segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
De passagem
Acontece que eu era a única pessoa que passava por aquela rua na ocasião, contudo a barulheira não cessava. “Será que é alguém que eu conheço, e tá fazendo uma brincadeira?” . Mesmo assim não me virei para trás. Pouco a pouco o carro foi se aproximando, e quando passou por mim, não pude esconder a cara de espanto. Num desses carros família, tipo Palio Weekend, estava um casal de velhinhos, um vovô ao volante e sua senhorinha no banco do passageiro, olhando fixamente para frente e continuando a fazer um barulho danado.
Definitivamente eles não preenchiam o perfil de pessoas que saem por ai querendo impressionar quem quer que seja pisando no acelerador de um carro em ponto morto, mas se encaixavam perfeitamente naquele que agrupa os pilotos de primeira viagem. Seguiram até o final da rua, que faz uma curva e desemboca numa outra mais movimentada, cujo único sentido possível é uma subida. Ali, o carro morreu.
Por sorte não era a hora do rush. Passei por eles, atravessei a rua e fiquei alguns instantes assistindo. Várias e várias vezes a mesma sequência se repetiu: o velhinho dava a partida no carro, engatava a primeira marcha, pisava no acelerador, o carro não se movia e voltava a morrer. Nitidamente não conseguia sincronizar o movimento dos pedais, e a senhorinha, por sua vez, nada dizia, corroborando a suposição que eu tivera minutos antes, de que eles deveriam ser iniciantes.
Senti uma vontade grande de ajudá-los, passei breves instantes avaliando a situação e cheguei a decisão de que não deveria socorrê-los. Retomei o caminho de casa convicto de que tomara a decisão certa, mesmo sob o olhar reprovador de uma idosa mulher que por ali passava e deve ter confirmado sua opinião de que a juventude hoje em dia é pouco prestativa, mal-educada e inevitavelmente perdida.
Durante meu tempo de reflexão, imaginei algumas possibilidades para aquela cena atípica: Um homem de idade que sempre tivera o sonho de aprender a dirigir, mas nunca teve coragem, ou dinheiro, agora depois de velho estava conseguindo realizá-lo. Ou nunca tivera vontade para tal, mas a vida toda sua esposa pediu-lhe que a levasse passear de carro, e antes do fim da vida ele resolveu aprender para satisfazê-la e subvertendo a lógica, pegou o carro escondido do filho. Ou ainda alguém que sofreu algum acidente e não pôde dirigir durante muito tempo, e agora estava reaprendendo. Sei lá, podia ser qualquer coisa, mas sem dúvida, aquilo era um (re)começo.
Eu poderia me oferecer a ajudá-los, guiar o carro de volta à garagem, deixando-os fora de perigo e tudo mais. Mas imaginem que coisa frustrante. Pensariam os dois “onde estávamos com a cabeça, fazer uma coisa dessas depois de velhos”, seriam repreendidos por seus filhos, se sentiriam incapazes e inconsequentes. Preferi dar-lhes a chance de superar o desafio, com a consciência de que as chances de fracasso não eram pequenas, mas que valia o risco.
Poucas são as pessoas que se propõem a novos desafios depois de certa idade. A maioria julga-se velha demais para aprender, “novidade” deixa de fazer parte de seu vocabulário. Ajudar aqueles velhinhos equivaleria, penso eu, a dar-lhes motivos para pensar desta maneira. O clichê do momento é que devemos aprender a envelhecer. Temos que desde cedo cuidar da saúde, comer bem, fazer exercícios, exercitar a mente, que assim, chegaremos ao centenário. Mas de que valerá chegar lá se não formos capazes de aproveitar, de nos sentirmos capazes para tal?
Desde há algumas semanas, minha inspiração e motivação para isso ganharam um nome: Oscar Niemeyer. Assisti a um documentário sobre imortalidade, que inevitavelmente invocava nosso maior arquiteto. Em meio a um monte de baboseiras, o documentário mostrava uma entrevista com Niemeyer, recém saído do hospital, onde ficou internado para um cirurgia de pequeno porte (se é que aos 102 anos alguma cirurgia pode ser assim considerada), e onde, durante sua internação, se propôs a compôr um samba, em parceria com o enfermeiro que dele cuidava. O documentário mostrou o enfermeiro entoando a canção, que era de fato bonita. Mesmo que fosse pavorosa, pouco importaria.
Niemeyer possui mais de dez projetos em andamento, e numa situação onde a maioria, independente da idade, tem ideias negativistas, ou no mínimo um leve mau-humor, ele se prestou a compôr uma música! Invejável. Literalmente, uma lição de vida.
Ele foi ainda indagado se, se tivesse a oportunidade de tomar o elixir da vida eterna, o faria. Sua resposta? “Se todos tivessem a mesma chance, sim.”. Um homem de 102 anos, com todas as perdas e limitações que o tempo lhe trouxe, numa época da vida com a qual poucos desejam chegar, por imaginar as condições físicas e mentais nas quais provavelmente se encontrariam, dá uma resposta dessas. No mínimo, digna de uma boa tarde de conversa, regada a cervejinha e aperitivos. Alias quem concordar, que me convide.
No fim das contas, cheguei em casa naquele dia pensando em tudo isso. De férias, sem nada de importante para fazer, resolvi deitar no sofá para aquele delicioso cochilo de meio de tarde, embalado pela televisão ligada em volume baixo. Não sei precisar depois de quanto tempo, mas fui acordado de sobressalto, por uma barulheira infernal vinda da rua: um ronco de motor. Com uma sensação boa, preferi não checar de quem se tratava.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Até breve
Mas hoje, assistindo a mais um filme do velho Woody - pretendo esgotar sua filmografia um dia - me apareceram uns dizeres bem bacanas, que resolvi compartilhar. Fui parando cena por cena para anotar, espero que gostem)
"Durante toda a nossa vida, enfrentamos decisões penosas, escolhas morais. Algumas delas tem grande peso. A maioria não tem tanto valor assim. Mas definimos a nós mesmos pelas escolhas que fazemos. Na verdade somos feitos da soma total das nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tâo imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com nossa capacidade de amar, que atribuímos um sentido a um Universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos parece ter a habilidade de continuar lutando, e até encontrar prazer nas coisas simples, como sua família, seu trabalho e na esperança que as futuras gerações alcancem uma compreensão maior."
Boas festas
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Napolitana nunca mais
Realmente este é o país do futebol. São pouco entre nós aqueles que não possuem uma fotografia, ainda no carrinho de bebê, ostentando uma enorme camisa do time do coração do pai ou de algum tio. Crescemos em meio a invencionices futebolísticas. Qualquer lugar é passível de abrigar uma pelada, e muitos objetos podem servir de bola. Meias emboladas, tampinha de garrafa, latinha de refrigerante amassada... é só ter dois pares de sandálias havaianas por perto pra servir de traves que o negócio funciona.
As variações nos tipos de jogos também eram quase ilimitadas, era rebatida, linha, artilheiro, gol a gol, três dentro três fora...independentemente do número de jogadores, sempre havia uma modalidade que abrigasse o grupo todo. No colégio, a aula de educação física era sempre a mais aguardada. Tenho certa pena dos educadores físicos: quatro anos estudando, pra chegar na hora de aplicar os conhecimentos, ele praticamente resumir-se a ajudar a escolher os times e jogar a bola no meio da turma e deixar que o resto eles resolvem. É a única coisa que dá pra fazer, não existe colaboração para qualquer outra atividade.
Pois bem, nesse país assim crescemos, e salvo raras exceções, à parte a intimidade com a redonda, nos tornamos torcedores com variados graus de fanatismo. Algo que realmente influenciará em nossas vidas para sempre.
Dito isso, informo-lhes que o Palmeiras hoje, 6 de dezembro de 2009, depois de permanecer 17 rodadas como líder do brasileirão, não só não conquistou o título como também perdeu a vaga na libertadores. Elejo este o fiasco esportivo do século. Informação adicional: o Flamengo foi campeão.
Não pretendo discorrer sobre a catástrofe palestrina, nem procurar justificá-la. Quero confessar aqui que não achei de todo ruim ter o Flamengo vencido o torneio. Como palmeirense que sou, ruim de verdade seria ter de ver mais uma vez o São Paulo vencedor, ou ainda o Corinthians, nem que fosse a primeira.
Ainda preferia que o Inter ganhasse, mas acabei ficando feliz pelo seguinte: A verdade irrefutável número dois em se tratando de nascer brasileiro é que, caso você não nasça em São Paulo, não torça para nenhum time de lá, ou não faça parte dos trinta por cento dos cariocas que, somados torcem para o Vasco, Fluminense ou Botafogo, você indubitavelmente terá como primeiro ou segundo time o Flamengo.
Esse negócio de segundo time era uma coisa que eu não tinha familiaridade antes de morar fora de São Paulo. Mas é comum nas cidades interioranas, quando o time local não tem projeção nacional (ou seja, seus jogos não passam na televisão as quartas-feiras e aos domingos) eleger o Flamengo como segundo time do coração. Isso não é uma ofensa, nem uma provocação, apenas uma constatação feita depois de vir em Florianópolis, conviver com pessoas de muitos outros estados e conhecer muita gente que torce para o Avaí/Flamengo, Vila Nova/Flamengo, Atlético Goianiense/Flamengo, Vitória/Flamengo, e até somente Flamengo, mesmo não sendo carioca. Inclusive tenho um grande amigo que nasceu em Brasilia, morou um tempo em Natal, outro tanto em Belo Horizonte, agora está estudando cá em Floripa, e que me confessou que simpatiza com Palmeiras/Flamengo. Esse claramente não sabe escalar meio time nem de um nem de outro, mas pra ver onde a coisa chega.
Assim sendo, encaro o título do Flamengo como um presente de fim de ano para a grande maioria dos habitantes deste país, cuja verdade numero três a seu respeito é ser um povo forte, porém sofredor. Que esquece que tem compromissos sérios e chatos para tratar no dia seguinte, esquece que o trabalho não vai ser fácil, e que não pagará as contas de casa, e o remédio do filho, e as prestações da geladeira nova. E fica de frente à televisão (ou radinho no ouvido) por um tempo curto porém mágico, que narra os acontecimentos vindos de um lugar que ele nunca porá os pés, mas onde ele certamente sonhou pelo menos uma vez na vida em fazer um gol com a camisa 10, pelo time do coração.
Hoje é dia de festa para a maior torcida do mundo, dia de torrar um pouco mais daquela grana que já não ia pagar o remédio ou a geladeira e de tirar sarro da cara do amigo cujo time foi rebaixado, ou que não foi pra libertadores.
E até o fim do primeiro tempo tava tudo indo muito bem. O Palmeiras apesar de não estar ganhando, ainda tinha a vaga para a libertadores assegurada e, pela combinação dos jogos, o Inter seria o campeão. Resolvo ir a uma padaria aqui perto, a Napolitana, comprar algumas coisas para o café da tarde. Eis que, quando estava no caixa, passando a compra, um molequinho vira pra mim (que estava trajando o uniforme do Palmeiras) e diz: ''O Palmeiras tá fora do G4”. Eu sabia que não, estava acompanhando os jogos, e depois de ter discutido com o menino e terminar com “quer saber mais do que eu, que sou palmeirense??” saí revoltado com tamanha petulância e voltei pra casa para acompanhar, conformado, apenas a conquista do quarto lugar no campeonato.
Chegando aqui, suco e lanche preparados, ligo de novo a televisão e vejo, concomitantemente, o Cruzeiro vencendo e o Palmeiras acabando de sofrer o primeiro gol, ou seja, saindo do G4 e deixando escapar a vaga para a libertadores.
Verdade sobre o povo brasileiro número quatro: por mais que negue, é um povo supersticioso, que acorda com o pé direito, veste a roupa que acha que dá sorte, senta sempre no mesmo lugar no sofá porque senão o time perde, e que não volta a padarias em que existem moleques impertinentes e preditores do fracasso alheio. Napolitana, nunca mais!
sábado, 5 de dezembro de 2009
Carta ao amigo imaginário
Pra quem conhece, parece mais uma mixiriquice do careca. Nosso ilustre amigo inventou esse semestre um amigo imaginário. O sujeito tinha algum parentesco longe e obscuro com ele, e por motivos ainda mais nebulosos foi morar uns tempos no apartamento do Mixirica. O engraçado é que quando aparecíamos por lá, o camarada nunca estava, mas a cama que o careca emprestou-lhe estava sempre desarrumada.
Enfim meu caro amigo, não me importo que você tenha essa condição de existência meio duvidosa. Estou eu aqui, finalmente de férias, sentado no sofá com uma cervejinha do lado, observando o sol se pôr por entre os predinhos da Trindade, João Bosco tocando Papel Machê, o laptop no colo e a vontade de escrever.
Esse semestre foi puxado. Fiz muita coisa, não fiz um tanto de outras, mas o saldo parece ser positivo. Arrisquei(-me) um bocado, aprendi outro tanto, e nesse meio de caminho ri e chorei pra valer, fiz novos e grandes amigos, decepcionei alguns, mas de qualquer forma, segui mais do que nunca aquilo que achava certo.
Mano, se eu te contar você não acredita, fui até atropelado dia desses. Voltando da Festa de Gala da Atlética a pé com o Digão, fui correr atrás de uns balões mas, por estar ligeiramente bêbado, as pernas não acompanharam os movimentos e a rapidez planejados e eu fui tropeçando até a rua, no que veio um carro e bateu em mim. Rolei no chão e tudo, mas não me machuquei muito.
Por me sentir meio culpado ainda fui pedir desculpas ao motorista: ''foi mal cara, to meio bêbado''. No que ele, polidamente respondeu: “Tem problema não, eu também to!”. Esse mundo maluco...
Falando em bebedeira, isso não sei se fiz de mais ou de menos, você me conhece quanto a esse respeito né?! Mas posso te afirmar que fui parando aos poucos com aquela mania de façanhas andarilhas no final das baladas. Hoje já não volto nem do Mercadinho Chico a pé se tiver outras opções. E também parei de bodear nas festas, isso tava enchendo o saco da galera, eu tava até perdendo moral.
Sem dúvidas foi o período em que eu mais estudei. Claro que com o tempo a gente vai perdendo o pique, mas no começo eu tava um nerd absurdo, não faltava eu aula nenhuma e estudava praticamente todo dia em casa. Aprendi muito, não só sobre medicina, mas também a ser perseverante. Lembra que eu queria muito fazer pesquisa, iniciação científica e tal? Pois então, eu fiquei o semestre inteiro enchendo saco dos professores, sugerindo projetos, vendo as possibilidades, até que quase no final, quando eu já tinha desistido, de repente me apareceram dois, e por um deles eu vou até receber bolsa de iniciação científica ano que vem. Isso foi pra mim até agora uma das maiores provas de que, se o cara quer mesmo uma coisa e corre atrás dela com vontade mesmo, na maioria das vezes ele consegue, pode apostar.
Por causa disso acabei me afastando da galera da minha sala. Minha frequência nas mesinhas de poker foi ridícula, até nas festas de turma apareci bem menos. Mas não pude deixar de ir na de encerramento, que foi bem engraçada por sinal, fiquei até pelado na piscina. Preciso pedir desculpa para as meninas, elas não devem ter ficado muito a vontade com a situação. Pretendo voltar a sair com o pessoal mais vezes semestre que vem.
Velho, cê sabe que eu sempre fui meio vassourão né?! Acredita que de uns tempos pra cá eu até dei uma tranquilizada? Tava gostando de estar com uma guria só. É tão gostoso perceber que uma pessoa séria, bacana, inteligente e bonita pensa em você e quer estar com você. A completude dos momentos em que se está junto é muito maior do que naqueles em que você está com alguém que acabou de conhecer numa balada. Eu nunca tinha valorizado muito isso. Mas parece tão óbvio né? Só eu que fui perceber essas coisas apenas aos vinte e dois anos. Aprendi bastante com ela, vou guardar isso com carinho.
Mas de qualquer forma me sinto um pouco mais leve. Cê que me conhece bem sabe que quando eu to bem, feliz da vida, adoro ver todo mundo bem também, contente e vivendo coisas legais. Mas quando o tempo tá fechado, e parece que tudo tá dando errado, daí fico puto até com as conquistas das pessoas próximas. Não sei se é normal de todo ser humano, sei que não é uma simples característica, é um defeito, que eu detectei em mim e fiz questão de arrumar. Tá louco! Que coisa besta!
Descobri que se as coisas não estão lá como eu gostaria, ver o outro feliz por uma conquista (caso merecida, que fique claro) e conseguir sentir-se bem com isso é um santo remédio. ''Poucos são os homens com bastante caráter a ponto de sentir-se feliz com a conquista do próximo sem sentir um pingo de inveja''. Isso não veio de mim, mas é pra mim. Pra mim não, pra todo mundo, pensa nisso você também. Seja um parasita da felicidade das pessoas que você gosta. Não sei se parasita é a palavra certa, porque dessa relação os dois saem beneficiados, acho que é comensal né? De qualquer jeito, não tenho vergonha de admitir isso pra você, todos tem lá seus defeitos, mas é vivendo, refletindo e tentando mudar que se consegue melhorar.
Pô, é realmente coisa pra caramba. Viver aqui nesse lugar, com todas as oportunidades que tenho, e tanta gente bacana pra compartilhar os momentos, as ideias, ensinar e aprender a todo momento...ainda bem que esse curso tá só chegando na metade.
Venha me visitar qualquer dia, não muito em breve, que agora to indo matar a saudades do pessoal de São Paulo. Mas venha sim, você não vai se arrepender. Manda lembranças pro Mauro e pra Audrey.
Grande abraço
Pedro
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
O dia
O dia anterior
Casa de família de classe média, num bairro qualquer de São Paulo, entre as 19h e as 21h.
A TV já estava ligada. Embora ninguém da família tenha se visto durante quase todo dia, ao chegarem nada dizem. Ouve-se um único e ligeiramente entusiasmado "boa noite", abafado pelo tilintar das colheres a pôr comida nos pratos, pelos copos e travessas batendo na mesa de jantar, anunciando o início da refeição.
Embora a TV permanecesse ligada, ninguém olhava para ela. Olhavam para o prato, vez ou outra uns para os outros, mas o olhar era distante, cada qual absorvido em seus pensamentos:
"Olha aí, eu bem que desconfiava, chega com uma alegria em casa! Uma disposição! E cada vez mais tarde, mas pensa que me engana...ah não! Suportei até hoje, cuido de tudo, da casa, das crianças. Ele não é ruim, eu sei, mas não tenho mais dúvidas, só pode ser isso! Tem muita moça novinha por aí doida pra se arranjar com homem assim. Tá mais que explicado. E eu, que sempre me contive...se ele soubesse o quanto eu me contive...mas agora chega, se ele pode, porque eu não? E vai ser amanhã mesmo, tá resolvido."
"Droga, porque justo agora? A gente fez tudo certo, não tinha como acontecer. O que vão pensar?...minha vida tá arruinada, minha família vai me odiar, eu vou ter que me arranjar sozinho. Todo mundo confiava em mim, eu não podia desaponta-los...já sei, vou falar pra ela tirar, ela não vai ganhar nada com isso mesmo, se pensa que vai, azar o dela...é isso mesmo, ela vai ter que tirar..."
"Esse chuchu não tem gosto de nada, eca! Eu que não vou comer, acho que vou colocar no bolso e levar pro Galileu, ele come de tudo mesmo. A mãe fala que só pode dar ração, se não ele fica com diarréia...ou senão eu jogo no lixo...não, se alguém ver eu tô lascado, melhor na privada, isso!...ah, mas o pai fala que não pode desperdiçar comida, melhor dar pro Galileu mesmo, levo um bife junto."
"Que chatice, quero voltar logo pro meu quarto, não tô com a mínima fome. Mas se eu não comer tudo não posso sair da mesa...eles pensam que eu ainda sou criança, mal sabem eles que...uuu, como o papai é desprezível, roçando o pé na perna da mamãe debaixo da mesa, pensa que ninguém vê, será que não percebe que nem a mamãe tá gostando, olha a cara dela...ele não entende nada...nem ela, alias ninguém entende...já sei! Fujo de casa!!...amanhã!..."
"Ah! Que maravilha, depois de tanto tempo, sabia que eles iam reconhecer. Com a saída do Jorge só eu poderia ocupar esse lugar. E o Moraes deu tudo a entender...será o fim de tantas horas extras, eu não aguentava mais...ah, tudo por essa família. Com essa grana extra talvez eu até compre aquele apê na praia que ela tanto quer...vai ser mesmo uma maravilha! mas não vou contar nada a eles ainda, deixa o Moraes confirmar...e ela que me aguarde daqui a pouco, hoje to com disposição..."
Terminaram o jantar. O menor correu para o quintal. O mais velho e a do meio foram para seus quartos. A luz do primeiro logo se apagou, no segundo ouvia-se barulho de portas abrindo e fechando, coisas sendo arrastadas.
Na suíte ela nada queria, mas ele sabia como fazer...
O dia
É irônico como fazemos planos contando com a coragem que não temos. Como planejar investimentos ou viagens com o dinheiro da loteria que ainda nem foi sorteada, nos iludimos provisoriamente de que as chances de concretizarmos aquilo que pensamos são reais, dando-nos um prazer fugaz.
O dia amanheceu e quem primeiro levantou foi a do meio. Começou a recolocar tudo no lugar, não queria que ninguém visse suas coisas reunidas para um fuga que nunca aconteceria. Não, ela não tinha coragem. Trocar todo o conforto e vida fácil que tivera até agora para se aventurar com o fulano com quem andava saindo a menos de um mês. Por mais intensas que sejam as paixões adolescentes, raras são as vezes em que vencem as condições e estruturas familiares.
Ao chegar à firma o pai é apresentado ao ciclano de tal, metade de sua idade, filho do vizinho do cunhado do dono da empresa, que começaria naquele dia seu trabalho na gerencia, no cargo deixado pelo Jorge. Adeus casa na praia. Adeus sonho da esposa.
A mãe por sua vez até parou na frente do prédio do beltrano. Sabia que ele estaria lá. Pensou durante uns minutos, começou a suar frio. O porteiro a olhava curisoso. Ela deu um passo a frente, a expresão em sua face se fechou, uma lágrima caiu, ela desatou a correr por uma direção qualquer. Outras, e muitas lágrimas cairam. O porteiro nada entendeu.
O mais velho resolveu adiar a conversa, precisava preparar-se. E afinal de contas, vai que o teste falhou! Ela falou que faria outro. Isso mesmo, era preciso esperar, e se preparar. O dia seguinte é que seria importante. Hoje não, hoje o dia é para os planos...
No meio do dia o menor volta da escola para casa, passa pelo quintal e sente um cheiro nada agradável. "Preciso limpar antes que alguém veja". O resultado do desarranjo intestinal do Galileu mostrava que o intento não menos importante, no mundo do caçula, encontrou seu meio de acontecer na inocente e autêntica coragem, inerente aos infantos.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
501 A
Ontem, após finalizar um pratão de arroz, feijão e frango ouvi outro perguntar se eu tinha comido alface.
Antes de ontem, um colega meu de sala achou graça de um de nós, que enquanto lhe dava carona ligou para casa pra saber se os demais já haviam jantado.
Há quase um mês, três de nós fomos assistir à primeira comunhão do outro que resta.
Há pouco menos de dois anos, ao acordar acendi a luz do quarto e me deparei com duas folhas de papel sulfite dobradas sobre meu criado-mudo. Antes de desdobrá-las passei os olhos ao redor do quarto e vi as malas prontas: Estava indo embora.
Ainda sentado na cama resolvo abrir o papel e nele leio palavras carinhosas e encorajadoras de minha irmã. Depois de terminar a carta, entro no banheiro, ligo o chuveiro, sento na patente e apesar do nó na garganta as lágrimas me escapam. Começo a sentir ali a falta da minha família.
Mudei-me sozinho de São Paulo para Florianópolis para fazer faculdade. Iria deixar de ver as pessoas com as quais convivi durante vinte anos. Certamente não seria fácil.
Quando aqui cheguei, fui morar com um amigo de São Paulo e mais dois amigos dele do curso. Passado meio ano, um deles se mudou e outro amigo meu de São Paulo passou na faculdade daqui e veio morar conosco. Continuamos em quatro.
O começo como previsto foi difícil. Apesar de todas as festas e novidades da vida universitária, nos primeiros meses a saudade de casa era quase insuportável e eu não passava um dia sem fazer a contagem regressiva para o próximo feriado prolongado, quando voltaria a ver a família.
E então veio o inevitável. Passa-se o tempo e criam-se raízes. É a rotina (que você lutou tanto pra conseguir), as pessoas que convivem com você e que estão na mesma situação, com as quais você se identifica e, principalmente, o nascimento de uma nova família.
Longe de mim querer comparar minha família lá em São Paulo (meus pais e minha irmã) com esses marmanjos que mal tomam banho e dividem a casa comigo aqui em Floripa. É muito confortável deitar pra dormir a noite e lembrar que tenho uma família que me ama e que sente minha falta lá longe. Que sempre que eu voltar, vou encontrar a cama pronta, vou acordar e ter o café na mesa, os abraços, os carinhos, as broncas e tudo mais.
Mas acontece que família é um troço doido, que na minha concepção tem muito a ver com sentimento, com valores, com respeito e admiração recíproca (apesar dos pesares). É engraçado atribuir a esses três manés que moram comigo, que nem sabem direito o que querem da vida, essa palavra tão forte.
E quando digo que é um troço doido, é doido mesmo. Na maioria das vezes parece que a gente tá lidando com um irmão, mas por vezes, um ou outro faz o papel de pai e se der na telha, até de mãe. E haja paciência quando isso acontece, o pessoal interpreta à altura.
O que faz desses três uma família pra mim? Tentarei explicar:
É sair reclamando das luzes acesas pela casa, perguntando se o pai é sócio da Light..
É acordar cedo de domingo e chamar pra assistir a Fórmula 1.
É regular o refrigerante por ver o outro engordando sem parar.
É sentir vontade de voltar pra casa ao final do dia só pra falar e ouvir abobrinhas.
É brigar pelo melhor espaço no sofá na hora do filme.
É emprestar e pegar dinheiro e nunca ter certeza absoluta do tamanho da dívida.
É querer manipular o rádio do carro.
É ir à missa junto.
É brigar pela panela mal lavada (ou não lavada) na vez do outro de lavar a louça.
É ver o outro dormindo no sofá há duas horas enquanto deveria estar estudando e ainda lhe dar mais um prazo de quinze minutinhos antes de acordá-lo para os deveres.
É ver o outro pegando uma gata e sentir inveja.
É ver o outro pegando uma baranga e sentir inveja também.
É ver de longe o outro, feliz da vida, dando risada de uma coisa qualquer e se sentir bem com isso...
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Na feira
Fui à feira e comprei quatro caixas de morango, uma dúzia de laranjas, duas pencas de banana, algumas verduras, um pastel e um caldo de cana.
Não, não se trata daquela velha brincadeira em que a gente inventa que foi na feira comprar coisas e quando chega a sua vez de falar, você tem de lembrar do que todos compraram até então e dizer alguma coisa nova, e quem não acertar a ordem das coisas tem de pagar uma prenda. Hoje eu realmente fui à feira, com meu pai.
Não tenho prática na escolha de vegetais e também não sei o que seria um preço justo para cada um deles, portanto minha função era ajudar meu pai a carregar as sacolas. E, ao final da empreitada, a merecida recompensa: pastel e caldo de cana.
A feira em questão acontece toda-terça feira num bairro de São Paulo onde moro desde que nasci. O mecanismo da feira é bem distinto de uma outra que conheci numa cidadezinha no noroeste do Paraná. Lá a feira começa religiosamente as 17h, inclusive com o soar de um apito, que permite que as pessoas iniciem suas compras.
Minutos antes do soar do apito, algumas pessoas já se prostram em frente à barraca do alface, produto provavelmente escasso na região, haja vista a concorrência para apanhar o seu...maço?
Abro aqui um parenteses para comentar uma questão levantada naquela ocasião. Justamente discutindo a disponibilidade de tal hortaliça, estávamos quatro amigos e eu nos indagando sobre qual o nome que se dá para um conjunto de alface. Cada um tinha seu palpite, alguns razoáveis e outros completamente impossíveis e fora do bom senso. Eis as opções:
1 – Pé de alface
2 – Cabeça de alface
3 – Maço de alface
4 – Moita de alface
5 – Buquê de alface (meu palpite)
Como não chegávamos a um consenso, fomos pedir opiniões alheias e o placar ficou mais ou menos empatado entre pé de alface e maço de alface. Mas no fundo, isso é coisa regional, tenho certeza de já ter ouvido por aqui os feirantes das barracas de alface gritando ´´Dois buquê é um real!´´ ou algo que o valha.
A feira daqui é muito diferente. Lá, apesar do inicial fuzuê causado pela compra de alface, a feira em si é silenciosa, ninguém grita nada, todos sabem onde achar o que querem, até porque não há lá muitas opções. Aqui, primeiramente, a não ser que esteja muito enganado, não há apito ou sirene que nos diga quando podemos iniciar as compras. É bem verdade que nunca compareci ao inicio da feira, que aqui é de manhã bem cedinho, mas ninguém nunca me falou sobre tal peculiaridade.
O que pra mim melhor caracteriza a nossa feira, ou, no meu mundo bolha de antigamente, todas as feiras do mundo (ainda acredito que a maioria seja assim) é aquele furdúncio e desordem causados pelos transeuntes que fazem de seu próprio trânsito algo mais caótico que as avenidas indianas que vemos as vezes na televisão e a gritaria protagonizada pelos feirantes.
- UMA DÚZIA DE LARANJA È UM REAL!
- OLHA A BANANA PRATA, SETE REAL DUAS DÙZIA! QUEM VAI LEVÁ??
- um real o saco de alho, um real o saco de alho.
- OLHA A MANCA ROSATA, TUAS, TOIS REAIS!
Como não tinha obrigação de ficar escolhendo nada, enquanto esperava meu pai, eu ficava atento às chamadas dos feirantes. O cara das laranjas era bem engraçado, dizia ele, além da frase já citada – UMA LARANJA DÁ UM COPO DE SUCO! OLHA O TAMANHO, PARECE UM CÔCO! – ou ainda – LARANJA ASSIM VOCÊ NÃO COMPRA NEM NO MAPPIN!
Eu nem me lembrava que existia uma loja chamada Mappin, e que eu me lembre lá não se vendia esse tipo de mercadoria. De qualquer forma, via-se que o feirante fazia de seu oficio uma diversão, e levava jeito para a coisa.
O homem do alho era um velhinho ambulante, que parecia mais estar fazendo um comentário ultra-secreto com seus botões do que tentando vender os alhos que estavam empacotados em suas mãos. Já o sujeito da manga, apesar de trocar o ´´g´´ pelo ´´c´´ e o ´´d´´ pelo ´´t´´, era o único ali que sabia usar o plural.
Além dos feirantes, inevitável não reparar nos compradores, muitos deles conhecidos meus. Esta feira fica perto de uma casa que eu morava antigamente, há uns 10 anos. Desde que me mudei de lá, raramente ia à esta feira. Mas estavam lá, meu antigo professor de música, a senhora que cantava no coro da igreja, a velhinha que faxinava os corredores de uma escola dos arredores onde estudei da 1ª á 3ª série do fundamental, e tantos outros que eu conhecia só de vista.
É muito mais fácil para alguém reconhecer uma pessoa que passou dos 40 anos para os 50, ou dos 54 para os 64, do outra reconhecer alguém que passou dos 10 para os 20. Por isso acho que reconheci tanta gente e, surpreendentemente, apenas a senhorinha da faxina me reconheceu. Veio falar comigo, perguntar como eu estava, perguntou da familia, inclusive do meu avô, que falecera há 8 anos.
Passam-se tantos anos e as coisas não mudam. Pra dizer bem a verdade algumas mudaram sim: lembro-me que antigamente havia um pessoal que vendiam fitas K7 na feira; hoje eu vi dois ou três sujeitos vendendo DVDs (2 por 5 real). Os pasteis; lembro-me de ficar na duvida cruel (queijo, carne ou pizza, piorando drasticamente quando adicionaram os de frango com catupiry e palmito). Hoje atendem pelos nomes Casal 20 (queijo com carne e azeitona), Carioca (frango com palmito e catupiry), além dos ´´tradicionais´´ de 4 queijos, camarão com catupiry LEGITIMO (afinal de contas hoje em dia tem muito pilantra por aí botando requeijão e dizendo que é catupiry) e vários outros.
Apesar da barulheira, foi uma manhã bastante agradável, nostálgica. O grande prazer de perceber que pode passar o tempo que for, podemos conhecer novos lugares, aprender coisas novas, adquirir nova visão do mundo, e por vezes nos iludirmos achando que entendemos muita coisa sobre tudo, lamentando estar tudo indo para o buraco, mas haverá sempre uma antiga feira para nos lembrar que a essência continua a mesma; na dinâmica das relações, é ali que encontramos sua raiz. E assim, nos proporcionar algum tipo de alívio.
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Quem sou eu
- Pedro
- Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.