domingo, 6 de junho de 2010

Pré-jogo (Copa 2010)

Falta uma semana para o início da Copa do Mundo. O motivo de maior comoção nacional e demonstrações de patriotismo. Nada contra. Há quem fique criticando o fato de que só nos orgulhamos de ser brasileiros nesta hora, que deveríamos seguir o exemplo dos americanos, que sustentam 365 dias do ano a bandeira hasteada no jardim de casa. Que se realmente amássemos a pátria, não haveria tanta corrupção, desmatamento etc. Passo longe dessa trupe que gosta de cornetear o espírito da nação, o negócio agora é futebol.
Hora de pintar o meio-fio de verde e amarelo, de pendurar bandeirinhas entre os postes de iluminação das ruas, tempo de colecionar figurinhas e nunca completar o álbum, mesmo roubando dezenas do bolo de repetidas dos amigos distraídos (esse é o meu caso; naturalmente, não nos dias atuais). Época dos memoráveis bolões, nos quais na maioria das vezes aquele cara sem noção alguma, que se você perguntar pra que time o cara torce, ele responde “Brasil”, costuma ganhar e deixar a turma que vive acompanhando campeonatos regionais, Champions League e até mesmo o Showbol, que simula centenas de vezes os resultados da Copa desde que sai o sorteio das chaves, extremamente putos da vida.
Passeando pela cidade, vi menos ruas e casas pintadas, menos alegorias e penduricalhos por aí. Acredito que isso seja diretamente proporcional à empolgação do povo com a seleção convocada pelo técnico. Desta vez, não há quem ache que o Dunga acertou em cheio nos selecionados. Pior, nem perto disso chegou. Como muito bem observou o Xico Sá na sua coluna semanal, se o futebol fosse comparado à literatura, até meados de 70, o futebol arte da seleção conferia um “quê” de poesia, ao passo que nosso estilo atual não passa de uma sofrível auto-ajuda. “Futebol moderno”, dizem alguns.
A seleção brasileira hoje não possui nenhum Romário de 1994 ou Rivaldo e Ronaldo de 2002. Definitivamente o time não empolga. Como vibraremos quando estivermos perdendo, ou o Kaká se machucar e do banco surgir Júlio Batista? Ou Josué?! Ademais, se a nação do futebol, detentora de maior número de títulos mundiais, e que é a maior exportadora de talentos para o mundo, tem entre seus titulares o Elano, devo rever de forma urgente meus conceitos futebolísticos.
Criticas à parte, inevitáveis nessa altura do campeonato, sabemos que quando chegar a hora, independente de quem estiver lá com a bola nos pés, nos reuniremos na casa de quem tiver a maior televisão da turma, com a picanha no fogo, cervejinha no freezer e o coração na mão, torceremos apaixonadamente pela seleção, ouvindo o Galvão e seu “aguenta coração”, (porque a gente critica o sujeito a vida toda, mas é incapaz de assistir jogos do Brasil em outro canal) e no íntimo ainda pedindo para que o time adversário faça um golzinho, pois assim acertaremos o resultado do bolão.
Em uma semana entraremos num estado hipnótico que durará quase um mês, mas que vale a pena, é só de quatro em quatro anos. Não é a toa que, quando vemos alguma comemoração exagerada, logo associamos “parecia até a copa!”. A Espanha é a favorita, a Holanda e a Argentina estão muito bem. Será que vai dar? O coração começa a acelerar, falta pouco, já sou capaz de ouvir: “Bem amigos da Rede Globo, voltamos em definitivo...”

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Preguicite aguda

Tenho alguns amigos que me julgam ser a pessoa mais preguiçosa que eles conhecem. Discordo totalmente. Ou quase. É que depende muito da coisa. Devo confessar que talvez a preguiça seja a coisa que mais atrapalha a minha vida, mas tenho sorte de morar com pessoas um pouco menos preguiçosas, senão eu estaria perdido.
Não sei cozinhar, óbvio. Preguiçoso que é preguiçoso, nunca vai se dispor a aprender essa arte, nem em casos de extrema necessidade. Para isso existem os miojos e os congelados, além das padarias de esquina. Mas como sempre há dias atípicos, quando retornei de São Paulo para Florianópolis da última vez, os caras aqui de casa estavam num período do internato médico em que mal tinham tempo para almoçar, que dirá cozinhá-lo. Como eu ainda estava de férias, achei que não custava tentar fazer alguma coisa para eles comerem; eu sabia que o que sempre me impediu de cozinhar foi a preguiça, e não podia ser nada muito complexo. E assim, aprendi a fazer arroz, ovo frito e ferver salsicha (além de lavar e temperar uma boa salada de alface com tomate).
E ficou nisso mesmo. De lá pra cá, preparei mais duas refeições (e lá se foram mais de dois meses), sendo a última, ontem. Juro que até pensei em preparar algo diferente, procurei no Google por “receitas fáceis”, que não me pareceram tão fáceis assim, depois por “receitas rápidas e muito fáceis”, cuja complexidade em muito me surpreendeu, e acabei desistindo quando me passou pela cabeça procurar por “receitas ridiculamente fáceis” ou “receitas culinárias para deficientes físicos”. Resultado: Arroz, ovo, salsicha e salada de alface com tomate (e cebola, desta vez!)

No fundo minha preguiça não foge do trivial, tenho preguiças como as de todo mundo. Como preguiça de arrumar as roupas no armário depois de chegar de viagem, de lavar a louça, preguiça de trocar o canal da televisão se o controle não está por perto, de cortar as unhas do pé (mas eu corto, e regularmente; bom mesmo era o tempo em que minha mãe cortava), entre outras preguiças comuns.
Duas coisas que estão intimamente atreladas são a preguiça e o sono. Claro, quando a pessoa está com sono, tem preguiça de realizar qualquer que seja a atividade. Acontece que ando desenvolvendo uma mania peculiar. Assim como muitas pessoas, durmo assistindo a nove entre dez filmes que alugo. Sempre fico naquela briga para manter os olhos abertos, e quando percebo, já estou abrindo-os novamente. Entretanto de uns tempos pra cá a coisa chegou a tal ponto, que certa vez, quando o sono começou a se avizinhar, consegui me convencer de que o filme ao qual eu estava assistindo não era lá daqueles em que as imagens importavam tanto, eu deveria me ater mesmo aos diálogos, e para isso, os olhos fechados até ajudariam.
Agora, nada ganha de uma prova na segunda-feira. Se existisse alguma espécie de preguiçômetro, eu seria capaz de apostar altas quantias que os maiores graus seriam detectados nas pessoas que têm de estudar no domingo.
Você acorda cedo, bota o despertador para tocar as oito horas, e até levanta disposto, mas ao passar pela sala rumo à cozinha, seduzido pelo cheiro de café e do pão fresquinho que a mãe acabou de trazer da padaria, vê a televisão e se lembra que vai passar a Fórmula 1. Pronto. Pode o Rubinho estar largando dos boxes que você se convence que não pode deixar de assistir a corrida. Antes da metade o carro do Rubinho quebra, mas a luta pelas primeiras posições é tão boa que você fica até ver o pódio. Acabada a corrida, dá uma espiada na cozinha, vê a mãe preparando aquela tradicional macarronada e reflete que não compensa começar a estudar agora, se daqui a pouco o almoço será servido.
Findada a refeição, que você comeu feito um boi, se convence facilmente de que não faz o menor sentido estudar de barriga cheia, não vai dar pra se concentrar, e aproveita para tirar aquela soneca pós-prandial sem remorso algum, no sofá mesmo. E quando percebe, está sendo acordado pelo pai, que liga a tevê para assistir o campeonato de futebol. Assistir futebol nas tardes de domingo pode ser considerado pelo brasileiro algo quase religioso, portanto aquele Ferroviária x XV de Jaú se torna questão de honra, vão te olhar feio se sair da sala com um livro na mão.
O Sol começa a se pôr e agora (só agora) você começa a sentir um leve desespero. Deixou para estudar no último dia e a preguiça o levou ao extremo de começar só de noite. Você então vai para o quarto, se concentra, começa a ler o livro, a coisa flui bem nas dez primeiras páginas. Mas aí você inevitavelmente terá sede ou vontade de ir ao banheiro e, com o livro na mão, passa novamente pela sala, vê que no Fantástico está passando uma reportagem interessantíssima e não resiste. Quando menos espera, está segurando de um lado o livro e do outro o controle remoto, zapeando os canais, até a hora em que começa aqueles filmes de fim de noite dominical, geralmente com o Steven Seagal ou o Charles Bronson, que conseguem fazer com que a matéria que você deixou de estudar o dia todo pareça legal.
Mesmo assim você não consegue, e agora é tarde demais. Chega a conclusão de que é melhor, mesmo não tendo estudado nada, dormir de uma vez e chegar inteiro amanhã para a prova, pois com a mente descansada você conseguirá lembrar melhor do conteúdo das aulas, que você, com alguma sorte, não matou. Por preguiça, claro.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Quando ninguém ri da piada

Há poucos dias estava na fila do restaurante universitário (o RU) com alguns amigos, quando resolvi contar uma história.
Quem me conhece sabe que sou dado a contar histórias, em sua maioria, grandes abobrinhas, vivenciadas ou não por mim, mas que na maior parte da vezes rendem algumas risadas. Desta vez, em particular, não, muito pelo contrário. Foi ridículo, totalmente constrangedor.
Acontece que ando lendo um livro de crônicas do Mario Prata, consequentemente, quando gosto dos textos, acabo repassando as narrativas para o pessoal. E era isso que eu ia fazer.
Estávamos lá, esperando o RU abrir, o Marcão, o Ronaldo, o Japa, o March, o Paraguaio, a Vanessa e eu, quando solto: “Nossa, li uma crônica ontem muito boa, deixa eu contar”. Nisso o March perguntou: “Não é a do Tumitinha de novo, né Pedrão?”, não, não era.
Não me lembro muito bem porquê, mas demorei uns cinco minutos para iniciar o relato, dizendo que a Vanessa não podia ouvir, e depois fazendo alguns outros comentários sobre o povo que passava na fila, o que aumentou consideravelmente a expectativa em cima da coisa.
A história, que eu definitivamente não me atrevo a contar novamente, envolvia o Mario Prata e um primo dele, que hoje é reitor da universidade onde estudo. Eu, sinceramente, tinha achado a situação cômica, tanto que decidi contar, mas a repercussão não foi bem a que eu esperava.
Todos atentos olhando para mim, começo a narração. A gente sempre imagina os momentos em que as pessoas começarão a rir; eu, por acaso, calculei mal. No primeiro momento supostamente engraçadíssimo, ninguém abriu sequer um sorriso, mas não me deixei abalar. Prossegui, e no segundo momento totalmente hilário (julgava eu), os rostos não só não mudaram de feição, como meus ouvintes começaram a se entreolhar. Naquele instante, percebi que a coisa não ia acabar bem, mas não tinha como voltar atrás.
Lembrando da situação, me sinto mal até agora, óbvio que eu já contei histórias sem graça, mas essa foi de matar, desastrosa. Aquele clima de expectativa foi sendo substituído por uma angústia crescente, todo mundo percebendo o desconforto que se apossou sobre mim, contando uma história sem graça, que não evoluía, não acrescentava nada a ninguém e que os deixava com um vergonha alheia, assistindo minha sofrível performance.
Em dado momento, na tentativa de mudar os contornos da narrativa, resolvi apelar para um “mas vocês não acham interessante...”. Quando um negócio que era pra ser engraçado, (e isso tinha ficado claro antes de começar a narração) vira “interessante”, significa que você precisa urgentemente rever seu conceito de humor. Há vezes em que você conta uma piada, e de tão sem graça o pessoal acaba rindo (geralmente isso acontece em churrascos, quando a carne acabou e a cerveja está preste a), mas nem nisso essa minha história deu. Quando eu acabei, tava um clima pesado, ninguém ali sabia lidar direito com a situação. Fui eu quem tive que dizer “Mas a do Tumitinha era legal, não era?”.

- Ah! A do Tumitinha era muito boa!
- Nossa, era legal mesmo! Pô, Tumitinha...hahaha!!
- Como que pode?! Tumitinha não dá!

A fila do RU começou a andar. Entramos, pegamos as bandejas, nos servimos, almoçamos conversando sobre assuntos aleatórios, mas antes de irmos embora, ainda comentei: “Fazia tempo que eu não ficava tão sem graça como agora, contando aquela história”. Todo mundo se convalesceu, eles também ficaram muito sem graça, sofreram durante aqueles minutos que a fila não andava. Mas alguém, não me lembro quem, sugeriu: “ah, pelo menos você vai ter sobre o que escrever”.
Aí está. Tenho de admitir que era pra ser um texto cômico. Pelo menos um pouquinho. Se não foi, sugiro que vá ler a crônica do Mario Prata, sobre o Tumitinha. É diversão garantida.

sexta-feira, 26 de março de 2010

A primeira sutura a gente nunca esquece

Domingo passado fiz meu primeiro plantão em clínica cirúrgica no Hospital Florianópolis. Desde que resolvi que seria médico, nunca me imaginei como cirurgião e, sinceramente, pensava em não fazer nenhum estágio relacionado à cirurgia até passar pelo internato, quando obrigatoriamente o fazemos.
Objetivando não chegar no internato tendo de assumir que só fiz sutura em ratos e almofadas, e um pouco por curiosidade e pressão externa, resolvi me matricular na matéria optativa “Plantões em clínica cirúrgica no HF”, ou algo assim.
Pois bem, numa ensolarada manhã de domingo, sem nuvens ou vento, perfeita para ir à praia, acordei com uma margem de horário que julgava ser suficiente para me arrumar, pegar dois ônibus e chegar no hospital. Esquecendo-me que se tratava de um domingo, e portanto haveriam no máximo metade dos ônibus circulando pela cidade, cheguei, com o perdão da palavra, com o cú na mão, quase meia hora atrasado ao meu primeiro plantão.
Por uma sorte absurda, eu e minha dupla (fazemos os plantões sempre em duplas de acadêmicos, que acompanham um cirurgião) acompanharíamos o Dr. Edson, um sujeito que se mostraria muito gente boa, e que não reclamou do atraso.
Não havia passado cinco minutos desde a minha chegada, quando apareceu um rapaz com um dos dedos da mão envolto num monte de papel. E lá fomos nós, eu e o Danilo Gebrin, minha dupla, cuidar do caso.

Eu nunca havia feito procedimento algum, mas percebendo que o Danilo era bem sossegado, e tendo a permissão do Dr. Edson para resolver o problema, tomei a frente da situação: “Me diz ai cara, o que foi que você fez? “ Descobri então que ele havia cortado o dedo indicador da mão esquerda em vez da mandioca que estava em sua posse. Coloquei as luvas e fui verificar o ferimento. Não era muito grande, disse ao Danilo “uns 3 pontos aqui são o suficiente, não?” E o Danilo concordou. “Pode deixar comigo” disse eu, e comecei a proceder, tal como havia aprendido na teoria.
Limpa o ferimento, põe o campo, aplica a anestesia, sutura, tira o campo, limpa novamente, faz o curativo...pronto, está feito o serviço. Tranquilo. Não para a primeira vez.
Até pôr o campo foi uma beleza, sem grandes dificuldades, mas então chegou a hora da anestesia. Eu nunca havia anestesiado ninguém, não deveria ser difícil, mas sabe como é. É uma pessoa que tá na sua frente, que tá com medo porque sabe que a coisa vai doer, e nem desconfia que você nunca fez aqui antes. Procurei demonstrar a maior frieza possível, e acho que na voz até consegui enganar.
Me contive em informar ao rapaz, como fez o Thiagão, da minha sala, que aquela seria a minha primeira sutura, mas antes de continuar, procurei alerta-lo: “Tente não ficar olhando, vai ser melhor pra você”. Mal sabia ele que a sugestão não era para que ele não se impressionasse com o procedimento, com todo o sangue que iria escorrer, ou com a pele dele sendo puxada pra lá e pra cá, e sim porque minhas mãos começaram a tremer mais do que as de alguém com mal de Parkinson e eu por alguns instantes não conseguia nem acertar a agulha na ferida do rapaz.
Depois da anestesia, achei que minhas mãos resolveriam obedecer melhor aos meus comandos, o que se mostrou rapidamente ser uma ilusão. Ao pegar a pinça, o fio e o porta-agulha para iniciar a sutura, eu continuava tremendo feito vara verde. “Não olha!” dizia eu, ao menor sinal de movimento da cabeça que o moço fazia.
Santa anestesia! Fico imaginando se o cara tivesse que sentir todas as vezes que eu passava a agulha por sua pele. Errei tantas vezes, por afobação, que se o corte fosse no rosto eu certamente seria processado por aquela sutura. Dei os três pontos que planejava e percebi que ficaram muito próximos. Ficaram bons, porém próximos. Resolvi então dar um quarto. E, acreditem, esse ficou feio. Catastrófico. Destruiu toda a sofrível simetria que eu havia conseguido até então e ficou do lado oposto da ferida do que tinha ficado os demais pontos.
Limpei o local, fiz rapidamente o curativo, e declarei “Rapaz, ficou uma obra de arte” (pensando internamente “só se for arte moderna”) e mandei-o pegar as receitas com o Dr. Edson.
Ele ficou bastante agradecido, e eu, por minha vez, também tive muita vontade de agradece-lo por ser a primeira pessoa na qual pude praticar uma sutura. Fiquei alguns instantes pensando se ele iria ficar me xingando ou voltar ao hospital me procurando quando abrisse o curativo e visse aquela bizarrice sem precedentes no seu dedo. Mas o tempo foi curto, pouco depois chegou uma senhorinha com as pernas queimadas pois deixou derrubar a bandeja quente com os salgadinhos da festa da neta, que seria dali a algumas horas.

Durante o dia chegaram algumas outras queimaduras, gente que pisou em prego, mordida de cachorro, acidente de moto, além de uma segunda sutura, que eu novamente pedi para fazer, afinal, precisava treinar.
“O que que o sr. fez aí na perna?” O homem estava todo ralado, mas com um corte na perna que precisava ser suturado. Respondeu que tinha subido no telhado para consertar sei lá o que, se desequilibrou e caiu. Limpa, põe campo, anestesia...
“Espera dr., se a gente bebeu um pouquinho, a anestesia pega?”
E assim, tremendo consideravelmente menos, fiz minha segunda sutura, num senhor que depois de ter tomado umas caipirinhas no almoço dominical com a família, achou que era um bom negócio subir no telhado para resolver o problema de goteiras. Foram quatro pontos. Ficaram bons, fui até elogiado pelo Dr. Edson.
Devo confessar que esse tipo trabalho é bem gratificante. O resultado é imediato, você vê ali, na hora, que pôde efetivamente ajudar alguém, e essa pessoa, por sua vez, reconhece seu trabalho, e sai dali geralmente muito agradecida. Não posso dizer que passei a cogitar ser um cirurgião, fiz apenas pequenos procedimentos, e este foi apenas meu primeiro plantão. Mas posso dizer que já vejo a coisa toda com outros olhos.

Mesmo assim, ainda concordo com outro amigo meu, que me contou que recentemente estava conversando com outros amigos que fazem medicina, todos eles decididamente futuros cirurgiões, que discutiam entre si mais ou menos desta forma:

-“Acho muito massa a cirurgia plástica, os pontos que eles dão e tal...”
-“Não cara, massa mesmo é a ortopedia, aquela pedreirice, força bruta, furadeira, parafuso...”
-“Gosto mais da neurocirurgia, operar com o paciente acordado é animal...”

E meu amigo, ainda que timidamente, foi quem concluiu a conversa:

-"Olha, sinceramente, massa mesmo é o ambulatório. Chegar e dizer: “Tudo bem, Dona Maria? como é que vai a pressão...”

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Mudança de assunto

Resolvi deixar minhas percepções cotidianas um pouco de lado e escrever sobre outro tema que me interessa bastante: cinema.
Antes que qualquer pessoa razoavelmente entendida do assunto perca seu tempo, já deixo aqui algumas informações sobre minha relação com a sétima arte, a fim de esclarecer que o negócio é levar um papo descontraído sem muitas reflexões profundas. Por ora, não discorrerei sobre nada em específico, apenas alguns tópicos breves para que se sintam familiarizados com quem vos falará daqui por diante.

-Não sei se o fato de eu ter assistido Avatar em versão dublada e ser esta minha primeira experiência em 3D, de modo que eu não consiga ver a revolução em relação aos antecessores, colaboraram para minha má impressão do filme. Mas minha opinião (traduzida ao pé da letra por um comentário que vi num certo blog) é de que se trata de uma mistura de Pocahontas com O último Samurai, ambientada em outro planeta. (Mas o 3D é bacana)

-Gosto bastante de Hitchcock e Woody Allen. Do primeiro, assisti uns dez e gosto de quase tudo o que vi, agora me vem a cabeça particularmente “Disque M para matar” e “Um corpo que cai”. Mas no geral, todos que assisti são bons.

-Do segundo, já estou chegando à segunda dezena. “Annie Hall”, “Manhattan” e “Crimes e Pecados” são meus favoritos. “Vicky Cristina Barcelona” não fica para trás. Confesso que acho alguns bem mais ou menos, e “Sonho de Cassandra” é quase uma catástrofe.

-Apesar de ser quase senso comum, não consigo ver Marlon Brando como o melhor ator de todos os tempos. Depois de ter levado aquela índia para receber o Oscar por “O Poderoso Chefão”, acabou de perder toda a credibilidade. Jack Nicholson e Sean Penn, a meu ver, estão a léguas de distância desse camarada.

-Fellini ainda me soa inalcançável. “Oito e meio” e a “Doce Vida” me passaram em branco. Acho que ainda tenho chão pra saber gostar deles. Mas tenho consciência que a culpa é minha. Por outro lado, gosto muito de Truffaut e seus Incompreendidos.

-Quando acabei de ver “A Lista de Schindler” pela primeira vez, pensei instantaneamente “esse é o melhor filme que já vi”. Isso jamais me ocorreu antes ou depois com qualquer outra película, mas preciso repensar sobre o assunto.

-Quando penso na melhor cena de inicio de filme, me vem o desembarque em “O resgate do Soldado Ryan”, a melhor cena final (não riam) é o velho, supostamente morto desde o inicio, levantando, fechando o grande portão e dizendo “game over” no primeiro e único filme que presta da sequência “Jogos Mortais”.

-Dois filmes que assisti no cinema e não queria que acabasse nunca são: “Gladiador” e “Os Infiltrados”. Dois filmes que assisti em casa e não consegui passar da segunda cena são “Serpentes a Bordo”, com Samuel L. Jackson e “Zohan”, com Adam Sandler. Há vários outros que eu não passo porque durmo, mas é que esses eu achei ruins mesmo.

-O único filme que assisti 3 vezes no cinema foi “Batman – O cavaleiro das trevas”. Vários outros assisti 2 vezes. E nunca sai antes de uma sessão acabar. A única vez que dormi (no cinema) foi em “P.S. Eu te amo”.

-Almodovar é um afetado, Tarantino também, mas de um jeito muito distinto e melhor. Lars Von Trier é indiscutivelmente perturbado, e apesar do bom “Dogville”, estragou o que poderia ser o excelente “Dançando no Escuro” e fez o pior filme que já vi até o fim (ao lado de “Quero ser John Malkovich”) “O Anticristo”.

-Stanley Kubrick é hors concours nessa lista de perturbação, mas emplacou dois dos maiores vilões da história do cinema: Nicholson em “O iluminado” e o HAL 9000 em “2001” (apesar do filme se tornar progressivamente impossível de se entender), ao lado de Hannibal Lecter em “O silêncio dos Inocentes”.

-Com exceção de “Old Boy” e a “Viagem de Chihiro”, não me recordo de ter conseguido terminar de assistir qualquer outro filme oriental. Confesso que ainda não tentei nada do Kurosawa.

-Por fim, também gosto de comédias, comédias românticas e animações, destas últimas, ainda prefiro aquelas na linha de “A fuga das Galinhas”, mas também curto os da Disney/Pixar. Das comédias românticas, “Simplesmente Amor” é imbatível e nas comédias, Jack Black e Will Farrel à parte (apesar de andarem fazendo muitas porcarias recentemente), não me lembro de nada tão bom como “Se beber, não case”, nos últimos tempos.

Daqui pra frente, se eu me animar a continuar escrevendo, os assuntos serão mais pontuais. Espero que tenham se identificado com uma ou outra coisa que escrevi, pois, se este não for o caso, não os vejo por aqui tão cedo. Pelo menos não até eu voltar a escrever sobre velhinhos corajosos e festas de natal.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Na fila do banco

Há lugares que possuem um grande potencial para gerar confusões. Ressalto as filas de banco em dia de pagamento, ônibus lotado em dia de chuva e saídas de estádio quando o time local perde. Todas elas provocam um grau crescente de irritabilidade nas pessoas que qualquer espirro vira motivo de confrontos fatais. Hoje não fui a jogo, não peguei ônibus e, embora não seja dia de pagamento, provoquei uma importante confusão numa fila de banco.
Antes de narrar o acontecimento, gostaria de tecer alguns breves comentários sobre duas invenções relativamente recentes que vieram para acabar com a paciência dos cidadãos de bem:
Celulares que funcionam como radinhos de pilha e dispensam os fones de ouvido, dando a oportunidade do dono do aparelho de compartilhar seu gosto musical com todos aqueles que estejam há um raio de cem metros de distância.
Igrejas evangélicas de fundo de garagem, fabricantes de fanáticos religiosos que não conseguem finalizar uma frase sequer sem um “glória a Deus” e te chamam de irmão sem nunca ter te visto antes.
Juntem esses dois itens e comecem a calcular a dimensão do meu problema.
Acontece que estava eu numa fila da Caixa Econômica Federal para fazer um simples depósito na conta de um amigo, numa tarde exemplar, na qual o sistema de depósito por envelopes não estava funcionando e havia apenas dois caixas para atender a uma fila de mais de trinta pessoas, sendo um deles caixa preferencial para idosos, gestantes e pessoas com deficiências, quando começo a ouvir um barulho chato vindo das proximidades.
A qualidade do som era terrível, mas me esforçando, consegui identificar uma canção gospel oriunda de um aparelho celular pendurado na cintura de um sujeito que acabara de entrar na fila. Não tinha como aquilo acabar bem. A fila foi avançando com velocidade desprezível, e o camarada continuava com o aparelho ligado. Eu estava conformado com toda aquela demora da fila, mas a entrada do sujeito mudou a conjuntura de maneira inaceitável.
Já perdi a conta de quantas vezes me arrependi por não ter reclamado de situações que me incomodavam. Seja por causa desses malditos celulares que o povo põe pra tocar em locais inapropriados (entenda-se inapropriado qualquer lugar que não seja a rua ou a própria casa), por ver jovens sentados nos coletivos e não cedendo seus lugares para os idosos; ver velhos tarados encochando mocinhas indefesas nesses mesmos coletivos abarrotados, entre tantos outros absurdos cotidianos. Tenho a certeza de que a maioria das pessoas acabam passando uma vontade tremenda de fazer alguma coisa a respeito, mas raramente o fazem. Acabam sendo permissivas e nada muda.
Devo admitir que não é fácil fazer uma intervenção dessas. Embora me sentisse como porta-voz da maioria das pessoas da fila, chegar do nada e mandar alguém desligar o aparelho celular exige um certo cuidado, tendo em vista que uma pessoa desse gabarito provavelmente não acataria a reclamação e sua investida poderia ser completamente em vão, além de provocar possíveis represálias. Nessas horas o tempo começa a passar mais ligeiro, e enquanto eu pensava na melhor abordagem, de repente me vi sendo o próximo a ir ao caixa. Foi quando forcei um olhar sério, encarei o sujeito e disse:

-O senhor tem fone?
-Como?
-O senhor tem fone de ouvido?
-Fone de ouvido? Tenho, mas tá em casa.
-Então faça o favor de desligar o celular, ninguém aqui é obrigado a ouvir as músicas que o senhor quer.
-Você quer que eu faça o quê?
-Que desligue o aparelho (querendo dizer “essa merda”), é proibido fazer isso. Aqui não é a rua, não é lugar público.
-Tá te incomodando?
-Tá! Imagina se todo mundo aqui trouxesse o celular e ficasse ouvindo sua música como o senhor tá fazendo.
-Posso ficar com ele aqui grudado do ouvido?
(A resposta que eu queria dar nessa hora era: “Enfia isso no *** e vê se o som chega no ouvido”)
-Não! E se não desligar logo, quando sair da fila chamo o segurança. Além de proibido é questão de bom senso, educação.
-Que educação o quê! Ô meu filho, que é isso, Deus também te ama.

Nesse momento eu desisti. Como é que você vai debater com uma pessoa dessas? Lá na “Igreja Quadrangular dos Apóstolos que se sentaram a direita de Jesus na Última Ceia”, devem ter dito que é bonito louvar a Deus sobre todas as coisas, mas não explicaram que ouvir cânticos de louvor numa fila de banco não vai angariar novos fiéis, muito pelo contrário.
Fiz calmamente o depósito (mentira, minhas mãos estavam tremendo de nervoso) e antes de sair do banco, como prometido, fui ao segurança pedir que repreendesse “o cara que estava ouvindo, descabidamente, música em alto volume na fila do caixa”. Em meio a minha denúncia, percebi o sujeito do celular espreitando, certificando-se se da seriedade da minha promessa.
Sai do banco com a sensação de dever cumprido. Desejei que o ato servisse de motivação, para que as pessoas que estivessem ali fizessem igual quando se vissem frente a outras situações semelhantes. Pra dizer a verdade imaginei uma saída triunfal, com o pessoal da fila me aplaudindo, ou coisa que o valha. Fiquei até com certa dúvida se não exagerei no gesto. Também não fiquei pra ver se o guardinha foi repreender o moço. Mas tenho certeza que ele pensará duas vezes antes de ouvir música pelo celular numa fila de banco.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

À parte o natal

À parte o natal, toda sua simbologia, rituais e tradições sobre as quais certa vez discorri, ficam os pluritemas elementares a qualquer reunião casual entre familiares. Desta vez o natal foi comemorado aqui em casa, numa noite onde houve ausências sentidas, mas também presenças indispensáveis, que protagonizaram situações dignas de nota.

Após a missa, enquanto minha mãe terminava os preparativos para receber os convidados, meu pai e eu fomos de carro buscar uma tia que mora aqui no bairro. A tia Dirce é divertidíssima, sempre falante, narra histórias longas com uma riqueza de detalhes surpreendente, e durante o pequeno trecho da casa dela até a minha, foi nos contanto da nova casa que meu primo (filho dela) havia comprado numa cidade do interior mato-grossense, pormenorizando cômodo por cômodo, numa sequência de relatos que iniciou com “O Marquinho vai ligar pra vocês contando uma surpresa: Ele comprou uma casa!” E assim já nos criando a responsabilidade de forjar uma reação de incredulidade caso esse telefonema viesse a se concretizar.
Na pequena pausa que ela fez, enquanto nos falava sobre algo que ficava entre a porta da cozinha e um determinado corredor, percebeu que o rádio estava ligado (“Uma noite e meia” era a música do momento) e perguntou-nos quem estava cantando. “É a Marina, tia” respondi, no que ela de pronto rebateu “Ah! Marina Monte!! Adoro!”. E continuou estragando a surpresa.
Chegamos em casa e aos poucos os demais convidados também. O tio Dorival antes mesmo de me cumprimentar, indagou pelo violão: “Tá com ele aí? Já, já você pega que se a gente não fizer barulho a turma dorme”. O violão só foi ouvido bem no final da noite, afinal de contas, todos tinham muito o que papear.

Nisso chegaram ainda os últimos convidados, a Tia Mirtes e o Tio Roberto, um tio meu fanático por futebol, que não aparecia por aqui havia anos. Palmeirense roxo, devido ao fiasco do time no campeonato brasileiro, ao adentrar na sala, já avisou: “Sem falar de futebol hoje hein”. No que a tia Mirtes retrucou, dizendo que era impossível ficar ao lado do tio Beto por mais de dez minutos sem falar sobre futebol.
Formaram-se pequenos grupinhos em diferentes cômodos da casa, entre os quais, como bom anfitrião transitei, e pude participar um pouco de cada conversa. No corredor externo estavam o tio Dorival e o Tio Moacir comentando sobre confusões em hospitais. Que o sistema é todo errado e isso gera verdadeiros reboliços nas instituições, citavam ocasiões em que presenciaram confrontos corpo a corpo envolvendo parentes de doentes e funcionários, em meio a argumentos políticos para mudar os rumos da saúde no país. Fiquei pouco por ali; apesar de ter estudado toda a estruturação e lógica do SUS, trocar informações com esses dois visionários dispenderia um tempo precioso, no qual muita outras conversas interessantíssimas deviam estar ocorrendo em outras partes da casa, das quais eu não podia deixar de participar.
Na cozinha, pela qual tive uma pequena passagem, uma das tias estava contando o caso do cachorro do inquilino da casa de trás, que tinha morrido enforcado pela coleira quando tentara pular pela janela. O papo degringolou para uma análise sobre criar ou não criar cães em apartamentos, no meio do qual, quando já estava de saída, ouvi meu pai comentar: “Higienópolis é o bairro de São Paulo com a maior população canina”. Juro que não duvido do teor da informação, mas a cada dia fico mais impressionado com a capacidade que meu pai tem de saber esses tipos de coisa.
Na sala da TV estava a Vó Teresa, em sua cadeira cativa em frente à televisão, que transmitia um documentário sobre a vida marinha, denunciando a um primo meu sua desconfiança de que as blusas que ela ganhara não sei de quem eram de brechó. Fiquei por ali um pouco, me divertindo com o relato das peripécias e tramóias de minha avó com suas amigas da casa de repouso, mas não pude deixar de ouvir quando alguém na outra sala disse “Claro que eu estava lá no estádio!”.

A tia Mirtes realmente tinha razão. Chegando na sala vejo que o tio Beto conseguiu mobilizar boa parte dos parentes num papo futebolístico. Fazia um paralelo entre o fracasso palmeirense deste ano com o campeonato paulista de 1984, quando o time só precisava empatar o último jogo contra a Inter de Limeira no Morumbi e levantaria a taça, mas acabou perdendo. “E o time era tão bom!” se lamentava ele, e prosseguiu com a escalação do elenco todo, incluindo os suplentes.
Claro que não faltaram as conversas triviais sobre o trabalho, a família e as novas doenças que surgem com a idade, os balanços de final de ano, e os planos para o seguinte, conversas que sempre se estendem ou se repetem na semana seguinte, na festa do Reveillon.
Por conta de umas questões paralelas, Tia Nena e seus famosos presentes não compareceram, de modo que a meia-noite não teve lá sua cara de sempre. Brindamos o nascimento do menino Jesus, e em pouco tempo, já que todos estavam devidamente alimentados, começaram a despedir-se.
Alguém tem de tomar a iniciativa, e a saída triunfal da Tia Dirce entrará para os anais de nossas festividades. Estávamos Tia Mirtes, meu pai e eu conversando na sala da frente, quando Tia Dirce surge se despedindo às pressas, dizendo-se vitimada por um repentino desarranjo intestinal e, argumentando só utilizar o banheiro da própria casa para estes fins, colocou definitivamente os banheiros da minha casa no mesmo patamar dos de rodoviária e postos de gasolina.

À parte o natal, no fundo não sobraria quase nada. Até porque na virada do ano muita gente viaja, e a reunião da família perde todo esse potencial de proporcionar situações diversas, por vezes cômicas, por vezes trágicas, ora desagradáveis, ora reconfortantes, e que nos dá uma sensação gostosa quando nela pensamos, não nos deixando faltar a nenhuma edição.

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.