quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Discurso de formatura

Um dia é sempre chegada a hora, e hoje chegou talvez a mais importante delas. Quando digo isso, não é pelo fato de termos colado grau e (pode ainda não parecer, mas) sermos oficialmente médicos. Digo isso porque hoje se encerra o que provavelmente foram os melhores anos das nossas vidas.
 Foram seis anos que mudaram completamente nossa capacidade de interagir com o mundo.  A medicina certamente tem grande parcela nisso, mas foram experiências únicas e intransferíveis, que por força não do acaso, mas do mérito do que nós vivemos juntos,  que vão nos dizer como conduzir nossas vidas daqui pra frente. 
 Foi um aprendizado intenso, numa época da vida muito suscetível a tudo. Acaba que o compartilhamento dessas experiências gera uma carga afetiva muito grande entre nós, a ponto de chegarmos agora, olharmos pras pessoas ao lado, e que alguns anos atrás não tinham nada a ver com sua vida, e querer dizer: eu gostaria de ter você por perto de mim pra sempre. Mas não é assim que a vida funciona.
Dentro da Universidade, ao longo desses anos, assumimos distintos papéis. Entramos aqui calouros, nos tornarmos veteranos. E fomos pesquisadores, monitores, bolsistas, estagiários, organizadores de eventos científicos e de eventos nem tão científicos assim... E fomos até palhaços, fomos cobaias dos amigos. Fomos mágicos, fomos padres com balões, jogadores de futebol americano, líderes de torcida. Fomos alunos, aprendizes, acadêmicos, doutorandos. E de tudo aquilo que fomos, ao olhar para trás hoje, percebemos que o mais importante é aquilo que não entra em currículo lattes algum: fomos muito felizes!
 É bem provável que amanhã no baile, seja a última vez que alguns de nós nos vejamos. Mas isso não deve ser encarado com fatalismo, ou como um problema. Temos sorte de viver numa época em que a comunicação é muito fácil, então embora nossas escolhas nos levem a lugares distintos, as grandes amizades continuarão. O grande problema, esse sim, inescapável, é a saudade. Todo mundo já sentiu, mas dessa vez podem ter certeza vai ser muito ruim, não tem o que fazer, mas vai passar.

Quando a saudade bate, engraçado como a gente acaba sentindo falta daquilo que é mais sutil... os tais pequenos momentos do dia-a-dia, que por estarem tão presos a sua rotina, dão a impressão de que não irão acabar nunca.
Por exemplo, os longos intervalos que passávamos entre as aulas jogando conversa fora no bar do CCS, a fila do RU, o café na Videoteca, os torneios de Poker, os churrascos na ACM.
Sentiremos saudade até daquele desespero coletivo que motivava virar as noites com os colegas antes das provas, daquelas tardes intermináveis no anatômico, de ir para a praia depois da faculdade.
Sentiremos saudade de fazer fantasias em grupo, de montar maquete para o AVG e de gastar um bom tempo ensaiando um teatro ou uma atividade educativa no Posto. Sentiremos saudade de ter “um bom tempo” disponível.
Sentiremos saudade de fazer plantão com a nossa dupla, de dividir barraca no Intermed, das rodinhas de violão, das fogueiras de festa junina.
Sentiremos saudade inclusive dos pais e mães adotivos que tivemos por todo esse Brasil: foram muitos colchões espalhados no chão em Cascavel, em Sombrio, em Curitibanos, em Aracaju, em Blumenau, em Goiânia, em Natal, em São Paulo, em Tibagi, em Balneário Camboriu, em Curitiba... e até em Biguaçu.
E de repente, tudo acaba. Cada um vai para um lado, cada um passa em uma prova... (outra prova!). Alguém vai casar. Alguém vai engravidar. E vamos virar padrinhos dos filhos dos amigos. E vamos virar padrinhos de casamento. Vamos sonhar em marcar um novo encontro, mas nem sempre as agendas vão bater. Vamos enfim, virar adultos de verdade... mas que, a cada encontro, tornar-se-ão novamente aqueles adolescentes cheios de sonhos e expectativas. Vamos sentir orgulho ao perceber que cada um seguiu o seu caminho e por exercer o seu talento com dedicação, brilha. Temos um orgulho enorme da nossa turma.

E é impressionante perceber o quanto a gente mudou. E apesar disso, reconhecer que o mais importante permaneceu, que é o caráter, e que isso, a gente trouxe de casa. Aliás, uma das coisas mais importantes que a gente percebe nesses anos, é que, todas as relações, todos os laços que a gente cria durante a faculdade, servem, sobretudo pra nos fazer entender o quão imensurável e incomparável é amor que tem por nós os nossos pais e as nossas mães.
 É provável que só entendamos a intensidade desse sentimento quando formos nós mesmos os pais e as mães. Por ora, como não conseguimos imaginar palavras que expressassem o tamanho da nossa gratidão, o que podemos dizer é apenas que, para aqueles de nós que desejaremos ser pais e mães, que consigamos seguir ao máximo o exemplo de vocês, e quem sabe um dia possamos estar aí, onde vocês estão agora, comemorando uma vitória como essa.

Doutores e doutoras, mas agora somos médicos. E não foi a outorga de grau realizada há poucos minutos que nos define como tal. Claro que pra efeitos legais sim, mas é que o que nos define como médicos é algo que vai muito além do título. Também não são as habilidades técnicas que adquirimos durante o curso, a capacidade de analisar imagens, números, elaborar raciocínios complexos, apesar disso tudo ser fundamental para o bom exercício da profissão.
O que melhor nos define como médicos é o desejo profundo e o interesse sincero em cuidar de pessoas. O que move o verdadeiro médico é a compaixão. Dominar o conhecimento, porém fazer a diferença na vida de seus pacientes... este é o desafio, colegas, com o qual nos deparamos a partir de agora.
No fundo, o que viemos fazer aqui foi buscar as ferramentas e desenvolver as capacidades necessárias pra que possamos cumprir da melhor maneira essa nossa vocação, pois infelizmente para ser médico não bastam boas intenções.
E é certo que aqui as encontramos. Aqui tivemos grandes mestres e orientadores. Os exemplos práticos de nossos professores permitiram-nos compreender que nunca existirá na Medicina o último livro a ser estudado, o último artigo a ser lido. Estudamos muito para entrar nessa Universidade. E estudamos muito para sair dessa Universidade. Portanto vamos embora daqui, hoje, com o compromisso de continuar estudando. Não temos a obrigação de saber tudo, mas temos sim a obrigação de admitir que, por não saber tudo, é necessário sempre pesquisar e se manter atualizado dentro desta ciência de evolução constante.
Sairemos daqui para sermos médicos nos lugares mais diversos imagináveis... mas levaremos todos, em comum, um diploma com um emblema desenhado no canto, aonde se lê “Universidade Federal de Santa Catarina”. Não esqueçamos disso! Afinal, não é porque tenhamos nos formado que iremos deixar de lado aquele grito de guerra que tantas vezes cantamos em voz alta “Eu amo essa escola e o nome dela eu vou dizer”. Honrar o nome da Escola também é agir, diariamente, dentro dos preceitos de ética e moral que aqui nos foram ensinados...

Pra finalizar gostaria de lembrar uma situação do início do curso, quando estava uma pequena parte da turma em aula prática, frente a uma paciente. Naquela época nós sabíamos muito pouco sobre diagnóstico e tratamento das doenças. Mal sabíamos como direcionar as perguntar, de forma que o que pudemos oferecer foram coisas simples, como atenção, cordialidade, empatia e bom-senso. Ao final da consulta, a olhos destreinados poderia parecer que objetivamente nós não havíamos resolvido nada daquela paciente. Mesmo assim, ela se levantou com um sorriso no rosto, fez questão de abraçar cada um, agradeceu muito, e nos desejou boa sorte. Ali nós começávamos a entender o que é a medicina.
 Logo depois, quando estávamos sozinhos, éramos nós que não conseguíamos esconder o sorriso do rosto, e foi quando um de nós falou: “Nossa, imagina quando a gente souber alguma coisa, e estivermos soltos aí pelo mundo, quanta coisa boa a gente não vai conseguir fazer!”. Pois, pessoal, parece que chegou a hora.
Muito obrigado.

Maíra Luciana Marconcini
Pedro Mendonça de Oliveira

domingo, 7 de julho de 2013

Sobre a derrota de Anderson Silva

Já deixou de ser interessante (porque previsível, desproporcional e injusta) a forma como a maioria de nós reage diante das derrotas. Principalmente quando não somos os protagonistas, mas nos sentimos representados.
Anderson Silva se tornou a pessoa mais eficiente e vitoriosa numa modalidade esportiva, que ganhou evidência estratosférica nos últimos tempos. Moda? Não vejo problema nisso. Hoje é MMA, facebook, sertanejo universitário. Ontem foi Walk-Talk, fórmula 1 e lambada.
Nosso lutador ontem utilizou a mesma tática das outras lutas, (em alguma medida, certamente exagerou), e perdeu. Espanha e Barcelona recentemente também. Eike Batista, idem. Seus movimentos e momentos sistólicos e diastólicos tem gêneses diversas, então vamos ficar apenas com o evento desta madrugada.
Pra simplificar (sempre mais fácil), vejo muitas pessoas atribuindo à derrota um único motivo: a falta de humildade de Anderson. Mas poucos conseguem mensurar o que é ser o melhor que existe numa determinada função, e através dela, “representar” uma nação e, diga-se de passagem, o Brasil.
O melhor sentimento que existe é você ser querido, amado, respeitado, admirado, e quando ações suas te projetam de forma a que outras pessoas te deem esse feedback, seu instinto é reproduzi-las sempre, criando para si próprio um personagem. Vimos inúmeras vezes Anderson Silva baixando a guarda, se esquivando de seus adversários e posteriormente ganhando as lutas. Mas quando provoca, quando manda beijo e muitas vezes quando baixa a guarda, ele não está se dirigindo (somente) a seu adversário. Ele está se dirigindo a nós, que esperamos dele o que sempre conseguimos.
                
Anderson Silva sucumbiu a uma característica intrínseca do ser humano: perdeu o foco na ânsia de não perder a imagem que detinha até então. Não serei eu a banalizar com justificativas uni causais; há o mérito do adversário, (o maior contribuinte para o resultado), não temos como saber as reais condições psicológicas do Anderson, entre outros fatores que nunca saberemos. Mas argumentar falta de humildade, de uma pessoa que até então foi motivo de reflexões contrárias a isso? Bom, cada um tem direito a pensar e se expressar da forma que quiser. Sociedade com poder de expressão horizontalizado é uma conquista nossa.
Somos seres extremamente carentes, que tentamos a todo custo chamar atenção colocando imagens ou frases bacanas para serem curtidas nas redes sociais. Achamos que o que pensamos sobre qualquer coisa ou o que estamos fazendo, fizemos ou faremos é interessante e digno de ser compartilhado com o universo. Exageramos (como fez Anderson) e fracassamos várias vezes por dia, mas não estamos na televisão (porque não conseguimos). Nesta madrugada assistimos ao que queríamos, e como algo saiu fora do previsto (a vida é mais dependente de “momentos de sorte” do que gostamos de acreditar), malhamos o protagonista, (que até o dia anterior era “o cara”) ao invés de dar-lhe estímulo para que se recupere e continue.

Mas é isso aí, Anderson Silva continuará sendo um gigante, com, sem, ou apesar de nós.

sábado, 6 de julho de 2013

Estudos de embriologia

Estávamos no primeiro semestre de medicina e isso nos permitia estudar outras coisas. Eu fazia francês e Andrea alemão, no mesmo horário. Certo dia, combinamos que depois da aula estudaríamos para a prova de embriologia na casa de outro amigo da turma, o Leo. Levamos vinho.
                
Estudar embriologia era um exercício puramente filosófico-imaginativo (daí a ideia do vinho), pois a matéria poderia ser chamada de “Embriologia segundo Jaime Cofre Cofre” (eis o nome do professor, que era chileno; só não me recordo se entre os cofres havia hífen). Era impossível estudar por livros, pareceria outra matéria.
               
Chegamos e o Leo estava ouvindo Novos Baianos. Achamos que Moraes, Pepeu e Baby nos ajudariam nas reflexões, e deixamos que continuassem. Limpamos a mesa 1x1m, a única que Leo tinha em sua quitinete, colocamos amendoim japonês numa cumbuca, abrimos o vinho e também a Xerox do caderno da Elysa, fac-símile das falas do professor de “emvriolorría”.
                
Lá pelas tantas tentávamos entender a formação do sinciciotrofoblasto e a migração das cristas neurais, quando para explicar melhor Leo lançou mão da cumbuca com os amendoins japoneses como exemplo. Ficamos tentando enxergar alguma estrutura embrionária ali, mas nem com vinho, e penso que nem com substâncias mais alucinógenas isso seria possível.
                
Não me lembro em que momento desistimos da embriologia, mas deve ter sido muito rápido. Ficamos bêbados ao som de rock brasileiro progressivo dos anos 70, (percebemos isso quando conversávamos imitando as falas do professor Jaime em portunhol). Fomos comprar mais vinho, que virou cerveja, que virou vodka, que virou amnésia e consequentemente um 4,0, um 4,5 e um 5,0 na prova.

                
Bons tempos. Foi o que ficou da embriologia.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Não serei poeta de um mundo caduco

Em meio aos agradecimentos, em minha apresentação do TCC, na semana retrasada:


 - ...Professor, se lembra da última vez em que conversamos, e que eu cheguei angustiado, vendo-me à beira da formatura, dizendo que tava tudo errado na sociedade, e que a minha geração, que está entrando aí pra tomar conta das coisas não vai mudar nada, e eu sozinho também não vou conseguir mudar nada? E então o senhor disse: “Pedro, eu to nessa luta há 40 anos. Você nem começou, e já vai desistir? É lutar que nos mantém vivos”. Então, professor, gostaria de dizer que eu vou lutar, e que este trabalho, mesmo cheio de imperfeições, smboliza pra mim o início desta luta. Quero, no dia em que minha barba estiver branca como a sua, poder dizer: “Eu não desisti, e a luta continua. Muito obrigado”.

...também não cantarei o mundo futuro...

E eis que poucos dias depois dou (feliz da vida) com a cara no chão. A minha geração, que eu secretamente chamava de “Ainda não foi dessa vez”, levanta-se numa histórica manifestação, simbolicamente contra o aumento da tarifa do ônibus, mas com todo um sentimento de revolta contra o poder público engasgado.

...estou preso à vida e olho meus companheiros...

Há menos de um ano eu estava em Barcelona participando da maior manifestação da história da Catalunha por sua independência da Espanha, e dizia aos catalães que me acompanhavam, em meio a 1,5 milhão de pessoas, todos eles arrepiados, alguns chorando, mas todos gritando “I – INDE – INDEPENDENCIA”,  que meu povo não sabia o que era aquilo, patriotismo não fazia parte de nossa história.

...estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças...

Sinto-me agora, a beira de completar 26 anos, surpreso como nunca,  orgulhosíssimo disso tudo que está acontecendo, e querendo muito acreditar que a geração “Ainda não foi dessa vez” pode se chamar “Sim, pode ser dessa vez”.  Ainda há muito que fazer, há muito que se aprender, mas demos o pontapé inicial.

...Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Os dentistas e a arte do diálogo

(uma homenagem bem-humorada aos amigos odontólogos)


Há uma forma bastante segura de vencer todos os debates: ser dentista (e debater somente enquanto exerce seu ofício). Na verdade “debater” talvez não seja o termo mais adequado. Refraseio: Há uma maneira muito segura de que todos concordem com suas opiniões.
Ir ao dentista é motivo de sofrimento, nos mais variados graus, a todos, ou quase todos os seres humanos. Há quem pense que, se houvesse fábulas mitológicas modernas, daquela que envolvem castigos celestiais, como o do Prometeu e da águia, um dos castigos mais severos seria algo do tipo “terás urgências odontológicas semanalmente”, e aí, a cada extração de siso brotaria outro no lugar quase espontaneamente, mais torto do que nunca, obrigando eternas visitas ao dentista.
                
Pois bem, você deita na cadeira, abre a boca e a partir dali, um abraço. O profissional com o rosto a um palmo de você pode falar o que ele bem entender; da pior asneira do mundo, às mais sectárias das opiniões sobre o assunto que for, que você será obrigado a concordar (enfaticamente) com tudo. Com pinças, espelhos e outros aparatos com barulhos altamente ansiogênicos de um lado e um caninho aspirador do outro, o máximo que você consegue dizer é uhuuum ou mmm-mmm. Sugiro um prolongamento caprichado nos “ús” do uhum, porque caso ele seja confundido com mmm-mmm, as consequências podem ser devastadoras.
Se você discordar do dentista, gerará nele, mesmo que inconscientemente, um mal-estar inespecífico, que repercutirá de alguma forma nos movimentos de sua mão, por ora portando objetos capazes de te causar um desconforto bem considerável. Qualquer sinal de negativa pode gerar um jato de bicarbonato na úvula, e se o dentista estiver muito despreparado para a discordância, até mesmo na narina ou nos olhos. Sem mencionar os golpes com aquele aparelho ultrassonográfico removedor de tártaro (zzzzzzzzzzzz), na gengiva, ou em outros pontos estratégicos mais dolorosos que só eles entendem.
Ao menos, geralmente temos ao nosso lado (física e moralmente) a auxiliar do dentista, que fica segurando o caninho aspirador de saliva, e que toda vez que a gente perde a cabeça e tenta formular frases complexas, vai até uma poça de saliva nalgum recôndito da cavidade bucal e com um sonoro ssshhhhlllllrrrrrr nos devolve o juízo e a sobrevida dos incisivos e molares.
                
E com posições e opiniões tão firmes e corretas (reforçadas constantemente por nós) eles seguem de maneira bastante segura as limpezas profiláticas, extrações dentárias, restaurações e afins. É um jogo onde ambos saem ganhando. A arte da odontologia é uma massagem no ego movida a concordâncias obrigatórias ao passo que nos alivia de problemas que, apesar de estarem restritos à cavidade bucal, nos faz perder a paciência, o sono, o juízo, e as vezes até mesmo os dentes.
Aí você sai do consultório, passa pela sala de espera, onde sempre está tocando Phil Collins ou algum jazz bem baixinho; a secretária com o sorriso cordial de “até logo”, e encara os próximos pacientes, que sofrem por antecipação, confundindo o zumbido do ouvido com o “zzzzzzzz” infernal do “removedor de tártaro”, e abre um sorriso meio sarcástico. Um misto de alívio, divertimento e até empatia, pois já passou; e eles, com mais ou menos uhuuums, também passarão.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Ipês e cachorros mortos


Naquele sábado o menino recebeu visita dos primos da cidade grande. Morava num sítio com açude, campinho, pomar, cavalos, até cancha de bocha. Só faltavam amigos, pois a propriedade era meio isolada, de forma que a visita dos primos era um grande acontecimento para ambas as partes, haja vista a felicidade proporcionada às crianças urbanas essas pequenas incursões interioranas.
Fizeram daquele dia um exemplo de infância, (já nem eram tão crianças assim) daquelas que a única preocupação é divertir-se alucinadamente, de maneira inocente, saudável e (in)consciente, o que envolve também seus perigos e traquinagens. Estilingaram uns passarinhos, quase se afogaram no açude, comeram frutas do pé, flertaram a filha do caseiro, jogaram bola até o Sol se pôr, contaram as primeiras estrelas, falaram bobagens e segredos, até que o tio veio buscar os primos.

O menino sentia um cansaço absurdo, mas uma felicidade ainda maior, daquelas que quando a gente ainda é criança, fecha os olhos e fica fazendo força, se concentrando, pra ver se quando abre, voltou no tempo e caiu no meio daquele dia em que a alegria parecia infinita. Jantou como se tivesse um gêmeo siamês obeso, tomou um banho no qual quase (ou efetivamente) cochilou em pé, e quando se dirigia para o quarto, ouviu a voz de seu pai, que lhe chamava a acompanhá-lo até um dos sítios da redondeza, pois o vizinho precisava de uma ajuda de urgência com alguma coisa que ele não entendeu bem.
Ele estava exausto, mas muito contente; resolveu ir ao auxilio do pai (na verdade não teria escolha, mas foi de bom grado). O pai optou por irem de motocicleta, de forma que o menino, distraído, ainda pensando nas atividades do dia, colocou o capacete e começou a subir na moto, pelo lado direito. Ao iniciar o movimento, sentiu um golpe forte na cabeça.
“Não te ensinei que não é por aí que sobe? Você é burro?” O pai provavelmente não tivera, ou não estava tendo dias como o do filho, que com a pancada, e as palavras duras, encheu os olhos de lágrima. “Desculpa, pai. Vou tentar lembrar de fazer certo da próxima vez. Mas...esse tapa, foi só por causa disso mesmo? Ou tem alguma outra coisa?”.
O pai olhou-o por alguns segundos através do capacete, com o semblante ainda cerrado. Subiram na moto, e antes de dar a partida, murmurou um “me desculpa”. Ligou o motor, e partiram para o vizinho.

                                                               
                                                                                                **********


Havia um caminho em que, numa dada curva, via-se à sua margem direita um ipê amarelo, no auge de sua capacidade florescente. Parecia figura de livro, ou melhor, de quadro, como se num arroubo de admiração as avessas, a vida quisesse imitar a arte, e não o contrário. E por isso mesmo, enchia os olhos e coração de quem passava olhando para ele de uma sensação boa, melhorando seu dia.
Na margem oposta do caminho, havia um cachorro morto, provavelmente atropelado, e várias vezes. Uma figura horrível, triste, nem os urubus o queriam mais. Todo disforme, emanava uma energia muito negativa. E por isso mesmo, sugava qualquer sensação boa de quem por ali passava, mirando-o. E claro, piorava seu dia.
Por esse mesmo caminho passaram diversas pessoas. Umas viram só o ipê, outras só o cachorro. Houve algumas ainda que enxergaram o cenário todo, e mesmo entre estas, existiam aquelas que possuíam a habilidade de escolher do que se lembrariam, e outras não.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Chorões

Ontem morreu o Chorão, vocalista do Charlie Brown, e foi a maior comoção nas redes sociais. Muita gente escrevendo sobre o que lhes representa a banda e suas músicas, citando trechos das canções, entre outras manifestações, ora singelas, ora emocionadas.
O que eu não consegui entender foi a perplexidade de algumas pessoas perante tais manifestações. Afinal, como seres humanos, somos de natureza deveras emotiva, marcados por pessoas, situações e épocas que nos vem à lembrança, muitas das vezes, através das músicas. É por esse motivo óbvio que quase ninguém se manifestou por causa da renuncia do papa, da morte do Hugo Chaves ou do Niemeyer. Eles nada, ou quase nada tem a ver com nossa experiência subjetiva do dia-a-dia.
               
 Não vou nem me ater aos que comemoraram, ou caçoaram da morte do Chorão, mas àqueles que julgaram exageradas as manifestações, questionando o conteúdo das músicas, ou  o valor estético, seja por sua poesia ou musicalidade.
Quantas dessas pessoas tem um conhecimento razoável ou básico sobre música ou poesia? Sabe diferenciar escala maior de uma menor, sabe o que é uma dissonância, montar um acorde, ou até o que é um acorde? Quantas tem a mínima condição de saber quais os recursos utilizados e qual a complexidade da harmonia/melodia das músicas do Charlie Brown?
Poesia? Quem lembra o que é um decassílabo heroico, sílaba métrica ou mesmo como se compõe um soneto? Todo mundo sai por aí trocando Bandeira por Quintana, Drummond por Pessoa e outras bizarrices até que tudo acabe em Clarice Lispector.
E o conteúdo? Cantar que “todos moramos num submarino amarelo” pode, mas “que meu escritório é na praia e eu to sempre na área”, não? Qual o critério?
                
Chorão e o Charlie Brown tiveram o mérito de colocar em melodias de fácil absorção, letras com uma linguagem acessível e com mensagens que soavam bastante sinceras e que faziam sentido a muita gente. Quem me conhece sabe que eu curto muito mais Beatles e bandas dos 60s/70s a Charlie Brown, mas vamos fazer umas comparações:
                
“Felicidade é poder estar com quem você gosta em algum lugar”
“Não ganhar, nem perder, mas procurar evoluir”
Um dia a gente cresce, conhece nossa essência, ganha experiência, e aprende o que é raiz, então cria consciência
               
  “All you need is Love, Love is all you need”
  “We are the champions, my friend, and we’ll keep on fighting till the end”
  “You can’t always get what you want, but if you try sometimes, you can get what you need”
                
E aí, qual a diferença?
                
Aos que repudiaram as atitudes e estilo de vida do Chorão: Todos temos nossos momentos bons e ruins. Pela fama e dinheiro, alguns tem acesso mais fácil a meios de “superar” os momentos ruins. Com certeza o mais fácil nem sempre é o mais correto, ou o melhor, além do que, todo mundo tem sua história e teve condições diferentes de abraçar o mundo e lidar com seus problemas. Ao mesmo tempo, todos nós somos parte altruístas e parte egoístas. Chorão, em seus momentos bons, dedicou-se, a sua maneira, escrever e cantar coisas que fizeram bem a um monte de gente, que ouvia uma melodia agradável indo pro trabalho, lembrava de um namoro, de uma época com os amigos, fazia refletir, mesmo com palavrões e versos simples.
                
Aos que só criticam, sugiro que pensem o quanto fizeram por qualquer pessoa até hoje. Ou melhor, que pensam que estão fazendo pra melhorar, escolhendo o caminho mais conveniente (inclusive, e sobretudo, financeiramente) e na verdade só atrasam o progresso. Por fim: quantos, em alguma parcela, como um Chorão, seja através da música ou o que for, não gostariam de achar um meio de tentar mudar o que tá aí?
               
“Mas quando não se pode mais mudar tanta coisa errada...vamos viver nossos sonhos, temos tão pouco tempo”

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.