira? Como eu cheguei até aqui? Por que eu decidi chegar até aqui?
E o que mudou?
“What more can you be than the things they say you’ve been?” (Mick Hucknall)
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Amigo secreto
Neste Natal minha família organizou pela primeira vez um amigo secreto, este ritual secular criado para entreter os participantes das festividades de final de ano nas empresas, famílias e turmas em geral, e que a mim durante muito tempo foi motivo de grande aflição.
Por longo período era minha mãe quem comprava os presentes dos meus amigos secretos. Invariavelmente Dona Neusa achava que o presente escolhido por meus amigos era caro demais; se custasse 30 reais, ela comprava algo de 25, se fosse 5 reais ela comprava um de 3. E foi assim que anos a fio eu tive que lidar com situações constrangedoras, resumidas na lista abaixo, entre os presentes pedidos e os presentes dados:
Bola de capotão – bola de plástico
Camiseta da Bad Boy – Camiseta da C&A
Jogo de Cartas Super Trunfo – Baralho comum (ou um genérico que se chamava Super Coluna)
Walkman – (e esse é imbatível) jogo de dardos
Claro que hoje em dia a gente leva de letra, o pessoal até nem pede mais um presente específico, fica a critério do presenteador, mas imagine pra uma criança de seus oito ou nove anos chegar com um jogo de tiro ao alvo pra um coleguinha da catequese que pediu um Walkman. Era no mínimo contra tudo o que a gente tinha aprendido durante o ano todo nas aulas da Tia Izildinha (a catequista) se é que a gente compreende alguma coisa quando faz catequese. A cena da entrega desse presente em particular foi bem pesada, a cara de desolamento e incompreensão do meu amigo secreto era digna de foto de livro.
Não eram raras as vezes em que, na hora do sorteio, alguém pegava um papelzinho com o nome de alguém que não gostava muito e num movimento ágil e pouco convincente amassava de volta, falava “não vale, tirei eu mesmo” e arremessava junto aos demais papelotes para que recomeçasse o sorteio. Sempre imaginei que era isso que estava acontecendo, pois comigo isso nunca ocorreu.
Amigo oculto, amigo da onça, amigo itinerante, não importa muito a variação, é talvez o único momento da festa em que todos estão realmente unidos e com a atenção voltada para a mesma coisa. O presente em si torna-se secundário, além do que, como disse uma prima minha, o valor do presente não está no preço e sim no quanto você se doou em achar algo que a pessoa realmente ia gostar. O mais bacana é ver as pessoas ali, em frente a um monte de gente, muitas delas envergonhadas, mas falando algo bacana sobre e para a pessoa que irá presentear.
Lá na casa da minha tia foi bem legal. Começamos com bastante antecedência a entrega dos presentes; mesmo assim, à meia-noite não tinham sido todos presenteados, só fomos nos dar conta do horário devido aos fogos. Apenas gritamos juntos “Feliz natal” e continuamos o amigo secreto. Palavras emocionadas, situações engraçadas, numa grande síntese do que deveria ser toda reunião de pessoas que se querem bem.
Certamente repetiremos a dose.
Aproveito para desejar a todos um feliz ano novo, independente do que ele nos traga (mas sempre esperado o melhor), que consigamos vivê-lo na medida do possível, junto daqueles que queremos e nos querem bem.
Por longo período era minha mãe quem comprava os presentes dos meus amigos secretos. Invariavelmente Dona Neusa achava que o presente escolhido por meus amigos era caro demais; se custasse 30 reais, ela comprava algo de 25, se fosse 5 reais ela comprava um de 3. E foi assim que anos a fio eu tive que lidar com situações constrangedoras, resumidas na lista abaixo, entre os presentes pedidos e os presentes dados:
Bola de capotão – bola de plástico
Camiseta da Bad Boy – Camiseta da C&A
Jogo de Cartas Super Trunfo – Baralho comum (ou um genérico que se chamava Super Coluna)
Walkman – (e esse é imbatível) jogo de dardos
Claro que hoje em dia a gente leva de letra, o pessoal até nem pede mais um presente específico, fica a critério do presenteador, mas imagine pra uma criança de seus oito ou nove anos chegar com um jogo de tiro ao alvo pra um coleguinha da catequese que pediu um Walkman. Era no mínimo contra tudo o que a gente tinha aprendido durante o ano todo nas aulas da Tia Izildinha (a catequista) se é que a gente compreende alguma coisa quando faz catequese. A cena da entrega desse presente em particular foi bem pesada, a cara de desolamento e incompreensão do meu amigo secreto era digna de foto de livro.
Não eram raras as vezes em que, na hora do sorteio, alguém pegava um papelzinho com o nome de alguém que não gostava muito e num movimento ágil e pouco convincente amassava de volta, falava “não vale, tirei eu mesmo” e arremessava junto aos demais papelotes para que recomeçasse o sorteio. Sempre imaginei que era isso que estava acontecendo, pois comigo isso nunca ocorreu.
Amigo oculto, amigo da onça, amigo itinerante, não importa muito a variação, é talvez o único momento da festa em que todos estão realmente unidos e com a atenção voltada para a mesma coisa. O presente em si torna-se secundário, além do que, como disse uma prima minha, o valor do presente não está no preço e sim no quanto você se doou em achar algo que a pessoa realmente ia gostar. O mais bacana é ver as pessoas ali, em frente a um monte de gente, muitas delas envergonhadas, mas falando algo bacana sobre e para a pessoa que irá presentear.
Lá na casa da minha tia foi bem legal. Começamos com bastante antecedência a entrega dos presentes; mesmo assim, à meia-noite não tinham sido todos presenteados, só fomos nos dar conta do horário devido aos fogos. Apenas gritamos juntos “Feliz natal” e continuamos o amigo secreto. Palavras emocionadas, situações engraçadas, numa grande síntese do que deveria ser toda reunião de pessoas que se querem bem.
Certamente repetiremos a dose.
Aproveito para desejar a todos um feliz ano novo, independente do que ele nos traga (mas sempre esperado o melhor), que consigamos vivê-lo na medida do possível, junto daqueles que queremos e nos querem bem.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Apenas mais uma de amor (virtual)
“Conheceram-se” numa rede social. “Curtiram”-se um tempão antes de marcarem o primeiro encontro. Antes da data marcada passaram alguns dias investigando (nada muito além da Wikipedia) um pouco mais sobre Caio Fernando Abreu e Arnaldo Jabor, autores das frases do perfil dela e dele, respectivamente (depois ele descobriria que a frase nem era do Jabor, mas de um fulano qualquer). Ele aprendeu a base de “Love me two times” dos Doors e um ou outro solinho dos Beatles, caso fosse necessário provar que os interesses mostrados na página da rede eram realmente genuínos. Ela tratou de assistir Truffaut e Godard, entenda-se tão e somente “Os Incompreendidos” e “Acossado”, caso ele soubesse do que se tratava aquele interesse por Nouvelle Vague que constava em seu perfil.
Parecia-lhes interessante que se gostasse daquelas coisas, apesar de não ser bem daquilo que eles mais gostavam.
Houve bastante honestidade de ambas as partes quando jogaram as expectativas lá embaixo. Afinal de contas, das três mil fotos que cada um tirou na vida, eles sabiam que no álbum de fotografias da rede social constavam apenas uns 30 lances de sorte; poderia ser (e era muito provável) que um ser humano bem diferente se apresentasse dali a uns dias.
Encontraram-se num barzinho cult que não remetia ao gosto de nenhum dos dois, mas que ele achava que agradaria a ela, e ela a ele. Cumprimentaram-se com um beijo no rosto, ela até virou o rosto para o segundo, mas ele sentou-se sem notar. Pediram uma cerveja Long Neck, uma caipirinha de kiwi e uma porção de batata frita aos quatro queijos, especialidade da casa, segundo ele leu no site.
Começaram uma ectoscopia involuntária, sem diálogo. Ele tinha um tique estranho (se é que algum tique não é estranho, ela ponderou na hora) envolvendo a sobrancelha esquerda, enquanto ele achou que ela aparentava ter adquirido uns quilos a mais desde a última fotografia tirada e postada na rede. Nada que os tenha abalado significativamente.
Quando ela percebeu que ele estava atentando para a recém adquirida tatuagem de libélula no ombro esquerdo, resolveu perguntar se ele havia comprado a escaleta que tinha mencionado certa vez no MSN. Ele, que disse isso apenas por imaginar que tocar escaleta poderia parecer interessante, ia começar a inventar uma série de bobagens mais ou menos convincentes, ao que a banda começou a tocar “With a little help from my friends”, na versão do Joe Cocker.
- Olha, a música dos Anos Incríveis! – Ela disse.
- Você assistia? – Ele perguntou, em meio a outro tique supraocular.
E aí eles, nascidos no final da década de 80, viram nos clássicos da TV cultura um bom fio condutor para início do papo. Ele disse que não perdia um episódio sequer do Mundo de Beackman, enquanto ela achava o máximo as Confissões de Adolescente.
Passearam por trivialidades da infância, e quando ele contou que teve três bichinhos virtuais simultaneamente, ela deu uma risada tão gostosa, que ele, pela primeira vez, fez um elogio espontâneo, algo que não havia ensaiado em casa. “Que dentes brancos, você não tem nenhuma foto deles no computador”. Pelo menos na intenção era um elogio.
Ele nunca tinha visto porque ela imaginava que não convinha ter fotos mostrando risadas de orelha a orelha no álbum de fotos virtual. O conveniente era ter fotos mais ou menos de perfil, usando óculos de sol, juntando os braços para salientar o decote, foto batida de cima, e com a legenda “Por do Sol em Fernando de Noronha” ou “Barceloneta...saudadeeess”.
Ainda voltaram a falar um pouco da infância, do gravador vermelho da Gradiente, da chatice de copiar mapa em papel vegetal, mas aos poucos se deram a chance de se conhecer melhor e verdadeiramente. Foram percebendo que eram de fato diferentes daquilo que imaginavam que seria o mais bacana mostrar pela web, mas não menos interessantes. Falaram de suas viagens, de comida, das abobrinhas que postam na internet, filmes que realmente assistiram, músicas que realmente curtiam (ele descobriu que não era manjado demais curtir Paralamas e Titãs, e ela que não faz feio assistindo Spielberg e comédias românticas).
Quando ele a deixou em casa, não conseguiu nem tentar beijá-la, apesar de imaginar que ela estivesse (e realmente estava) afim. Estava acostumado a nem precisar impressionar as menininhas que ele pegava via chats obscuros com seu e-mail fake. Ali era outra história.
Encontraram-se outras vezes, foram se envolvendo, trocaram o status de relacionamento na rede social. Até trocaram juntos a frase do perfil. C. F. Abreu e o pseudo-Jabor deram lugar ao manjadíssimo Renato Russo: “quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração...”. Bateu ciúmes virtuais, por “curtição” indevida de pessoas indesejadas nos posts de um e de outro. Suicidaram-se e ressuscitaram várias vezes na rede social. Ficaram juntos um tempo bem razoável. A relação seguiu a tendência sistólica e diastólica que parece reger todo o universo; um dia encontraram páginas com perfis que pareceram ser mais interessantes, e trataram de reconstruir as versões ideais sobre si mesmos.
Nada de novo sob o Sol. Ou melhor, nada de novo inside the web.
Parecia-lhes interessante que se gostasse daquelas coisas, apesar de não ser bem daquilo que eles mais gostavam.
Houve bastante honestidade de ambas as partes quando jogaram as expectativas lá embaixo. Afinal de contas, das três mil fotos que cada um tirou na vida, eles sabiam que no álbum de fotografias da rede social constavam apenas uns 30 lances de sorte; poderia ser (e era muito provável) que um ser humano bem diferente se apresentasse dali a uns dias.
Encontraram-se num barzinho cult que não remetia ao gosto de nenhum dos dois, mas que ele achava que agradaria a ela, e ela a ele. Cumprimentaram-se com um beijo no rosto, ela até virou o rosto para o segundo, mas ele sentou-se sem notar. Pediram uma cerveja Long Neck, uma caipirinha de kiwi e uma porção de batata frita aos quatro queijos, especialidade da casa, segundo ele leu no site.
Começaram uma ectoscopia involuntária, sem diálogo. Ele tinha um tique estranho (se é que algum tique não é estranho, ela ponderou na hora) envolvendo a sobrancelha esquerda, enquanto ele achou que ela aparentava ter adquirido uns quilos a mais desde a última fotografia tirada e postada na rede. Nada que os tenha abalado significativamente.
Quando ela percebeu que ele estava atentando para a recém adquirida tatuagem de libélula no ombro esquerdo, resolveu perguntar se ele havia comprado a escaleta que tinha mencionado certa vez no MSN. Ele, que disse isso apenas por imaginar que tocar escaleta poderia parecer interessante, ia começar a inventar uma série de bobagens mais ou menos convincentes, ao que a banda começou a tocar “With a little help from my friends”, na versão do Joe Cocker.
- Olha, a música dos Anos Incríveis! – Ela disse.
- Você assistia? – Ele perguntou, em meio a outro tique supraocular.
E aí eles, nascidos no final da década de 80, viram nos clássicos da TV cultura um bom fio condutor para início do papo. Ele disse que não perdia um episódio sequer do Mundo de Beackman, enquanto ela achava o máximo as Confissões de Adolescente.
Passearam por trivialidades da infância, e quando ele contou que teve três bichinhos virtuais simultaneamente, ela deu uma risada tão gostosa, que ele, pela primeira vez, fez um elogio espontâneo, algo que não havia ensaiado em casa. “Que dentes brancos, você não tem nenhuma foto deles no computador”. Pelo menos na intenção era um elogio.
Ele nunca tinha visto porque ela imaginava que não convinha ter fotos mostrando risadas de orelha a orelha no álbum de fotos virtual. O conveniente era ter fotos mais ou menos de perfil, usando óculos de sol, juntando os braços para salientar o decote, foto batida de cima, e com a legenda “Por do Sol em Fernando de Noronha” ou “Barceloneta...saudadeeess”.
Ainda voltaram a falar um pouco da infância, do gravador vermelho da Gradiente, da chatice de copiar mapa em papel vegetal, mas aos poucos se deram a chance de se conhecer melhor e verdadeiramente. Foram percebendo que eram de fato diferentes daquilo que imaginavam que seria o mais bacana mostrar pela web, mas não menos interessantes. Falaram de suas viagens, de comida, das abobrinhas que postam na internet, filmes que realmente assistiram, músicas que realmente curtiam (ele descobriu que não era manjado demais curtir Paralamas e Titãs, e ela que não faz feio assistindo Spielberg e comédias românticas).
Quando ele a deixou em casa, não conseguiu nem tentar beijá-la, apesar de imaginar que ela estivesse (e realmente estava) afim. Estava acostumado a nem precisar impressionar as menininhas que ele pegava via chats obscuros com seu e-mail fake. Ali era outra história.
Encontraram-se outras vezes, foram se envolvendo, trocaram o status de relacionamento na rede social. Até trocaram juntos a frase do perfil. C. F. Abreu e o pseudo-Jabor deram lugar ao manjadíssimo Renato Russo: “quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração...”. Bateu ciúmes virtuais, por “curtição” indevida de pessoas indesejadas nos posts de um e de outro. Suicidaram-se e ressuscitaram várias vezes na rede social. Ficaram juntos um tempo bem razoável. A relação seguiu a tendência sistólica e diastólica que parece reger todo o universo; um dia encontraram páginas com perfis que pareceram ser mais interessantes, e trataram de reconstruir as versões ideais sobre si mesmos.
Nada de novo sob o Sol. Ou melhor, nada de novo inside the web.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
De onde tiraram a conclusão?
O teatro estava lotado. A peça, “Tio Vânia”, clássico de Tchekov, a preços populares e encenada pela companhia Galpão esgotou rapidamente os ingressos. Eu ocupava um lugar central na fileira K.
Eis que as luzes se apagam e no meio do primeiro diálogo uma velhinha, bem velhinha, daquelas que não convém mais tingir os cabelos brancos, e que ocupava a poltrona imediatamente a minha frente, vira-se para outra velhinha que está ao seu lado e pergunta: “Você tá ouvindo alguma coisa?”. A segunda velhinha responde afirmativamente, no que a primeira completa: “Eu não estou ouvindo nada.”
E o problema era de surdez mesmo, porque não só sua colega como todos nós podíamos ouvir perfeitamente os atores em cena. Fiquei pensando nas alternativas que sobravam para a surda senhora: 1)Leitura labial – impossível, além de exigir algum treino, ela estava na fileira J, e se o ouvido estava naquele estado, não podíamos esperar grandes façanhas visuais. 2)Dar-se por vencida e dedicar-se a elucubrar alguma coisa com seus botões, ou até mesmo tirar uma soneca, ou por fim 3) tentar entender à sua maneira, e com os recursos que lhe sobravam, ou seja, apenas os olhos e a imaginação, a história ali encenada.
Ao que tudo indica a senhora resolveu heróica, ou insanamente tentar entender a história, pois vira e mexe se virava para sua amiga e indagava alguma coisa. “Está chovendo?”, “Ele quer matar o outro?”, “Não tem alegria, nada?”. Não perguntava sem parar, contudo, quando o fazia, era em alto volume, outro sinal clássico de surdez senil, de não conseguir discernir o tom da própria voz. Por isso, e não pela freqüência, lá pelo meio da peça o pessoal nos arredores fazia um SSHHHIIUUU, para ela calar-se.
A história da peça é muito boa, com interpretações a altura. O enredo é simples e direto, com uma mensagem bem clara. Não vou discorrer sobre seu conteúdo aqui, porque há quem já o tenha feito com muito mais propriedade e no fundo, nesta situação em particular, o que mais me interessaria seria saber o que a velhinha tinha entendido daquilo tudo. E se ela tinha gostado ou não.
Qualquer coisa ali seria possível. O mais provável é que ela tenha compreendido o básico do básico, até porque no teatro a expressão corporal também é muito importante e elucidativa, parte fundamental do ofício dos envolvidos. Mas o que eu chamo de básico do básico são apenas fatos, a razão de seus acontecimentos é praticamente indedutível sem o recurso auditivo. Fulano matou ciclano. Por quê? Fulana beijou beltrano e depois ciclano? Por quê. Mariazinha chorou a peça toda. Por quê?
Fulano matou ciclano por que era contratado de Beltrano. Beltrano era casado com fulana, a quem viu sendo beijada por ciclano, que por sua vez era comprometido com Mariazinha, que sabia da infidelidade de seu amor desde o principio e por isso chorava o tempo todo. Hipótese bem razoável, apesar de enrolada no meio de tantos “que”s, mas baseada em quase nada, podendo ser completamente diferente da história real. E não pode ser também assim a própria vida?
Não precisamos nem resgatar o Mito da Caverna; o que quero dizer é inclusive um pouco diferente. Sem muitos rodeios filosóficos sobre o que é real, ou o que é a verdade e admitindo ambos serem apenas conceitos vencidos por maioria de votos, o que nos resta é simplesmente a máxima “Mais importante do que estar certo, é estar feliz.”
Pois quantos indivíduos conhecemos que parecem que passam a vida toda como uma velha surda observando os eventos que permeiam sua existência? Sempre com um entendimento parcial e subutilizando as poucas ferramentas que aprendeu a usar na vida, mal tem a capacidade de revoltar-se, mesmo por não ser capaz de compreender se há motivo para tal.
E agora, pior ainda, quem garante que nós mesmos, um pouco mais lúcidos, “com os sentidos um pouco mais apurados”, embora sem achar muitas das respostas em detrimento de maiores percepções, deveríamos ter esperança de alcançar, nem que por meio das futuras gerações, uma compreensão maior?
De qualquer forma parece não haver caminho melhor. A única via possível e a via das dúvidas. Vai ser trafegando por ela que encontraremos idéias novas, aparentemente resolutivas, tão boas que parecerão ilusórias. Apostaremos todas as fichas nelas, sem saber que foram pensadas por algum tipo de velhinha surda que teve todas as suas conclusões tiradas de uma peça de teatro.
Eis que as luzes se apagam e no meio do primeiro diálogo uma velhinha, bem velhinha, daquelas que não convém mais tingir os cabelos brancos, e que ocupava a poltrona imediatamente a minha frente, vira-se para outra velhinha que está ao seu lado e pergunta: “Você tá ouvindo alguma coisa?”. A segunda velhinha responde afirmativamente, no que a primeira completa: “Eu não estou ouvindo nada.”
E o problema era de surdez mesmo, porque não só sua colega como todos nós podíamos ouvir perfeitamente os atores em cena. Fiquei pensando nas alternativas que sobravam para a surda senhora: 1)Leitura labial – impossível, além de exigir algum treino, ela estava na fileira J, e se o ouvido estava naquele estado, não podíamos esperar grandes façanhas visuais. 2)Dar-se por vencida e dedicar-se a elucubrar alguma coisa com seus botões, ou até mesmo tirar uma soneca, ou por fim 3) tentar entender à sua maneira, e com os recursos que lhe sobravam, ou seja, apenas os olhos e a imaginação, a história ali encenada.
Ao que tudo indica a senhora resolveu heróica, ou insanamente tentar entender a história, pois vira e mexe se virava para sua amiga e indagava alguma coisa. “Está chovendo?”, “Ele quer matar o outro?”, “Não tem alegria, nada?”. Não perguntava sem parar, contudo, quando o fazia, era em alto volume, outro sinal clássico de surdez senil, de não conseguir discernir o tom da própria voz. Por isso, e não pela freqüência, lá pelo meio da peça o pessoal nos arredores fazia um SSHHHIIUUU, para ela calar-se.
A história da peça é muito boa, com interpretações a altura. O enredo é simples e direto, com uma mensagem bem clara. Não vou discorrer sobre seu conteúdo aqui, porque há quem já o tenha feito com muito mais propriedade e no fundo, nesta situação em particular, o que mais me interessaria seria saber o que a velhinha tinha entendido daquilo tudo. E se ela tinha gostado ou não.
Qualquer coisa ali seria possível. O mais provável é que ela tenha compreendido o básico do básico, até porque no teatro a expressão corporal também é muito importante e elucidativa, parte fundamental do ofício dos envolvidos. Mas o que eu chamo de básico do básico são apenas fatos, a razão de seus acontecimentos é praticamente indedutível sem o recurso auditivo. Fulano matou ciclano. Por quê? Fulana beijou beltrano e depois ciclano? Por quê. Mariazinha chorou a peça toda. Por quê?
Fulano matou ciclano por que era contratado de Beltrano. Beltrano era casado com fulana, a quem viu sendo beijada por ciclano, que por sua vez era comprometido com Mariazinha, que sabia da infidelidade de seu amor desde o principio e por isso chorava o tempo todo. Hipótese bem razoável, apesar de enrolada no meio de tantos “que”s, mas baseada em quase nada, podendo ser completamente diferente da história real. E não pode ser também assim a própria vida?
Não precisamos nem resgatar o Mito da Caverna; o que quero dizer é inclusive um pouco diferente. Sem muitos rodeios filosóficos sobre o que é real, ou o que é a verdade e admitindo ambos serem apenas conceitos vencidos por maioria de votos, o que nos resta é simplesmente a máxima “Mais importante do que estar certo, é estar feliz.”
Pois quantos indivíduos conhecemos que parecem que passam a vida toda como uma velha surda observando os eventos que permeiam sua existência? Sempre com um entendimento parcial e subutilizando as poucas ferramentas que aprendeu a usar na vida, mal tem a capacidade de revoltar-se, mesmo por não ser capaz de compreender se há motivo para tal.
E agora, pior ainda, quem garante que nós mesmos, um pouco mais lúcidos, “com os sentidos um pouco mais apurados”, embora sem achar muitas das respostas em detrimento de maiores percepções, deveríamos ter esperança de alcançar, nem que por meio das futuras gerações, uma compreensão maior?
De qualquer forma parece não haver caminho melhor. A única via possível e a via das dúvidas. Vai ser trafegando por ela que encontraremos idéias novas, aparentemente resolutivas, tão boas que parecerão ilusórias. Apostaremos todas as fichas nelas, sem saber que foram pensadas por algum tipo de velhinha surda que teve todas as suas conclusões tiradas de uma peça de teatro.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Tudo pode dar certo
Esses dias assisti no cinema “Um conto chinês”, e por um detalhe ou outro ele me fez lembrar aquele filme do Woody Allen, “Tudo pode dar certo”, que fica ainda melhor no seu título original “Whatever works”. Comecei a viajar no meio do filme lembrando do outro, o que , como acontece com todo mundo, fez lembrar de uma outra situação, depois outra, e quando voltei a mim, tava assistindo de olhos vidrados o fundo do saco da pipoca em vez do filme na tela.
No filme do Woody, em mais um de seus renitentes finais, seu alter-ego Boris, após a contagem regressiva para a chegada de mais um ano, chega a nós expectadores e diz: “Acontece que odeio festas de fim de Ano Novo. Todo mundo desesperado pra se divertir, tentando comemorar de algum modo patético. Comemorar o que? Um passo mais próximo da sepultura? É por isso que não me canso de dizer: Qualquer amor que possa receber e dar, qualquer felicidade que possa se apropriar ou fornecer, cada breve gesto gentil, tudo pode dar certo...”
Uma das coisas das quais me lembrei durante essa viagem na maionese foi da época do cursinho. Na minha frente, na sala de aula, sentava uma menina simpática, inteligente, que sempre andava com roupas esportivas e que assim como eu prestaria vestibular para medicina. Por sentar na minha frente, entre uma aula ou outra, apesar da bitolagem inerente aos vestibulandos, vez ou outra escapava alguma trivialidade. Lá pelas tantas ela me contou que gostava muito do Garfield, aquele gato laranja.
A gente lá em casa sempre assinou a Folha de S. Paulo, e na penúltima página do caderno Ilustrada são publicadas diariamente tirinhas do Garfield. Passei então a, quando me lembrava, recortar as tirinhas. Outro dia qualquer a Sports (era assim que chamávamos a menina, não me recordo do nome verdadeiro dela) me contou o dia em que fazia aniversário, e eu decidi que naquele dia eu daria as tirinhas recortadas de presente pra ela.
E realmente o fiz. Nem tinham muitas, que fossem umas vinte, sei lá. Ela ficou bastante feliz; não poderia ela pensar que fosse algum tipo de flerte, já que eu tava de rolo com outra menina da mesma sala. Mas o fato é que foi apenas um gesto gentil, num dia especial, apesar de toda atribulação dessa época conturbada de vésperas de vestibular. A maioria dos concorrentes tava mais preocupada era em ver a pontuação dela nos simulados, e se soubesse que era seu aniversário lhe daria uma barrinha de cereais envenenada. Mas nosso sucesso independe do sucesso ou fracasso dos outros, e aproveito pra repetir os dizeres do Boris/Woody: “...qualquer felicidade que possa se apropriar ou fornecer, cada breve gesto gentil, tudo pode dar certo...”
Todo mundo passa boa parte do seu tempo trabalhando em atividades desagradáveis, aturando pessoas arrogantes, enfrentando trânsito, prazos e outras pendências. Por que há de ser eu, ou você, a fornecer mais dissabor à vida dos outros. Entenda-se por “outros” tanto os conhecidos como os desconhecidos. Cordialidade não faz mal a ninguém.
Nem precisa de tanto trabalho, do tipo ficar recortando jornal. Um sorriso no rosto muitas vezes faz uma baita diferença.
No filme do Woody, em mais um de seus renitentes finais, seu alter-ego Boris, após a contagem regressiva para a chegada de mais um ano, chega a nós expectadores e diz: “Acontece que odeio festas de fim de Ano Novo. Todo mundo desesperado pra se divertir, tentando comemorar de algum modo patético. Comemorar o que? Um passo mais próximo da sepultura? É por isso que não me canso de dizer: Qualquer amor que possa receber e dar, qualquer felicidade que possa se apropriar ou fornecer, cada breve gesto gentil, tudo pode dar certo...”
Uma das coisas das quais me lembrei durante essa viagem na maionese foi da época do cursinho. Na minha frente, na sala de aula, sentava uma menina simpática, inteligente, que sempre andava com roupas esportivas e que assim como eu prestaria vestibular para medicina. Por sentar na minha frente, entre uma aula ou outra, apesar da bitolagem inerente aos vestibulandos, vez ou outra escapava alguma trivialidade. Lá pelas tantas ela me contou que gostava muito do Garfield, aquele gato laranja.
A gente lá em casa sempre assinou a Folha de S. Paulo, e na penúltima página do caderno Ilustrada são publicadas diariamente tirinhas do Garfield. Passei então a, quando me lembrava, recortar as tirinhas. Outro dia qualquer a Sports (era assim que chamávamos a menina, não me recordo do nome verdadeiro dela) me contou o dia em que fazia aniversário, e eu decidi que naquele dia eu daria as tirinhas recortadas de presente pra ela.
E realmente o fiz. Nem tinham muitas, que fossem umas vinte, sei lá. Ela ficou bastante feliz; não poderia ela pensar que fosse algum tipo de flerte, já que eu tava de rolo com outra menina da mesma sala. Mas o fato é que foi apenas um gesto gentil, num dia especial, apesar de toda atribulação dessa época conturbada de vésperas de vestibular. A maioria dos concorrentes tava mais preocupada era em ver a pontuação dela nos simulados, e se soubesse que era seu aniversário lhe daria uma barrinha de cereais envenenada. Mas nosso sucesso independe do sucesso ou fracasso dos outros, e aproveito pra repetir os dizeres do Boris/Woody: “...qualquer felicidade que possa se apropriar ou fornecer, cada breve gesto gentil, tudo pode dar certo...”
Todo mundo passa boa parte do seu tempo trabalhando em atividades desagradáveis, aturando pessoas arrogantes, enfrentando trânsito, prazos e outras pendências. Por que há de ser eu, ou você, a fornecer mais dissabor à vida dos outros. Entenda-se por “outros” tanto os conhecidos como os desconhecidos. Cordialidade não faz mal a ninguém.
Nem precisa de tanto trabalho, do tipo ficar recortando jornal. Um sorriso no rosto muitas vezes faz uma baita diferença.
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- Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.