Chovia muito. A menina estava indo tomar banho quando a campainha tocou. Não esperava visitas, o cachorro foi à janela e com latido característico informou que tratava-se de pessoa estranha. “Se for importante, vai voltar depois”, pensou a menina ao fechar a porta do banheiro. Mal tirava a camiseta quando a campainha disparou, o cão intensificou os latidos e, mesmo com a chuva torrencial que caia lá fora, pode ouvir o som do portão sendo arrombado.
A menina então se vestiu e foi esconder-se no quarto do irmão. “Vai, vai, vai”, diziam vozes perto da porta da sala. O cão agora se esgoelava, relâmpagos se encarregavam de dramatizar a situação. A menina então pega o telefone e disca o número da polícia. “Para realizar seu cadastro disque 1” responde a gravação do outro lado da linha, enquanto rosnados desesperados do cachorro anunciavam que ele e os assaltantes encontravam-se cara a cara.
Passos pelas salas, corredores, subindo as escadas, a menina que obviamente desistira de informar a polícia, tenta chamar atenção do vizinho do lado jogando canetas em sua janela. Lá se vai a coleção de canetas do irmão: a alemã e a espanhola que ganhara de amigos viajantes, a de fabricação limitada comemorativa do centenário de um banco, a americana cromada. Nenhuma delas foi capaz de chamar atenção do senhor aposentado que dormia as duas da tarde.
Os assaltantes entram no quarto da menina, se apossam de algo e rumam para o quarto do irmão. Uma tênue sombra se projeta pela porta do quarto e a menina corajosamente se impõe:
“Quem tá aí? Eu já chamei a polícia” - Não houve contato visual, e neste momento muitas coisas aconteceram simultaneamente. Objetos sendo derrubados, nem dava pra saber quantas pessoas tinham na casa, se duas, três ou quatro. Do cachorro não se sabia mais, podia ter infartado, sido assassinado, ou simplesmente desistido do combate, mas não emitia sons. Ouvindo os passos atrapalhados a menina então muda de tática e passa a gritar por socorro pela janela do quarto. Muito alto, chama atenção da vizinhança toda. Apesar da chuva batendo nas calhas, de trovões e das janelas fechadas, conseguiu ser ouvida. Dificil era entender o que se passava. Uma senhora na rua de baixo tentava convencer a mocinha que via pela janela: “não pula!”, enquanto agora, só agora, o vizinho do lado aparece: “Não saia daí”.
Os passos pela casa cessam, um carro parte, a campainha toca. A menina desce e recebe o vizinho de olhos arregalados, que educadamente preferiu esperar do lado de fora da casa para salvá-la. Ele pergunta-lhe pelo ocorrido enquanto rumam para a cozinha. Lá chegando apenas o que se vê é o chão inundado pela urina do cachorro, que não se encontrava em lugar nenhum. A menina cai em prantos, temendo pelo pior. Nisso percebe o cachorro tremendo feito vara verde debaixo da mesa. A menina chora ainda mais alto por saber que ele está salvo. O vizinho cumpre seu papel “vou preparar-lhe uma água com açúcar”. Outros vizinhos chegam.
O celular da menina toca “Porque você me deixou falando sozinho tanto tempo no MSN?” O cachorro agora quer morder os vizinhos e a menina ainda emocionada por vê-lo bem não consegue se justificar ao celular. Desliga e liga para o seu pai, que estava tratando de aguentar mais um dia o trabalho que detesta, para ter seus bens roubados e a vida de sua filha posta em risco.
Vizinhos curiosos estão muito preocupados em saber detalhes do corrido, alguns sobem as escadas para conhecer melhor o interior da casa. A menina toma o restinho da água com açúcar que o vizinho do lado acabou bebendo sem querer. O pai e uma viatura da policia chegam sincronicamente. De noite chega a mãe, medrosa como é, terá anos de perturbação e insônia por causa do episódio. O cachorro deve ter envelhecido uns cinco anos por conta da coisa toda.
Horas depois, sentados em silêncio, esperando a perícia, a família se assusta com o telefone que toca. “Chamada a cobrar, para aceitá-la, continue na linha após a identificação”. É o filho que mora longe, que mais um vez será poupado das tristezas e preocupações da família, como na vez que chegou de viagem e seu pai mostrou um cálculo retirado numa colecistectomia por videolaparoscopia realizada um mês antes, e que guardava no armarinho do banheiro.
Fala com toda a família, todos estão bem, a mãe colocou aparelho nos dentes, o pai tá de carro novo, a menina vai viajar. Não querem preocupá-lo, ele está muito longe e nada pode fazer, pensam que não há necessidade de compartilhar o legitimo sentimento da família. Descobrirá o que aconteceu somente quando vir o cadeado novo no portão. Resignado, pensará que precisa aproveitar bem a companhia daquelas pessoas queridas, pois poderia ter sido diferente.
O último a falar desliga o telefone, logo a perícia chega, faz o que deve ser feito e vai embora. Então, todos sobem para seus quartos, apagam as luzes para uma noite em claro. Ainda chovia muito.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
sábado, 10 de julho de 2010
Na contagem regressiva
E se você ligasse a televisão no noticiário, fosse ler seu e-mail, ou estivesse dirigindo do trabalho para casa e ficasse sabendo pelo rádio que descobriu-se que o mundo acabará em 24h. E que não se trata de nenhuma previsão de Nostradamus ou Walter Mercado, mas sim de alguma coisa perfeitamente crível. O que você faria?
Isso já deve ter passado pela cabeça de quase todo mundo. A ideia já foi explorada em outras crônicas, novelas, canções, e naturalmente, também tenho minha teoria: Acho que se o Armargeddon fosse confirmado, seja lá qual fosse o desfecho, as pessoas iriam reagir basicamente de duas formas e o mundo se bipolarizaria. De um lado haveria a maior orgia já vista no planeta (juntamente também, devido ao nervosismo e falta de concentração inerentes a ocasião, o maior índice de broxamentos já registrado) e do outro, razoavelmente menor, haveria gente orando, pedindo um final misericordioso, se arrependendo e tentando garantir absolvição pelos pecados terrenos, ou algo que o valha. Eu tentaria juntar a galera e organizar a “festa do apocalipse”. Haveria também aqueles se excederiam no “esquenta” para o fim dos tempos e “queimaria a largada”, acabando-se antes do resto da turma.
Seria possível também que por um acesso de ansiedade, além de serem pegas totalmente desprevenidas, as pessoas não soubessem muito bem como lidar com a situação e não fizessem nada de especial. Outros, por preguiça, se convenceriam de que aproveitaram bem tudo o que tinha para ser vivido, e se contentariam em tomar sua última cervejinha assistindo da varanda a indiferença dos cachorros e passarinhos, que teriam o privilégio de não entenderem nada do que estaria se passando.
Enfim, o mundo um dia acaba, seja para todo mundo de uma vez, ou para uma pessoa só, e a isso chamamos de morte. Mas saber com exatidão quando vai acontecer deve ser algo muito tenso.
Assisti dias atrás a um filme que retratava os últimos dias de um sujeito no corredor da morte. Quando isso acontece, eles tem direito a algumas “regalias”, entre elas pedir qualquer coisa para sua última refeição. Refleti bastante a respeito, caso estivesse nesta situação. Fiquei em dúvida se pediria arroz, feijão e carne moída, com bacon e azeitonas (sem caroço), feitas pelo meu pai, ou um pastel de feira, de carne com queijo, acompanhados de um grande copo de caldo de cana com limão. Parece uma reflexão besta, e realmente deve ser, mas me fez pensar sobre os pequenos prazeres do dia-a-dia, e a importância que ganham imaginando-se situações-limite, como esta. É um exercício mental bacana de se fazer, de fato chega-se a algumas conclusões.
Ainda pensei que se a escolha fosse a carne moída, ainda pediria uma cervejinha, de preferência uma Original ou Serramalte, só que nesta ocasião eu teria de escolher alguém para dividir o momento, pois assim como parte do prazer de fumar está em manusear o cigarro (que fique claro que eu não fumo, mas já estudei bastante sobre o assunto), acender o isqueiro, e ver-se baforando a fumaça, parte do prazer de tomar uma gelada (sim, eu bebo; sem mais detalhes) está nela ser de garrafa, de deitar o copo para que não faça espuma enquanto a despeja (caso não seja uma longneck e você beba no bico) fazer um brinde a uma coisa qualquer (e aí que entra a companhia), e sentir a sensação única dela descendo pela garganta no(s) primeiro(s) gole(s).
Agora imagine-se tomando sua última cerveja.
Entretanto, há uma situação oposta a essas sobre as quais conversamos até agora. A de você saber que alguém vai passar dessa pra melhor. É “muito mais fácil” (e aqui essas aspas vão muito bem), saber que alguém de quem você gosta vai morrer, nem que seja daqui a pouco, do que se isso acontecer de supetão. Pois assim você terá o direito de se redimir, de quitar as diferenças, de dizer o quanto gosta da pessoa, entre todas as outras coisas que te deixará com a consciência em paz quando ela se for. Diferente dessas tragédias que acontecem por aí. Um bêbado atravessa a estrada, pega a contra-mão e mata alguém que você conhece, e que você por algum motivo tolo brigou da última vez que viu, e por isso vai ficar um bom tempo com dor na consciência, se perguntando porque ligava para coisas tão pequenas, e não aproveitava melhor o tempo que tinham juntos.
Não digo que devemos fazer provas de amor toda vez que as pessoas que amamos saem pela porta de casa, imaginando que podem ser atropeladas na próxima esquina. Digo apenas que se nos importássemos menos com detalhes e mesquinharias, fossemos um pouco mais capazes de dizer coisas agradáveis e sermos gentis, estaríamos melhor prevenidos nesses casos de desastre. Utilizando-se desses artifícios, e acrescentando um pouco mais de coragem e ousadia, mesmo quando a situação não for tão favorável, ter sonhos maiores e se permitir tentar alcançá-los, quem sabe se um dia a coisa toda for mesmo acabar assim de repente, não poderemos nos dar o luxo de simplesmente sentar e olhar os cachorros e passarinhos.
Isso já deve ter passado pela cabeça de quase todo mundo. A ideia já foi explorada em outras crônicas, novelas, canções, e naturalmente, também tenho minha teoria: Acho que se o Armargeddon fosse confirmado, seja lá qual fosse o desfecho, as pessoas iriam reagir basicamente de duas formas e o mundo se bipolarizaria. De um lado haveria a maior orgia já vista no planeta (juntamente também, devido ao nervosismo e falta de concentração inerentes a ocasião, o maior índice de broxamentos já registrado) e do outro, razoavelmente menor, haveria gente orando, pedindo um final misericordioso, se arrependendo e tentando garantir absolvição pelos pecados terrenos, ou algo que o valha. Eu tentaria juntar a galera e organizar a “festa do apocalipse”. Haveria também aqueles se excederiam no “esquenta” para o fim dos tempos e “queimaria a largada”, acabando-se antes do resto da turma.
Seria possível também que por um acesso de ansiedade, além de serem pegas totalmente desprevenidas, as pessoas não soubessem muito bem como lidar com a situação e não fizessem nada de especial. Outros, por preguiça, se convenceriam de que aproveitaram bem tudo o que tinha para ser vivido, e se contentariam em tomar sua última cervejinha assistindo da varanda a indiferença dos cachorros e passarinhos, que teriam o privilégio de não entenderem nada do que estaria se passando.
Enfim, o mundo um dia acaba, seja para todo mundo de uma vez, ou para uma pessoa só, e a isso chamamos de morte. Mas saber com exatidão quando vai acontecer deve ser algo muito tenso.
Assisti dias atrás a um filme que retratava os últimos dias de um sujeito no corredor da morte. Quando isso acontece, eles tem direito a algumas “regalias”, entre elas pedir qualquer coisa para sua última refeição. Refleti bastante a respeito, caso estivesse nesta situação. Fiquei em dúvida se pediria arroz, feijão e carne moída, com bacon e azeitonas (sem caroço), feitas pelo meu pai, ou um pastel de feira, de carne com queijo, acompanhados de um grande copo de caldo de cana com limão. Parece uma reflexão besta, e realmente deve ser, mas me fez pensar sobre os pequenos prazeres do dia-a-dia, e a importância que ganham imaginando-se situações-limite, como esta. É um exercício mental bacana de se fazer, de fato chega-se a algumas conclusões.
Ainda pensei que se a escolha fosse a carne moída, ainda pediria uma cervejinha, de preferência uma Original ou Serramalte, só que nesta ocasião eu teria de escolher alguém para dividir o momento, pois assim como parte do prazer de fumar está em manusear o cigarro (que fique claro que eu não fumo, mas já estudei bastante sobre o assunto), acender o isqueiro, e ver-se baforando a fumaça, parte do prazer de tomar uma gelada (sim, eu bebo; sem mais detalhes) está nela ser de garrafa, de deitar o copo para que não faça espuma enquanto a despeja (caso não seja uma longneck e você beba no bico) fazer um brinde a uma coisa qualquer (e aí que entra a companhia), e sentir a sensação única dela descendo pela garganta no(s) primeiro(s) gole(s).
Agora imagine-se tomando sua última cerveja.
Entretanto, há uma situação oposta a essas sobre as quais conversamos até agora. A de você saber que alguém vai passar dessa pra melhor. É “muito mais fácil” (e aqui essas aspas vão muito bem), saber que alguém de quem você gosta vai morrer, nem que seja daqui a pouco, do que se isso acontecer de supetão. Pois assim você terá o direito de se redimir, de quitar as diferenças, de dizer o quanto gosta da pessoa, entre todas as outras coisas que te deixará com a consciência em paz quando ela se for. Diferente dessas tragédias que acontecem por aí. Um bêbado atravessa a estrada, pega a contra-mão e mata alguém que você conhece, e que você por algum motivo tolo brigou da última vez que viu, e por isso vai ficar um bom tempo com dor na consciência, se perguntando porque ligava para coisas tão pequenas, e não aproveitava melhor o tempo que tinham juntos.
Não digo que devemos fazer provas de amor toda vez que as pessoas que amamos saem pela porta de casa, imaginando que podem ser atropeladas na próxima esquina. Digo apenas que se nos importássemos menos com detalhes e mesquinharias, fossemos um pouco mais capazes de dizer coisas agradáveis e sermos gentis, estaríamos melhor prevenidos nesses casos de desastre. Utilizando-se desses artifícios, e acrescentando um pouco mais de coragem e ousadia, mesmo quando a situação não for tão favorável, ter sonhos maiores e se permitir tentar alcançá-los, quem sabe se um dia a coisa toda for mesmo acabar assim de repente, não poderemos nos dar o luxo de simplesmente sentar e olhar os cachorros e passarinhos.
sábado, 3 de julho de 2010
Novos Horizontes
Engraçado a quantidade de pessoas naturais de diferentes estados brasileiros que reclama para si a característica de não ter sotaque. Claro que isso não vale para cariocas, gaúchos ou a turma do nordeste em geral, mas bastante gente realmente acha que o povo ao qual pertence possui uma cadência “neutra” quando fala.
Semana passada conversei sobre isso em duas situações diferentes: a primeira, tomando chop de vinho junto a um casal de amigos brasilienses e a segunda almoçando no restaurante universitário, num domingo após a missa, com um colega capixaba, e nas duas oportunidades, as pessoas não tinham a mínima dúvida de que não possuíam sotaque algum e usaram a mesma comparação: “Sabe o William Bonner apresentando o Jornal Nacional? É assim que a gente fala”.
“Claro, claro” foi minha resposta, pensando intimamente, como bom paulistano que sou, que definitivamente quem não tem sotaque somos nós. E convicto de que, se bobeasse, o William Bonner tivesse sido criado aqui pela vizinhança.
À parte o sotaque, é interessante também como carregamos pré-conceitos sobre o povo de determinada região, que muitas vezes não confere com a realidade quando de fato conhecemos as pessoas daquela localidade. Nem todo carioca é malandro ou todo baiano é preguiçoso. Nem todo gaúcho tem tendências homossexuais assim como nem todo mineiro só vive de pão de queijo. Isso parece óbvio, mas é inegável que se somos apresentados a um novo colega de trabalho carioca, antes de conhece-lo bem, achamos que ele vai nos passar a perna, se ele for baiano, melhor não pedir favores senão vai demorar uma eternidade para serem feitos; quando você voltar do almoço vai ter uma rede estendida no meio do escritório e, se for gaúcho, ficará com um pé atrás se ele te convidar para tomar uma cervejinha depois do expediente.
Há menos de uma semana fui com alguns amigos num barzinho lá em Floripa e acabamos conhecendo umas moças que estavam na mesa ao lado. Comecei conversando com uma carioca, que afirmava que os paulistas são convencidos e superficiais. “Só olham a casca (“caixxxca”)”, dizia ela. Passamos uns bons minutos conversando, perguntei o que fazia da vida (resposta: “sucesso”), o que estava fazendo em Floripa e sobre o vida cultural do Rio. Perguntei sobre a boemia da Lapa, shows no Circo Voador, Fundição Progresso, sobre a Vila Isabel (gosto muito de Noel Rosa), entre outros. O papo fluía bem, até quando apresentei um amigo goiano, o que causou um grande abalo nos rumos da noite.
“Goiânia? Sério? Olha amigas, ele é de goiânia! Adoro sua terra, o povo de lá, só tem gente boa, mulher bonita...”. Meia duzia de palavras, uma música sertaneja bem dançada e a fatura já havia sido feita. Fiquei refletindo sobre aquele papinho todo de “olhar somente a casca”, resolvi pedir mais um chopinho e me prometi que da próxima vez jurarei que sou de Goiás.
Acho bonito o sentimento que cada um tem por sua terra. Alguns se excedem e acham que só o lugar onde nasceu é que presta. Isso por vezes gera grandes discussões. Todo radicalismo tende a ser um pé no saco, e como disse um conhecido meu certa vez, nunca vale a pena discutir com um chato radicalista: você acaba caindo no mesmo nível mas ele sempre ganha a discussão porque tem experiência.
Mas no geral, as pessoas falam com um orgulho ingênuo sobre suas raízes. Estudando com uma turma na qual há pessoas de vários cantos do país, estou ciente de que tenho muito a conhecer. Alguns lugares nem é preciso conviver com alguém que lhe diga que lá é bacana de se visitar. Costumo dizer que depois de ler Jorge Amado e escutar Dorival Caymmi tenho receio de ir a Bahia e não querer voltar nunca mais. Fernando de Noronha é Hors Concours e Bonito todo mundo que foi também sempre coloca no top 3.
Até hoje não conheci muitos dos clássicos pontos turísticos do país, mas tenho a sorte de ter bons amigos, que me fizeram conhecer lugares talvez tão legais quantos estes clássicos, tanto que estou idealizando uma futura empreitada literária, que será batizada de: “Rumos do Fumaça: Um guia turístico para quem gosta de vassourar”, (aos desavisados, Fumaça é meu apelido na faculdade, e traduzindo: “vassourar” = aproveitar a vida de forma louca e inconsequente), onde serão dadas dicas de como aproveitar bem sua visita à Festa do Pinhão em Lages, Balneário Gaivota no sul catarinense, micro-cidades do noroeste paranaense, a rota do xadrez mineiro, entre outros.
Enquanto isso não acontece, me permito emprestar uma frase de um grande viajante que, por ora, possui coisas mais interessantes a dizer a respeito de alguns assuntos sobre os quais resolvi discorrer por aqui.
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”(Amyr Klink)
Semana passada conversei sobre isso em duas situações diferentes: a primeira, tomando chop de vinho junto a um casal de amigos brasilienses e a segunda almoçando no restaurante universitário, num domingo após a missa, com um colega capixaba, e nas duas oportunidades, as pessoas não tinham a mínima dúvida de que não possuíam sotaque algum e usaram a mesma comparação: “Sabe o William Bonner apresentando o Jornal Nacional? É assim que a gente fala”.
“Claro, claro” foi minha resposta, pensando intimamente, como bom paulistano que sou, que definitivamente quem não tem sotaque somos nós. E convicto de que, se bobeasse, o William Bonner tivesse sido criado aqui pela vizinhança.
À parte o sotaque, é interessante também como carregamos pré-conceitos sobre o povo de determinada região, que muitas vezes não confere com a realidade quando de fato conhecemos as pessoas daquela localidade. Nem todo carioca é malandro ou todo baiano é preguiçoso. Nem todo gaúcho tem tendências homossexuais assim como nem todo mineiro só vive de pão de queijo. Isso parece óbvio, mas é inegável que se somos apresentados a um novo colega de trabalho carioca, antes de conhece-lo bem, achamos que ele vai nos passar a perna, se ele for baiano, melhor não pedir favores senão vai demorar uma eternidade para serem feitos; quando você voltar do almoço vai ter uma rede estendida no meio do escritório e, se for gaúcho, ficará com um pé atrás se ele te convidar para tomar uma cervejinha depois do expediente.
Há menos de uma semana fui com alguns amigos num barzinho lá em Floripa e acabamos conhecendo umas moças que estavam na mesa ao lado. Comecei conversando com uma carioca, que afirmava que os paulistas são convencidos e superficiais. “Só olham a casca (“caixxxca”)”, dizia ela. Passamos uns bons minutos conversando, perguntei o que fazia da vida (resposta: “sucesso”), o que estava fazendo em Floripa e sobre o vida cultural do Rio. Perguntei sobre a boemia da Lapa, shows no Circo Voador, Fundição Progresso, sobre a Vila Isabel (gosto muito de Noel Rosa), entre outros. O papo fluía bem, até quando apresentei um amigo goiano, o que causou um grande abalo nos rumos da noite.
“Goiânia? Sério? Olha amigas, ele é de goiânia! Adoro sua terra, o povo de lá, só tem gente boa, mulher bonita...”. Meia duzia de palavras, uma música sertaneja bem dançada e a fatura já havia sido feita. Fiquei refletindo sobre aquele papinho todo de “olhar somente a casca”, resolvi pedir mais um chopinho e me prometi que da próxima vez jurarei que sou de Goiás.
Acho bonito o sentimento que cada um tem por sua terra. Alguns se excedem e acham que só o lugar onde nasceu é que presta. Isso por vezes gera grandes discussões. Todo radicalismo tende a ser um pé no saco, e como disse um conhecido meu certa vez, nunca vale a pena discutir com um chato radicalista: você acaba caindo no mesmo nível mas ele sempre ganha a discussão porque tem experiência.
Mas no geral, as pessoas falam com um orgulho ingênuo sobre suas raízes. Estudando com uma turma na qual há pessoas de vários cantos do país, estou ciente de que tenho muito a conhecer. Alguns lugares nem é preciso conviver com alguém que lhe diga que lá é bacana de se visitar. Costumo dizer que depois de ler Jorge Amado e escutar Dorival Caymmi tenho receio de ir a Bahia e não querer voltar nunca mais. Fernando de Noronha é Hors Concours e Bonito todo mundo que foi também sempre coloca no top 3.
Até hoje não conheci muitos dos clássicos pontos turísticos do país, mas tenho a sorte de ter bons amigos, que me fizeram conhecer lugares talvez tão legais quantos estes clássicos, tanto que estou idealizando uma futura empreitada literária, que será batizada de: “Rumos do Fumaça: Um guia turístico para quem gosta de vassourar”, (aos desavisados, Fumaça é meu apelido na faculdade, e traduzindo: “vassourar” = aproveitar a vida de forma louca e inconsequente), onde serão dadas dicas de como aproveitar bem sua visita à Festa do Pinhão em Lages, Balneário Gaivota no sul catarinense, micro-cidades do noroeste paranaense, a rota do xadrez mineiro, entre outros.
Enquanto isso não acontece, me permito emprestar uma frase de um grande viajante que, por ora, possui coisas mais interessantes a dizer a respeito de alguns assuntos sobre os quais resolvi discorrer por aqui.
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”(Amyr Klink)
domingo, 6 de junho de 2010
Pré-jogo (Copa 2010)
Falta uma semana para o início da Copa do Mundo. O motivo de maior comoção nacional e demonstrações de patriotismo. Nada contra. Há quem fique criticando o fato de que só nos orgulhamos de ser brasileiros nesta hora, que deveríamos seguir o exemplo dos americanos, que sustentam 365 dias do ano a bandeira hasteada no jardim de casa. Que se realmente amássemos a pátria, não haveria tanta corrupção, desmatamento etc. Passo longe dessa trupe que gosta de cornetear o espírito da nação, o negócio agora é futebol.
Hora de pintar o meio-fio de verde e amarelo, de pendurar bandeirinhas entre os postes de iluminação das ruas, tempo de colecionar figurinhas e nunca completar o álbum, mesmo roubando dezenas do bolo de repetidas dos amigos distraídos (esse é o meu caso; naturalmente, não nos dias atuais). Época dos memoráveis bolões, nos quais na maioria das vezes aquele cara sem noção alguma, que se você perguntar pra que time o cara torce, ele responde “Brasil”, costuma ganhar e deixar a turma que vive acompanhando campeonatos regionais, Champions League e até mesmo o Showbol, que simula centenas de vezes os resultados da Copa desde que sai o sorteio das chaves, extremamente putos da vida.
Passeando pela cidade, vi menos ruas e casas pintadas, menos alegorias e penduricalhos por aí. Acredito que isso seja diretamente proporcional à empolgação do povo com a seleção convocada pelo técnico. Desta vez, não há quem ache que o Dunga acertou em cheio nos selecionados. Pior, nem perto disso chegou. Como muito bem observou o Xico Sá na sua coluna semanal, se o futebol fosse comparado à literatura, até meados de 70, o futebol arte da seleção conferia um “quê” de poesia, ao passo que nosso estilo atual não passa de uma sofrível auto-ajuda. “Futebol moderno”, dizem alguns.
A seleção brasileira hoje não possui nenhum Romário de 1994 ou Rivaldo e Ronaldo de 2002. Definitivamente o time não empolga. Como vibraremos quando estivermos perdendo, ou o Kaká se machucar e do banco surgir Júlio Batista? Ou Josué?! Ademais, se a nação do futebol, detentora de maior número de títulos mundiais, e que é a maior exportadora de talentos para o mundo, tem entre seus titulares o Elano, devo rever de forma urgente meus conceitos futebolísticos.
Criticas à parte, inevitáveis nessa altura do campeonato, sabemos que quando chegar a hora, independente de quem estiver lá com a bola nos pés, nos reuniremos na casa de quem tiver a maior televisão da turma, com a picanha no fogo, cervejinha no freezer e o coração na mão, torceremos apaixonadamente pela seleção, ouvindo o Galvão e seu “aguenta coração”, (porque a gente critica o sujeito a vida toda, mas é incapaz de assistir jogos do Brasil em outro canal) e no íntimo ainda pedindo para que o time adversário faça um golzinho, pois assim acertaremos o resultado do bolão.
Em uma semana entraremos num estado hipnótico que durará quase um mês, mas que vale a pena, é só de quatro em quatro anos. Não é a toa que, quando vemos alguma comemoração exagerada, logo associamos “parecia até a copa!”. A Espanha é a favorita, a Holanda e a Argentina estão muito bem. Será que vai dar? O coração começa a acelerar, falta pouco, já sou capaz de ouvir: “Bem amigos da Rede Globo, voltamos em definitivo...”
Hora de pintar o meio-fio de verde e amarelo, de pendurar bandeirinhas entre os postes de iluminação das ruas, tempo de colecionar figurinhas e nunca completar o álbum, mesmo roubando dezenas do bolo de repetidas dos amigos distraídos (esse é o meu caso; naturalmente, não nos dias atuais). Época dos memoráveis bolões, nos quais na maioria das vezes aquele cara sem noção alguma, que se você perguntar pra que time o cara torce, ele responde “Brasil”, costuma ganhar e deixar a turma que vive acompanhando campeonatos regionais, Champions League e até mesmo o Showbol, que simula centenas de vezes os resultados da Copa desde que sai o sorteio das chaves, extremamente putos da vida.
Passeando pela cidade, vi menos ruas e casas pintadas, menos alegorias e penduricalhos por aí. Acredito que isso seja diretamente proporcional à empolgação do povo com a seleção convocada pelo técnico. Desta vez, não há quem ache que o Dunga acertou em cheio nos selecionados. Pior, nem perto disso chegou. Como muito bem observou o Xico Sá na sua coluna semanal, se o futebol fosse comparado à literatura, até meados de 70, o futebol arte da seleção conferia um “quê” de poesia, ao passo que nosso estilo atual não passa de uma sofrível auto-ajuda. “Futebol moderno”, dizem alguns.
A seleção brasileira hoje não possui nenhum Romário de 1994 ou Rivaldo e Ronaldo de 2002. Definitivamente o time não empolga. Como vibraremos quando estivermos perdendo, ou o Kaká se machucar e do banco surgir Júlio Batista? Ou Josué?! Ademais, se a nação do futebol, detentora de maior número de títulos mundiais, e que é a maior exportadora de talentos para o mundo, tem entre seus titulares o Elano, devo rever de forma urgente meus conceitos futebolísticos.
Criticas à parte, inevitáveis nessa altura do campeonato, sabemos que quando chegar a hora, independente de quem estiver lá com a bola nos pés, nos reuniremos na casa de quem tiver a maior televisão da turma, com a picanha no fogo, cervejinha no freezer e o coração na mão, torceremos apaixonadamente pela seleção, ouvindo o Galvão e seu “aguenta coração”, (porque a gente critica o sujeito a vida toda, mas é incapaz de assistir jogos do Brasil em outro canal) e no íntimo ainda pedindo para que o time adversário faça um golzinho, pois assim acertaremos o resultado do bolão.
Em uma semana entraremos num estado hipnótico que durará quase um mês, mas que vale a pena, é só de quatro em quatro anos. Não é a toa que, quando vemos alguma comemoração exagerada, logo associamos “parecia até a copa!”. A Espanha é a favorita, a Holanda e a Argentina estão muito bem. Será que vai dar? O coração começa a acelerar, falta pouco, já sou capaz de ouvir: “Bem amigos da Rede Globo, voltamos em definitivo...”
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Preguicite aguda
Tenho alguns amigos que me julgam ser a pessoa mais preguiçosa que eles conhecem. Discordo totalmente. Ou quase. É que depende muito da coisa. Devo confessar que talvez a preguiça seja a coisa que mais atrapalha a minha vida, mas tenho sorte de morar com pessoas um pouco menos preguiçosas, senão eu estaria perdido.
Não sei cozinhar, óbvio. Preguiçoso que é preguiçoso, nunca vai se dispor a aprender essa arte, nem em casos de extrema necessidade. Para isso existem os miojos e os congelados, além das padarias de esquina. Mas como sempre há dias atípicos, quando retornei de São Paulo para Florianópolis da última vez, os caras aqui de casa estavam num período do internato médico em que mal tinham tempo para almoçar, que dirá cozinhá-lo. Como eu ainda estava de férias, achei que não custava tentar fazer alguma coisa para eles comerem; eu sabia que o que sempre me impediu de cozinhar foi a preguiça, e não podia ser nada muito complexo. E assim, aprendi a fazer arroz, ovo frito e ferver salsicha (além de lavar e temperar uma boa salada de alface com tomate).
E ficou nisso mesmo. De lá pra cá, preparei mais duas refeições (e lá se foram mais de dois meses), sendo a última, ontem. Juro que até pensei em preparar algo diferente, procurei no Google por “receitas fáceis”, que não me pareceram tão fáceis assim, depois por “receitas rápidas e muito fáceis”, cuja complexidade em muito me surpreendeu, e acabei desistindo quando me passou pela cabeça procurar por “receitas ridiculamente fáceis” ou “receitas culinárias para deficientes físicos”. Resultado: Arroz, ovo, salsicha e salada de alface com tomate (e cebola, desta vez!)
No fundo minha preguiça não foge do trivial, tenho preguiças como as de todo mundo. Como preguiça de arrumar as roupas no armário depois de chegar de viagem, de lavar a louça, preguiça de trocar o canal da televisão se o controle não está por perto, de cortar as unhas do pé (mas eu corto, e regularmente; bom mesmo era o tempo em que minha mãe cortava), entre outras preguiças comuns.
Duas coisas que estão intimamente atreladas são a preguiça e o sono. Claro, quando a pessoa está com sono, tem preguiça de realizar qualquer que seja a atividade. Acontece que ando desenvolvendo uma mania peculiar. Assim como muitas pessoas, durmo assistindo a nove entre dez filmes que alugo. Sempre fico naquela briga para manter os olhos abertos, e quando percebo, já estou abrindo-os novamente. Entretanto de uns tempos pra cá a coisa chegou a tal ponto, que certa vez, quando o sono começou a se avizinhar, consegui me convencer de que o filme ao qual eu estava assistindo não era lá daqueles em que as imagens importavam tanto, eu deveria me ater mesmo aos diálogos, e para isso, os olhos fechados até ajudariam.
Agora, nada ganha de uma prova na segunda-feira. Se existisse alguma espécie de preguiçômetro, eu seria capaz de apostar altas quantias que os maiores graus seriam detectados nas pessoas que têm de estudar no domingo.
Você acorda cedo, bota o despertador para tocar as oito horas, e até levanta disposto, mas ao passar pela sala rumo à cozinha, seduzido pelo cheiro de café e do pão fresquinho que a mãe acabou de trazer da padaria, vê a televisão e se lembra que vai passar a Fórmula 1. Pronto. Pode o Rubinho estar largando dos boxes que você se convence que não pode deixar de assistir a corrida. Antes da metade o carro do Rubinho quebra, mas a luta pelas primeiras posições é tão boa que você fica até ver o pódio. Acabada a corrida, dá uma espiada na cozinha, vê a mãe preparando aquela tradicional macarronada e reflete que não compensa começar a estudar agora, se daqui a pouco o almoço será servido.
Findada a refeição, que você comeu feito um boi, se convence facilmente de que não faz o menor sentido estudar de barriga cheia, não vai dar pra se concentrar, e aproveita para tirar aquela soneca pós-prandial sem remorso algum, no sofá mesmo. E quando percebe, está sendo acordado pelo pai, que liga a tevê para assistir o campeonato de futebol. Assistir futebol nas tardes de domingo pode ser considerado pelo brasileiro algo quase religioso, portanto aquele Ferroviária x XV de Jaú se torna questão de honra, vão te olhar feio se sair da sala com um livro na mão.
O Sol começa a se pôr e agora (só agora) você começa a sentir um leve desespero. Deixou para estudar no último dia e a preguiça o levou ao extremo de começar só de noite. Você então vai para o quarto, se concentra, começa a ler o livro, a coisa flui bem nas dez primeiras páginas. Mas aí você inevitavelmente terá sede ou vontade de ir ao banheiro e, com o livro na mão, passa novamente pela sala, vê que no Fantástico está passando uma reportagem interessantíssima e não resiste. Quando menos espera, está segurando de um lado o livro e do outro o controle remoto, zapeando os canais, até a hora em que começa aqueles filmes de fim de noite dominical, geralmente com o Steven Seagal ou o Charles Bronson, que conseguem fazer com que a matéria que você deixou de estudar o dia todo pareça legal.
Mesmo assim você não consegue, e agora é tarde demais. Chega a conclusão de que é melhor, mesmo não tendo estudado nada, dormir de uma vez e chegar inteiro amanhã para a prova, pois com a mente descansada você conseguirá lembrar melhor do conteúdo das aulas, que você, com alguma sorte, não matou. Por preguiça, claro.
Não sei cozinhar, óbvio. Preguiçoso que é preguiçoso, nunca vai se dispor a aprender essa arte, nem em casos de extrema necessidade. Para isso existem os miojos e os congelados, além das padarias de esquina. Mas como sempre há dias atípicos, quando retornei de São Paulo para Florianópolis da última vez, os caras aqui de casa estavam num período do internato médico em que mal tinham tempo para almoçar, que dirá cozinhá-lo. Como eu ainda estava de férias, achei que não custava tentar fazer alguma coisa para eles comerem; eu sabia que o que sempre me impediu de cozinhar foi a preguiça, e não podia ser nada muito complexo. E assim, aprendi a fazer arroz, ovo frito e ferver salsicha (além de lavar e temperar uma boa salada de alface com tomate).
E ficou nisso mesmo. De lá pra cá, preparei mais duas refeições (e lá se foram mais de dois meses), sendo a última, ontem. Juro que até pensei em preparar algo diferente, procurei no Google por “receitas fáceis”, que não me pareceram tão fáceis assim, depois por “receitas rápidas e muito fáceis”, cuja complexidade em muito me surpreendeu, e acabei desistindo quando me passou pela cabeça procurar por “receitas ridiculamente fáceis” ou “receitas culinárias para deficientes físicos”. Resultado: Arroz, ovo, salsicha e salada de alface com tomate (e cebola, desta vez!)
No fundo minha preguiça não foge do trivial, tenho preguiças como as de todo mundo. Como preguiça de arrumar as roupas no armário depois de chegar de viagem, de lavar a louça, preguiça de trocar o canal da televisão se o controle não está por perto, de cortar as unhas do pé (mas eu corto, e regularmente; bom mesmo era o tempo em que minha mãe cortava), entre outras preguiças comuns.
Duas coisas que estão intimamente atreladas são a preguiça e o sono. Claro, quando a pessoa está com sono, tem preguiça de realizar qualquer que seja a atividade. Acontece que ando desenvolvendo uma mania peculiar. Assim como muitas pessoas, durmo assistindo a nove entre dez filmes que alugo. Sempre fico naquela briga para manter os olhos abertos, e quando percebo, já estou abrindo-os novamente. Entretanto de uns tempos pra cá a coisa chegou a tal ponto, que certa vez, quando o sono começou a se avizinhar, consegui me convencer de que o filme ao qual eu estava assistindo não era lá daqueles em que as imagens importavam tanto, eu deveria me ater mesmo aos diálogos, e para isso, os olhos fechados até ajudariam.
Agora, nada ganha de uma prova na segunda-feira. Se existisse alguma espécie de preguiçômetro, eu seria capaz de apostar altas quantias que os maiores graus seriam detectados nas pessoas que têm de estudar no domingo.
Você acorda cedo, bota o despertador para tocar as oito horas, e até levanta disposto, mas ao passar pela sala rumo à cozinha, seduzido pelo cheiro de café e do pão fresquinho que a mãe acabou de trazer da padaria, vê a televisão e se lembra que vai passar a Fórmula 1. Pronto. Pode o Rubinho estar largando dos boxes que você se convence que não pode deixar de assistir a corrida. Antes da metade o carro do Rubinho quebra, mas a luta pelas primeiras posições é tão boa que você fica até ver o pódio. Acabada a corrida, dá uma espiada na cozinha, vê a mãe preparando aquela tradicional macarronada e reflete que não compensa começar a estudar agora, se daqui a pouco o almoço será servido.
Findada a refeição, que você comeu feito um boi, se convence facilmente de que não faz o menor sentido estudar de barriga cheia, não vai dar pra se concentrar, e aproveita para tirar aquela soneca pós-prandial sem remorso algum, no sofá mesmo. E quando percebe, está sendo acordado pelo pai, que liga a tevê para assistir o campeonato de futebol. Assistir futebol nas tardes de domingo pode ser considerado pelo brasileiro algo quase religioso, portanto aquele Ferroviária x XV de Jaú se torna questão de honra, vão te olhar feio se sair da sala com um livro na mão.
O Sol começa a se pôr e agora (só agora) você começa a sentir um leve desespero. Deixou para estudar no último dia e a preguiça o levou ao extremo de começar só de noite. Você então vai para o quarto, se concentra, começa a ler o livro, a coisa flui bem nas dez primeiras páginas. Mas aí você inevitavelmente terá sede ou vontade de ir ao banheiro e, com o livro na mão, passa novamente pela sala, vê que no Fantástico está passando uma reportagem interessantíssima e não resiste. Quando menos espera, está segurando de um lado o livro e do outro o controle remoto, zapeando os canais, até a hora em que começa aqueles filmes de fim de noite dominical, geralmente com o Steven Seagal ou o Charles Bronson, que conseguem fazer com que a matéria que você deixou de estudar o dia todo pareça legal.
Mesmo assim você não consegue, e agora é tarde demais. Chega a conclusão de que é melhor, mesmo não tendo estudado nada, dormir de uma vez e chegar inteiro amanhã para a prova, pois com a mente descansada você conseguirá lembrar melhor do conteúdo das aulas, que você, com alguma sorte, não matou. Por preguiça, claro.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Quando ninguém ri da piada
Há poucos dias estava na fila do restaurante universitário (o RU) com alguns amigos, quando resolvi contar uma história.
Quem me conhece sabe que sou dado a contar histórias, em sua maioria, grandes abobrinhas, vivenciadas ou não por mim, mas que na maior parte da vezes rendem algumas risadas. Desta vez, em particular, não, muito pelo contrário. Foi ridículo, totalmente constrangedor.
Acontece que ando lendo um livro de crônicas do Mario Prata, consequentemente, quando gosto dos textos, acabo repassando as narrativas para o pessoal. E era isso que eu ia fazer.
Estávamos lá, esperando o RU abrir, o Marcão, o Ronaldo, o Japa, o March, o Paraguaio, a Vanessa e eu, quando solto: “Nossa, li uma crônica ontem muito boa, deixa eu contar”. Nisso o March perguntou: “Não é a do Tumitinha de novo, né Pedrão?”, não, não era.
Não me lembro muito bem porquê, mas demorei uns cinco minutos para iniciar o relato, dizendo que a Vanessa não podia ouvir, e depois fazendo alguns outros comentários sobre o povo que passava na fila, o que aumentou consideravelmente a expectativa em cima da coisa.
A história, que eu definitivamente não me atrevo a contar novamente, envolvia o Mario Prata e um primo dele, que hoje é reitor da universidade onde estudo. Eu, sinceramente, tinha achado a situação cômica, tanto que decidi contar, mas a repercussão não foi bem a que eu esperava.
Todos atentos olhando para mim, começo a narração. A gente sempre imagina os momentos em que as pessoas começarão a rir; eu, por acaso, calculei mal. No primeiro momento supostamente engraçadíssimo, ninguém abriu sequer um sorriso, mas não me deixei abalar. Prossegui, e no segundo momento totalmente hilário (julgava eu), os rostos não só não mudaram de feição, como meus ouvintes começaram a se entreolhar. Naquele instante, percebi que a coisa não ia acabar bem, mas não tinha como voltar atrás.
Lembrando da situação, me sinto mal até agora, óbvio que eu já contei histórias sem graça, mas essa foi de matar, desastrosa. Aquele clima de expectativa foi sendo substituído por uma angústia crescente, todo mundo percebendo o desconforto que se apossou sobre mim, contando uma história sem graça, que não evoluía, não acrescentava nada a ninguém e que os deixava com um vergonha alheia, assistindo minha sofrível performance.
Em dado momento, na tentativa de mudar os contornos da narrativa, resolvi apelar para um “mas vocês não acham interessante...”. Quando um negócio que era pra ser engraçado, (e isso tinha ficado claro antes de começar a narração) vira “interessante”, significa que você precisa urgentemente rever seu conceito de humor. Há vezes em que você conta uma piada, e de tão sem graça o pessoal acaba rindo (geralmente isso acontece em churrascos, quando a carne acabou e a cerveja está preste a), mas nem nisso essa minha história deu. Quando eu acabei, tava um clima pesado, ninguém ali sabia lidar direito com a situação. Fui eu quem tive que dizer “Mas a do Tumitinha era legal, não era?”.
- Ah! A do Tumitinha era muito boa!
- Nossa, era legal mesmo! Pô, Tumitinha...hahaha!!
- Como que pode?! Tumitinha não dá!
A fila do RU começou a andar. Entramos, pegamos as bandejas, nos servimos, almoçamos conversando sobre assuntos aleatórios, mas antes de irmos embora, ainda comentei: “Fazia tempo que eu não ficava tão sem graça como agora, contando aquela história”. Todo mundo se convalesceu, eles também ficaram muito sem graça, sofreram durante aqueles minutos que a fila não andava. Mas alguém, não me lembro quem, sugeriu: “ah, pelo menos você vai ter sobre o que escrever”.
Aí está. Tenho de admitir que era pra ser um texto cômico. Pelo menos um pouquinho. Se não foi, sugiro que vá ler a crônica do Mario Prata, sobre o Tumitinha. É diversão garantida.
Quem me conhece sabe que sou dado a contar histórias, em sua maioria, grandes abobrinhas, vivenciadas ou não por mim, mas que na maior parte da vezes rendem algumas risadas. Desta vez, em particular, não, muito pelo contrário. Foi ridículo, totalmente constrangedor.
Acontece que ando lendo um livro de crônicas do Mario Prata, consequentemente, quando gosto dos textos, acabo repassando as narrativas para o pessoal. E era isso que eu ia fazer.
Estávamos lá, esperando o RU abrir, o Marcão, o Ronaldo, o Japa, o March, o Paraguaio, a Vanessa e eu, quando solto: “Nossa, li uma crônica ontem muito boa, deixa eu contar”. Nisso o March perguntou: “Não é a do Tumitinha de novo, né Pedrão?”, não, não era.
Não me lembro muito bem porquê, mas demorei uns cinco minutos para iniciar o relato, dizendo que a Vanessa não podia ouvir, e depois fazendo alguns outros comentários sobre o povo que passava na fila, o que aumentou consideravelmente a expectativa em cima da coisa.
A história, que eu definitivamente não me atrevo a contar novamente, envolvia o Mario Prata e um primo dele, que hoje é reitor da universidade onde estudo. Eu, sinceramente, tinha achado a situação cômica, tanto que decidi contar, mas a repercussão não foi bem a que eu esperava.
Todos atentos olhando para mim, começo a narração. A gente sempre imagina os momentos em que as pessoas começarão a rir; eu, por acaso, calculei mal. No primeiro momento supostamente engraçadíssimo, ninguém abriu sequer um sorriso, mas não me deixei abalar. Prossegui, e no segundo momento totalmente hilário (julgava eu), os rostos não só não mudaram de feição, como meus ouvintes começaram a se entreolhar. Naquele instante, percebi que a coisa não ia acabar bem, mas não tinha como voltar atrás.
Lembrando da situação, me sinto mal até agora, óbvio que eu já contei histórias sem graça, mas essa foi de matar, desastrosa. Aquele clima de expectativa foi sendo substituído por uma angústia crescente, todo mundo percebendo o desconforto que se apossou sobre mim, contando uma história sem graça, que não evoluía, não acrescentava nada a ninguém e que os deixava com um vergonha alheia, assistindo minha sofrível performance.
Em dado momento, na tentativa de mudar os contornos da narrativa, resolvi apelar para um “mas vocês não acham interessante...”. Quando um negócio que era pra ser engraçado, (e isso tinha ficado claro antes de começar a narração) vira “interessante”, significa que você precisa urgentemente rever seu conceito de humor. Há vezes em que você conta uma piada, e de tão sem graça o pessoal acaba rindo (geralmente isso acontece em churrascos, quando a carne acabou e a cerveja está preste a), mas nem nisso essa minha história deu. Quando eu acabei, tava um clima pesado, ninguém ali sabia lidar direito com a situação. Fui eu quem tive que dizer “Mas a do Tumitinha era legal, não era?”.
- Ah! A do Tumitinha era muito boa!
- Nossa, era legal mesmo! Pô, Tumitinha...hahaha!!
- Como que pode?! Tumitinha não dá!
A fila do RU começou a andar. Entramos, pegamos as bandejas, nos servimos, almoçamos conversando sobre assuntos aleatórios, mas antes de irmos embora, ainda comentei: “Fazia tempo que eu não ficava tão sem graça como agora, contando aquela história”. Todo mundo se convalesceu, eles também ficaram muito sem graça, sofreram durante aqueles minutos que a fila não andava. Mas alguém, não me lembro quem, sugeriu: “ah, pelo menos você vai ter sobre o que escrever”.
Aí está. Tenho de admitir que era pra ser um texto cômico. Pelo menos um pouquinho. Se não foi, sugiro que vá ler a crônica do Mario Prata, sobre o Tumitinha. É diversão garantida.
sexta-feira, 26 de março de 2010
A primeira sutura a gente nunca esquece
Domingo passado fiz meu primeiro plantão em clínica cirúrgica no Hospital Florianópolis. Desde que resolvi que seria médico, nunca me imaginei como cirurgião e, sinceramente, pensava em não fazer nenhum estágio relacionado à cirurgia até passar pelo internato, quando obrigatoriamente o fazemos.
Objetivando não chegar no internato tendo de assumir que só fiz sutura em ratos e almofadas, e um pouco por curiosidade e pressão externa, resolvi me matricular na matéria optativa “Plantões em clínica cirúrgica no HF”, ou algo assim.
Pois bem, numa ensolarada manhã de domingo, sem nuvens ou vento, perfeita para ir à praia, acordei com uma margem de horário que julgava ser suficiente para me arrumar, pegar dois ônibus e chegar no hospital. Esquecendo-me que se tratava de um domingo, e portanto haveriam no máximo metade dos ônibus circulando pela cidade, cheguei, com o perdão da palavra, com o cú na mão, quase meia hora atrasado ao meu primeiro plantão.
Por uma sorte absurda, eu e minha dupla (fazemos os plantões sempre em duplas de acadêmicos, que acompanham um cirurgião) acompanharíamos o Dr. Edson, um sujeito que se mostraria muito gente boa, e que não reclamou do atraso.
Não havia passado cinco minutos desde a minha chegada, quando apareceu um rapaz com um dos dedos da mão envolto num monte de papel. E lá fomos nós, eu e o Danilo Gebrin, minha dupla, cuidar do caso.
Eu nunca havia feito procedimento algum, mas percebendo que o Danilo era bem sossegado, e tendo a permissão do Dr. Edson para resolver o problema, tomei a frente da situação: “Me diz ai cara, o que foi que você fez? “ Descobri então que ele havia cortado o dedo indicador da mão esquerda em vez da mandioca que estava em sua posse. Coloquei as luvas e fui verificar o ferimento. Não era muito grande, disse ao Danilo “uns 3 pontos aqui são o suficiente, não?” E o Danilo concordou. “Pode deixar comigo” disse eu, e comecei a proceder, tal como havia aprendido na teoria.
Limpa o ferimento, põe o campo, aplica a anestesia, sutura, tira o campo, limpa novamente, faz o curativo...pronto, está feito o serviço. Tranquilo. Não para a primeira vez.
Até pôr o campo foi uma beleza, sem grandes dificuldades, mas então chegou a hora da anestesia. Eu nunca havia anestesiado ninguém, não deveria ser difícil, mas sabe como é. É uma pessoa que tá na sua frente, que tá com medo porque sabe que a coisa vai doer, e nem desconfia que você nunca fez aqui antes. Procurei demonstrar a maior frieza possível, e acho que na voz até consegui enganar.
Me contive em informar ao rapaz, como fez o Thiagão, da minha sala, que aquela seria a minha primeira sutura, mas antes de continuar, procurei alerta-lo: “Tente não ficar olhando, vai ser melhor pra você”. Mal sabia ele que a sugestão não era para que ele não se impressionasse com o procedimento, com todo o sangue que iria escorrer, ou com a pele dele sendo puxada pra lá e pra cá, e sim porque minhas mãos começaram a tremer mais do que as de alguém com mal de Parkinson e eu por alguns instantes não conseguia nem acertar a agulha na ferida do rapaz.
Depois da anestesia, achei que minhas mãos resolveriam obedecer melhor aos meus comandos, o que se mostrou rapidamente ser uma ilusão. Ao pegar a pinça, o fio e o porta-agulha para iniciar a sutura, eu continuava tremendo feito vara verde. “Não olha!” dizia eu, ao menor sinal de movimento da cabeça que o moço fazia.
Santa anestesia! Fico imaginando se o cara tivesse que sentir todas as vezes que eu passava a agulha por sua pele. Errei tantas vezes, por afobação, que se o corte fosse no rosto eu certamente seria processado por aquela sutura. Dei os três pontos que planejava e percebi que ficaram muito próximos. Ficaram bons, porém próximos. Resolvi então dar um quarto. E, acreditem, esse ficou feio. Catastrófico. Destruiu toda a sofrível simetria que eu havia conseguido até então e ficou do lado oposto da ferida do que tinha ficado os demais pontos.
Limpei o local, fiz rapidamente o curativo, e declarei “Rapaz, ficou uma obra de arte” (pensando internamente “só se for arte moderna”) e mandei-o pegar as receitas com o Dr. Edson.
Ele ficou bastante agradecido, e eu, por minha vez, também tive muita vontade de agradece-lo por ser a primeira pessoa na qual pude praticar uma sutura. Fiquei alguns instantes pensando se ele iria ficar me xingando ou voltar ao hospital me procurando quando abrisse o curativo e visse aquela bizarrice sem precedentes no seu dedo. Mas o tempo foi curto, pouco depois chegou uma senhorinha com as pernas queimadas pois deixou derrubar a bandeja quente com os salgadinhos da festa da neta, que seria dali a algumas horas.
Durante o dia chegaram algumas outras queimaduras, gente que pisou em prego, mordida de cachorro, acidente de moto, além de uma segunda sutura, que eu novamente pedi para fazer, afinal, precisava treinar.
“O que que o sr. fez aí na perna?” O homem estava todo ralado, mas com um corte na perna que precisava ser suturado. Respondeu que tinha subido no telhado para consertar sei lá o que, se desequilibrou e caiu. Limpa, põe campo, anestesia...
“Espera dr., se a gente bebeu um pouquinho, a anestesia pega?”
E assim, tremendo consideravelmente menos, fiz minha segunda sutura, num senhor que depois de ter tomado umas caipirinhas no almoço dominical com a família, achou que era um bom negócio subir no telhado para resolver o problema de goteiras. Foram quatro pontos. Ficaram bons, fui até elogiado pelo Dr. Edson.
Devo confessar que esse tipo trabalho é bem gratificante. O resultado é imediato, você vê ali, na hora, que pôde efetivamente ajudar alguém, e essa pessoa, por sua vez, reconhece seu trabalho, e sai dali geralmente muito agradecida. Não posso dizer que passei a cogitar ser um cirurgião, fiz apenas pequenos procedimentos, e este foi apenas meu primeiro plantão. Mas posso dizer que já vejo a coisa toda com outros olhos.
Mesmo assim, ainda concordo com outro amigo meu, que me contou que recentemente estava conversando com outros amigos que fazem medicina, todos eles decididamente futuros cirurgiões, que discutiam entre si mais ou menos desta forma:
-“Acho muito massa a cirurgia plástica, os pontos que eles dão e tal...”
-“Não cara, massa mesmo é a ortopedia, aquela pedreirice, força bruta, furadeira, parafuso...”
-“Gosto mais da neurocirurgia, operar com o paciente acordado é animal...”
E meu amigo, ainda que timidamente, foi quem concluiu a conversa:
-"Olha, sinceramente, massa mesmo é o ambulatório. Chegar e dizer: “Tudo bem, Dona Maria? como é que vai a pressão...”
Objetivando não chegar no internato tendo de assumir que só fiz sutura em ratos e almofadas, e um pouco por curiosidade e pressão externa, resolvi me matricular na matéria optativa “Plantões em clínica cirúrgica no HF”, ou algo assim.
Pois bem, numa ensolarada manhã de domingo, sem nuvens ou vento, perfeita para ir à praia, acordei com uma margem de horário que julgava ser suficiente para me arrumar, pegar dois ônibus e chegar no hospital. Esquecendo-me que se tratava de um domingo, e portanto haveriam no máximo metade dos ônibus circulando pela cidade, cheguei, com o perdão da palavra, com o cú na mão, quase meia hora atrasado ao meu primeiro plantão.
Por uma sorte absurda, eu e minha dupla (fazemos os plantões sempre em duplas de acadêmicos, que acompanham um cirurgião) acompanharíamos o Dr. Edson, um sujeito que se mostraria muito gente boa, e que não reclamou do atraso.
Não havia passado cinco minutos desde a minha chegada, quando apareceu um rapaz com um dos dedos da mão envolto num monte de papel. E lá fomos nós, eu e o Danilo Gebrin, minha dupla, cuidar do caso.
Eu nunca havia feito procedimento algum, mas percebendo que o Danilo era bem sossegado, e tendo a permissão do Dr. Edson para resolver o problema, tomei a frente da situação: “Me diz ai cara, o que foi que você fez? “ Descobri então que ele havia cortado o dedo indicador da mão esquerda em vez da mandioca que estava em sua posse. Coloquei as luvas e fui verificar o ferimento. Não era muito grande, disse ao Danilo “uns 3 pontos aqui são o suficiente, não?” E o Danilo concordou. “Pode deixar comigo” disse eu, e comecei a proceder, tal como havia aprendido na teoria.
Limpa o ferimento, põe o campo, aplica a anestesia, sutura, tira o campo, limpa novamente, faz o curativo...pronto, está feito o serviço. Tranquilo. Não para a primeira vez.
Até pôr o campo foi uma beleza, sem grandes dificuldades, mas então chegou a hora da anestesia. Eu nunca havia anestesiado ninguém, não deveria ser difícil, mas sabe como é. É uma pessoa que tá na sua frente, que tá com medo porque sabe que a coisa vai doer, e nem desconfia que você nunca fez aqui antes. Procurei demonstrar a maior frieza possível, e acho que na voz até consegui enganar.
Me contive em informar ao rapaz, como fez o Thiagão, da minha sala, que aquela seria a minha primeira sutura, mas antes de continuar, procurei alerta-lo: “Tente não ficar olhando, vai ser melhor pra você”. Mal sabia ele que a sugestão não era para que ele não se impressionasse com o procedimento, com todo o sangue que iria escorrer, ou com a pele dele sendo puxada pra lá e pra cá, e sim porque minhas mãos começaram a tremer mais do que as de alguém com mal de Parkinson e eu por alguns instantes não conseguia nem acertar a agulha na ferida do rapaz.
Depois da anestesia, achei que minhas mãos resolveriam obedecer melhor aos meus comandos, o que se mostrou rapidamente ser uma ilusão. Ao pegar a pinça, o fio e o porta-agulha para iniciar a sutura, eu continuava tremendo feito vara verde. “Não olha!” dizia eu, ao menor sinal de movimento da cabeça que o moço fazia.
Santa anestesia! Fico imaginando se o cara tivesse que sentir todas as vezes que eu passava a agulha por sua pele. Errei tantas vezes, por afobação, que se o corte fosse no rosto eu certamente seria processado por aquela sutura. Dei os três pontos que planejava e percebi que ficaram muito próximos. Ficaram bons, porém próximos. Resolvi então dar um quarto. E, acreditem, esse ficou feio. Catastrófico. Destruiu toda a sofrível simetria que eu havia conseguido até então e ficou do lado oposto da ferida do que tinha ficado os demais pontos.
Limpei o local, fiz rapidamente o curativo, e declarei “Rapaz, ficou uma obra de arte” (pensando internamente “só se for arte moderna”) e mandei-o pegar as receitas com o Dr. Edson.
Ele ficou bastante agradecido, e eu, por minha vez, também tive muita vontade de agradece-lo por ser a primeira pessoa na qual pude praticar uma sutura. Fiquei alguns instantes pensando se ele iria ficar me xingando ou voltar ao hospital me procurando quando abrisse o curativo e visse aquela bizarrice sem precedentes no seu dedo. Mas o tempo foi curto, pouco depois chegou uma senhorinha com as pernas queimadas pois deixou derrubar a bandeja quente com os salgadinhos da festa da neta, que seria dali a algumas horas.
Durante o dia chegaram algumas outras queimaduras, gente que pisou em prego, mordida de cachorro, acidente de moto, além de uma segunda sutura, que eu novamente pedi para fazer, afinal, precisava treinar.
“O que que o sr. fez aí na perna?” O homem estava todo ralado, mas com um corte na perna que precisava ser suturado. Respondeu que tinha subido no telhado para consertar sei lá o que, se desequilibrou e caiu. Limpa, põe campo, anestesia...
“Espera dr., se a gente bebeu um pouquinho, a anestesia pega?”
E assim, tremendo consideravelmente menos, fiz minha segunda sutura, num senhor que depois de ter tomado umas caipirinhas no almoço dominical com a família, achou que era um bom negócio subir no telhado para resolver o problema de goteiras. Foram quatro pontos. Ficaram bons, fui até elogiado pelo Dr. Edson.
Devo confessar que esse tipo trabalho é bem gratificante. O resultado é imediato, você vê ali, na hora, que pôde efetivamente ajudar alguém, e essa pessoa, por sua vez, reconhece seu trabalho, e sai dali geralmente muito agradecida. Não posso dizer que passei a cogitar ser um cirurgião, fiz apenas pequenos procedimentos, e este foi apenas meu primeiro plantão. Mas posso dizer que já vejo a coisa toda com outros olhos.
Mesmo assim, ainda concordo com outro amigo meu, que me contou que recentemente estava conversando com outros amigos que fazem medicina, todos eles decididamente futuros cirurgiões, que discutiam entre si mais ou menos desta forma:
-“Acho muito massa a cirurgia plástica, os pontos que eles dão e tal...”
-“Não cara, massa mesmo é a ortopedia, aquela pedreirice, força bruta, furadeira, parafuso...”
-“Gosto mais da neurocirurgia, operar com o paciente acordado é animal...”
E meu amigo, ainda que timidamente, foi quem concluiu a conversa:
-"Olha, sinceramente, massa mesmo é o ambulatório. Chegar e dizer: “Tudo bem, Dona Maria? como é que vai a pressão...”
Assinar:
Postagens (Atom)
Seguidores
Quem sou eu
- Pedro
- Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.