segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
COBREM 2010
Na ida, durante a peregrinação aeroportuária tive de engolir a bacaníssima novidade das companhias aéreas: agora você não passa mais fome com a barrinha de cereais ou o pacotinho ultra-econômico de amendoins que eles te dão, seja a duração da viagem de uma ou de cinco horas. Hoje, eles oferecem deliciosos sanduíches a preços competitivos! Preços competitivos? Além de pagar pela passagem, agora ainda tenho de pagar pelo que consumo dentro do avião? É obvio que eu não comi nada, e não me surpreenderia se eles ainda cobrassem dez porcento pelo serviço. Fico me perguntando sobre o que eles quiseram dizer com “preços competitivos” (não havia nenhum lanche por menos de dez reais).
Natal possui uma população muito receptiva. Fui a uma casa de Forró (Rastapé), cuja faixa etária variava dos zero aos noventa e nove anos. As pessoas eram invariavelmente animadas, e não tinha como ser diferente. Eu e meu “dois pra lá e dois pra cá” passamos vergonha naquele meio, apesar disso ninguém me rejeitou durante minhas corajosas investidas, as moças até se propunham a me ensinar novos passos.
Visitei “o maior ser vivo do planeta” (há controvérsias): o maior cajueiro do mundo, que ocupa um quarteirão inteiro. Para quem nunca viu, ele não é grande em altura, mas sim em comprimento. Realmente impressionante, apesar de seus escassos cajus. Conheci ainda a famosa praia de Pipa, considerada a terceira mais bela do país, onde tive a oportunidade de nadar junto aos golfinhos. Não pensem que qualquer um deles encostou em mim pedindo afago, ou ficaram fazendo coreografias, mas chegaram bem próximos, há menos de cinco metros, o que na verdade chegou a amedrontar. Uma coisa é vê-los em segurança, do barco, outra é estar indefeso em meio a criaturas marinhas que por mais que pareçam sempre amigáveis nos filmes, tem quase o seu tamanho, são mais ágeis que você, e estão em bando. Parecia, no entanto, que eles não estavam afim de confusão, melhor para os dois lados.
Claro que não só de forró e turismo foi feita minha viagem, muito pelo contrário. Como disse antes, fui lá devido ao COBREM. Antes de iniciar esta crônica eu pretendia escrever um relatório sobre os debates e discussões que por lá aconteceram, mas definitivamente isso não faz o meu gênero. Prefiro por aqui, confessar que quase fui apedrejado pelos esquerdistas do movimento estudantil, que tiveram de me ouvir sustentando a ideia de que se eles não tornarem seus debates menos tendenciosos e doutrinários, o movimento nunca será fortalecido de maneira relevante.
Se não houve apedrejamento, por pouco também não se viram chineladas. Acontece que um amigo meu de delegação, enfurecido pela desorganização na ordem de assinar uma determinada ata, resolveu dar fim à aleatoriedade do caminho por qual passava o caderno e aos gritos de “não sabem nem organizar uma fila e querem organizar o movimento estudantil” tomou seu chinelo nas mãos passou a ameaçar qualquer um que se sujeitasse a desrespeitar a ordem correta da fila.
Devo dizer que, independentemente das inclinações políticas de cada um, todos ali eram muito bem intencionados. Todos lutando por objetivos comuns, de melhorar a saúde, a educação médica, e a formação política dos estudantes de medicina. Mas isso tudo até as 2h da madrugada, depois disso, mais do que merecidas, havia festinhas no alojamento, regadas a cervejinha e, na maioria das vezes, um bom samba.
Houve dias em que tocou funk, com a presença ilustre do Bonde das Bandidas, da UERJ, ou um pagodinho contratado pelo pessoal da organização. Talvez essas duas tenham sido as atrações de maior sucesso, mas devo dizer que não consegui me afastar um minuto sequer do samba. Tanto que no último dia, quando a banda Um a Menos (ainda preciso perguntar-lhes a origem do nome), do pessoal da UFPR foi fazer um show, acabaram me convidando pra dar uma canja. Foi sem dúvida uma grande honra.
Como escrevi anteriormente, conheci muita gente bacana, e presenciei vários momentos ora tocantes, ora engraçados (teve até gente sendo escoltada de volta para o alojamento pela polícia, além de uma outra determinada situação que gerou a desde já eternizada frase “tá dando a desgraça”) mas isso também daria outro texto gigantesco. Penso, por fim, que foi uma semana muito enriquecedora. Sinto-me privilegiado por ter este tipo de oportunidade.
Quero portanto, mandar um grande abraço pra todo esse pessoal que conheci: A Evelin da Comunidade, e toda a delegação gaúcha. Pra galera da banda Um a Menos: Lucas, Guarujá e André, e também seu “empresário” Igor. Para o Raphael de São Paulo, que era meu aliado nos debates e conseguiu aprovar diretrizes progressistas e fugir do apedrejamento. Para a Nicole e sua voz fabulosa, também para o Buginga (de “buginganga”, pelo que me disseram) do Maranhão e toda essa simpática delegação. Para o trio parceiro de Blumenau, ao qual já prometi que visitarei assim que puder, junto do qual ainda festarei muito. E por fim para a delegação da UFSC, que comigo festou, comigo debateu, e acima de tudo, tenho certeza, comigo muito aprendeu através desse povo todo com quem convivemos durante esses dias.
Para todos vocês, exceto os últimos, até qualquer hora, ou o próximo COBREM.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Casório moderno
Sábado passado foi celebrado o matrimônio de um primo meu. Casou-se aos 32 anos, o que não teria o menor cabimento há um século atrás. Naquela época, com essa soma de anos o cidadão já estava na meia idade, com a prole mais ou menos encaminhada e sua esposa já uma senhora distinta, de roupas com ares viuvescos, afinal de contas, com as condições de vida existentes, o sujeito que passasse dos 50 já estava no lucro.
Hoje, aos 32, das duas, uma: ou o indivíduo, aquele movido a paixões fulminantes, está no quarto casamento, com um saldo de pelo menos um filho por cada um deles, ou está oficializando a vida conjugal mais ou menos nesta época. São os tempos modernos, que trouxeram a expectativa de vida para cima dos 70 e a consciência de que dá tempo de fazer muita coisa, não precisa afobação.
Pois bem, de lá pra cá, não só o perfil do casal mudou, mas também todo o certame matrimonial. Há muito tempo não havia casamento na família. Eu devia ter uns 12 anos quando fui ao último, e as diferenças eram gritantes, imaginem se comparadas aos do início do século passado.
Casamentos de hora em hora, nos quais todo o garbo do atraso da noiva se perde em meio a multas dadas pelas igrejas por esse costume visto por elas como descabido. Meu pai ainda me contou que há padres, como o da paróquia aqui do nosso bairro que, se a cerimônia deveria começar as 20h e acabar as 20h40, e a noiva decidir tradicionalmente atrasar meia-horinha, fazem o casório em 10 minutos.
Fico pensando como é que acontece nessas ocasiões. Alguma parte da cerimonia o padre tem de pular. Nem que ele reze a missa tal qual um jogo de futebol transmitido pelo rádio, não conseguiria dar conta do recado. Mas que pelo menos haja bom senso.
Imagine o padre dando as instruções para os noivos e padrinhos: “Minha filha, você tem que percorrer esse corredor em meio minuto, não dá pra ficar posando pra foto. Padrinhos e madrinhas, no final da cerimônia, nada de congratulações exageradas. Vou pular aquela parte do prometo amar-te e respeitar-te até o fim dos nossos dias, essa coisa protocolar. Ah, e já fiquem com as alianças no bolso, não vai dar tempo de entrar a daminha de honra”.
Casamentos são bacanas. Reúnem pessoas que você só vê ali e nos funerais. Dia de ficar sabendo que a tia-avó do primo distante enviuvou, que o outro tio foi à bancarrota, perceber que aquela priminha encorpou e tá uma moçona, entre outras novidades pertinentes. Sento-me para aguardar o início do casório e noto que a igreja está relativamente vazia. Comento isso com meu pai e ele argumenta que é fim de ano, nas vésperas de natal, muita gente viajando, e além do mais, a festa já foi.
Como assim a festa já foi? “Pois é, um amigo do seu primo emprestou um salão de festas pra ele, só que final de semana retrasado, então ele preferiu economizar esse dinheiro e fez naquele dia mesmo”. E pra onde nós vamos depois daqui? “Pra uma churrascaria”.
Achei o fim da picada. Pô, há tradições e tradições. O padre querer fugir do protocolo é uma coisa, agora adiantar a festa para duas semanas antes do próprio casamento não dá! Parece justo que duas pessoas jovens, iniciando a vida de casados, tenham de juntar dinheiro para outras coisas, como montar a casa e tal. Mas até as mais pobres famílias fazem vaquinha caso haja necessidade, para que haja um festão. Segundo um amigo meu, na pequena cidade onde ele vive, a tradição é que a festa seja paga pelo pai da noiva. Alias quando ele contou essa história lá, o pessoal ficou alarmado. Chocado mesmo. Ou seja, em cada lugar um costume, mas NUNCA a festa antes! Apesar disso dizem que foi bem bacana, infelizmente não pude ir.
Um capítulo a parte é a escolha das canções que tocarão durante a cerimônia. Estão gradativamente substituindo as músicas eruditas por grandes sucessos da rádio, cinema ou telenovela. “Jesus, alegria dos homens” de Bach, deve ter sido tocada pela última vez no casamento dos meus pais. Sábado passado chegou a tocar até “Amigos para sempre”, que espero, não tenha nenhuma subjetividade particular ou conotações de ato-falho. Não me surpreenderei se daqui uns anos, algum casal moderninho resolver trocar a marcha Nupcial por “We are the champions”, ou coisa que o valha.
Outra coisa peculiar em meio a toda essa modernidade, mas essa todo mundo faz, e é de fato bastante pertinente, é a tal lista de presentes. O casal fecha uma lista com uma loja de artigos para casa e os convidados escolhem, dentre os utensílios, com qual presenteará os noivos. Pelo menos não se corre o risco de ganhar um barco de madeira de decoração, que possui dois metros e não caberá em canto algum, ou um lustre pavoroso, que deixará o casal constrangido quando a pessoa que deu visitar a moradia deles e perceber que ele não só não está pendurado no teto, como não está guardado em lugar nenhum. Apesar disso, soa-me estranho pensar que demos aos noivos um ralador de legumes.
Se a modernidade vem para ajudar, deveria criar um mecanismo diferente, ou até mesmo banir aquelas congratulações aos noivos depois do fim da cerimônia. Forma-se uma fila gigantesca, da qual sempre fazem parte vários furões, ou outros ainda mais espertos que dão a volta por trás e cutucam os noivos pelas costas para evitar toda a fila. E ela anda mais devagar do que fila de banco no dia do pagamento. Bom seria se ficasse um fiscal, ou até mesmo o padre, ao lado nos noivos cronometrando o tempo entre dizeres e abraços, o qual não deveria ultrapassar cinco ou dez segundos por pessoa.
Sábado passado pensei em abandonar a fila e ir bater papo com o Ricardo Prado, aquele grande nadador brasileiro dos início dos anos 80. Ele foi treinador do meu primo e estava lá para prestigiar o casamento. Vi-o na porta da igreja, iria apresentar-me como seu grande fã, dizer-lhe que também sou nadador e inventar algumas conquistas e outras lorotas, já que provavelmente nunca mais o veria. Cheguei a sair da fila, mas não mais o encontrei ali.
Depois fiquei sabendo que ele se enganou em relação ao horário e assistiu ao casamento errado. Deve ter passado a cerimonia inteira impressionado; como meu primo estava diferente, realmente um homem já! E no final, enquanto estávamos, a família toda, em meio a ultrapassagens um tanto quanto desnecessárias, rumando à churrascaria, num comboio que mais parecia aquele desenho “a corrida maluca”, ainda deve ter ficado horas numa outra fila interminável para cumprimentar as pessoas erradas.
À parte essas considerações, os casamentos continuam sendo fantásticos. Todos estes são detalhes, que mesmo somados têm importância diminuta no contexto geral. Independente do dia da festa, da escolha das músicas, da rapidez da cerimônia, enquanto ela estiver acontecendo, as pessoas se emocionarão, porque a noiva estará sempre absurdamente bonita, porque antigos e reprimidos amores agora se tornam impossíveis, porque os filhos estão partindo para uma nova vida, uma nova família, e porque todo o arranjo do acontecimento foi escolhido por seus protagonistas que, num dos dias mais importantes de suas vidas, transbordam uma felicidade comovente, que nos envolve e faz de tudo isso que por ora discorri, algo completamente irrelevante.
PS: Ando meio cansado desses meus finais nada renitentes. Por ora, me parecem inevitáveis.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
De passagem
Acontece que eu era a única pessoa que passava por aquela rua na ocasião, contudo a barulheira não cessava. “Será que é alguém que eu conheço, e tá fazendo uma brincadeira?” . Mesmo assim não me virei para trás. Pouco a pouco o carro foi se aproximando, e quando passou por mim, não pude esconder a cara de espanto. Num desses carros família, tipo Palio Weekend, estava um casal de velhinhos, um vovô ao volante e sua senhorinha no banco do passageiro, olhando fixamente para frente e continuando a fazer um barulho danado.
Definitivamente eles não preenchiam o perfil de pessoas que saem por ai querendo impressionar quem quer que seja pisando no acelerador de um carro em ponto morto, mas se encaixavam perfeitamente naquele que agrupa os pilotos de primeira viagem. Seguiram até o final da rua, que faz uma curva e desemboca numa outra mais movimentada, cujo único sentido possível é uma subida. Ali, o carro morreu.
Por sorte não era a hora do rush. Passei por eles, atravessei a rua e fiquei alguns instantes assistindo. Várias e várias vezes a mesma sequência se repetiu: o velhinho dava a partida no carro, engatava a primeira marcha, pisava no acelerador, o carro não se movia e voltava a morrer. Nitidamente não conseguia sincronizar o movimento dos pedais, e a senhorinha, por sua vez, nada dizia, corroborando a suposição que eu tivera minutos antes, de que eles deveriam ser iniciantes.
Senti uma vontade grande de ajudá-los, passei breves instantes avaliando a situação e cheguei a decisão de que não deveria socorrê-los. Retomei o caminho de casa convicto de que tomara a decisão certa, mesmo sob o olhar reprovador de uma idosa mulher que por ali passava e deve ter confirmado sua opinião de que a juventude hoje em dia é pouco prestativa, mal-educada e inevitavelmente perdida.
Durante meu tempo de reflexão, imaginei algumas possibilidades para aquela cena atípica: Um homem de idade que sempre tivera o sonho de aprender a dirigir, mas nunca teve coragem, ou dinheiro, agora depois de velho estava conseguindo realizá-lo. Ou nunca tivera vontade para tal, mas a vida toda sua esposa pediu-lhe que a levasse passear de carro, e antes do fim da vida ele resolveu aprender para satisfazê-la e subvertendo a lógica, pegou o carro escondido do filho. Ou ainda alguém que sofreu algum acidente e não pôde dirigir durante muito tempo, e agora estava reaprendendo. Sei lá, podia ser qualquer coisa, mas sem dúvida, aquilo era um (re)começo.
Eu poderia me oferecer a ajudá-los, guiar o carro de volta à garagem, deixando-os fora de perigo e tudo mais. Mas imaginem que coisa frustrante. Pensariam os dois “onde estávamos com a cabeça, fazer uma coisa dessas depois de velhos”, seriam repreendidos por seus filhos, se sentiriam incapazes e inconsequentes. Preferi dar-lhes a chance de superar o desafio, com a consciência de que as chances de fracasso não eram pequenas, mas que valia o risco.
Poucas são as pessoas que se propõem a novos desafios depois de certa idade. A maioria julga-se velha demais para aprender, “novidade” deixa de fazer parte de seu vocabulário. Ajudar aqueles velhinhos equivaleria, penso eu, a dar-lhes motivos para pensar desta maneira. O clichê do momento é que devemos aprender a envelhecer. Temos que desde cedo cuidar da saúde, comer bem, fazer exercícios, exercitar a mente, que assim, chegaremos ao centenário. Mas de que valerá chegar lá se não formos capazes de aproveitar, de nos sentirmos capazes para tal?
Desde há algumas semanas, minha inspiração e motivação para isso ganharam um nome: Oscar Niemeyer. Assisti a um documentário sobre imortalidade, que inevitavelmente invocava nosso maior arquiteto. Em meio a um monte de baboseiras, o documentário mostrava uma entrevista com Niemeyer, recém saído do hospital, onde ficou internado para um cirurgia de pequeno porte (se é que aos 102 anos alguma cirurgia pode ser assim considerada), e onde, durante sua internação, se propôs a compôr um samba, em parceria com o enfermeiro que dele cuidava. O documentário mostrou o enfermeiro entoando a canção, que era de fato bonita. Mesmo que fosse pavorosa, pouco importaria.
Niemeyer possui mais de dez projetos em andamento, e numa situação onde a maioria, independente da idade, tem ideias negativistas, ou no mínimo um leve mau-humor, ele se prestou a compôr uma música! Invejável. Literalmente, uma lição de vida.
Ele foi ainda indagado se, se tivesse a oportunidade de tomar o elixir da vida eterna, o faria. Sua resposta? “Se todos tivessem a mesma chance, sim.”. Um homem de 102 anos, com todas as perdas e limitações que o tempo lhe trouxe, numa época da vida com a qual poucos desejam chegar, por imaginar as condições físicas e mentais nas quais provavelmente se encontrariam, dá uma resposta dessas. No mínimo, digna de uma boa tarde de conversa, regada a cervejinha e aperitivos. Alias quem concordar, que me convide.
No fim das contas, cheguei em casa naquele dia pensando em tudo isso. De férias, sem nada de importante para fazer, resolvi deitar no sofá para aquele delicioso cochilo de meio de tarde, embalado pela televisão ligada em volume baixo. Não sei precisar depois de quanto tempo, mas fui acordado de sobressalto, por uma barulheira infernal vinda da rua: um ronco de motor. Com uma sensação boa, preferi não checar de quem se tratava.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Até breve
Mas hoje, assistindo a mais um filme do velho Woody - pretendo esgotar sua filmografia um dia - me apareceram uns dizeres bem bacanas, que resolvi compartilhar. Fui parando cena por cena para anotar, espero que gostem)
"Durante toda a nossa vida, enfrentamos decisões penosas, escolhas morais. Algumas delas tem grande peso. A maioria não tem tanto valor assim. Mas definimos a nós mesmos pelas escolhas que fazemos. Na verdade somos feitos da soma total das nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tâo imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com nossa capacidade de amar, que atribuímos um sentido a um Universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos parece ter a habilidade de continuar lutando, e até encontrar prazer nas coisas simples, como sua família, seu trabalho e na esperança que as futuras gerações alcancem uma compreensão maior."
Boas festas
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Napolitana nunca mais
Realmente este é o país do futebol. São pouco entre nós aqueles que não possuem uma fotografia, ainda no carrinho de bebê, ostentando uma enorme camisa do time do coração do pai ou de algum tio. Crescemos em meio a invencionices futebolísticas. Qualquer lugar é passível de abrigar uma pelada, e muitos objetos podem servir de bola. Meias emboladas, tampinha de garrafa, latinha de refrigerante amassada... é só ter dois pares de sandálias havaianas por perto pra servir de traves que o negócio funciona.
As variações nos tipos de jogos também eram quase ilimitadas, era rebatida, linha, artilheiro, gol a gol, três dentro três fora...independentemente do número de jogadores, sempre havia uma modalidade que abrigasse o grupo todo. No colégio, a aula de educação física era sempre a mais aguardada. Tenho certa pena dos educadores físicos: quatro anos estudando, pra chegar na hora de aplicar os conhecimentos, ele praticamente resumir-se a ajudar a escolher os times e jogar a bola no meio da turma e deixar que o resto eles resolvem. É a única coisa que dá pra fazer, não existe colaboração para qualquer outra atividade.
Pois bem, nesse país assim crescemos, e salvo raras exceções, à parte a intimidade com a redonda, nos tornamos torcedores com variados graus de fanatismo. Algo que realmente influenciará em nossas vidas para sempre.
Dito isso, informo-lhes que o Palmeiras hoje, 6 de dezembro de 2009, depois de permanecer 17 rodadas como líder do brasileirão, não só não conquistou o título como também perdeu a vaga na libertadores. Elejo este o fiasco esportivo do século. Informação adicional: o Flamengo foi campeão.
Não pretendo discorrer sobre a catástrofe palestrina, nem procurar justificá-la. Quero confessar aqui que não achei de todo ruim ter o Flamengo vencido o torneio. Como palmeirense que sou, ruim de verdade seria ter de ver mais uma vez o São Paulo vencedor, ou ainda o Corinthians, nem que fosse a primeira.
Ainda preferia que o Inter ganhasse, mas acabei ficando feliz pelo seguinte: A verdade irrefutável número dois em se tratando de nascer brasileiro é que, caso você não nasça em São Paulo, não torça para nenhum time de lá, ou não faça parte dos trinta por cento dos cariocas que, somados torcem para o Vasco, Fluminense ou Botafogo, você indubitavelmente terá como primeiro ou segundo time o Flamengo.
Esse negócio de segundo time era uma coisa que eu não tinha familiaridade antes de morar fora de São Paulo. Mas é comum nas cidades interioranas, quando o time local não tem projeção nacional (ou seja, seus jogos não passam na televisão as quartas-feiras e aos domingos) eleger o Flamengo como segundo time do coração. Isso não é uma ofensa, nem uma provocação, apenas uma constatação feita depois de vir em Florianópolis, conviver com pessoas de muitos outros estados e conhecer muita gente que torce para o Avaí/Flamengo, Vila Nova/Flamengo, Atlético Goianiense/Flamengo, Vitória/Flamengo, e até somente Flamengo, mesmo não sendo carioca. Inclusive tenho um grande amigo que nasceu em Brasilia, morou um tempo em Natal, outro tanto em Belo Horizonte, agora está estudando cá em Floripa, e que me confessou que simpatiza com Palmeiras/Flamengo. Esse claramente não sabe escalar meio time nem de um nem de outro, mas pra ver onde a coisa chega.
Assim sendo, encaro o título do Flamengo como um presente de fim de ano para a grande maioria dos habitantes deste país, cuja verdade numero três a seu respeito é ser um povo forte, porém sofredor. Que esquece que tem compromissos sérios e chatos para tratar no dia seguinte, esquece que o trabalho não vai ser fácil, e que não pagará as contas de casa, e o remédio do filho, e as prestações da geladeira nova. E fica de frente à televisão (ou radinho no ouvido) por um tempo curto porém mágico, que narra os acontecimentos vindos de um lugar que ele nunca porá os pés, mas onde ele certamente sonhou pelo menos uma vez na vida em fazer um gol com a camisa 10, pelo time do coração.
Hoje é dia de festa para a maior torcida do mundo, dia de torrar um pouco mais daquela grana que já não ia pagar o remédio ou a geladeira e de tirar sarro da cara do amigo cujo time foi rebaixado, ou que não foi pra libertadores.
E até o fim do primeiro tempo tava tudo indo muito bem. O Palmeiras apesar de não estar ganhando, ainda tinha a vaga para a libertadores assegurada e, pela combinação dos jogos, o Inter seria o campeão. Resolvo ir a uma padaria aqui perto, a Napolitana, comprar algumas coisas para o café da tarde. Eis que, quando estava no caixa, passando a compra, um molequinho vira pra mim (que estava trajando o uniforme do Palmeiras) e diz: ''O Palmeiras tá fora do G4”. Eu sabia que não, estava acompanhando os jogos, e depois de ter discutido com o menino e terminar com “quer saber mais do que eu, que sou palmeirense??” saí revoltado com tamanha petulância e voltei pra casa para acompanhar, conformado, apenas a conquista do quarto lugar no campeonato.
Chegando aqui, suco e lanche preparados, ligo de novo a televisão e vejo, concomitantemente, o Cruzeiro vencendo e o Palmeiras acabando de sofrer o primeiro gol, ou seja, saindo do G4 e deixando escapar a vaga para a libertadores.
Verdade sobre o povo brasileiro número quatro: por mais que negue, é um povo supersticioso, que acorda com o pé direito, veste a roupa que acha que dá sorte, senta sempre no mesmo lugar no sofá porque senão o time perde, e que não volta a padarias em que existem moleques impertinentes e preditores do fracasso alheio. Napolitana, nunca mais!
sábado, 5 de dezembro de 2009
Carta ao amigo imaginário
Pra quem conhece, parece mais uma mixiriquice do careca. Nosso ilustre amigo inventou esse semestre um amigo imaginário. O sujeito tinha algum parentesco longe e obscuro com ele, e por motivos ainda mais nebulosos foi morar uns tempos no apartamento do Mixirica. O engraçado é que quando aparecíamos por lá, o camarada nunca estava, mas a cama que o careca emprestou-lhe estava sempre desarrumada.
Enfim meu caro amigo, não me importo que você tenha essa condição de existência meio duvidosa. Estou eu aqui, finalmente de férias, sentado no sofá com uma cervejinha do lado, observando o sol se pôr por entre os predinhos da Trindade, João Bosco tocando Papel Machê, o laptop no colo e a vontade de escrever.
Esse semestre foi puxado. Fiz muita coisa, não fiz um tanto de outras, mas o saldo parece ser positivo. Arrisquei(-me) um bocado, aprendi outro tanto, e nesse meio de caminho ri e chorei pra valer, fiz novos e grandes amigos, decepcionei alguns, mas de qualquer forma, segui mais do que nunca aquilo que achava certo.
Mano, se eu te contar você não acredita, fui até atropelado dia desses. Voltando da Festa de Gala da Atlética a pé com o Digão, fui correr atrás de uns balões mas, por estar ligeiramente bêbado, as pernas não acompanharam os movimentos e a rapidez planejados e eu fui tropeçando até a rua, no que veio um carro e bateu em mim. Rolei no chão e tudo, mas não me machuquei muito.
Por me sentir meio culpado ainda fui pedir desculpas ao motorista: ''foi mal cara, to meio bêbado''. No que ele, polidamente respondeu: “Tem problema não, eu também to!”. Esse mundo maluco...
Falando em bebedeira, isso não sei se fiz de mais ou de menos, você me conhece quanto a esse respeito né?! Mas posso te afirmar que fui parando aos poucos com aquela mania de façanhas andarilhas no final das baladas. Hoje já não volto nem do Mercadinho Chico a pé se tiver outras opções. E também parei de bodear nas festas, isso tava enchendo o saco da galera, eu tava até perdendo moral.
Sem dúvidas foi o período em que eu mais estudei. Claro que com o tempo a gente vai perdendo o pique, mas no começo eu tava um nerd absurdo, não faltava eu aula nenhuma e estudava praticamente todo dia em casa. Aprendi muito, não só sobre medicina, mas também a ser perseverante. Lembra que eu queria muito fazer pesquisa, iniciação científica e tal? Pois então, eu fiquei o semestre inteiro enchendo saco dos professores, sugerindo projetos, vendo as possibilidades, até que quase no final, quando eu já tinha desistido, de repente me apareceram dois, e por um deles eu vou até receber bolsa de iniciação científica ano que vem. Isso foi pra mim até agora uma das maiores provas de que, se o cara quer mesmo uma coisa e corre atrás dela com vontade mesmo, na maioria das vezes ele consegue, pode apostar.
Por causa disso acabei me afastando da galera da minha sala. Minha frequência nas mesinhas de poker foi ridícula, até nas festas de turma apareci bem menos. Mas não pude deixar de ir na de encerramento, que foi bem engraçada por sinal, fiquei até pelado na piscina. Preciso pedir desculpa para as meninas, elas não devem ter ficado muito a vontade com a situação. Pretendo voltar a sair com o pessoal mais vezes semestre que vem.
Velho, cê sabe que eu sempre fui meio vassourão né?! Acredita que de uns tempos pra cá eu até dei uma tranquilizada? Tava gostando de estar com uma guria só. É tão gostoso perceber que uma pessoa séria, bacana, inteligente e bonita pensa em você e quer estar com você. A completude dos momentos em que se está junto é muito maior do que naqueles em que você está com alguém que acabou de conhecer numa balada. Eu nunca tinha valorizado muito isso. Mas parece tão óbvio né? Só eu que fui perceber essas coisas apenas aos vinte e dois anos. Aprendi bastante com ela, vou guardar isso com carinho.
Mas de qualquer forma me sinto um pouco mais leve. Cê que me conhece bem sabe que quando eu to bem, feliz da vida, adoro ver todo mundo bem também, contente e vivendo coisas legais. Mas quando o tempo tá fechado, e parece que tudo tá dando errado, daí fico puto até com as conquistas das pessoas próximas. Não sei se é normal de todo ser humano, sei que não é uma simples característica, é um defeito, que eu detectei em mim e fiz questão de arrumar. Tá louco! Que coisa besta!
Descobri que se as coisas não estão lá como eu gostaria, ver o outro feliz por uma conquista (caso merecida, que fique claro) e conseguir sentir-se bem com isso é um santo remédio. ''Poucos são os homens com bastante caráter a ponto de sentir-se feliz com a conquista do próximo sem sentir um pingo de inveja''. Isso não veio de mim, mas é pra mim. Pra mim não, pra todo mundo, pensa nisso você também. Seja um parasita da felicidade das pessoas que você gosta. Não sei se parasita é a palavra certa, porque dessa relação os dois saem beneficiados, acho que é comensal né? De qualquer jeito, não tenho vergonha de admitir isso pra você, todos tem lá seus defeitos, mas é vivendo, refletindo e tentando mudar que se consegue melhorar.
Pô, é realmente coisa pra caramba. Viver aqui nesse lugar, com todas as oportunidades que tenho, e tanta gente bacana pra compartilhar os momentos, as ideias, ensinar e aprender a todo momento...ainda bem que esse curso tá só chegando na metade.
Venha me visitar qualquer dia, não muito em breve, que agora to indo matar a saudades do pessoal de São Paulo. Mas venha sim, você não vai se arrepender. Manda lembranças pro Mauro e pra Audrey.
Grande abraço
Pedro
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
O dia
O dia anterior
Casa de família de classe média, num bairro qualquer de São Paulo, entre as 19h e as 21h.
A TV já estava ligada. Embora ninguém da família tenha se visto durante quase todo dia, ao chegarem nada dizem. Ouve-se um único e ligeiramente entusiasmado "boa noite", abafado pelo tilintar das colheres a pôr comida nos pratos, pelos copos e travessas batendo na mesa de jantar, anunciando o início da refeição.
Embora a TV permanecesse ligada, ninguém olhava para ela. Olhavam para o prato, vez ou outra uns para os outros, mas o olhar era distante, cada qual absorvido em seus pensamentos:
"Olha aí, eu bem que desconfiava, chega com uma alegria em casa! Uma disposição! E cada vez mais tarde, mas pensa que me engana...ah não! Suportei até hoje, cuido de tudo, da casa, das crianças. Ele não é ruim, eu sei, mas não tenho mais dúvidas, só pode ser isso! Tem muita moça novinha por aí doida pra se arranjar com homem assim. Tá mais que explicado. E eu, que sempre me contive...se ele soubesse o quanto eu me contive...mas agora chega, se ele pode, porque eu não? E vai ser amanhã mesmo, tá resolvido."
"Droga, porque justo agora? A gente fez tudo certo, não tinha como acontecer. O que vão pensar?...minha vida tá arruinada, minha família vai me odiar, eu vou ter que me arranjar sozinho. Todo mundo confiava em mim, eu não podia desaponta-los...já sei, vou falar pra ela tirar, ela não vai ganhar nada com isso mesmo, se pensa que vai, azar o dela...é isso mesmo, ela vai ter que tirar..."
"Esse chuchu não tem gosto de nada, eca! Eu que não vou comer, acho que vou colocar no bolso e levar pro Galileu, ele come de tudo mesmo. A mãe fala que só pode dar ração, se não ele fica com diarréia...ou senão eu jogo no lixo...não, se alguém ver eu tô lascado, melhor na privada, isso!...ah, mas o pai fala que não pode desperdiçar comida, melhor dar pro Galileu mesmo, levo um bife junto."
"Que chatice, quero voltar logo pro meu quarto, não tô com a mínima fome. Mas se eu não comer tudo não posso sair da mesa...eles pensam que eu ainda sou criança, mal sabem eles que...uuu, como o papai é desprezível, roçando o pé na perna da mamãe debaixo da mesa, pensa que ninguém vê, será que não percebe que nem a mamãe tá gostando, olha a cara dela...ele não entende nada...nem ela, alias ninguém entende...já sei! Fujo de casa!!...amanhã!..."
"Ah! Que maravilha, depois de tanto tempo, sabia que eles iam reconhecer. Com a saída do Jorge só eu poderia ocupar esse lugar. E o Moraes deu tudo a entender...será o fim de tantas horas extras, eu não aguentava mais...ah, tudo por essa família. Com essa grana extra talvez eu até compre aquele apê na praia que ela tanto quer...vai ser mesmo uma maravilha! mas não vou contar nada a eles ainda, deixa o Moraes confirmar...e ela que me aguarde daqui a pouco, hoje to com disposição..."
Terminaram o jantar. O menor correu para o quintal. O mais velho e a do meio foram para seus quartos. A luz do primeiro logo se apagou, no segundo ouvia-se barulho de portas abrindo e fechando, coisas sendo arrastadas.
Na suíte ela nada queria, mas ele sabia como fazer...
O dia
É irônico como fazemos planos contando com a coragem que não temos. Como planejar investimentos ou viagens com o dinheiro da loteria que ainda nem foi sorteada, nos iludimos provisoriamente de que as chances de concretizarmos aquilo que pensamos são reais, dando-nos um prazer fugaz.
O dia amanheceu e quem primeiro levantou foi a do meio. Começou a recolocar tudo no lugar, não queria que ninguém visse suas coisas reunidas para um fuga que nunca aconteceria. Não, ela não tinha coragem. Trocar todo o conforto e vida fácil que tivera até agora para se aventurar com o fulano com quem andava saindo a menos de um mês. Por mais intensas que sejam as paixões adolescentes, raras são as vezes em que vencem as condições e estruturas familiares.
Ao chegar à firma o pai é apresentado ao ciclano de tal, metade de sua idade, filho do vizinho do cunhado do dono da empresa, que começaria naquele dia seu trabalho na gerencia, no cargo deixado pelo Jorge. Adeus casa na praia. Adeus sonho da esposa.
A mãe por sua vez até parou na frente do prédio do beltrano. Sabia que ele estaria lá. Pensou durante uns minutos, começou a suar frio. O porteiro a olhava curisoso. Ela deu um passo a frente, a expresão em sua face se fechou, uma lágrima caiu, ela desatou a correr por uma direção qualquer. Outras, e muitas lágrimas cairam. O porteiro nada entendeu.
O mais velho resolveu adiar a conversa, precisava preparar-se. E afinal de contas, vai que o teste falhou! Ela falou que faria outro. Isso mesmo, era preciso esperar, e se preparar. O dia seguinte é que seria importante. Hoje não, hoje o dia é para os planos...
No meio do dia o menor volta da escola para casa, passa pelo quintal e sente um cheiro nada agradável. "Preciso limpar antes que alguém veja". O resultado do desarranjo intestinal do Galileu mostrava que o intento não menos importante, no mundo do caçula, encontrou seu meio de acontecer na inocente e autêntica coragem, inerente aos infantos.
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Quem sou eu
- Pedro
- Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.