A sequência lógica da coisa é viver, pensar, digerir e escrever. Desde que iniciei minha viagem pela Europa, quando acontece alguma coisa divertida ou diferente penso “quando voltar vou escrever sobre isso”, e de fato há bastante coisas sobre as quais pretendo discorrer, assim que tiver um tempo exclusivo para pensar sobre elas e arranjá-las da melhor forma no papel. Entretanto, por ora estou em Heidelberg, pequena e acolhedora cidade ao Sul da Alemanha, em meio a um estágio que serviu de desculpa primordial para tal viagem, com uma coceira insustentável nos dedos. É preciso escrever.
Até porque a mim não soa tão comovente alguém escrevendo “sentia saudades” ou “senti saudades”. Muito mais arrebatador um “sinto saudades”, e realmente as sinto. Andava procurando a melhor forma de expressá-la, talvez uma frase bacana e simples, emblemática ao menos a ponto de quem ler copiar e colar no nick do MSN, e o que de mais genuíno vem à cabeça é “Puta que pariu! Que saudade da terrinha!”
O Amir Klynk tem frases bacanas, daquelas que a gente que escreve fica pensando “puxa vida, como não tive essa sacada antes” sobre viagens e o viajar. Diversas vezes pensei nelas durante minha viagem, mas o que mais vinha à mente durante este período, sem mentir, era o Jorge Ben Jor cantando “moro num país tropical, abençoado por Deus...”
Que vontade absurda de comer feijão com arroz e carne moída! Pastel de feira com caldo de cana, então! Melhor até mudar de assunto. Saudade de ouvir todo mundo falando em português, de me sentir em casa, de realmente estar em casa. Dormir encostado no travesseiro já moldado ao formato da sua cabeça, embalado pelos fogos e gritos de “gol” numa quarta-feira a noite (os campeonatos estaduais já começaram!), acordar com o vizinho inconveniente ouvindo pagode enquanto lava o carro na garagem, as dez da manhã.
Saudade de fazer aquele churrascão com a rapaziada, pão com lingüiça e cerveja a dar com pau. Roda de violão em Canasvieiras, as loiras do curso de farmácia desfilando no bar do CCS, fazer esquenta para uma festa universitária qualquer. Agora é férias pra todo mundo, mas essa lonjura toda antecipa e aguça as sensações.
É mister, entretanto, deixar claro que isto aqui não se trata de lamúrias proveniente de dias mal aproveitados. Longe disso! Caríssimos, não carecerão de fartas risadas e nós na garganta, tudo a seu tempo. Mas é que essa coisa da saudade, exige um modus operandi diverso, escrevo agora enquanto os outros dormem, para, além de tudo, ainda poder esbanjar como num poema da antologia de Vinicius e ao final, no canto direito escrever “Heidelberg, 2011”.
Saudade tenho ainda de acordar num domingo e ao som de Billy Holliday descer as escadas do sobradinho lá de São Paulo e sentir o cheiro da massa que meu pai prepara, percorrer a casa e quase tropeçar no Pingo, que me levaria correndo até provavelmente a lavanderia, onde minha mãe estaria estendendo contente minhas roupas (não que ela goste de estender roupas, mas é que como não moro com eles, até ver-se estendendo minhas roupas, sinal de que estou em casa, faz com que seu dia seja melhor). Saudade de abrir o jornal e planejar o que fazer no próximo final de semana, ler a coluna do Drauzio, do Scliar ou do Rubem Alves. Até a da Barbara Gancia valeria. E quando desse a hora do almoço acordar minha irmã com um grito ao pé da escada (relembrando que é uma manhã de domingo).
Não falta tanto, São Paulo em três semanas e Floripa em seis. Ao voltar não peço nada. Claro que será bem bacana ser recebido com um pratão de arroz, feijão e carne moída; um churrasquinho de comemoração também não cairia mal. Caindo, no entanto, de forma inevitável no velho clichê, o que mais vale é entender que toda dessa saudade nada mais é do que o atestado definitivo de que a vida andava boa, de que vivo cercado de pessoas fantásticas, e fica a expectativa de que este período de alguma forma esteja servindo de aprendizado para aproveitar melhor essa coisarada toda.
Puta que pariu! Que saudade da terrinha!
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Roleta Russa
Há algumas semanas estava de plantão na central de transplantes, onde estagio, quando lá pelas tantas recebemos uma notificação de um potencial doador oriundo de Chapecó (cidade do oeste catarinense). Um jovem de 21 anos, estava para iniciar os testes comprobatórios para morte encefálica (condição sine qua non para ser doador). A causa da morte: ferimento por arma de fogo, o motivo: Roleta Russa.
Incredulidade, indignação, pena. Uma mistura de sentimentos passava por todos nós ali da central. “Como é que alguém ainda faz uma coisa dessas hoje em dia?” Supusemos que o garoto deveria estar sob efeito de álcool, ou alguma droga, querendo justificar de alguma forma o que parecia algo completamente sem cabimento.
Estudando medicina nos deparamos quase diariamente com pessoas que voluntária ou involuntariamente, acabam abreviando suas vidas. Pessoas que ingerem pesticidas, veneno para rato, que tomam dois litros de cachaça por dia, que comem muito, e mal, não se exercitam, que fumam dois maços de cigarro por dia, ou um, ou meio. A diferença entre elas é apenas o tempo em que cada um desses mecanismos leva para dar cabo a vida do indivíduo.
Durante o curso acabei me envolvendo bastante com a área de pneumologia, em especial com o tema tabagismo. Faço parte de um grupo que está desenvolvendo um estudo sobre o assunto, e já participei de cursos de abordagem a pacientes tabagistas, entre outros. Embora haja grande conscientização por parte da população sobre os malefícios do tabagismo, sua cessação continua sendo um enorme desafio.
Conheço gente inteligentíssima, tenho amigos pós-graduados e até professor de pneumologia que fuma! E como é que se faz a abordagem de pessoas como essas, quando se trata de convencê-las a parar de fumar? O discurso que eu usava era a seguinte: “Você deve saber até melhor do que eu que cigarro faz mal, não vou ficar te azucrinando, mas se um dia você estiver querendo parar, pode me procurar que eu te ajudo”. Certo? ERRADO!
O grande problema é que muita gente não consegue visualizar o dano a longo prazo que o cigarro faz. Não é a figurinha de um pulmão podre no verso do maço que vai detê-los. Devemos fazê-los crer que (e aqui vai uma forçada da barra) que fumar é praticamente uma Roleta Russa. Parece bastante dramático querer comparar um maço de cigarros a um revólver, mas reparem bem:
não só de câncer de pulmão morre um tabagista (e a chance de um tabagista desenvolvê-lo é 1 em cada 10). Existe também o câncer de boca e de garganta. Além disso, existe a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) que segundo projeções, será a terceira maior causa de morte no mundo em dez anos. Menos de 15% dos fumantes desenvolverão DPOC, mas quase 90% dos que possuem essa doença, são tabagistas. Fumar é um dos maiores fatores de risco para o infarto, entre inúmeras morbidades que são agravadas pelo seu uso.
Some todas essas probabilidades e verá que a chance de um fumante morrer por causa de seu vício é maior do que o 1/6 do projétil de um revolver encontrar sua cabeça se resolver “brincar” de roleta russa, com o agravante que você não morrerá instantaneamente, mas passará anos com uma qualidade de vida sofrível, sendo torturado diariamente física e mentalmente por causa de sua condição.
Pare e reflita que hoje nos parece um absurdo que já tenha sido permitido fumar dentro de aviões. “Nossa, as pessoas fumavam dentro e aviões!”, diríamos nós. Daqui um tempo, graças a essa nova lei que proíbe fumar em lugares fechados, em vigor em cidades como Florianópolis e São Paulo, acredito que estaremos dizendo “Nossa, as pessoas fumavam dentro das baladas!”. Penso que devemos ser otimistas e audaciosos, trabalhando para que um dia se seja possível que as futuras gerações numa conversa qualquer possam dizer: “Nossa, as pessoas fumavam!”.
Incredulidade, indignação, pena. Uma mistura de sentimentos passava por todos nós ali da central. “Como é que alguém ainda faz uma coisa dessas hoje em dia?” Supusemos que o garoto deveria estar sob efeito de álcool, ou alguma droga, querendo justificar de alguma forma o que parecia algo completamente sem cabimento.
Estudando medicina nos deparamos quase diariamente com pessoas que voluntária ou involuntariamente, acabam abreviando suas vidas. Pessoas que ingerem pesticidas, veneno para rato, que tomam dois litros de cachaça por dia, que comem muito, e mal, não se exercitam, que fumam dois maços de cigarro por dia, ou um, ou meio. A diferença entre elas é apenas o tempo em que cada um desses mecanismos leva para dar cabo a vida do indivíduo.
Durante o curso acabei me envolvendo bastante com a área de pneumologia, em especial com o tema tabagismo. Faço parte de um grupo que está desenvolvendo um estudo sobre o assunto, e já participei de cursos de abordagem a pacientes tabagistas, entre outros. Embora haja grande conscientização por parte da população sobre os malefícios do tabagismo, sua cessação continua sendo um enorme desafio.
Conheço gente inteligentíssima, tenho amigos pós-graduados e até professor de pneumologia que fuma! E como é que se faz a abordagem de pessoas como essas, quando se trata de convencê-las a parar de fumar? O discurso que eu usava era a seguinte: “Você deve saber até melhor do que eu que cigarro faz mal, não vou ficar te azucrinando, mas se um dia você estiver querendo parar, pode me procurar que eu te ajudo”. Certo? ERRADO!
O grande problema é que muita gente não consegue visualizar o dano a longo prazo que o cigarro faz. Não é a figurinha de um pulmão podre no verso do maço que vai detê-los. Devemos fazê-los crer que (e aqui vai uma forçada da barra) que fumar é praticamente uma Roleta Russa. Parece bastante dramático querer comparar um maço de cigarros a um revólver, mas reparem bem:
não só de câncer de pulmão morre um tabagista (e a chance de um tabagista desenvolvê-lo é 1 em cada 10). Existe também o câncer de boca e de garganta. Além disso, existe a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) que segundo projeções, será a terceira maior causa de morte no mundo em dez anos. Menos de 15% dos fumantes desenvolverão DPOC, mas quase 90% dos que possuem essa doença, são tabagistas. Fumar é um dos maiores fatores de risco para o infarto, entre inúmeras morbidades que são agravadas pelo seu uso.
Some todas essas probabilidades e verá que a chance de um fumante morrer por causa de seu vício é maior do que o 1/6 do projétil de um revolver encontrar sua cabeça se resolver “brincar” de roleta russa, com o agravante que você não morrerá instantaneamente, mas passará anos com uma qualidade de vida sofrível, sendo torturado diariamente física e mentalmente por causa de sua condição.
Pare e reflita que hoje nos parece um absurdo que já tenha sido permitido fumar dentro de aviões. “Nossa, as pessoas fumavam dentro e aviões!”, diríamos nós. Daqui um tempo, graças a essa nova lei que proíbe fumar em lugares fechados, em vigor em cidades como Florianópolis e São Paulo, acredito que estaremos dizendo “Nossa, as pessoas fumavam dentro das baladas!”. Penso que devemos ser otimistas e audaciosos, trabalhando para que um dia se seja possível que as futuras gerações numa conversa qualquer possam dizer: “Nossa, as pessoas fumavam!”.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Tio Giba
Espaaaalmaa Zéééttiii!!!
O ano devia ser 93 ou 94. O palco do jogo, um estreito corredor de um sobradinho no subúrbio paulistano, o Zetti na verdade era eu, com algo entre 6 e 7 anos, me estropiando no chão de concreto a cada ponte que dava para alcançar as cobranças de faltas batidas por meu Tio Gilberto, que interpretava Evair, Zinho, Rivaldo, Roberto Carlos e ao mesmo tempo atacava de Luciano do Valle na narração.
O tio Giba é o ser humano mais apaixonado por futebol que já conheci. Mais por obra dele e de minha tia Déa do que de meu pai que hoje torço pelo verdão. Há fotos de quando eu era bebê, no carrinho, vestindo camisas verde e brancas maiores que meu corpo inteiro, “coisa do seu tio Giba”.
A casa do Tio Giba é toda decorada com objetos do palmeiras, na cozinha canecas com o símbolo desenhado, adesivos na janela, na sala, pôsteres enquadrados com as formações campeãs dos títulos brasileiros da década de 90, campeonato paulista, libertadores. Há ainda uma ou outra caravelinha espalhada pela casa, aludindo ao fato de que, como cedo me ensinara tio Giba, Palmeiras e Vasco da Gama são torcidas irmãs.
Tio Giba respirava futebol. Quando presente nas festinhas da família, mobilizava grande parte dos parentes (que entendiam pouco ou quase nada de futebol) em análises complicadíssimas sobre formações táticas, características individuais de cada jogador, rememorava com vivos detalhes atuações antológicas de determinado craque, escalava times vencedores. Longe de ser chato, Tio Giba no último natal escalou o time do palmeiras completo que perdeu para o Inter de Limeira a final do campeonato Paulista de 1984. A família toda se entristeceu com a derrota.
Conta meu pai que houve um tempo em que tio Giba e Tia Déa percorriam o estado todo atrás dos jogos do verdão, tradição esta que hoje é mantida por seus filhos e netos. Segundo a tia Dea, o Juninho foi até Uberaba dia desses só pra assistir a um jogo.
Tio Giba além de torcedor fanático era também tapeceiro. Por ocasião da construção de um novo quarto na casa onde eu morava, lá nesses idos de início da década de 90, entre uma ou outra grande defesa de Zetti, lembro-me dele dizendo “Pedrinho, vou fazer uma poltrona de estofado verde pra você por no seu quarto novo”. Achei aquilo o máximo, na minha cabeça de menino, uma poltrona devia ser algo imponente. E ainda verde! Todos saberiam que eu era um torcedor do palmeiras muito respeitável.
Por muitos domingos eu esperei no portão de casa o Chevette cor de creme do Tio Giba e da Tia Déa trazendo a notícia de que a poltrona havia ficado pronta, coisa que nunca aconteceu, e eu fui esquecendo aos poucos. Aos poucos também foram rareando as visitas do Tio Giba à nossa casa. Tia Déa, que jamais deixou de nos visitar, comentava que Tio Giba tornara-se uma pessoa cada vez mais reclusa, mal saia de casa. Assim mesmo, nas festas de final de ano, ocasião quase exclusiva em que o via, ele me parecia sempre o mesmo, falando de futebol, sua risada divertida, fala mansa, barba por fazer.
Mudei-me para Florianópolis há mais de três anos e desde então acho que vi o Tio Giba duas vezes (uma delas no natal que ele contou da final do campeonato de 1984). Falo com meus pais quase todos os dias pelo telefone, e há cerca de um mês, lembro-me de minha mãe comentando que a Tia Déa disse que o Tio Giba andava com hábitos estranhos, que outro dia havia acordado no meio da madrugada e começou a trocar as gavetas do guarda-roupa no escuro.
Poucos dias depois ligo lá pra casa e dizem que o Tio Giba havia caído sei lá onde, batido a cabeça e levado ao hospital. Lá acabaram por detectar um tumor no SNC. Daí pra frente as informações começaram a ficar desencontradas, até porque é difícil mesmo as pessoas entenderem o que se passa, e muitas vezes se negam a enxergar a gravidade da situação. A única coisa que eu sabia é que os médicos diziam ser inoperável.
Por ocasião do último feriado, voltei para São Paulo, e ainda planejando com meu pai a programação para aqueles dias, ele perguntou “e o que você acha de ver o Tio Giba?”. Na terça-feira pela manhã, eu meu pai vestimos camisas do palmeiras (tinha certeza que o tio ia se alegrar) e fomos visitá-lo. Chegando lá, vi o tio deitado na cama, com uma sonda no nariz, emagrecido, muito emagrecido, olhos abertos fixos no teto, trajando uma camisa do Palmeiras e uma calça do Vasco.
Não tive coragem de chegar e perguntar “Tudo bem?”. A resposta seria “Tudo bem”, porque invariavelmente as pessoas respondem isso em qualquer situação. “E aí tio, como é que tá o Palmeiras?”, foi como decidi começar. Ele levantou o polegar num sinal de “jóia”, e bem lentamente foi virando a mão para baixo, abriu um sorriso e disse “vai mal, Pedrinho”. Falei mais algumas coisas, e então meu pai começou a falar, oportunidade que tive para perguntar para a Tia Dea qual era de fato a situação.
Ela me levou para outro quarto, me deu alguns exames para ver, e enquanto eu lia o laudo “Astrocitoma, comprometendo os lobos temporal, frontal, occipital, etc, etc” foi me dizendo que os médicos disseram que não iam operar, pois a sobrevida seria de menos de um ano, e em estado vegetativo, e só com a quimioterapia a sobrevida seria de cinco meses. Eu conseguia sentir em mim o nó na garganta dela, pensei em abraçá-la, mas foi quando ouvi: “Pedrinho, Pedrinho”. Era meu tio me chamando.
Voltei para o outro quarto. Quando me viu, ele estendeu a mão esquerda no ar, segurei-a e ele levou até junto a sua face, beijou-a e com os olhos marejados disse “Pedrinho, Pedrinho, gosto tanto desse menino!”. Eu não sabia muito bem o que fazer, apenas disse “Tio, também gosto muito do senhor” e retribuí-lhe o beijo na mão.
Depois de curto silêncio meu pai falou que tínhamos de ir embora, pois em breve eu pegaria vôo de volta para Florianópolis. Disse ainda “Giba, fica tranqüilo que já já você vai sarar”, beijou-lhe a testa e fez sinal para irmos embora. Descíamos os três as escadas quando ainda ouvimos o Tio Giba dizer “Manda um beijo para a Isadora” (minha irmã).
Foi a última vez que vi meu tio. Ontem a noite meus pais telefonaram dizendo que ele havia falecido. Meu pai, sujeito de rara sensibilidade fizera questão (apesar de não ter transparecido) que eu visse meu tio aquele dia, pois imaginava que pudesse de fato ser a última. A Sociedade Esportiva Palmeiras perdeu um grande torcedor, o maior que conheci, e eu, um tio querido, do qual só tenho boas lembranças. Quando quiser me lembrar dele, vai ser com carinho e saudade que me virão em mente o Chevette cor de creme chegando no domingo, ou sua voz inconfundível gritando “Zéééttiii”.
O ano devia ser 93 ou 94. O palco do jogo, um estreito corredor de um sobradinho no subúrbio paulistano, o Zetti na verdade era eu, com algo entre 6 e 7 anos, me estropiando no chão de concreto a cada ponte que dava para alcançar as cobranças de faltas batidas por meu Tio Gilberto, que interpretava Evair, Zinho, Rivaldo, Roberto Carlos e ao mesmo tempo atacava de Luciano do Valle na narração.
O tio Giba é o ser humano mais apaixonado por futebol que já conheci. Mais por obra dele e de minha tia Déa do que de meu pai que hoje torço pelo verdão. Há fotos de quando eu era bebê, no carrinho, vestindo camisas verde e brancas maiores que meu corpo inteiro, “coisa do seu tio Giba”.
A casa do Tio Giba é toda decorada com objetos do palmeiras, na cozinha canecas com o símbolo desenhado, adesivos na janela, na sala, pôsteres enquadrados com as formações campeãs dos títulos brasileiros da década de 90, campeonato paulista, libertadores. Há ainda uma ou outra caravelinha espalhada pela casa, aludindo ao fato de que, como cedo me ensinara tio Giba, Palmeiras e Vasco da Gama são torcidas irmãs.
Tio Giba respirava futebol. Quando presente nas festinhas da família, mobilizava grande parte dos parentes (que entendiam pouco ou quase nada de futebol) em análises complicadíssimas sobre formações táticas, características individuais de cada jogador, rememorava com vivos detalhes atuações antológicas de determinado craque, escalava times vencedores. Longe de ser chato, Tio Giba no último natal escalou o time do palmeiras completo que perdeu para o Inter de Limeira a final do campeonato Paulista de 1984. A família toda se entristeceu com a derrota.
Conta meu pai que houve um tempo em que tio Giba e Tia Déa percorriam o estado todo atrás dos jogos do verdão, tradição esta que hoje é mantida por seus filhos e netos. Segundo a tia Dea, o Juninho foi até Uberaba dia desses só pra assistir a um jogo.
Tio Giba além de torcedor fanático era também tapeceiro. Por ocasião da construção de um novo quarto na casa onde eu morava, lá nesses idos de início da década de 90, entre uma ou outra grande defesa de Zetti, lembro-me dele dizendo “Pedrinho, vou fazer uma poltrona de estofado verde pra você por no seu quarto novo”. Achei aquilo o máximo, na minha cabeça de menino, uma poltrona devia ser algo imponente. E ainda verde! Todos saberiam que eu era um torcedor do palmeiras muito respeitável.
Por muitos domingos eu esperei no portão de casa o Chevette cor de creme do Tio Giba e da Tia Déa trazendo a notícia de que a poltrona havia ficado pronta, coisa que nunca aconteceu, e eu fui esquecendo aos poucos. Aos poucos também foram rareando as visitas do Tio Giba à nossa casa. Tia Déa, que jamais deixou de nos visitar, comentava que Tio Giba tornara-se uma pessoa cada vez mais reclusa, mal saia de casa. Assim mesmo, nas festas de final de ano, ocasião quase exclusiva em que o via, ele me parecia sempre o mesmo, falando de futebol, sua risada divertida, fala mansa, barba por fazer.
Mudei-me para Florianópolis há mais de três anos e desde então acho que vi o Tio Giba duas vezes (uma delas no natal que ele contou da final do campeonato de 1984). Falo com meus pais quase todos os dias pelo telefone, e há cerca de um mês, lembro-me de minha mãe comentando que a Tia Déa disse que o Tio Giba andava com hábitos estranhos, que outro dia havia acordado no meio da madrugada e começou a trocar as gavetas do guarda-roupa no escuro.
Poucos dias depois ligo lá pra casa e dizem que o Tio Giba havia caído sei lá onde, batido a cabeça e levado ao hospital. Lá acabaram por detectar um tumor no SNC. Daí pra frente as informações começaram a ficar desencontradas, até porque é difícil mesmo as pessoas entenderem o que se passa, e muitas vezes se negam a enxergar a gravidade da situação. A única coisa que eu sabia é que os médicos diziam ser inoperável.
Por ocasião do último feriado, voltei para São Paulo, e ainda planejando com meu pai a programação para aqueles dias, ele perguntou “e o que você acha de ver o Tio Giba?”. Na terça-feira pela manhã, eu meu pai vestimos camisas do palmeiras (tinha certeza que o tio ia se alegrar) e fomos visitá-lo. Chegando lá, vi o tio deitado na cama, com uma sonda no nariz, emagrecido, muito emagrecido, olhos abertos fixos no teto, trajando uma camisa do Palmeiras e uma calça do Vasco.
Não tive coragem de chegar e perguntar “Tudo bem?”. A resposta seria “Tudo bem”, porque invariavelmente as pessoas respondem isso em qualquer situação. “E aí tio, como é que tá o Palmeiras?”, foi como decidi começar. Ele levantou o polegar num sinal de “jóia”, e bem lentamente foi virando a mão para baixo, abriu um sorriso e disse “vai mal, Pedrinho”. Falei mais algumas coisas, e então meu pai começou a falar, oportunidade que tive para perguntar para a Tia Dea qual era de fato a situação.
Ela me levou para outro quarto, me deu alguns exames para ver, e enquanto eu lia o laudo “Astrocitoma, comprometendo os lobos temporal, frontal, occipital, etc, etc” foi me dizendo que os médicos disseram que não iam operar, pois a sobrevida seria de menos de um ano, e em estado vegetativo, e só com a quimioterapia a sobrevida seria de cinco meses. Eu conseguia sentir em mim o nó na garganta dela, pensei em abraçá-la, mas foi quando ouvi: “Pedrinho, Pedrinho”. Era meu tio me chamando.
Voltei para o outro quarto. Quando me viu, ele estendeu a mão esquerda no ar, segurei-a e ele levou até junto a sua face, beijou-a e com os olhos marejados disse “Pedrinho, Pedrinho, gosto tanto desse menino!”. Eu não sabia muito bem o que fazer, apenas disse “Tio, também gosto muito do senhor” e retribuí-lhe o beijo na mão.
Depois de curto silêncio meu pai falou que tínhamos de ir embora, pois em breve eu pegaria vôo de volta para Florianópolis. Disse ainda “Giba, fica tranqüilo que já já você vai sarar”, beijou-lhe a testa e fez sinal para irmos embora. Descíamos os três as escadas quando ainda ouvimos o Tio Giba dizer “Manda um beijo para a Isadora” (minha irmã).
Foi a última vez que vi meu tio. Ontem a noite meus pais telefonaram dizendo que ele havia falecido. Meu pai, sujeito de rara sensibilidade fizera questão (apesar de não ter transparecido) que eu visse meu tio aquele dia, pois imaginava que pudesse de fato ser a última. A Sociedade Esportiva Palmeiras perdeu um grande torcedor, o maior que conheci, e eu, um tio querido, do qual só tenho boas lembranças. Quando quiser me lembrar dele, vai ser com carinho e saudade que me virão em mente o Chevette cor de creme chegando no domingo, ou sua voz inconfundível gritando “Zéééttiii”.
domingo, 19 de setembro de 2010
Pequena pausa cotidiana para as eternas reflexões
Acabo de receber o motorista Hudson, que veio pegar um rim direito para levar ao aeroporto, de onde o órgão seguirá para Chapecó, onde será transplantando. À minha frente está meu notebook, onde escrevo, e através do qual agora toca The Beatles. À minha esquerda um bloco de páginas xerocadas do caderno de otorrino de uma colega de sala, devido a eminência da prova desta matéria; do lado esquerdo o “Guia do viajante independente pela Europa”, aberto no mapa de Londres e, um pouco além, um papel com o telefone de mais de trinta hospitais de Santa Catarina, aos quais há pouco telefonei indagando sobre novas suspeitas de morte encefálica. Estou, portanto, num dia típico do meu estágio na central de transplantes.
Um pouco além, noutra mesa, uma das enfermeiras que trabalha aqui na divisão técnica monta uma documentação relativa a uma doação de córneas, enquanto me lembro que estou perdendo uma festa universitária por conta deste plantão de 24h. A esta hora (22h30) está boa parte de meus amigos fazendo o esquenta para a festa (que será open bar, fato que não justificaria em absoluto a suspensão do tradicionalíssimo ritual que antecede todas as festas), enquanto paro e reparo na figura da enfermeira que encontra-se a poucos metros de mim.
Loira, algo entre 1,65 e 1,70, ligeiramente gordinha, calculo estar chegando nos 40, solteira, sem filhos. Não se trata do que vocês estão pensando. Juro. Estou apenas imaginando se era algo parecido com montar documentação relativa a doação de córneas numa sexta-feira a noite o que ela imaginava estar fazendo ao atingir os 40 anos, quando tinha a minha idade. Não que isso seja muito ruim, claro que não, mas é que agora ouvindo o George Harrison solando em “Till There was you”, um dos primeiros solos que aprendi quando comecei a tocar violão, fico me imaginando tocando junto ao meu filho (que também quererá tocar violão e gostará de Beatles) numa sexta-feira a noite quando tiver por volta dos 40.
Não sei se minha companheira de plantão é solteira e não tem filhos por opção. Outra enfermeira aqui da central está para ganhar seu primeiro filho, aos 32 anos, solteira. Enfim, o fato é que elas estão me levando a refletir sobre nossos desejos e frustrações. Eu por mim mesmo já sou um pensador nato, cheio de indagações e questionamentos. Andei acessando textos que escrevi há cerca de cinco anos e me deparei com os mesmos tipo de reflexão que tenho até hoje. Mesmo tendo mudado de cidade, estar há mais de três anos na faculdade e neste período ter conhecido dezenas de novas pessoas com uma rica pluralidade de opiniões, a única coisa que acontece é a adição de novas perguntas sem que as antigas sejam respondidas. Quanto mais se raciocina, mais longe parece ficar a solução. Não à toa inventaram a dialética.
Se tudo acontecesse conforme eu gostaria, quando eu tiver o dobro da minha idade, num domingo ensolarado como promete ser depois de amanhã, eu levaria meu(s) filho(s) à Arena Parque Antártica assistir o verdão. Veria-os ensaiar os primeiros acordes no violão quando chegasse exausto do trabalho no meio da semana, tocaria junto com eles uma outra dos Beatles, fazendo parcerias a la Lennon e McCartney, e planejaria viagens inesquecíveis ao lado da mulher com quem decidira passar o resto dos meus dias.
Bonito, não? Guardados os gostos pessoais, seus planos são parecidos? Entretanto, olhe ao seu redor e veja o saco de frustrações que é a vida. Pode ser que tudo dê certo, e nos manteremos sempre otimistas. Mas parece ser necessário iludir-se periodicamente para que possamos aguentar a ideia de que grande parte daquilo que planejávamos não aconteceu; convencendo-se de que há coisas tão ou mais interessantes de se viver, e que você só se deu conta delas através da oportunidade gerada pela negação dos sonhos não realizados. No meio disso tudo confundem-se resilientes e conformistas, e não há muito como escapar. É estatístico.
Olho para a pilha de xerox e lembro que independente dos meus futuros rebentos, hoje preciso aprender a reconhecer e tratar uma otite, enquanto o aparelho de fax apita a chegada de mais uma notificação de doação de córnea e cresce minha inveja de não estar curtindo a festa com meus amigos. Ainda assim, o Ringo entoando “With a little help from my friends” me lembra que embora ainda não conheça a mulher com quem decidirei viver o resto dos meus dias (assim imagino), em breve farei uma viagem que sem dúvidas será inesquecível. Voltemos ao mapa de Londres...
Um pouco além, noutra mesa, uma das enfermeiras que trabalha aqui na divisão técnica monta uma documentação relativa a uma doação de córneas, enquanto me lembro que estou perdendo uma festa universitária por conta deste plantão de 24h. A esta hora (22h30) está boa parte de meus amigos fazendo o esquenta para a festa (que será open bar, fato que não justificaria em absoluto a suspensão do tradicionalíssimo ritual que antecede todas as festas), enquanto paro e reparo na figura da enfermeira que encontra-se a poucos metros de mim.
Loira, algo entre 1,65 e 1,70, ligeiramente gordinha, calculo estar chegando nos 40, solteira, sem filhos. Não se trata do que vocês estão pensando. Juro. Estou apenas imaginando se era algo parecido com montar documentação relativa a doação de córneas numa sexta-feira a noite o que ela imaginava estar fazendo ao atingir os 40 anos, quando tinha a minha idade. Não que isso seja muito ruim, claro que não, mas é que agora ouvindo o George Harrison solando em “Till There was you”, um dos primeiros solos que aprendi quando comecei a tocar violão, fico me imaginando tocando junto ao meu filho (que também quererá tocar violão e gostará de Beatles) numa sexta-feira a noite quando tiver por volta dos 40.
Não sei se minha companheira de plantão é solteira e não tem filhos por opção. Outra enfermeira aqui da central está para ganhar seu primeiro filho, aos 32 anos, solteira. Enfim, o fato é que elas estão me levando a refletir sobre nossos desejos e frustrações. Eu por mim mesmo já sou um pensador nato, cheio de indagações e questionamentos. Andei acessando textos que escrevi há cerca de cinco anos e me deparei com os mesmos tipo de reflexão que tenho até hoje. Mesmo tendo mudado de cidade, estar há mais de três anos na faculdade e neste período ter conhecido dezenas de novas pessoas com uma rica pluralidade de opiniões, a única coisa que acontece é a adição de novas perguntas sem que as antigas sejam respondidas. Quanto mais se raciocina, mais longe parece ficar a solução. Não à toa inventaram a dialética.
Se tudo acontecesse conforme eu gostaria, quando eu tiver o dobro da minha idade, num domingo ensolarado como promete ser depois de amanhã, eu levaria meu(s) filho(s) à Arena Parque Antártica assistir o verdão. Veria-os ensaiar os primeiros acordes no violão quando chegasse exausto do trabalho no meio da semana, tocaria junto com eles uma outra dos Beatles, fazendo parcerias a la Lennon e McCartney, e planejaria viagens inesquecíveis ao lado da mulher com quem decidira passar o resto dos meus dias.
Bonito, não? Guardados os gostos pessoais, seus planos são parecidos? Entretanto, olhe ao seu redor e veja o saco de frustrações que é a vida. Pode ser que tudo dê certo, e nos manteremos sempre otimistas. Mas parece ser necessário iludir-se periodicamente para que possamos aguentar a ideia de que grande parte daquilo que planejávamos não aconteceu; convencendo-se de que há coisas tão ou mais interessantes de se viver, e que você só se deu conta delas através da oportunidade gerada pela negação dos sonhos não realizados. No meio disso tudo confundem-se resilientes e conformistas, e não há muito como escapar. É estatístico.
Olho para a pilha de xerox e lembro que independente dos meus futuros rebentos, hoje preciso aprender a reconhecer e tratar uma otite, enquanto o aparelho de fax apita a chegada de mais uma notificação de doação de córnea e cresce minha inveja de não estar curtindo a festa com meus amigos. Ainda assim, o Ringo entoando “With a little help from my friends” me lembra que embora ainda não conheça a mulher com quem decidirei viver o resto dos meus dias (assim imagino), em breve farei uma viagem que sem dúvidas será inesquecível. Voltemos ao mapa de Londres...
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Num sobradinho da cidade grande
Chovia muito. A menina estava indo tomar banho quando a campainha tocou. Não esperava visitas, o cachorro foi à janela e com latido característico informou que tratava-se de pessoa estranha. “Se for importante, vai voltar depois”, pensou a menina ao fechar a porta do banheiro. Mal tirava a camiseta quando a campainha disparou, o cão intensificou os latidos e, mesmo com a chuva torrencial que caia lá fora, pode ouvir o som do portão sendo arrombado.
A menina então se vestiu e foi esconder-se no quarto do irmão. “Vai, vai, vai”, diziam vozes perto da porta da sala. O cão agora se esgoelava, relâmpagos se encarregavam de dramatizar a situação. A menina então pega o telefone e disca o número da polícia. “Para realizar seu cadastro disque 1” responde a gravação do outro lado da linha, enquanto rosnados desesperados do cachorro anunciavam que ele e os assaltantes encontravam-se cara a cara.
Passos pelas salas, corredores, subindo as escadas, a menina que obviamente desistira de informar a polícia, tenta chamar atenção do vizinho do lado jogando canetas em sua janela. Lá se vai a coleção de canetas do irmão: a alemã e a espanhola que ganhara de amigos viajantes, a de fabricação limitada comemorativa do centenário de um banco, a americana cromada. Nenhuma delas foi capaz de chamar atenção do senhor aposentado que dormia as duas da tarde.
Os assaltantes entram no quarto da menina, se apossam de algo e rumam para o quarto do irmão. Uma tênue sombra se projeta pela porta do quarto e a menina corajosamente se impõe:
“Quem tá aí? Eu já chamei a polícia” - Não houve contato visual, e neste momento muitas coisas aconteceram simultaneamente. Objetos sendo derrubados, nem dava pra saber quantas pessoas tinham na casa, se duas, três ou quatro. Do cachorro não se sabia mais, podia ter infartado, sido assassinado, ou simplesmente desistido do combate, mas não emitia sons. Ouvindo os passos atrapalhados a menina então muda de tática e passa a gritar por socorro pela janela do quarto. Muito alto, chama atenção da vizinhança toda. Apesar da chuva batendo nas calhas, de trovões e das janelas fechadas, conseguiu ser ouvida. Dificil era entender o que se passava. Uma senhora na rua de baixo tentava convencer a mocinha que via pela janela: “não pula!”, enquanto agora, só agora, o vizinho do lado aparece: “Não saia daí”.
Os passos pela casa cessam, um carro parte, a campainha toca. A menina desce e recebe o vizinho de olhos arregalados, que educadamente preferiu esperar do lado de fora da casa para salvá-la. Ele pergunta-lhe pelo ocorrido enquanto rumam para a cozinha. Lá chegando apenas o que se vê é o chão inundado pela urina do cachorro, que não se encontrava em lugar nenhum. A menina cai em prantos, temendo pelo pior. Nisso percebe o cachorro tremendo feito vara verde debaixo da mesa. A menina chora ainda mais alto por saber que ele está salvo. O vizinho cumpre seu papel “vou preparar-lhe uma água com açúcar”. Outros vizinhos chegam.
O celular da menina toca “Porque você me deixou falando sozinho tanto tempo no MSN?” O cachorro agora quer morder os vizinhos e a menina ainda emocionada por vê-lo bem não consegue se justificar ao celular. Desliga e liga para o seu pai, que estava tratando de aguentar mais um dia o trabalho que detesta, para ter seus bens roubados e a vida de sua filha posta em risco.
Vizinhos curiosos estão muito preocupados em saber detalhes do corrido, alguns sobem as escadas para conhecer melhor o interior da casa. A menina toma o restinho da água com açúcar que o vizinho do lado acabou bebendo sem querer. O pai e uma viatura da policia chegam sincronicamente. De noite chega a mãe, medrosa como é, terá anos de perturbação e insônia por causa do episódio. O cachorro deve ter envelhecido uns cinco anos por conta da coisa toda.
Horas depois, sentados em silêncio, esperando a perícia, a família se assusta com o telefone que toca. “Chamada a cobrar, para aceitá-la, continue na linha após a identificação”. É o filho que mora longe, que mais um vez será poupado das tristezas e preocupações da família, como na vez que chegou de viagem e seu pai mostrou um cálculo retirado numa colecistectomia por videolaparoscopia realizada um mês antes, e que guardava no armarinho do banheiro.
Fala com toda a família, todos estão bem, a mãe colocou aparelho nos dentes, o pai tá de carro novo, a menina vai viajar. Não querem preocupá-lo, ele está muito longe e nada pode fazer, pensam que não há necessidade de compartilhar o legitimo sentimento da família. Descobrirá o que aconteceu somente quando vir o cadeado novo no portão. Resignado, pensará que precisa aproveitar bem a companhia daquelas pessoas queridas, pois poderia ter sido diferente.
O último a falar desliga o telefone, logo a perícia chega, faz o que deve ser feito e vai embora. Então, todos sobem para seus quartos, apagam as luzes para uma noite em claro. Ainda chovia muito.
A menina então se vestiu e foi esconder-se no quarto do irmão. “Vai, vai, vai”, diziam vozes perto da porta da sala. O cão agora se esgoelava, relâmpagos se encarregavam de dramatizar a situação. A menina então pega o telefone e disca o número da polícia. “Para realizar seu cadastro disque 1” responde a gravação do outro lado da linha, enquanto rosnados desesperados do cachorro anunciavam que ele e os assaltantes encontravam-se cara a cara.
Passos pelas salas, corredores, subindo as escadas, a menina que obviamente desistira de informar a polícia, tenta chamar atenção do vizinho do lado jogando canetas em sua janela. Lá se vai a coleção de canetas do irmão: a alemã e a espanhola que ganhara de amigos viajantes, a de fabricação limitada comemorativa do centenário de um banco, a americana cromada. Nenhuma delas foi capaz de chamar atenção do senhor aposentado que dormia as duas da tarde.
Os assaltantes entram no quarto da menina, se apossam de algo e rumam para o quarto do irmão. Uma tênue sombra se projeta pela porta do quarto e a menina corajosamente se impõe:
“Quem tá aí? Eu já chamei a polícia” - Não houve contato visual, e neste momento muitas coisas aconteceram simultaneamente. Objetos sendo derrubados, nem dava pra saber quantas pessoas tinham na casa, se duas, três ou quatro. Do cachorro não se sabia mais, podia ter infartado, sido assassinado, ou simplesmente desistido do combate, mas não emitia sons. Ouvindo os passos atrapalhados a menina então muda de tática e passa a gritar por socorro pela janela do quarto. Muito alto, chama atenção da vizinhança toda. Apesar da chuva batendo nas calhas, de trovões e das janelas fechadas, conseguiu ser ouvida. Dificil era entender o que se passava. Uma senhora na rua de baixo tentava convencer a mocinha que via pela janela: “não pula!”, enquanto agora, só agora, o vizinho do lado aparece: “Não saia daí”.
Os passos pela casa cessam, um carro parte, a campainha toca. A menina desce e recebe o vizinho de olhos arregalados, que educadamente preferiu esperar do lado de fora da casa para salvá-la. Ele pergunta-lhe pelo ocorrido enquanto rumam para a cozinha. Lá chegando apenas o que se vê é o chão inundado pela urina do cachorro, que não se encontrava em lugar nenhum. A menina cai em prantos, temendo pelo pior. Nisso percebe o cachorro tremendo feito vara verde debaixo da mesa. A menina chora ainda mais alto por saber que ele está salvo. O vizinho cumpre seu papel “vou preparar-lhe uma água com açúcar”. Outros vizinhos chegam.
O celular da menina toca “Porque você me deixou falando sozinho tanto tempo no MSN?” O cachorro agora quer morder os vizinhos e a menina ainda emocionada por vê-lo bem não consegue se justificar ao celular. Desliga e liga para o seu pai, que estava tratando de aguentar mais um dia o trabalho que detesta, para ter seus bens roubados e a vida de sua filha posta em risco.
Vizinhos curiosos estão muito preocupados em saber detalhes do corrido, alguns sobem as escadas para conhecer melhor o interior da casa. A menina toma o restinho da água com açúcar que o vizinho do lado acabou bebendo sem querer. O pai e uma viatura da policia chegam sincronicamente. De noite chega a mãe, medrosa como é, terá anos de perturbação e insônia por causa do episódio. O cachorro deve ter envelhecido uns cinco anos por conta da coisa toda.
Horas depois, sentados em silêncio, esperando a perícia, a família se assusta com o telefone que toca. “Chamada a cobrar, para aceitá-la, continue na linha após a identificação”. É o filho que mora longe, que mais um vez será poupado das tristezas e preocupações da família, como na vez que chegou de viagem e seu pai mostrou um cálculo retirado numa colecistectomia por videolaparoscopia realizada um mês antes, e que guardava no armarinho do banheiro.
Fala com toda a família, todos estão bem, a mãe colocou aparelho nos dentes, o pai tá de carro novo, a menina vai viajar. Não querem preocupá-lo, ele está muito longe e nada pode fazer, pensam que não há necessidade de compartilhar o legitimo sentimento da família. Descobrirá o que aconteceu somente quando vir o cadeado novo no portão. Resignado, pensará que precisa aproveitar bem a companhia daquelas pessoas queridas, pois poderia ter sido diferente.
O último a falar desliga o telefone, logo a perícia chega, faz o que deve ser feito e vai embora. Então, todos sobem para seus quartos, apagam as luzes para uma noite em claro. Ainda chovia muito.
sábado, 10 de julho de 2010
Na contagem regressiva
E se você ligasse a televisão no noticiário, fosse ler seu e-mail, ou estivesse dirigindo do trabalho para casa e ficasse sabendo pelo rádio que descobriu-se que o mundo acabará em 24h. E que não se trata de nenhuma previsão de Nostradamus ou Walter Mercado, mas sim de alguma coisa perfeitamente crível. O que você faria?
Isso já deve ter passado pela cabeça de quase todo mundo. A ideia já foi explorada em outras crônicas, novelas, canções, e naturalmente, também tenho minha teoria: Acho que se o Armargeddon fosse confirmado, seja lá qual fosse o desfecho, as pessoas iriam reagir basicamente de duas formas e o mundo se bipolarizaria. De um lado haveria a maior orgia já vista no planeta (juntamente também, devido ao nervosismo e falta de concentração inerentes a ocasião, o maior índice de broxamentos já registrado) e do outro, razoavelmente menor, haveria gente orando, pedindo um final misericordioso, se arrependendo e tentando garantir absolvição pelos pecados terrenos, ou algo que o valha. Eu tentaria juntar a galera e organizar a “festa do apocalipse”. Haveria também aqueles se excederiam no “esquenta” para o fim dos tempos e “queimaria a largada”, acabando-se antes do resto da turma.
Seria possível também que por um acesso de ansiedade, além de serem pegas totalmente desprevenidas, as pessoas não soubessem muito bem como lidar com a situação e não fizessem nada de especial. Outros, por preguiça, se convenceriam de que aproveitaram bem tudo o que tinha para ser vivido, e se contentariam em tomar sua última cervejinha assistindo da varanda a indiferença dos cachorros e passarinhos, que teriam o privilégio de não entenderem nada do que estaria se passando.
Enfim, o mundo um dia acaba, seja para todo mundo de uma vez, ou para uma pessoa só, e a isso chamamos de morte. Mas saber com exatidão quando vai acontecer deve ser algo muito tenso.
Assisti dias atrás a um filme que retratava os últimos dias de um sujeito no corredor da morte. Quando isso acontece, eles tem direito a algumas “regalias”, entre elas pedir qualquer coisa para sua última refeição. Refleti bastante a respeito, caso estivesse nesta situação. Fiquei em dúvida se pediria arroz, feijão e carne moída, com bacon e azeitonas (sem caroço), feitas pelo meu pai, ou um pastel de feira, de carne com queijo, acompanhados de um grande copo de caldo de cana com limão. Parece uma reflexão besta, e realmente deve ser, mas me fez pensar sobre os pequenos prazeres do dia-a-dia, e a importância que ganham imaginando-se situações-limite, como esta. É um exercício mental bacana de se fazer, de fato chega-se a algumas conclusões.
Ainda pensei que se a escolha fosse a carne moída, ainda pediria uma cervejinha, de preferência uma Original ou Serramalte, só que nesta ocasião eu teria de escolher alguém para dividir o momento, pois assim como parte do prazer de fumar está em manusear o cigarro (que fique claro que eu não fumo, mas já estudei bastante sobre o assunto), acender o isqueiro, e ver-se baforando a fumaça, parte do prazer de tomar uma gelada (sim, eu bebo; sem mais detalhes) está nela ser de garrafa, de deitar o copo para que não faça espuma enquanto a despeja (caso não seja uma longneck e você beba no bico) fazer um brinde a uma coisa qualquer (e aí que entra a companhia), e sentir a sensação única dela descendo pela garganta no(s) primeiro(s) gole(s).
Agora imagine-se tomando sua última cerveja.
Entretanto, há uma situação oposta a essas sobre as quais conversamos até agora. A de você saber que alguém vai passar dessa pra melhor. É “muito mais fácil” (e aqui essas aspas vão muito bem), saber que alguém de quem você gosta vai morrer, nem que seja daqui a pouco, do que se isso acontecer de supetão. Pois assim você terá o direito de se redimir, de quitar as diferenças, de dizer o quanto gosta da pessoa, entre todas as outras coisas que te deixará com a consciência em paz quando ela se for. Diferente dessas tragédias que acontecem por aí. Um bêbado atravessa a estrada, pega a contra-mão e mata alguém que você conhece, e que você por algum motivo tolo brigou da última vez que viu, e por isso vai ficar um bom tempo com dor na consciência, se perguntando porque ligava para coisas tão pequenas, e não aproveitava melhor o tempo que tinham juntos.
Não digo que devemos fazer provas de amor toda vez que as pessoas que amamos saem pela porta de casa, imaginando que podem ser atropeladas na próxima esquina. Digo apenas que se nos importássemos menos com detalhes e mesquinharias, fossemos um pouco mais capazes de dizer coisas agradáveis e sermos gentis, estaríamos melhor prevenidos nesses casos de desastre. Utilizando-se desses artifícios, e acrescentando um pouco mais de coragem e ousadia, mesmo quando a situação não for tão favorável, ter sonhos maiores e se permitir tentar alcançá-los, quem sabe se um dia a coisa toda for mesmo acabar assim de repente, não poderemos nos dar o luxo de simplesmente sentar e olhar os cachorros e passarinhos.
Isso já deve ter passado pela cabeça de quase todo mundo. A ideia já foi explorada em outras crônicas, novelas, canções, e naturalmente, também tenho minha teoria: Acho que se o Armargeddon fosse confirmado, seja lá qual fosse o desfecho, as pessoas iriam reagir basicamente de duas formas e o mundo se bipolarizaria. De um lado haveria a maior orgia já vista no planeta (juntamente também, devido ao nervosismo e falta de concentração inerentes a ocasião, o maior índice de broxamentos já registrado) e do outro, razoavelmente menor, haveria gente orando, pedindo um final misericordioso, se arrependendo e tentando garantir absolvição pelos pecados terrenos, ou algo que o valha. Eu tentaria juntar a galera e organizar a “festa do apocalipse”. Haveria também aqueles se excederiam no “esquenta” para o fim dos tempos e “queimaria a largada”, acabando-se antes do resto da turma.
Seria possível também que por um acesso de ansiedade, além de serem pegas totalmente desprevenidas, as pessoas não soubessem muito bem como lidar com a situação e não fizessem nada de especial. Outros, por preguiça, se convenceriam de que aproveitaram bem tudo o que tinha para ser vivido, e se contentariam em tomar sua última cervejinha assistindo da varanda a indiferença dos cachorros e passarinhos, que teriam o privilégio de não entenderem nada do que estaria se passando.
Enfim, o mundo um dia acaba, seja para todo mundo de uma vez, ou para uma pessoa só, e a isso chamamos de morte. Mas saber com exatidão quando vai acontecer deve ser algo muito tenso.
Assisti dias atrás a um filme que retratava os últimos dias de um sujeito no corredor da morte. Quando isso acontece, eles tem direito a algumas “regalias”, entre elas pedir qualquer coisa para sua última refeição. Refleti bastante a respeito, caso estivesse nesta situação. Fiquei em dúvida se pediria arroz, feijão e carne moída, com bacon e azeitonas (sem caroço), feitas pelo meu pai, ou um pastel de feira, de carne com queijo, acompanhados de um grande copo de caldo de cana com limão. Parece uma reflexão besta, e realmente deve ser, mas me fez pensar sobre os pequenos prazeres do dia-a-dia, e a importância que ganham imaginando-se situações-limite, como esta. É um exercício mental bacana de se fazer, de fato chega-se a algumas conclusões.
Ainda pensei que se a escolha fosse a carne moída, ainda pediria uma cervejinha, de preferência uma Original ou Serramalte, só que nesta ocasião eu teria de escolher alguém para dividir o momento, pois assim como parte do prazer de fumar está em manusear o cigarro (que fique claro que eu não fumo, mas já estudei bastante sobre o assunto), acender o isqueiro, e ver-se baforando a fumaça, parte do prazer de tomar uma gelada (sim, eu bebo; sem mais detalhes) está nela ser de garrafa, de deitar o copo para que não faça espuma enquanto a despeja (caso não seja uma longneck e você beba no bico) fazer um brinde a uma coisa qualquer (e aí que entra a companhia), e sentir a sensação única dela descendo pela garganta no(s) primeiro(s) gole(s).
Agora imagine-se tomando sua última cerveja.
Entretanto, há uma situação oposta a essas sobre as quais conversamos até agora. A de você saber que alguém vai passar dessa pra melhor. É “muito mais fácil” (e aqui essas aspas vão muito bem), saber que alguém de quem você gosta vai morrer, nem que seja daqui a pouco, do que se isso acontecer de supetão. Pois assim você terá o direito de se redimir, de quitar as diferenças, de dizer o quanto gosta da pessoa, entre todas as outras coisas que te deixará com a consciência em paz quando ela se for. Diferente dessas tragédias que acontecem por aí. Um bêbado atravessa a estrada, pega a contra-mão e mata alguém que você conhece, e que você por algum motivo tolo brigou da última vez que viu, e por isso vai ficar um bom tempo com dor na consciência, se perguntando porque ligava para coisas tão pequenas, e não aproveitava melhor o tempo que tinham juntos.
Não digo que devemos fazer provas de amor toda vez que as pessoas que amamos saem pela porta de casa, imaginando que podem ser atropeladas na próxima esquina. Digo apenas que se nos importássemos menos com detalhes e mesquinharias, fossemos um pouco mais capazes de dizer coisas agradáveis e sermos gentis, estaríamos melhor prevenidos nesses casos de desastre. Utilizando-se desses artifícios, e acrescentando um pouco mais de coragem e ousadia, mesmo quando a situação não for tão favorável, ter sonhos maiores e se permitir tentar alcançá-los, quem sabe se um dia a coisa toda for mesmo acabar assim de repente, não poderemos nos dar o luxo de simplesmente sentar e olhar os cachorros e passarinhos.
sábado, 3 de julho de 2010
Novos Horizontes
Engraçado a quantidade de pessoas naturais de diferentes estados brasileiros que reclama para si a característica de não ter sotaque. Claro que isso não vale para cariocas, gaúchos ou a turma do nordeste em geral, mas bastante gente realmente acha que o povo ao qual pertence possui uma cadência “neutra” quando fala.
Semana passada conversei sobre isso em duas situações diferentes: a primeira, tomando chop de vinho junto a um casal de amigos brasilienses e a segunda almoçando no restaurante universitário, num domingo após a missa, com um colega capixaba, e nas duas oportunidades, as pessoas não tinham a mínima dúvida de que não possuíam sotaque algum e usaram a mesma comparação: “Sabe o William Bonner apresentando o Jornal Nacional? É assim que a gente fala”.
“Claro, claro” foi minha resposta, pensando intimamente, como bom paulistano que sou, que definitivamente quem não tem sotaque somos nós. E convicto de que, se bobeasse, o William Bonner tivesse sido criado aqui pela vizinhança.
À parte o sotaque, é interessante também como carregamos pré-conceitos sobre o povo de determinada região, que muitas vezes não confere com a realidade quando de fato conhecemos as pessoas daquela localidade. Nem todo carioca é malandro ou todo baiano é preguiçoso. Nem todo gaúcho tem tendências homossexuais assim como nem todo mineiro só vive de pão de queijo. Isso parece óbvio, mas é inegável que se somos apresentados a um novo colega de trabalho carioca, antes de conhece-lo bem, achamos que ele vai nos passar a perna, se ele for baiano, melhor não pedir favores senão vai demorar uma eternidade para serem feitos; quando você voltar do almoço vai ter uma rede estendida no meio do escritório e, se for gaúcho, ficará com um pé atrás se ele te convidar para tomar uma cervejinha depois do expediente.
Há menos de uma semana fui com alguns amigos num barzinho lá em Floripa e acabamos conhecendo umas moças que estavam na mesa ao lado. Comecei conversando com uma carioca, que afirmava que os paulistas são convencidos e superficiais. “Só olham a casca (“caixxxca”)”, dizia ela. Passamos uns bons minutos conversando, perguntei o que fazia da vida (resposta: “sucesso”), o que estava fazendo em Floripa e sobre o vida cultural do Rio. Perguntei sobre a boemia da Lapa, shows no Circo Voador, Fundição Progresso, sobre a Vila Isabel (gosto muito de Noel Rosa), entre outros. O papo fluía bem, até quando apresentei um amigo goiano, o que causou um grande abalo nos rumos da noite.
“Goiânia? Sério? Olha amigas, ele é de goiânia! Adoro sua terra, o povo de lá, só tem gente boa, mulher bonita...”. Meia duzia de palavras, uma música sertaneja bem dançada e a fatura já havia sido feita. Fiquei refletindo sobre aquele papinho todo de “olhar somente a casca”, resolvi pedir mais um chopinho e me prometi que da próxima vez jurarei que sou de Goiás.
Acho bonito o sentimento que cada um tem por sua terra. Alguns se excedem e acham que só o lugar onde nasceu é que presta. Isso por vezes gera grandes discussões. Todo radicalismo tende a ser um pé no saco, e como disse um conhecido meu certa vez, nunca vale a pena discutir com um chato radicalista: você acaba caindo no mesmo nível mas ele sempre ganha a discussão porque tem experiência.
Mas no geral, as pessoas falam com um orgulho ingênuo sobre suas raízes. Estudando com uma turma na qual há pessoas de vários cantos do país, estou ciente de que tenho muito a conhecer. Alguns lugares nem é preciso conviver com alguém que lhe diga que lá é bacana de se visitar. Costumo dizer que depois de ler Jorge Amado e escutar Dorival Caymmi tenho receio de ir a Bahia e não querer voltar nunca mais. Fernando de Noronha é Hors Concours e Bonito todo mundo que foi também sempre coloca no top 3.
Até hoje não conheci muitos dos clássicos pontos turísticos do país, mas tenho a sorte de ter bons amigos, que me fizeram conhecer lugares talvez tão legais quantos estes clássicos, tanto que estou idealizando uma futura empreitada literária, que será batizada de: “Rumos do Fumaça: Um guia turístico para quem gosta de vassourar”, (aos desavisados, Fumaça é meu apelido na faculdade, e traduzindo: “vassourar” = aproveitar a vida de forma louca e inconsequente), onde serão dadas dicas de como aproveitar bem sua visita à Festa do Pinhão em Lages, Balneário Gaivota no sul catarinense, micro-cidades do noroeste paranaense, a rota do xadrez mineiro, entre outros.
Enquanto isso não acontece, me permito emprestar uma frase de um grande viajante que, por ora, possui coisas mais interessantes a dizer a respeito de alguns assuntos sobre os quais resolvi discorrer por aqui.
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”(Amyr Klink)
Semana passada conversei sobre isso em duas situações diferentes: a primeira, tomando chop de vinho junto a um casal de amigos brasilienses e a segunda almoçando no restaurante universitário, num domingo após a missa, com um colega capixaba, e nas duas oportunidades, as pessoas não tinham a mínima dúvida de que não possuíam sotaque algum e usaram a mesma comparação: “Sabe o William Bonner apresentando o Jornal Nacional? É assim que a gente fala”.
“Claro, claro” foi minha resposta, pensando intimamente, como bom paulistano que sou, que definitivamente quem não tem sotaque somos nós. E convicto de que, se bobeasse, o William Bonner tivesse sido criado aqui pela vizinhança.
À parte o sotaque, é interessante também como carregamos pré-conceitos sobre o povo de determinada região, que muitas vezes não confere com a realidade quando de fato conhecemos as pessoas daquela localidade. Nem todo carioca é malandro ou todo baiano é preguiçoso. Nem todo gaúcho tem tendências homossexuais assim como nem todo mineiro só vive de pão de queijo. Isso parece óbvio, mas é inegável que se somos apresentados a um novo colega de trabalho carioca, antes de conhece-lo bem, achamos que ele vai nos passar a perna, se ele for baiano, melhor não pedir favores senão vai demorar uma eternidade para serem feitos; quando você voltar do almoço vai ter uma rede estendida no meio do escritório e, se for gaúcho, ficará com um pé atrás se ele te convidar para tomar uma cervejinha depois do expediente.
Há menos de uma semana fui com alguns amigos num barzinho lá em Floripa e acabamos conhecendo umas moças que estavam na mesa ao lado. Comecei conversando com uma carioca, que afirmava que os paulistas são convencidos e superficiais. “Só olham a casca (“caixxxca”)”, dizia ela. Passamos uns bons minutos conversando, perguntei o que fazia da vida (resposta: “sucesso”), o que estava fazendo em Floripa e sobre o vida cultural do Rio. Perguntei sobre a boemia da Lapa, shows no Circo Voador, Fundição Progresso, sobre a Vila Isabel (gosto muito de Noel Rosa), entre outros. O papo fluía bem, até quando apresentei um amigo goiano, o que causou um grande abalo nos rumos da noite.
“Goiânia? Sério? Olha amigas, ele é de goiânia! Adoro sua terra, o povo de lá, só tem gente boa, mulher bonita...”. Meia duzia de palavras, uma música sertaneja bem dançada e a fatura já havia sido feita. Fiquei refletindo sobre aquele papinho todo de “olhar somente a casca”, resolvi pedir mais um chopinho e me prometi que da próxima vez jurarei que sou de Goiás.
Acho bonito o sentimento que cada um tem por sua terra. Alguns se excedem e acham que só o lugar onde nasceu é que presta. Isso por vezes gera grandes discussões. Todo radicalismo tende a ser um pé no saco, e como disse um conhecido meu certa vez, nunca vale a pena discutir com um chato radicalista: você acaba caindo no mesmo nível mas ele sempre ganha a discussão porque tem experiência.
Mas no geral, as pessoas falam com um orgulho ingênuo sobre suas raízes. Estudando com uma turma na qual há pessoas de vários cantos do país, estou ciente de que tenho muito a conhecer. Alguns lugares nem é preciso conviver com alguém que lhe diga que lá é bacana de se visitar. Costumo dizer que depois de ler Jorge Amado e escutar Dorival Caymmi tenho receio de ir a Bahia e não querer voltar nunca mais. Fernando de Noronha é Hors Concours e Bonito todo mundo que foi também sempre coloca no top 3.
Até hoje não conheci muitos dos clássicos pontos turísticos do país, mas tenho a sorte de ter bons amigos, que me fizeram conhecer lugares talvez tão legais quantos estes clássicos, tanto que estou idealizando uma futura empreitada literária, que será batizada de: “Rumos do Fumaça: Um guia turístico para quem gosta de vassourar”, (aos desavisados, Fumaça é meu apelido na faculdade, e traduzindo: “vassourar” = aproveitar a vida de forma louca e inconsequente), onde serão dadas dicas de como aproveitar bem sua visita à Festa do Pinhão em Lages, Balneário Gaivota no sul catarinense, micro-cidades do noroeste paranaense, a rota do xadrez mineiro, entre outros.
Enquanto isso não acontece, me permito emprestar uma frase de um grande viajante que, por ora, possui coisas mais interessantes a dizer a respeito de alguns assuntos sobre os quais resolvi discorrer por aqui.
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”(Amyr Klink)
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Quem sou eu
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- Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.