sexta-feira, 26 de março de 2010
A primeira sutura a gente nunca esquece
Objetivando não chegar no internato tendo de assumir que só fiz sutura em ratos e almofadas, e um pouco por curiosidade e pressão externa, resolvi me matricular na matéria optativa “Plantões em clínica cirúrgica no HF”, ou algo assim.
Pois bem, numa ensolarada manhã de domingo, sem nuvens ou vento, perfeita para ir à praia, acordei com uma margem de horário que julgava ser suficiente para me arrumar, pegar dois ônibus e chegar no hospital. Esquecendo-me que se tratava de um domingo, e portanto haveriam no máximo metade dos ônibus circulando pela cidade, cheguei, com o perdão da palavra, com o cú na mão, quase meia hora atrasado ao meu primeiro plantão.
Por uma sorte absurda, eu e minha dupla (fazemos os plantões sempre em duplas de acadêmicos, que acompanham um cirurgião) acompanharíamos o Dr. Edson, um sujeito que se mostraria muito gente boa, e que não reclamou do atraso.
Não havia passado cinco minutos desde a minha chegada, quando apareceu um rapaz com um dos dedos da mão envolto num monte de papel. E lá fomos nós, eu e o Danilo Gebrin, minha dupla, cuidar do caso.
Eu nunca havia feito procedimento algum, mas percebendo que o Danilo era bem sossegado, e tendo a permissão do Dr. Edson para resolver o problema, tomei a frente da situação: “Me diz ai cara, o que foi que você fez? “ Descobri então que ele havia cortado o dedo indicador da mão esquerda em vez da mandioca que estava em sua posse. Coloquei as luvas e fui verificar o ferimento. Não era muito grande, disse ao Danilo “uns 3 pontos aqui são o suficiente, não?” E o Danilo concordou. “Pode deixar comigo” disse eu, e comecei a proceder, tal como havia aprendido na teoria.
Limpa o ferimento, põe o campo, aplica a anestesia, sutura, tira o campo, limpa novamente, faz o curativo...pronto, está feito o serviço. Tranquilo. Não para a primeira vez.
Até pôr o campo foi uma beleza, sem grandes dificuldades, mas então chegou a hora da anestesia. Eu nunca havia anestesiado ninguém, não deveria ser difícil, mas sabe como é. É uma pessoa que tá na sua frente, que tá com medo porque sabe que a coisa vai doer, e nem desconfia que você nunca fez aqui antes. Procurei demonstrar a maior frieza possível, e acho que na voz até consegui enganar.
Me contive em informar ao rapaz, como fez o Thiagão, da minha sala, que aquela seria a minha primeira sutura, mas antes de continuar, procurei alerta-lo: “Tente não ficar olhando, vai ser melhor pra você”. Mal sabia ele que a sugestão não era para que ele não se impressionasse com o procedimento, com todo o sangue que iria escorrer, ou com a pele dele sendo puxada pra lá e pra cá, e sim porque minhas mãos começaram a tremer mais do que as de alguém com mal de Parkinson e eu por alguns instantes não conseguia nem acertar a agulha na ferida do rapaz.
Depois da anestesia, achei que minhas mãos resolveriam obedecer melhor aos meus comandos, o que se mostrou rapidamente ser uma ilusão. Ao pegar a pinça, o fio e o porta-agulha para iniciar a sutura, eu continuava tremendo feito vara verde. “Não olha!” dizia eu, ao menor sinal de movimento da cabeça que o moço fazia.
Santa anestesia! Fico imaginando se o cara tivesse que sentir todas as vezes que eu passava a agulha por sua pele. Errei tantas vezes, por afobação, que se o corte fosse no rosto eu certamente seria processado por aquela sutura. Dei os três pontos que planejava e percebi que ficaram muito próximos. Ficaram bons, porém próximos. Resolvi então dar um quarto. E, acreditem, esse ficou feio. Catastrófico. Destruiu toda a sofrível simetria que eu havia conseguido até então e ficou do lado oposto da ferida do que tinha ficado os demais pontos.
Limpei o local, fiz rapidamente o curativo, e declarei “Rapaz, ficou uma obra de arte” (pensando internamente “só se for arte moderna”) e mandei-o pegar as receitas com o Dr. Edson.
Ele ficou bastante agradecido, e eu, por minha vez, também tive muita vontade de agradece-lo por ser a primeira pessoa na qual pude praticar uma sutura. Fiquei alguns instantes pensando se ele iria ficar me xingando ou voltar ao hospital me procurando quando abrisse o curativo e visse aquela bizarrice sem precedentes no seu dedo. Mas o tempo foi curto, pouco depois chegou uma senhorinha com as pernas queimadas pois deixou derrubar a bandeja quente com os salgadinhos da festa da neta, que seria dali a algumas horas.
Durante o dia chegaram algumas outras queimaduras, gente que pisou em prego, mordida de cachorro, acidente de moto, além de uma segunda sutura, que eu novamente pedi para fazer, afinal, precisava treinar.
“O que que o sr. fez aí na perna?” O homem estava todo ralado, mas com um corte na perna que precisava ser suturado. Respondeu que tinha subido no telhado para consertar sei lá o que, se desequilibrou e caiu. Limpa, põe campo, anestesia...
“Espera dr., se a gente bebeu um pouquinho, a anestesia pega?”
E assim, tremendo consideravelmente menos, fiz minha segunda sutura, num senhor que depois de ter tomado umas caipirinhas no almoço dominical com a família, achou que era um bom negócio subir no telhado para resolver o problema de goteiras. Foram quatro pontos. Ficaram bons, fui até elogiado pelo Dr. Edson.
Devo confessar que esse tipo trabalho é bem gratificante. O resultado é imediato, você vê ali, na hora, que pôde efetivamente ajudar alguém, e essa pessoa, por sua vez, reconhece seu trabalho, e sai dali geralmente muito agradecida. Não posso dizer que passei a cogitar ser um cirurgião, fiz apenas pequenos procedimentos, e este foi apenas meu primeiro plantão. Mas posso dizer que já vejo a coisa toda com outros olhos.
Mesmo assim, ainda concordo com outro amigo meu, que me contou que recentemente estava conversando com outros amigos que fazem medicina, todos eles decididamente futuros cirurgiões, que discutiam entre si mais ou menos desta forma:
-“Acho muito massa a cirurgia plástica, os pontos que eles dão e tal...”
-“Não cara, massa mesmo é a ortopedia, aquela pedreirice, força bruta, furadeira, parafuso...”
-“Gosto mais da neurocirurgia, operar com o paciente acordado é animal...”
E meu amigo, ainda que timidamente, foi quem concluiu a conversa:
-"Olha, sinceramente, massa mesmo é o ambulatório. Chegar e dizer: “Tudo bem, Dona Maria? como é que vai a pressão...”
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Mudança de assunto
Resolvi deixar minhas percepções cotidianas um pouco de lado e escrever sobre outro tema que me interessa bastante: cinema.
Antes que qualquer pessoa razoavelmente entendida do assunto perca seu tempo, já deixo aqui algumas informações sobre minha relação com a sétima arte, a fim de esclarecer que o negócio é levar um papo descontraído sem muitas reflexões profundas. Por ora, não discorrerei sobre nada em específico, apenas alguns tópicos breves para que se sintam familiarizados com quem vos falará daqui por diante.
-Não sei se o fato de eu ter assistido Avatar em versão dublada e ser esta minha primeira experiência em 3D, de modo que eu não consiga ver a revolução em relação aos antecessores, colaboraram para minha má impressão do filme. Mas minha opinião (traduzida ao pé da letra por um comentário que vi num certo blog) é de que se trata de uma mistura de Pocahontas com O último Samurai, ambientada em outro planeta. (Mas o 3D é bacana)
-Gosto bastante de Hitchcock e Woody Allen. Do primeiro, assisti uns dez e gosto de quase tudo o que vi, agora me vem a cabeça particularmente “Disque M para matar” e “Um corpo que cai”. Mas no geral, todos que assisti são bons.
-Do segundo, já estou chegando à segunda dezena. “Annie Hall”, “Manhattan” e “Crimes e Pecados” são meus favoritos. “Vicky Cristina Barcelona” não fica para trás. Confesso que acho alguns bem mais ou menos, e “Sonho de Cassandra” é quase uma catástrofe.
-Apesar de ser quase senso comum, não consigo ver Marlon Brando como o melhor ator de todos os tempos. Depois de ter levado aquela índia para receber o Oscar por “O Poderoso Chefão”, acabou de perder toda a credibilidade. Jack Nicholson e Sean Penn, a meu ver, estão a léguas de distância desse camarada.
-Fellini ainda me soa inalcançável. “Oito e meio” e a “Doce Vida” me passaram em branco. Acho que ainda tenho chão pra saber gostar deles. Mas tenho consciência que a culpa é minha. Por outro lado, gosto muito de Truffaut e seus Incompreendidos.
-Quando acabei de ver “A Lista de Schindler” pela primeira vez, pensei instantaneamente “esse é o melhor filme que já vi”. Isso jamais me ocorreu antes ou depois com qualquer outra película, mas preciso repensar sobre o assunto.
-Quando penso na melhor cena de inicio de filme, me vem o desembarque em “O resgate do Soldado Ryan”, a melhor cena final (não riam) é o velho, supostamente morto desde o inicio, levantando, fechando o grande portão e dizendo “game over” no primeiro e único filme que presta da sequência “Jogos Mortais”.
-Dois filmes que assisti no cinema e não queria que acabasse nunca são: “Gladiador” e “Os Infiltrados”. Dois filmes que assisti em casa e não consegui passar da segunda cena são “Serpentes a Bordo”, com Samuel L. Jackson e “Zohan”, com Adam Sandler. Há vários outros que eu não passo porque durmo, mas é que esses eu achei ruins mesmo.
-O único filme que assisti 3 vezes no cinema foi “Batman – O cavaleiro das trevas”. Vários outros assisti 2 vezes. E nunca sai antes de uma sessão acabar. A única vez que dormi (no cinema) foi em “P.S. Eu te amo”.
-Almodovar é um afetado, Tarantino também, mas de um jeito muito distinto e melhor. Lars Von Trier é indiscutivelmente perturbado, e apesar do bom “Dogville”, estragou o que poderia ser o excelente “Dançando no Escuro” e fez o pior filme que já vi até o fim (ao lado de “Quero ser John Malkovich”) “O Anticristo”.
-Stanley Kubrick é hors concours nessa lista de perturbação, mas emplacou dois dos maiores vilões da história do cinema: Nicholson em “O iluminado” e o HAL 9000 em “2001” (apesar do filme se tornar progressivamente impossível de se entender), ao lado de Hannibal Lecter em “O silêncio dos Inocentes”.
-Com exceção de “Old Boy” e a “Viagem de Chihiro”, não me recordo de ter conseguido terminar de assistir qualquer outro filme oriental. Confesso que ainda não tentei nada do Kurosawa.
-Por fim, também gosto de comédias, comédias românticas e animações, destas últimas, ainda prefiro aquelas na linha de “A fuga das Galinhas”, mas também curto os da Disney/Pixar. Das comédias românticas, “Simplesmente Amor” é imbatível e nas comédias, Jack Black e Will Farrel à parte (apesar de andarem fazendo muitas porcarias recentemente), não me lembro de nada tão bom como “Se beber, não case”, nos últimos tempos.
Daqui pra frente, se eu me animar a continuar escrevendo, os assuntos serão mais pontuais. Espero que tenham se identificado com uma ou outra coisa que escrevi, pois, se este não for o caso, não os vejo por aqui tão cedo. Pelo menos não até eu voltar a escrever sobre velhinhos corajosos e festas de natal.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Na fila do banco
Antes de narrar o acontecimento, gostaria de tecer alguns breves comentários sobre duas invenções relativamente recentes que vieram para acabar com a paciência dos cidadãos de bem:
Celulares que funcionam como radinhos de pilha e dispensam os fones de ouvido, dando a oportunidade do dono do aparelho de compartilhar seu gosto musical com todos aqueles que estejam há um raio de cem metros de distância.
Igrejas evangélicas de fundo de garagem, fabricantes de fanáticos religiosos que não conseguem finalizar uma frase sequer sem um “glória a Deus” e te chamam de irmão sem nunca ter te visto antes.
Juntem esses dois itens e comecem a calcular a dimensão do meu problema.
Acontece que estava eu numa fila da Caixa Econômica Federal para fazer um simples depósito na conta de um amigo, numa tarde exemplar, na qual o sistema de depósito por envelopes não estava funcionando e havia apenas dois caixas para atender a uma fila de mais de trinta pessoas, sendo um deles caixa preferencial para idosos, gestantes e pessoas com deficiências, quando começo a ouvir um barulho chato vindo das proximidades.
A qualidade do som era terrível, mas me esforçando, consegui identificar uma canção gospel oriunda de um aparelho celular pendurado na cintura de um sujeito que acabara de entrar na fila. Não tinha como aquilo acabar bem. A fila foi avançando com velocidade desprezível, e o camarada continuava com o aparelho ligado. Eu estava conformado com toda aquela demora da fila, mas a entrada do sujeito mudou a conjuntura de maneira inaceitável.
Já perdi a conta de quantas vezes me arrependi por não ter reclamado de situações que me incomodavam. Seja por causa desses malditos celulares que o povo põe pra tocar em locais inapropriados (entenda-se inapropriado qualquer lugar que não seja a rua ou a própria casa), por ver jovens sentados nos coletivos e não cedendo seus lugares para os idosos; ver velhos tarados encochando mocinhas indefesas nesses mesmos coletivos abarrotados, entre tantos outros absurdos cotidianos. Tenho a certeza de que a maioria das pessoas acabam passando uma vontade tremenda de fazer alguma coisa a respeito, mas raramente o fazem. Acabam sendo permissivas e nada muda.
Devo admitir que não é fácil fazer uma intervenção dessas. Embora me sentisse como porta-voz da maioria das pessoas da fila, chegar do nada e mandar alguém desligar o aparelho celular exige um certo cuidado, tendo em vista que uma pessoa desse gabarito provavelmente não acataria a reclamação e sua investida poderia ser completamente em vão, além de provocar possíveis represálias. Nessas horas o tempo começa a passar mais ligeiro, e enquanto eu pensava na melhor abordagem, de repente me vi sendo o próximo a ir ao caixa. Foi quando forcei um olhar sério, encarei o sujeito e disse:
-O senhor tem fone?
-Como?
-O senhor tem fone de ouvido?
-Fone de ouvido? Tenho, mas tá em casa.
-Então faça o favor de desligar o celular, ninguém aqui é obrigado a ouvir as músicas que o senhor quer.
-Você quer que eu faça o quê?
-Que desligue o aparelho (querendo dizer “essa merda”), é proibido fazer isso. Aqui não é a rua, não é lugar público.
-Tá te incomodando?
-Tá! Imagina se todo mundo aqui trouxesse o celular e ficasse ouvindo sua música como o senhor tá fazendo.
-Posso ficar com ele aqui grudado do ouvido?
(A resposta que eu queria dar nessa hora era: “Enfia isso no *** e vê se o som chega no ouvido”)
-Não! E se não desligar logo, quando sair da fila chamo o segurança. Além de proibido é questão de bom senso, educação.
-Que educação o quê! Ô meu filho, que é isso, Deus também te ama.
Nesse momento eu desisti. Como é que você vai debater com uma pessoa dessas? Lá na “Igreja Quadrangular dos Apóstolos que se sentaram a direita de Jesus na Última Ceia”, devem ter dito que é bonito louvar a Deus sobre todas as coisas, mas não explicaram que ouvir cânticos de louvor numa fila de banco não vai angariar novos fiéis, muito pelo contrário.
Fiz calmamente o depósito (mentira, minhas mãos estavam tremendo de nervoso) e antes de sair do banco, como prometido, fui ao segurança pedir que repreendesse “o cara que estava ouvindo, descabidamente, música em alto volume na fila do caixa”. Em meio a minha denúncia, percebi o sujeito do celular espreitando, certificando-se se da seriedade da minha promessa.
Sai do banco com a sensação de dever cumprido. Desejei que o ato servisse de motivação, para que as pessoas que estivessem ali fizessem igual quando se vissem frente a outras situações semelhantes. Pra dizer a verdade imaginei uma saída triunfal, com o pessoal da fila me aplaudindo, ou coisa que o valha. Fiquei até com certa dúvida se não exagerei no gesto. Também não fiquei pra ver se o guardinha foi repreender o moço. Mas tenho certeza que ele pensará duas vezes antes de ouvir música pelo celular numa fila de banco.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
À parte o natal
Após a missa, enquanto minha mãe terminava os preparativos para receber os convidados, meu pai e eu fomos de carro buscar uma tia que mora aqui no bairro. A tia Dirce é divertidíssima, sempre falante, narra histórias longas com uma riqueza de detalhes surpreendente, e durante o pequeno trecho da casa dela até a minha, foi nos contanto da nova casa que meu primo (filho dela) havia comprado numa cidade do interior mato-grossense, pormenorizando cômodo por cômodo, numa sequência de relatos que iniciou com “O Marquinho vai ligar pra vocês contando uma surpresa: Ele comprou uma casa!” E assim já nos criando a responsabilidade de forjar uma reação de incredulidade caso esse telefonema viesse a se concretizar.
Na pequena pausa que ela fez, enquanto nos falava sobre algo que ficava entre a porta da cozinha e um determinado corredor, percebeu que o rádio estava ligado (“Uma noite e meia” era a música do momento) e perguntou-nos quem estava cantando. “É a Marina, tia” respondi, no que ela de pronto rebateu “Ah! Marina Monte!! Adoro!”. E continuou estragando a surpresa.
Chegamos em casa e aos poucos os demais convidados também. O tio Dorival antes mesmo de me cumprimentar, indagou pelo violão: “Tá com ele aí? Já, já você pega que se a gente não fizer barulho a turma dorme”. O violão só foi ouvido bem no final da noite, afinal de contas, todos tinham muito o que papear.
Nisso chegaram ainda os últimos convidados, a Tia Mirtes e o Tio Roberto, um tio meu fanático por futebol, que não aparecia por aqui havia anos. Palmeirense roxo, devido ao fiasco do time no campeonato brasileiro, ao adentrar na sala, já avisou: “Sem falar de futebol hoje hein”. No que a tia Mirtes retrucou, dizendo que era impossível ficar ao lado do tio Beto por mais de dez minutos sem falar sobre futebol.
Formaram-se pequenos grupinhos em diferentes cômodos da casa, entre os quais, como bom anfitrião transitei, e pude participar um pouco de cada conversa. No corredor externo estavam o tio Dorival e o Tio Moacir comentando sobre confusões em hospitais. Que o sistema é todo errado e isso gera verdadeiros reboliços nas instituições, citavam ocasiões em que presenciaram confrontos corpo a corpo envolvendo parentes de doentes e funcionários, em meio a argumentos políticos para mudar os rumos da saúde no país. Fiquei pouco por ali; apesar de ter estudado toda a estruturação e lógica do SUS, trocar informações com esses dois visionários dispenderia um tempo precioso, no qual muita outras conversas interessantíssimas deviam estar ocorrendo em outras partes da casa, das quais eu não podia deixar de participar.
Na cozinha, pela qual tive uma pequena passagem, uma das tias estava contando o caso do cachorro do inquilino da casa de trás, que tinha morrido enforcado pela coleira quando tentara pular pela janela. O papo degringolou para uma análise sobre criar ou não criar cães em apartamentos, no meio do qual, quando já estava de saída, ouvi meu pai comentar: “Higienópolis é o bairro de São Paulo com a maior população canina”. Juro que não duvido do teor da informação, mas a cada dia fico mais impressionado com a capacidade que meu pai tem de saber esses tipos de coisa.
Na sala da TV estava a Vó Teresa, em sua cadeira cativa em frente à televisão, que transmitia um documentário sobre a vida marinha, denunciando a um primo meu sua desconfiança de que as blusas que ela ganhara não sei de quem eram de brechó. Fiquei por ali um pouco, me divertindo com o relato das peripécias e tramóias de minha avó com suas amigas da casa de repouso, mas não pude deixar de ouvir quando alguém na outra sala disse “Claro que eu estava lá no estádio!”.
A tia Mirtes realmente tinha razão. Chegando na sala vejo que o tio Beto conseguiu mobilizar boa parte dos parentes num papo futebolístico. Fazia um paralelo entre o fracasso palmeirense deste ano com o campeonato paulista de 1984, quando o time só precisava empatar o último jogo contra a Inter de Limeira no Morumbi e levantaria a taça, mas acabou perdendo. “E o time era tão bom!” se lamentava ele, e prosseguiu com a escalação do elenco todo, incluindo os suplentes.
Claro que não faltaram as conversas triviais sobre o trabalho, a família e as novas doenças que surgem com a idade, os balanços de final de ano, e os planos para o seguinte, conversas que sempre se estendem ou se repetem na semana seguinte, na festa do Reveillon.
Por conta de umas questões paralelas, Tia Nena e seus famosos presentes não compareceram, de modo que a meia-noite não teve lá sua cara de sempre. Brindamos o nascimento do menino Jesus, e em pouco tempo, já que todos estavam devidamente alimentados, começaram a despedir-se.
Alguém tem de tomar a iniciativa, e a saída triunfal da Tia Dirce entrará para os anais de nossas festividades. Estávamos Tia Mirtes, meu pai e eu conversando na sala da frente, quando Tia Dirce surge se despedindo às pressas, dizendo-se vitimada por um repentino desarranjo intestinal e, argumentando só utilizar o banheiro da própria casa para estes fins, colocou definitivamente os banheiros da minha casa no mesmo patamar dos de rodoviária e postos de gasolina.
À parte o natal, no fundo não sobraria quase nada. Até porque na virada do ano muita gente viaja, e a reunião da família perde todo esse potencial de proporcionar situações diversas, por vezes cômicas, por vezes trágicas, ora desagradáveis, ora reconfortantes, e que nos dá uma sensação gostosa quando nela pensamos, não nos deixando faltar a nenhuma edição.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
COBREM 2010
Na ida, durante a peregrinação aeroportuária tive de engolir a bacaníssima novidade das companhias aéreas: agora você não passa mais fome com a barrinha de cereais ou o pacotinho ultra-econômico de amendoins que eles te dão, seja a duração da viagem de uma ou de cinco horas. Hoje, eles oferecem deliciosos sanduíches a preços competitivos! Preços competitivos? Além de pagar pela passagem, agora ainda tenho de pagar pelo que consumo dentro do avião? É obvio que eu não comi nada, e não me surpreenderia se eles ainda cobrassem dez porcento pelo serviço. Fico me perguntando sobre o que eles quiseram dizer com “preços competitivos” (não havia nenhum lanche por menos de dez reais).
Natal possui uma população muito receptiva. Fui a uma casa de Forró (Rastapé), cuja faixa etária variava dos zero aos noventa e nove anos. As pessoas eram invariavelmente animadas, e não tinha como ser diferente. Eu e meu “dois pra lá e dois pra cá” passamos vergonha naquele meio, apesar disso ninguém me rejeitou durante minhas corajosas investidas, as moças até se propunham a me ensinar novos passos.
Visitei “o maior ser vivo do planeta” (há controvérsias): o maior cajueiro do mundo, que ocupa um quarteirão inteiro. Para quem nunca viu, ele não é grande em altura, mas sim em comprimento. Realmente impressionante, apesar de seus escassos cajus. Conheci ainda a famosa praia de Pipa, considerada a terceira mais bela do país, onde tive a oportunidade de nadar junto aos golfinhos. Não pensem que qualquer um deles encostou em mim pedindo afago, ou ficaram fazendo coreografias, mas chegaram bem próximos, há menos de cinco metros, o que na verdade chegou a amedrontar. Uma coisa é vê-los em segurança, do barco, outra é estar indefeso em meio a criaturas marinhas que por mais que pareçam sempre amigáveis nos filmes, tem quase o seu tamanho, são mais ágeis que você, e estão em bando. Parecia, no entanto, que eles não estavam afim de confusão, melhor para os dois lados.
Claro que não só de forró e turismo foi feita minha viagem, muito pelo contrário. Como disse antes, fui lá devido ao COBREM. Antes de iniciar esta crônica eu pretendia escrever um relatório sobre os debates e discussões que por lá aconteceram, mas definitivamente isso não faz o meu gênero. Prefiro por aqui, confessar que quase fui apedrejado pelos esquerdistas do movimento estudantil, que tiveram de me ouvir sustentando a ideia de que se eles não tornarem seus debates menos tendenciosos e doutrinários, o movimento nunca será fortalecido de maneira relevante.
Se não houve apedrejamento, por pouco também não se viram chineladas. Acontece que um amigo meu de delegação, enfurecido pela desorganização na ordem de assinar uma determinada ata, resolveu dar fim à aleatoriedade do caminho por qual passava o caderno e aos gritos de “não sabem nem organizar uma fila e querem organizar o movimento estudantil” tomou seu chinelo nas mãos passou a ameaçar qualquer um que se sujeitasse a desrespeitar a ordem correta da fila.
Devo dizer que, independentemente das inclinações políticas de cada um, todos ali eram muito bem intencionados. Todos lutando por objetivos comuns, de melhorar a saúde, a educação médica, e a formação política dos estudantes de medicina. Mas isso tudo até as 2h da madrugada, depois disso, mais do que merecidas, havia festinhas no alojamento, regadas a cervejinha e, na maioria das vezes, um bom samba.
Houve dias em que tocou funk, com a presença ilustre do Bonde das Bandidas, da UERJ, ou um pagodinho contratado pelo pessoal da organização. Talvez essas duas tenham sido as atrações de maior sucesso, mas devo dizer que não consegui me afastar um minuto sequer do samba. Tanto que no último dia, quando a banda Um a Menos (ainda preciso perguntar-lhes a origem do nome), do pessoal da UFPR foi fazer um show, acabaram me convidando pra dar uma canja. Foi sem dúvida uma grande honra.
Como escrevi anteriormente, conheci muita gente bacana, e presenciei vários momentos ora tocantes, ora engraçados (teve até gente sendo escoltada de volta para o alojamento pela polícia, além de uma outra determinada situação que gerou a desde já eternizada frase “tá dando a desgraça”) mas isso também daria outro texto gigantesco. Penso, por fim, que foi uma semana muito enriquecedora. Sinto-me privilegiado por ter este tipo de oportunidade.
Quero portanto, mandar um grande abraço pra todo esse pessoal que conheci: A Evelin da Comunidade, e toda a delegação gaúcha. Pra galera da banda Um a Menos: Lucas, Guarujá e André, e também seu “empresário” Igor. Para o Raphael de São Paulo, que era meu aliado nos debates e conseguiu aprovar diretrizes progressistas e fugir do apedrejamento. Para a Nicole e sua voz fabulosa, também para o Buginga (de “buginganga”, pelo que me disseram) do Maranhão e toda essa simpática delegação. Para o trio parceiro de Blumenau, ao qual já prometi que visitarei assim que puder, junto do qual ainda festarei muito. E por fim para a delegação da UFSC, que comigo festou, comigo debateu, e acima de tudo, tenho certeza, comigo muito aprendeu através desse povo todo com quem convivemos durante esses dias.
Para todos vocês, exceto os últimos, até qualquer hora, ou o próximo COBREM.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Casório moderno
Sábado passado foi celebrado o matrimônio de um primo meu. Casou-se aos 32 anos, o que não teria o menor cabimento há um século atrás. Naquela época, com essa soma de anos o cidadão já estava na meia idade, com a prole mais ou menos encaminhada e sua esposa já uma senhora distinta, de roupas com ares viuvescos, afinal de contas, com as condições de vida existentes, o sujeito que passasse dos 50 já estava no lucro.
Hoje, aos 32, das duas, uma: ou o indivíduo, aquele movido a paixões fulminantes, está no quarto casamento, com um saldo de pelo menos um filho por cada um deles, ou está oficializando a vida conjugal mais ou menos nesta época. São os tempos modernos, que trouxeram a expectativa de vida para cima dos 70 e a consciência de que dá tempo de fazer muita coisa, não precisa afobação.
Pois bem, de lá pra cá, não só o perfil do casal mudou, mas também todo o certame matrimonial. Há muito tempo não havia casamento na família. Eu devia ter uns 12 anos quando fui ao último, e as diferenças eram gritantes, imaginem se comparadas aos do início do século passado.
Casamentos de hora em hora, nos quais todo o garbo do atraso da noiva se perde em meio a multas dadas pelas igrejas por esse costume visto por elas como descabido. Meu pai ainda me contou que há padres, como o da paróquia aqui do nosso bairro que, se a cerimônia deveria começar as 20h e acabar as 20h40, e a noiva decidir tradicionalmente atrasar meia-horinha, fazem o casório em 10 minutos.
Fico pensando como é que acontece nessas ocasiões. Alguma parte da cerimonia o padre tem de pular. Nem que ele reze a missa tal qual um jogo de futebol transmitido pelo rádio, não conseguiria dar conta do recado. Mas que pelo menos haja bom senso.
Imagine o padre dando as instruções para os noivos e padrinhos: “Minha filha, você tem que percorrer esse corredor em meio minuto, não dá pra ficar posando pra foto. Padrinhos e madrinhas, no final da cerimônia, nada de congratulações exageradas. Vou pular aquela parte do prometo amar-te e respeitar-te até o fim dos nossos dias, essa coisa protocolar. Ah, e já fiquem com as alianças no bolso, não vai dar tempo de entrar a daminha de honra”.
Casamentos são bacanas. Reúnem pessoas que você só vê ali e nos funerais. Dia de ficar sabendo que a tia-avó do primo distante enviuvou, que o outro tio foi à bancarrota, perceber que aquela priminha encorpou e tá uma moçona, entre outras novidades pertinentes. Sento-me para aguardar o início do casório e noto que a igreja está relativamente vazia. Comento isso com meu pai e ele argumenta que é fim de ano, nas vésperas de natal, muita gente viajando, e além do mais, a festa já foi.
Como assim a festa já foi? “Pois é, um amigo do seu primo emprestou um salão de festas pra ele, só que final de semana retrasado, então ele preferiu economizar esse dinheiro e fez naquele dia mesmo”. E pra onde nós vamos depois daqui? “Pra uma churrascaria”.
Achei o fim da picada. Pô, há tradições e tradições. O padre querer fugir do protocolo é uma coisa, agora adiantar a festa para duas semanas antes do próprio casamento não dá! Parece justo que duas pessoas jovens, iniciando a vida de casados, tenham de juntar dinheiro para outras coisas, como montar a casa e tal. Mas até as mais pobres famílias fazem vaquinha caso haja necessidade, para que haja um festão. Segundo um amigo meu, na pequena cidade onde ele vive, a tradição é que a festa seja paga pelo pai da noiva. Alias quando ele contou essa história lá, o pessoal ficou alarmado. Chocado mesmo. Ou seja, em cada lugar um costume, mas NUNCA a festa antes! Apesar disso dizem que foi bem bacana, infelizmente não pude ir.
Um capítulo a parte é a escolha das canções que tocarão durante a cerimônia. Estão gradativamente substituindo as músicas eruditas por grandes sucessos da rádio, cinema ou telenovela. “Jesus, alegria dos homens” de Bach, deve ter sido tocada pela última vez no casamento dos meus pais. Sábado passado chegou a tocar até “Amigos para sempre”, que espero, não tenha nenhuma subjetividade particular ou conotações de ato-falho. Não me surpreenderei se daqui uns anos, algum casal moderninho resolver trocar a marcha Nupcial por “We are the champions”, ou coisa que o valha.
Outra coisa peculiar em meio a toda essa modernidade, mas essa todo mundo faz, e é de fato bastante pertinente, é a tal lista de presentes. O casal fecha uma lista com uma loja de artigos para casa e os convidados escolhem, dentre os utensílios, com qual presenteará os noivos. Pelo menos não se corre o risco de ganhar um barco de madeira de decoração, que possui dois metros e não caberá em canto algum, ou um lustre pavoroso, que deixará o casal constrangido quando a pessoa que deu visitar a moradia deles e perceber que ele não só não está pendurado no teto, como não está guardado em lugar nenhum. Apesar disso, soa-me estranho pensar que demos aos noivos um ralador de legumes.
Se a modernidade vem para ajudar, deveria criar um mecanismo diferente, ou até mesmo banir aquelas congratulações aos noivos depois do fim da cerimônia. Forma-se uma fila gigantesca, da qual sempre fazem parte vários furões, ou outros ainda mais espertos que dão a volta por trás e cutucam os noivos pelas costas para evitar toda a fila. E ela anda mais devagar do que fila de banco no dia do pagamento. Bom seria se ficasse um fiscal, ou até mesmo o padre, ao lado nos noivos cronometrando o tempo entre dizeres e abraços, o qual não deveria ultrapassar cinco ou dez segundos por pessoa.
Sábado passado pensei em abandonar a fila e ir bater papo com o Ricardo Prado, aquele grande nadador brasileiro dos início dos anos 80. Ele foi treinador do meu primo e estava lá para prestigiar o casamento. Vi-o na porta da igreja, iria apresentar-me como seu grande fã, dizer-lhe que também sou nadador e inventar algumas conquistas e outras lorotas, já que provavelmente nunca mais o veria. Cheguei a sair da fila, mas não mais o encontrei ali.
Depois fiquei sabendo que ele se enganou em relação ao horário e assistiu ao casamento errado. Deve ter passado a cerimonia inteira impressionado; como meu primo estava diferente, realmente um homem já! E no final, enquanto estávamos, a família toda, em meio a ultrapassagens um tanto quanto desnecessárias, rumando à churrascaria, num comboio que mais parecia aquele desenho “a corrida maluca”, ainda deve ter ficado horas numa outra fila interminável para cumprimentar as pessoas erradas.
À parte essas considerações, os casamentos continuam sendo fantásticos. Todos estes são detalhes, que mesmo somados têm importância diminuta no contexto geral. Independente do dia da festa, da escolha das músicas, da rapidez da cerimônia, enquanto ela estiver acontecendo, as pessoas se emocionarão, porque a noiva estará sempre absurdamente bonita, porque antigos e reprimidos amores agora se tornam impossíveis, porque os filhos estão partindo para uma nova vida, uma nova família, e porque todo o arranjo do acontecimento foi escolhido por seus protagonistas que, num dos dias mais importantes de suas vidas, transbordam uma felicidade comovente, que nos envolve e faz de tudo isso que por ora discorri, algo completamente irrelevante.
PS: Ando meio cansado desses meus finais nada renitentes. Por ora, me parecem inevitáveis.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
De passagem
Acontece que eu era a única pessoa que passava por aquela rua na ocasião, contudo a barulheira não cessava. “Será que é alguém que eu conheço, e tá fazendo uma brincadeira?” . Mesmo assim não me virei para trás. Pouco a pouco o carro foi se aproximando, e quando passou por mim, não pude esconder a cara de espanto. Num desses carros família, tipo Palio Weekend, estava um casal de velhinhos, um vovô ao volante e sua senhorinha no banco do passageiro, olhando fixamente para frente e continuando a fazer um barulho danado.
Definitivamente eles não preenchiam o perfil de pessoas que saem por ai querendo impressionar quem quer que seja pisando no acelerador de um carro em ponto morto, mas se encaixavam perfeitamente naquele que agrupa os pilotos de primeira viagem. Seguiram até o final da rua, que faz uma curva e desemboca numa outra mais movimentada, cujo único sentido possível é uma subida. Ali, o carro morreu.
Por sorte não era a hora do rush. Passei por eles, atravessei a rua e fiquei alguns instantes assistindo. Várias e várias vezes a mesma sequência se repetiu: o velhinho dava a partida no carro, engatava a primeira marcha, pisava no acelerador, o carro não se movia e voltava a morrer. Nitidamente não conseguia sincronizar o movimento dos pedais, e a senhorinha, por sua vez, nada dizia, corroborando a suposição que eu tivera minutos antes, de que eles deveriam ser iniciantes.
Senti uma vontade grande de ajudá-los, passei breves instantes avaliando a situação e cheguei a decisão de que não deveria socorrê-los. Retomei o caminho de casa convicto de que tomara a decisão certa, mesmo sob o olhar reprovador de uma idosa mulher que por ali passava e deve ter confirmado sua opinião de que a juventude hoje em dia é pouco prestativa, mal-educada e inevitavelmente perdida.
Durante meu tempo de reflexão, imaginei algumas possibilidades para aquela cena atípica: Um homem de idade que sempre tivera o sonho de aprender a dirigir, mas nunca teve coragem, ou dinheiro, agora depois de velho estava conseguindo realizá-lo. Ou nunca tivera vontade para tal, mas a vida toda sua esposa pediu-lhe que a levasse passear de carro, e antes do fim da vida ele resolveu aprender para satisfazê-la e subvertendo a lógica, pegou o carro escondido do filho. Ou ainda alguém que sofreu algum acidente e não pôde dirigir durante muito tempo, e agora estava reaprendendo. Sei lá, podia ser qualquer coisa, mas sem dúvida, aquilo era um (re)começo.
Eu poderia me oferecer a ajudá-los, guiar o carro de volta à garagem, deixando-os fora de perigo e tudo mais. Mas imaginem que coisa frustrante. Pensariam os dois “onde estávamos com a cabeça, fazer uma coisa dessas depois de velhos”, seriam repreendidos por seus filhos, se sentiriam incapazes e inconsequentes. Preferi dar-lhes a chance de superar o desafio, com a consciência de que as chances de fracasso não eram pequenas, mas que valia o risco.
Poucas são as pessoas que se propõem a novos desafios depois de certa idade. A maioria julga-se velha demais para aprender, “novidade” deixa de fazer parte de seu vocabulário. Ajudar aqueles velhinhos equivaleria, penso eu, a dar-lhes motivos para pensar desta maneira. O clichê do momento é que devemos aprender a envelhecer. Temos que desde cedo cuidar da saúde, comer bem, fazer exercícios, exercitar a mente, que assim, chegaremos ao centenário. Mas de que valerá chegar lá se não formos capazes de aproveitar, de nos sentirmos capazes para tal?
Desde há algumas semanas, minha inspiração e motivação para isso ganharam um nome: Oscar Niemeyer. Assisti a um documentário sobre imortalidade, que inevitavelmente invocava nosso maior arquiteto. Em meio a um monte de baboseiras, o documentário mostrava uma entrevista com Niemeyer, recém saído do hospital, onde ficou internado para um cirurgia de pequeno porte (se é que aos 102 anos alguma cirurgia pode ser assim considerada), e onde, durante sua internação, se propôs a compôr um samba, em parceria com o enfermeiro que dele cuidava. O documentário mostrou o enfermeiro entoando a canção, que era de fato bonita. Mesmo que fosse pavorosa, pouco importaria.
Niemeyer possui mais de dez projetos em andamento, e numa situação onde a maioria, independente da idade, tem ideias negativistas, ou no mínimo um leve mau-humor, ele se prestou a compôr uma música! Invejável. Literalmente, uma lição de vida.
Ele foi ainda indagado se, se tivesse a oportunidade de tomar o elixir da vida eterna, o faria. Sua resposta? “Se todos tivessem a mesma chance, sim.”. Um homem de 102 anos, com todas as perdas e limitações que o tempo lhe trouxe, numa época da vida com a qual poucos desejam chegar, por imaginar as condições físicas e mentais nas quais provavelmente se encontrariam, dá uma resposta dessas. No mínimo, digna de uma boa tarde de conversa, regada a cervejinha e aperitivos. Alias quem concordar, que me convide.
No fim das contas, cheguei em casa naquele dia pensando em tudo isso. De férias, sem nada de importante para fazer, resolvi deitar no sofá para aquele delicioso cochilo de meio de tarde, embalado pela televisão ligada em volume baixo. Não sei precisar depois de quanto tempo, mas fui acordado de sobressalto, por uma barulheira infernal vinda da rua: um ronco de motor. Com uma sensação boa, preferi não checar de quem se tratava.
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Quem sou eu
- Pedro
- Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.