terça-feira, 3 de julho de 2012

Pequeno adendo futebolístico


(A intenção dos comentários deste texto, não é de ofender ninguém, bem como qualquer conteúdo do blog. Caso alguém assim se sinta, dê sua opinião e o conteúdo será revisado)

Ainda não foi decidido, nem de forma aristocrática e muito menos por maioria de votos, se o futebol faz parte das coisas regidas pela lógica e probabilidade ou das regidas pelo cosmos e entidades sobrenaturais. Como tudo no universo, e os clubes futebolísticos nele inseridos, parece, por diversos fatores, e principalmente boas e más gestões de diretoria e patrocínio, que se trata de ciclos. Ora ganha-se muito, ora ganha-se nada.
Passado este preâmbulo que talvez explique menos que entrevista de centroavante depois de uma furada na pequena área, em semifinal que o time perdeu por 1x0, o fato concreto é que não parece lógico que o Corinthians, um time quase sempre competitivo, tenha demorado tanto tempo para chegar tão perto de ganhar o título da Libertadores. Eu, como palmeirense que se preze, nessas horas não dou a mínima para a lógica, e por mais que um dia “Dê a lógica”, seria bom que isso demorasse mais 102 anos e eu não fosse obrigado a presenciá-la.
 É, de certa maneira, cômica a forma apocalíptica como se encara essa final, como se fosse as Ilhas Faroé se classificando para a Copa, ou um Congolês que só nadou uma vez, (e num açude), em toda vida, conseguindo completar os 200m livre nas olimpíadas. A diferença é que ninguém, salvo os próprios corinthianos, aplaudirá. Mérito (?) dos “maloqueiros e sofredores, graças a Deus”, que fazem de seu time o maior motivo de aversão nacional, e gostam disso. Mas futebol é assim mesmo, alguém terá de ganhar e rivalidade até certo ponto é saudável.
               
Resolvi puxar o assunto pra dizer que apesar de qualquer coisa, não é certo, como a principio até eu pensei, imaginarmos que uma eventual conquista do arquirrival venha a suprimir o fato de que estamos a beira de ganhar um título nacional depois de mais de uma década. É a pior equipe que chega a uma final desde que sou palmeirense, ou seja, desde que me entendo por gente. Não tem Cesar Sampaio e Roberto Carlos, nem Evair e Edmundo de 93, 94. Não tem Rivaldo, Djalminha, Cafú, Luizão e Muller de 96. Alex, Arce, Junior, Zinho, Paulo Nunes e Oséas de 99, mas estamos aí.
Nenhum de nós, por conta disso, deixou de torcer pelo Palmeiras, apesar de más gestões, contratações sempre duvidosas, resultados vexaminosos, de ser por vezes chamado de Guarani da capital, entre outros. São 12 anos com apenas um paulista, e daí? Vamos deixar tudo pra trás e acreditar mais uma vez que esse será o gatilho para um novo ciclo, de muito mais prestígio, vitórias e títulos. Difícil do jeito que está? De algum jeito tem de começar! Se a galinhada não ganhar, tanto melhor, infinitamente melhor. Mas o dia seguinte é Palmeiras! Se esse ano for, pelos outros, lembrado pelas conquistas alheias, tanto faz. A gente vai ganhar essa Copa do Brasil!
               
E pra entrar no clima da decisão, deixo um link do cara que pra minha geração, foi o maior ídolo de todos e que sirva de espelho para os jogadores que estão aí:
               
http://www.youtube.com/watch?v=hAw_hVzbKOg

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A música e nós


Ontem fui a um concerto na Sala São Paulo e saí querendo escrever um tratado sobre música. Não sobre música em si, por motivos óbvios, mas sobre nossa relação com ela. Contudo, a coisa mais longa que escrevi mal encheria um panfleto e, ao me lembrar disso, tratei de usar meu “poder” de síntese e tentar comunicar meus arroubos epifânicos em uma ou duas páginas, na qualidade atual de cronista amador.

É impensável um mundo sem música. Eu, e tenho certeza que muita gente, já acorda com alguma música na cabeça. Uma das grandes vantagens da modernidade é que dá para apenas virar para o lado e, em uma dúzia de teclas e cliques, ouvir qualquer versão que você quiser daquela música na mesma hora.
E ficamos ruminando músicas o dia todo. Somos cercados de sons, que quando entram em concordância, são reconhecidos instintivamente e de imediato como entidade imprescindível e parte integrante de nós mesmos. Claro que dependendo das experiências auditivas e vivências que a pessoa teve durante sua existência, a interpretação de “sons concordantes” pode variar muito. Apesar disso, acredito que, quando uma pessoa está com sua atenção voltada para determinado estímulo, no caso sonoro (ou seja, está plenamente consciente, sem pensar na morte da bezerra ou no que vai fazer se ganhar na mega-sena) quando a harmonia é atingida, ela é intuitivamente percebida. Não precisa de nenhum conhecimento prévio para isso.
               
  Ontem isso ficou bem claro pra mim. Meu conhecimento sobre música erudita é bem limitado, mas com atenção, e certamente por mérito dos músicos, do regente e do idealizador do concerto, aquilo me dava a impressão de poder se passar tranquilamente por popular. Era a sabedoria buscando naturalmente a harmonia, a arte dando o exemplo nítido de que o bom e o belo se tornam justos por conceito, e dando por fim uma sensação de paz, que é a razão última, direta ou indireta, de qualquer atitude do ser humano.
Paz esta que pode ser alcançada pela música de outras formas. A sensação não foi muito diferente de fazer parte do maior karaokê humano de que já participei, entoando Na na na na, hey Jude! Debaixo de um temporal, durante 7 minutos, que poderiam durar 70, no final do show do Paul McCartney. Ou cantar de cabo a rabo todas as músicas de Los Hermanos na companhia de grandes amigos na turnê que fizeram pelo Brasil. Ou ainda ouvir João Gilberto cantando baixinho, embalando o sono santo de vários dias; um reggae na república, ou num luau na praia.

A música exerce tanta influência em nossa vida, que os comerciantes, sabidos que só eles, criaram em certas lojas um sensor na etiqueta das roupas, que quando você vai prová-las, é lido e começa, no provador, a tocar músicas que estimulem a compra. Por exemplo: você vai provar uma bermuda de praia e quando entra no provador, começa a tocar uma música do Jack Johnson.
 Não é a toa que elegemos músicas de nossas vidas, músicas de namoro, da época de faculdade, que nos fazem lembrar momentos, pessoas ou lugares. O mais interessante é que todos podemos não só apreciar como também fazer música. Alguns talvez não desenvolvam habilidades técnicas para tocar algum instrumento, (o que no fundo é só uma questão de vontade e muito treino) mas todos tem um potencial latente e único: a voz, que é definitivamente o instrumento musical mais incrível que existe, talvez por ser o único não criado pelo homem.  É só compreender o que cabe a cada um. Não poderia a Fernanda Takai cantar as músicas da Janes Joplin, ou o Zé Ramalho ser vocalista dos Bee Gees, mas todos são igualmente eficientes, e agradáveis por reconhecerem seus potenciais
                
As experiências vividas são ditas únicas e intransferíveis, com toda a razão. No entanto, com um pouco de esforço, há de se transmitir um pouco das sensações e aprendizados dos grandes e singelos momentos, não para que aprendamos com erros e acertos alheios, mas para ficarmos mais vigilantes quando circunstâncias similares nos aparecerem à frente. A atenção é de certa forma uma virtude, que quando empregada da maneira correta pode nos fazer entender muito mais sobre música e nós mesmos.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Crônica n. 50


Esta é uma crônica que tem tudo pra dar errado, fadada a ser uma grande porcaria. Já começou mal, com um título pretensiosamente grandioso, o que já furta a gênese do propósito das crônicas. E quando ganha peso (pô, Pedrão, 50 crônicas?! Agora vai, hein!) não presta, porque ela é conceitualmente leve, mesmo que trate de assunto sério.
 Oras, pra que mesmo serve uma crônica? Por que, raios, deveríamos ler uma crônica? Ou pra que alguém se submete a escrever um troço desses? Porque será que ela fica relegada à última página dos cadernos dos periódicos, ou perdida em meio a uma notícia sobre a excursão das baleias francas ao litoral brasileiro e uma propaganda das Casas Bahia? Uma crônica, apesar de geralmente se referir a um fato concreto, notícia por natureza, nunca terá seu conteúdo revelado na manchete do jornal.
Mas elas devem ser respeitadas, e faço desta crônica em particular, uma metalinguagem propagandista, como um samba de Vinícius, ou um poema de Drummond (no propósito, não na qualidade, evidentemente); defendo o gênero com unhas e dentes, e que sejam eles o bom-humor e a reta palavra.
                
O cerne é narrar um fato cotidiano, e embutir nele algum senso crítico, uma reflexão, ou uma sacada humorística qualquer, que nos aproxime uns aos outros e nos lembre de que apesar de estarmos vivendo cada um seu contexto, sua história, somos pessoas muito similares. Que esteja a zona do Euro em crise, a Antártida derretendo, outra Galáxia sendo descoberta, ou o Neymar jogando bem (ou mal), há muita coisa acontecendo conosco e em nossa volta, que só se tornam pequenas porque nos induzem a pensar assim. 
As redes sociais deram um jeito de que conseguíssemos uma auto-elevação ao “status” de notícia, mas isso já é outra história, não digo nem que é bom nem ruim. Tudo (ou quase tudo) tem seus dois lados.
Contudo, isso não é só obra da não-ficção, noticias, reportagens e afins. A ficção também tem lá sua culpa. Os heróis que as histórias nos contam são sempre produto de um desastre de laboratório, ingestão de um produto químico, irradiação, cruzamento de humano com alienígena ou coisa que o valha. E com seus super-poderes salvam o planeta, ou pelo menos os Estados Unidos. Qual o estímulo que temos para valorizar nossas histórias, e contá-las? Passamos nós mesmos por nossos desafios diários, trapalhadas na festa da firma, términos de namoros, pisamos na merda indo para um batizado, presenciamos a morte de alguém, choramos, rimos, relevamos, seguimos vivendo, sentindo múltiplas emoções desencontradas e, apesar disso, somos levados a acreditar que isso tudo é muito banal.
               
A crônica existe para nos divertir, ao passo que, por vezes, nos induz a uma ou outra reflexão de maneira leve, não enfiada goela abaixo. Não vai falar nunca sobre um assunto qualquer que não nos parece dizer respeito, sobre as quais não temos poder de ação. Vai sempre nos puxar de canto, seja lá onde nossa cabeça estiver enfiada, lá nas nuvens, debaixo da terra, num passado remoto, ou, como na maioria das vezes, em assuntos que não dependem da gente, e dizer: “Olha que coisa curiosa que aconteceu comigo ontem! Com você também já ocorreu? Será que todo mundo é assim? Ah! A gente não presta mesmo...”
               
  E que não falte assunto para as próximas 50!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Achados e perdidos


Senhor, desculpe o mau-jeito, vim correndo da chuva, já de saída perdi a hora, bem como o guarda-chuva, como pode perceber, mas nem é isso que vim procurar. Trouxe uma lista aqui, porque ando também perdendo a memória. Sei que não vai estar tudo aí, mas tem muita coisa que eu perdi, e não lembro onde, como ou quando, mas tenho que começar a procurar por algum lugar.
 Perdi tanta coisa pelo caminho... Onde é que está a lista? Até os cabelos, veja só! Acho que de tudo, só não perdi mesmo o juízo. Mas não sei se isso é bom.
 Devo ter deixado a lista em algum lugar. Perdi, hehe! Mas veja aí, por favor, não tem o meu sonho de juventude? Aposto que alguém o levou por engano, eles são todos tão parecidos, não é mesmo?

E aqueles dois ou três amores que tive na vida? Será que não foi aqui? Faz tanto tempo, me distraí com o trabalho, acabei perdendo também. Ah, mas aposto que aquelas chances de dizer às pessoas que amo o quanto elas foram importantes pra mim, essas não tem como não estarem por aí, pelo menos uma ou outra. Dá uma procurada melhor, deixa eu entrar aí que eu conheço bem como é.
 Não, meu senhor, relógio eu perdi também, mas isso a gente compra em qualquer esquina. Quero saber das coisas que não voltam, dessa categoria, será que não tem nada aí? Puxa, mas a minha lista era tão grande, revisei ela tantas vezes que perdi a conta.

Olha, o senhor não tá facilitando pro meu lado. Tem um monte de coisa aí que eu sei que ninguém vem buscar, nem percebe que perdeu. Eu trouxe aqui um material que talvez interesse pro senhor. Se achar que vale a pena, a gente faz negócio. Veja só, tá sobrando aqui pra mim: arrependimento. Dá pra trocar por alguma coisa? Eu tenho de monte. Vale pelo menos uma chance de passar ridículo? De ficar bêbado com os amigos e pular de roupa na Lagoa da Conceição. Ou de chegar na menina mais bonita da escola e dizer que to apaixonado, roubar um beijo, roubar no truco. Aprender a tocar violão, pedir o divórcio, mandar algum imbecil tomar no cú, mesmo que eu ganhe um olho roxo depois. Algum desses? Nenhum?!
               
 “Não temos nada parecido com chances perdidas”. É isso que o senhor tem a me dizer a essa altura do campeonato? Ora, é melhor o senhor sumir daqui antes que eu perca a cabeça! Vá para o diabo e leve consigo todos esses relógios, celulares, carteiras e chaves perdidas. O que eu quero agora é achar algo que valha a pena. Será que dá tempo? Vou lá pra fora ver o que é que tá tendo.
 Mas e aquele guarda-chuva ali? O preto, semi-automático. Eu tinha um tão parecido... 

sábado, 19 de maio de 2012

Sonhos de uma geração


- Pois é, minha filha! Levou um tombo, quebrou a costela, deu hemorragia...foi terrível! Isso, minha sogra!...
   Eu lia o “Clube da Luta” dentro de um ônibus que subia a Av. Angélica, as 7h15 da manhã, rumo ao meu estágio em geriatria no Hospital das Clínicas, quando percebi uma senhora bonachona narrando em alto e bom som, pelo celular, uma pequena tragédia doméstica que acometera sua sogra.
   Há um segundo atrás Tyler Durden dizia que há uma categoria de homens e mulheres jovens e fortes que querem dar a própria vida por algo. Mas que a propaganda faz essas pessoas irem atrás de carros e roupas de que não precisam. E que gerações tem trabalhado em empregos que odeiam para poder comprar coisas de que realmente não precisam. Que não temos uma grande guerra em nossa geração, ou uma grande depressão, mas na verdade temos, sim, uma grande guerra de espírito. Temos uma grande revolução contra a cultura. E a depressão é a nossa vida.
 Mais um pouco a senhora bonachona trocou de assunto e falava sobre alguma coisa que envolvia “ciclos de amaciante”, e que “por favor, não esqueça de estender as cuecas do meu marido, que ele anda sem, e se esquecer, amanhã não vai ter o que usar”.
               
  Ler no ônibus, ainda mais numa cidade como São Paulo, é a melhor coisa que se tem a fazer. É um paradoxo muito grande estar lendo “Elogio à Loucura”, ou uma biografia do Che Guevara e parar por uns segundos pra reparar nos seus companheiros de coletivo. O que será que essa galera tá pensando. Dá pra viajar legal analisando o cenário.
  Aprendi isso quando fazia cursinho, e subia aquela mesma Av. Angélica, para aprender uma porção de coisas que nos é cobrada para que passemos numa prova e vá aprender outras porções de coisas que nos darão condição de trabalhar em empregos que imaginamos que seja o melhor que podemos fazer. Hoje subo a Av. Angélica para aprender a tratar de velhos, o que, de fato, talvez seja o melhor que possa fazer.
 Olho em volta e vejo uma montoeira de gente de olhar vago, ainda acordando, todos em silêncio, (menos a senhora bonachona, que depois de quase quinze minutos de conversa, se despede da pessoa do outro lado da linha; mas não podemos culpá-la, já que a tarifa é de 25 centavos por ligação), como disse o Tyler, indo trabalhar em funções que detestam, ou não. Simplesmente, “era o que tava tendo”.
               
E nós? Doamos sangue, reciclamos lixo, escrevemos alguma citação bacana no mural do Facebook e achamos que estamos fazendo nossa parte. E no grosso da coisa, continuamos perseguindo os ideais da propaganda. “O meu sonho de consumo (FAIL!) é dirigir uma Lamborghini e ter uma casa em Jurerê, ou em Alphaville”. Como diz o grande Milton Leite: “Que beleeeza”!
Daqui uns anos estaremos as 7h15 da manhã, de cara amarrotada, olhar vago, num coletivo ou numa Lamborghini, pensando, quem sabe, em um dia ir trabalhar de helicóptero. E ter uma casa em Miami. Viver é isso, então?
               
“Advice for the Young at heart: Soon you Will be older. When you gonna make it work?” (Tears for fears, boa banda dos anos 80)

sábado, 28 de abril de 2012

Geração iPad: Onde queremos chegar?


Dias atrás conversei com uma pessoa que me contou que seu sobrinho ganhou de presente um iPad. Falava com alegria da facilidade com que o menino utilizava o aparelho, da destreza e movimentos intuitivos com que abria e fechava aplicativos e conseguia sempre executar os comandos que desejava. O único problema é que vez ou outra ele resolvia dar outras funções para o equipamento: em vez de concentrar-se na tela, resolvia arremessá-lo longe ou mesmo mordê-lo. Mas era compreensível, pois ele tinha recém completado dois anos.
A pessoa não disfarçava o orgulho que sentia da esperteza do sobrinho, até me mostrou uma foto em seu iPhone da criança olhando para a tela de seu presente e apontando o dedo para lá. No entanto, queixava-se de que ele nunca deixava pegá-lo no colo, apesar de, depois da mãe do menino, ela se sentir a pessoa mais próxima a ele. Beijos e demonstrações de afeto então, nem pensar.
              
  Sou de uma geração em que nossos pais começaram a comprar computadores quando éramos pequenos. Meus pais compraram o primeiro (para uso da casa) quando eu tinha oito anos. Até então eu já tinha muitos amigos, joelhos ralados, coleção de figurinha, bola de gude, e uma bicicleta “da hora, de 18 marchas!”. Foi legal quando o computador chegou, mais o PaintBrush, que era a maior diversão, perdia de longe para os amigos da escola e da rua.
 Os computadores e o mundo virtual chegaram às nossas vidas particulares sem que tivéssemos muita orientação de como poderíamos realmente nos beneficiar deles. É bem óbvia a praticidade e dinamicidade que eles proporcionaram em nossas atividades laborais, mas para muitos, o “Personal Computer” aos poucos foi deixando de ser uma ferramenta, um meio, para tornar-se um fim em si próprio.
 Resultado: boa parcela da minha geração, que hoje esta começando família e a terem filhos, estão apresentando de forma completamente alienada (alienação = ação sem reflexão) esses dispositivos à sua prole, antes que eles tenham contato com o mundo, pessoas, situações reais e estão achando isso uma maravilha, até porque eles mesmos (os pais) ainda não tem discernimento do real propósito de adquirir um aparelho desses. Mas numa sociedade democrática como a nossa, onde qualquer um faz o que bem entende, "se eu quero e posso, por que não devo?"
             
 Não vou discorrer sobre o uso ponderado dos aparelhos eletrônicos, da internet, ou das redes sociais, até porque a forma com a qual eu os utilizo fica muito aquém de seu verdadeiro potencial. Mas consequências desse tipo de atitude por parte dos novos pais são de fácil conclusão. Isso é um processo real e em curso, acho pertinente uma boa reflexão sobre o tema. Onde queremos chegar? Tem tanta gente que se diz preocupada com o mundo que deixaremos para nossos filhos, mas o que importará isso, se o mundo em que eles decidirem viver não for mais este?

sábado, 21 de abril de 2012

Último dia em Paris

Eu estava no Père-Lachaise procurando o túmulo do Jim Morisson quando encontrei um simpático casal, ele inglês, ela espanhola, mapa do cemitério na mão, a procura da morada eterna não só do vocalista dos Doors, mas como de uma dezena de outros figurões que por escolha ou acaso, jazem no terreno do 20º Arrondissement, em Paris.
 Em frente ao túmulo do Morrison há uma árvore com diversas inscrições de fãs, a maior e mais evidente delas clamando um dos sucessos da banda “Show me the way to the next whisky bar”. Foi defronte a ela que o casal resolveu me convidar para tomar uma cervejinha depois da caça aos túmulos.Tive de dar uma desculpa esfarrapada qualquer, pois sabia exatamente o que tinha na carteira: 3 passes de metrô e 5 euros, nada mais.
 No dia seguinte eu voltaria ao Brasil, e o dinheiro que levei para a viagem, depois de lambanças aeroportuárias e inconsequências etílicas, tinha literalmente acabado (na verdade há muito tempo, se não fosse o violão emprestado com qual resolvi improvisar alguns acordes e levantar uns trocados numa praça, durante minha estadia de um mês em Heidelberg).
 Evadiu-se o casal, e eu tracei meu plano: Um passe do metrô para ir à Basilica de Sacré Coeur, outro para voltar ao albergue. Cinco euros pagavam um lanche do McDonalds, e mais uma passagem de metrô garantiria minha chegada ao aeroporto no dia seguinte. Estando dentro da aeronave, não precisaria me preocupar em ser servido apenas de goiabinha ou clube social, e no mais, estando em Paris, me parecia uma boa ideia encarnar Gil Pender, alter-ego do Woody Allen no Meia-Noite em Paris, e ver no que ia dar.

A visita à Sacré Coeur foi um dos pontos altos da viagem. A basílica em si é bem bonita, mas o melhor de tudo foi o fato de que quando cheguei , havia uns artistas de rua tocando grandes sucessos para uma multidão sentada nas escadarias que dão acesso à basílica. Juntei-me a massa, de um lado uma japonesaiada (eles estão por toda parte), do outro o que parecia ser uma família local, mas estando por ali, impossível saber. O mundo inteiro estava ali, um pessoal da África vendendo barbantes entrelaçados multicoloridos para colocar no punho, paquistaneses vendendo crepe, turistas da América, Oceania, Antártida, Palhoça, todos ali, juntos, ouvindo os cantores entoarem os grandes sucessos.
 Sem nenhum compromisso em absoluto, apenas com a obrigação de voltar à terrinha no dia seguinte, permiti-me ficar por ali, a lembrar do que tinham sido aqueles dois meses de Europa, dos amigos e família que em breve eu reveria, da quantidade de gente, lugares e situações novas que conheci. Será que alguma coisa havia mudado? Do que serviu aquela viagem?
 Voltando ao albergue, parei no pub que ficava no piso térreo e a troco de nada comecei a conversar com uma funcionária egípcia que lá trabalhava. Nisso mais gente foi chegando ao balcão, pessoas que a conheciam, e por tabela me inseri na conversa. Papo vai, papo vem, uma caneca de cerveja surge a minha frente, depois outra, e mais uma. Meia-hora depois estava eu em outra mesa, conversando, num exemplar portunhol, com duas argentinas, uma mexicana e uma espanhola. “Como você fala bem espanhol”, me incentivaram elas, puramente reconhecendo meu esforço. E eu, achando que estava me dando muito bem (percepção ligeiramente bêbada) ainda perguntei: mas meu sotaque tá mais pro da Espanha, Argentina ou México? Entreolharam-se e com um sorriso amarelo de canto de boca, quase em uníssono, responderam: “Nenhum”.
 Uma bola fora de leve e quando menos esperei estava noutra mesa, de uma turma colombiana muito animada. Tenho foto dessa turma, qualquer hora posto; eles foram muito legais comigo, foram eles que me lembraram de que eu tinha um voo no dia seguinte e sugeriram que eu fosse me deitar, depois de perdida a conta de canecas de cerveja (tudo por conta de terceiros) e de eu ter convidado a funcionária egípcia para ir comigo até a salinha de bagagens a 1h da manhã.
 Uma noite até que bem-comportada comparada a uma outra, nesta mesma Paris, no início da viagem, quando, depois de algumas garrafas de vinho e uma gorfada na Lan House de um albergue, um amigo meu foi encontrado por mim dormindo dentro do elevador, subindo e descendo por sei lá quanto tempo.

 O que de fato mais marcou foi o crepúsculo na Sacré Coeur, sem nuvens, especificamente a hora em que os artistas estavam cantando “Imagine”, do John Lennon. E eu a ver toda aquela gente dos quatro cantos encontrando-se, conversando, observando, conhecendo-se, trocando ideias (literalmente) e percebendo como é rico e importante esse intercâmbio. Ouvindo as palavras de Lennon lembrei-me de alguns amigos meus que são viajantes por natureza, que se sobra algum dinheiro, estão de mochila nas costas se jogando pelo mundo e, lembrando-me de suas posturas diante do mundo e das outras pessoas, ficou muito claro a importância disso tudo.

 Volto a recordar um trecho célebre do Amyr Klink: “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver".

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Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.