Eu estava no Père-Lachaise procurando o túmulo do Jim Morisson quando encontrei um simpático casal, ele inglês, ela espanhola, mapa do cemitério na mão, a procura da morada eterna não só do vocalista dos Doors, mas como de uma dezena de outros figurões que por escolha ou acaso, jazem no terreno do 20º Arrondissement, em Paris.
Em frente ao túmulo do Morrison há uma árvore com diversas inscrições de fãs, a maior e mais evidente delas clamando um dos sucessos da banda “Show me the way to the next whisky bar”. Foi defronte a ela que o casal resolveu me convidar para tomar uma cervejinha depois da caça aos túmulos.Tive de dar uma desculpa esfarrapada qualquer, pois sabia exatamente o que tinha na carteira: 3 passes de metrô e 5 euros, nada mais.
No dia seguinte eu voltaria ao Brasil, e o dinheiro que levei para a viagem, depois de lambanças aeroportuárias e inconsequências etílicas, tinha literalmente acabado (na verdade há muito tempo, se não fosse o violão emprestado com qual resolvi improvisar alguns acordes e levantar uns trocados numa praça, durante minha estadia de um mês em Heidelberg).
Evadiu-se o casal, e eu tracei meu plano: Um passe do metrô para ir à Basilica de Sacré Coeur, outro para voltar ao albergue. Cinco euros pagavam um lanche do McDonalds, e mais uma passagem de metrô garantiria minha chegada ao aeroporto no dia seguinte. Estando dentro da aeronave, não precisaria me preocupar em ser servido apenas de goiabinha ou clube social, e no mais, estando em Paris, me parecia uma boa ideia encarnar Gil Pender, alter-ego do Woody Allen no Meia-Noite em Paris, e ver no que ia dar.
A visita à Sacré Coeur foi um dos pontos altos da viagem. A basílica em si é bem bonita, mas o melhor de tudo foi o fato de que quando cheguei , havia uns artistas de rua tocando grandes sucessos para uma multidão sentada nas escadarias que dão acesso à basílica. Juntei-me a massa, de um lado uma japonesaiada (eles estão por toda parte), do outro o que parecia ser uma família local, mas estando por ali, impossível saber. O mundo inteiro estava ali, um pessoal da África vendendo barbantes entrelaçados multicoloridos para colocar no punho, paquistaneses vendendo crepe, turistas da América, Oceania, Antártida, Palhoça, todos ali, juntos, ouvindo os cantores entoarem os grandes sucessos.
Sem nenhum compromisso em absoluto, apenas com a obrigação de voltar à terrinha no dia seguinte, permiti-me ficar por ali, a lembrar do que tinham sido aqueles dois meses de Europa, dos amigos e família que em breve eu reveria, da quantidade de gente, lugares e situações novas que conheci. Será que alguma coisa havia mudado? Do que serviu aquela viagem?
Voltando ao albergue, parei no pub que ficava no piso térreo e a troco de nada comecei a conversar com uma funcionária egípcia que lá trabalhava. Nisso mais gente foi chegando ao balcão, pessoas que a conheciam, e por tabela me inseri na conversa. Papo vai, papo vem, uma caneca de cerveja surge a minha frente, depois outra, e mais uma. Meia-hora depois estava eu em outra mesa, conversando, num exemplar portunhol, com duas argentinas, uma mexicana e uma espanhola. “Como você fala bem espanhol”, me incentivaram elas, puramente reconhecendo meu esforço. E eu, achando que estava me dando muito bem (percepção ligeiramente bêbada) ainda perguntei: mas meu sotaque tá mais pro da Espanha, Argentina ou México? Entreolharam-se e com um sorriso amarelo de canto de boca, quase em uníssono, responderam: “Nenhum”.
Uma bola fora de leve e quando menos esperei estava noutra mesa, de uma turma colombiana muito animada. Tenho foto dessa turma, qualquer hora posto; eles foram muito legais comigo, foram eles que me lembraram de que eu tinha um voo no dia seguinte e sugeriram que eu fosse me deitar, depois de perdida a conta de canecas de cerveja (tudo por conta de terceiros) e de eu ter convidado a funcionária egípcia para ir comigo até a salinha de bagagens a 1h da manhã.
Uma noite até que bem-comportada comparada a uma outra, nesta mesma Paris, no início da viagem, quando, depois de algumas garrafas de vinho e uma gorfada na Lan House de um albergue, um amigo meu foi encontrado por mim dormindo dentro do elevador, subindo e descendo por sei lá quanto tempo.
O que de fato mais marcou foi o crepúsculo na Sacré Coeur, sem nuvens, especificamente a hora em que os artistas estavam cantando “Imagine”, do John Lennon. E eu a ver toda aquela gente dos quatro cantos encontrando-se, conversando, observando, conhecendo-se, trocando ideias (literalmente) e percebendo como é rico e importante esse intercâmbio. Ouvindo as palavras de Lennon lembrei-me de alguns amigos meus que são viajantes por natureza, que se sobra algum dinheiro, estão de mochila nas costas se jogando pelo mundo e, lembrando-me de suas posturas diante do mundo e das outras pessoas, ficou muito claro a importância disso tudo.
Volto a recordar um trecho célebre do Amyr Klink: “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver".
sábado, 21 de abril de 2012
quarta-feira, 28 de março de 2012
Baseado numa consulta real
Seu José foi consultar-se com um cirurgião cardíaco por conta de uma estenose da válvula aórtica (abertura incompleta da válvula, devido ao seu enrijecimento, prejudicando a função cardíaca). Chegando ao consultório começou logo, como estava habituado, a despejar a montoeira de exames na mesa do doutor.
- Não Seu José, primeiro conta como tudo começou.
O senhor, recém-chegado à hoje denominada (de forma demagógica e controversa) “melhor idade”, estranhou (por mais absurdo que pareça) a pergunta, mas resolveu levar ao pé da letra. Contou que há tempos teve uma dor muito forte, em região lombar alta, irradiada para o abdome, acompanhada de vômitos. O médico que o atendeu na ocasião diagnosticou pedras nos rins e delas tratou, mas orientou-o a consultar um cardiologista, pois casualmente havia ouvido um “soprinho no coração”. Tratados os rins foi ao cardiologista, o qual disse que o soprinho era um soprão. Solicitou exames, que mostraram a tal estenose, cujo tratamento deveria ser cirúrgico. Por isso estava ali naquele momento, em frente ao especialista indicado.
Dado que o doutor até então não interviera no relato, Seu José sentiu-se a vontade para mostrar uma cicatriz no braço, que ganhou após a recente remoção de um ceratoacantoma, tumor de pele que leva ao aparecimento de uma massa crostosa, rija.
Somente quando o paciente se calou, foi que o cirurgião indagou:
- Mas seu José, o que é que está endurecendo o senhor? (pedra nos rins, pele grossa, enrijecimento valvar...)
Apenas com essa pergunta o doutor mostrou que por mais que a nossa medicina esteja cada vez mais fragmentada e quase puramente intervencionista, até um sub-especialista pode e deve ter uma visão holística dos pacientes.
A profissão médica exige uma compreensão do ser humano que vai muito além do físico-químico. Exige-se, acima disso, que se reconheça que por mais conhecimento que tenhamos acumulado, não somos únicos detentores do saber. Há outros profissionais da área da saúde que, quando partícipes, não somente na execução de ordens médicas, como também convidados a colaborar na tomada de decisões, são capazes de melhorar sobremaneira o tratamento do paciente e ajudar na promoção de sua saúde.
Seu José ficou aturdido com a pergunta. Não era iletrado nem nada, muito pelo contrário, tinha sólida formação acadêmica, e entendeu muito bem a pergunta. Daí em diante viu-se dizendo ao médico coisas que jamais imaginaria. Falou de como foi idealista na juventude, de como lutou por certas causas e da frustração de não ter conseguido aquilo que queria. Falou de um casamento fracassado e dos filhos que não o visitavam mais. Chorou.
Passou pela cirurgia, recuperou-se, deu-se conta que não perderia nada em tentar tornar a tal demagógica e controversa “melhor idade” em algo o mais próximo disso; retomou parte de seus projetos e tarde dessas me contou essa história.
- Não Seu José, primeiro conta como tudo começou.
O senhor, recém-chegado à hoje denominada (de forma demagógica e controversa) “melhor idade”, estranhou (por mais absurdo que pareça) a pergunta, mas resolveu levar ao pé da letra. Contou que há tempos teve uma dor muito forte, em região lombar alta, irradiada para o abdome, acompanhada de vômitos. O médico que o atendeu na ocasião diagnosticou pedras nos rins e delas tratou, mas orientou-o a consultar um cardiologista, pois casualmente havia ouvido um “soprinho no coração”. Tratados os rins foi ao cardiologista, o qual disse que o soprinho era um soprão. Solicitou exames, que mostraram a tal estenose, cujo tratamento deveria ser cirúrgico. Por isso estava ali naquele momento, em frente ao especialista indicado.
Dado que o doutor até então não interviera no relato, Seu José sentiu-se a vontade para mostrar uma cicatriz no braço, que ganhou após a recente remoção de um ceratoacantoma, tumor de pele que leva ao aparecimento de uma massa crostosa, rija.
Somente quando o paciente se calou, foi que o cirurgião indagou:
- Mas seu José, o que é que está endurecendo o senhor? (pedra nos rins, pele grossa, enrijecimento valvar...)
Apenas com essa pergunta o doutor mostrou que por mais que a nossa medicina esteja cada vez mais fragmentada e quase puramente intervencionista, até um sub-especialista pode e deve ter uma visão holística dos pacientes.
A profissão médica exige uma compreensão do ser humano que vai muito além do físico-químico. Exige-se, acima disso, que se reconheça que por mais conhecimento que tenhamos acumulado, não somos únicos detentores do saber. Há outros profissionais da área da saúde que, quando partícipes, não somente na execução de ordens médicas, como também convidados a colaborar na tomada de decisões, são capazes de melhorar sobremaneira o tratamento do paciente e ajudar na promoção de sua saúde.
Seu José ficou aturdido com a pergunta. Não era iletrado nem nada, muito pelo contrário, tinha sólida formação acadêmica, e entendeu muito bem a pergunta. Daí em diante viu-se dizendo ao médico coisas que jamais imaginaria. Falou de como foi idealista na juventude, de como lutou por certas causas e da frustração de não ter conseguido aquilo que queria. Falou de um casamento fracassado e dos filhos que não o visitavam mais. Chorou.
Passou pela cirurgia, recuperou-se, deu-se conta que não perderia nada em tentar tornar a tal demagógica e controversa “melhor idade” em algo o mais próximo disso; retomou parte de seus projetos e tarde dessas me contou essa história.
terça-feira, 20 de março de 2012
Um conto insólito
Chegou em casa, desafroxou a gravata e começou a se embriagar: de súbito era corno. O pé de igualdade neste direito lhe era intragável, mais ainda do que aquele charuto vagabundo, pseudo-cubano, que ganhou de presente, e o tango argentino que resolveu botar na vitrola, onde mais tarde arremessaria o copo de Wyborowa pura com gelo (atitude da qual se arrependeria de imediato, imaginando ser típico da esposa, ainda mais com La Cumparsita ao fundo). Um pequeno escândalo pequeno-burguês no nível de clichê mais alto que se poderia supor.
A cada gole que tomava a cena de horas antes se tornava mais absurda, afinal, como podia sua namoradinha de infância, reencontrada na pós-graduação em pedagogia Freiriana, tornada esposa em cerimônia religiosa tradicional, lua de mel em Poços de Caldas (estavam mal de grana, comprando apartamento e aquela coisarada toda), mãe de seus dois filhos e entrando no Motel Dallas às quatro da tarde com outra pessoa que não ele!
Não que ele nunca tivesse feito coisa parecida, pelo contrário e desde o inicio, mas oras, não é assim que funciona em nossos tempos, e alias, em todos os outros? “Monogamia nunca foi algo natural no reino animal”, diria ele a esposa se algum dia ela viesse com papo furado pra cima dele. “Animais comem a própria merda”, disse a esposa de um amigo do departamento, quando este tentou enrolar com a história da poligamia, mas sua mulher jamais faria isso, era o que ele imaginava até então.
E a vida parecia ser tão boa, eles faziam sexo com frequência (no mínimo aceitável, ele julgava), faziam programas juntos, foram assistir ao show do Chico, à nova peça do Felipe Hirsch, tinham viagem programada para a Disney (levar os filhos, que estavam indo bem no colégio). Casa na praia, bons amigos, ele fabricava cerveja caseira, nem tinha uma amante fixa, apenas uma ou outra escapada eventual. Ela terminando o pós-doc, fazendo pilates e dando pra outro cara, ou outros!
Deixou a meia garrafa de Wyborowa de lado, apagou o charuto e tentou ser racional. Não conseguindo, pensou pela primeira vez no arremesso do copo, mas deixando-o de lado, pegou uma longneck de sua própria fabricação e aumentou o som. Carlos Gardel bombando na vitrola e os meninos por chegar, eles que nunca viram o pai bêbado, a não ser em festividades. A esposa (vagabunda!) ia chegar sabe-se lá quando, já não tinha certeza dos horários das aulas do pós-doc, a verdade é que depois daquela cena tinha certeza de pouca coisa.
A mistura etílica começou a fazer efeito, e ele decidiu que ficaria ali no sofá até alguém entrar pela porta da sala, e independente de quem fosse ele diria “Vagabunda!”. Se fosse a esposa, seria auto-explicativo, se fossem os filhos, trazidos pelo ônibus escolar, ele completaria com “sua mãe”. Esse sim seria o início da tragédia pequeno-burguesa, mas não havia outra alternativa, ele estava cada vez mais convicto de que este era o papel que lhe caberia a partir de então.
Passou um longo tempo e ninguém chegou, estava voltando para a vodka e entrando na fase de achar culpados. Culpou a rotina, os filhos, o feminismo, a si mesmo, a cerveja que estava tomando, o pilates e até Paulo Freire, mas não se contentou com ninguém. Foi então que do lado do sofá tocou o telefone, e ele num gesto automático atendeu. Era sua mãe, que morava alguns andares abaixo, e pediu que ele descesse para ajudar a consertar o chuveiro. Viúva que era, sempre apelava para o filho nesses pequenos consertos domésticos.
Ele de pronto aceitou, e bêbado, manteve a idéia de dizer “Vagabunda” a primeira pessoa que surgisse pelas portas (agora seria sua mãe, mas ele explicaria rápido). Estava resignado sobre seu novo status, e precisava compartilhar o dramalhão.
Antes de descer pegou finalmente o copo de Wyborowa e tacou-o na vitrola.
Desceu os andares do prédio ensaiando mentalmente tudo o que se seguiria ao “Vagabunda”, mas não foi capaz de elaborar nada muito sofisticado e resolveu que improvisaria. Chegou à porta, tocou a campainha, ouviu passos, a porta se abrindo, tudo muito escuro e como não enxergou nada, já teve de improvisar dizendo “Mãe?” Súbito as luzes se acendem, antes das pupilas se acomodarem à nova iluminação ele ouve “Surpresa!”, buzinas e bexigas fazendo barulho, duas criaturas se agarrando as suas pernas e um coro cantando “Parabéns pra você...”.
Quando se acostumou à luz e à idéia do aniversário, que ele não se lembrara em momento algum durante o dia, viu a mãe, os filhos, a esposa e outras pessoas que depois não se recordaria. Impossível descrever a insólita sensação da qual se apossou naquele momento. Beijou a cabeça das crianças, pegou o mais novo no colo, uma lágrima escorreu-lhe enquanto encarava a esposa. “Vagabunda”, foi o que mais uma vez ele quase disse, pensando que há poucas horas e sabe-se lá quantas vezes mais ela se entregara a outro homem, (“não poupou nem meu aniversário!”). Pensou na vergonha disso tudo, no pessoal da firma sabendo, se é que ela não saia com algum deles. E agora ali, linda, autêntica, a garota ginasial, a mãe de seus filhos, a adultera, todas elas, surpreendentemente numa só.
Ainda assim, o “vagabunda” saiu-lhe “obrigado”, não por bom-senso de ter ali seus filhos, sua mãe e uma festa surpresa, mas por render-se a cada vez mais banal hipocrisia conjugal. Neste caso, alguns ainda chamariam de “corno-mansice aguda” de sua parte, mas o que se entende sobre a vida e as relações? Dito isso, foi ajudar sua mãe a repartir o bolo.
A cada gole que tomava a cena de horas antes se tornava mais absurda, afinal, como podia sua namoradinha de infância, reencontrada na pós-graduação em pedagogia Freiriana, tornada esposa em cerimônia religiosa tradicional, lua de mel em Poços de Caldas (estavam mal de grana, comprando apartamento e aquela coisarada toda), mãe de seus dois filhos e entrando no Motel Dallas às quatro da tarde com outra pessoa que não ele!
Não que ele nunca tivesse feito coisa parecida, pelo contrário e desde o inicio, mas oras, não é assim que funciona em nossos tempos, e alias, em todos os outros? “Monogamia nunca foi algo natural no reino animal”, diria ele a esposa se algum dia ela viesse com papo furado pra cima dele. “Animais comem a própria merda”, disse a esposa de um amigo do departamento, quando este tentou enrolar com a história da poligamia, mas sua mulher jamais faria isso, era o que ele imaginava até então.
E a vida parecia ser tão boa, eles faziam sexo com frequência (no mínimo aceitável, ele julgava), faziam programas juntos, foram assistir ao show do Chico, à nova peça do Felipe Hirsch, tinham viagem programada para a Disney (levar os filhos, que estavam indo bem no colégio). Casa na praia, bons amigos, ele fabricava cerveja caseira, nem tinha uma amante fixa, apenas uma ou outra escapada eventual. Ela terminando o pós-doc, fazendo pilates e dando pra outro cara, ou outros!
Deixou a meia garrafa de Wyborowa de lado, apagou o charuto e tentou ser racional. Não conseguindo, pensou pela primeira vez no arremesso do copo, mas deixando-o de lado, pegou uma longneck de sua própria fabricação e aumentou o som. Carlos Gardel bombando na vitrola e os meninos por chegar, eles que nunca viram o pai bêbado, a não ser em festividades. A esposa (vagabunda!) ia chegar sabe-se lá quando, já não tinha certeza dos horários das aulas do pós-doc, a verdade é que depois daquela cena tinha certeza de pouca coisa.
A mistura etílica começou a fazer efeito, e ele decidiu que ficaria ali no sofá até alguém entrar pela porta da sala, e independente de quem fosse ele diria “Vagabunda!”. Se fosse a esposa, seria auto-explicativo, se fossem os filhos, trazidos pelo ônibus escolar, ele completaria com “sua mãe”. Esse sim seria o início da tragédia pequeno-burguesa, mas não havia outra alternativa, ele estava cada vez mais convicto de que este era o papel que lhe caberia a partir de então.
Passou um longo tempo e ninguém chegou, estava voltando para a vodka e entrando na fase de achar culpados. Culpou a rotina, os filhos, o feminismo, a si mesmo, a cerveja que estava tomando, o pilates e até Paulo Freire, mas não se contentou com ninguém. Foi então que do lado do sofá tocou o telefone, e ele num gesto automático atendeu. Era sua mãe, que morava alguns andares abaixo, e pediu que ele descesse para ajudar a consertar o chuveiro. Viúva que era, sempre apelava para o filho nesses pequenos consertos domésticos.
Ele de pronto aceitou, e bêbado, manteve a idéia de dizer “Vagabunda” a primeira pessoa que surgisse pelas portas (agora seria sua mãe, mas ele explicaria rápido). Estava resignado sobre seu novo status, e precisava compartilhar o dramalhão.
Antes de descer pegou finalmente o copo de Wyborowa e tacou-o na vitrola.
Desceu os andares do prédio ensaiando mentalmente tudo o que se seguiria ao “Vagabunda”, mas não foi capaz de elaborar nada muito sofisticado e resolveu que improvisaria. Chegou à porta, tocou a campainha, ouviu passos, a porta se abrindo, tudo muito escuro e como não enxergou nada, já teve de improvisar dizendo “Mãe?” Súbito as luzes se acendem, antes das pupilas se acomodarem à nova iluminação ele ouve “Surpresa!”, buzinas e bexigas fazendo barulho, duas criaturas se agarrando as suas pernas e um coro cantando “Parabéns pra você...”.
Quando se acostumou à luz e à idéia do aniversário, que ele não se lembrara em momento algum durante o dia, viu a mãe, os filhos, a esposa e outras pessoas que depois não se recordaria. Impossível descrever a insólita sensação da qual se apossou naquele momento. Beijou a cabeça das crianças, pegou o mais novo no colo, uma lágrima escorreu-lhe enquanto encarava a esposa. “Vagabunda”, foi o que mais uma vez ele quase disse, pensando que há poucas horas e sabe-se lá quantas vezes mais ela se entregara a outro homem, (“não poupou nem meu aniversário!”). Pensou na vergonha disso tudo, no pessoal da firma sabendo, se é que ela não saia com algum deles. E agora ali, linda, autêntica, a garota ginasial, a mãe de seus filhos, a adultera, todas elas, surpreendentemente numa só.
Ainda assim, o “vagabunda” saiu-lhe “obrigado”, não por bom-senso de ter ali seus filhos, sua mãe e uma festa surpresa, mas por render-se a cada vez mais banal hipocrisia conjugal. Neste caso, alguns ainda chamariam de “corno-mansice aguda” de sua parte, mas o que se entende sobre a vida e as relações? Dito isso, foi ajudar sua mãe a repartir o bolo.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Aos calouros
Se um dia me dessem a incumbência de escrever algo para deixar para a posteridade, dissessem: “de tudo o que você escrever, só vai sobrar isso”, acho que escolheria um apelo aos recém-ingressos na universidade. Algum manual do tipo “A melhor forma de aproveitar a universidade, baseado em evidências e narrativas daqueles que apesar de tudo conseguiram se formar”.
Algo que os fizesse entender a importância de levar a sério o compromisso de fazer valer a pena essa vida que se inicia. Mostrar que o tipo de profissional no qual se tornará não tem relação com a quantidade de cachaça consumida, de aulas não assistidas, e de 5,75 tirados. (Tenho 2 grandes amigos que foram os campeões de 5,75 e demais quesitos supracitados e hoje fazem residência médica na Unifesp e Unicamp. Repito: é baseado em evidências!)
Alias, ouso dizer que o melhor profissional está muito longe de ser aquele que dedicou todo o tempo de faculdade aos estudos. O que está em jogo não é simplesmente sua formação técnica, mas também sua formação humana, seu caráter, que será moldado de acordo com as experiências que você se permitir ter neste período, aliadas a base que você já trás de antes. Em nenhum outro momento da vida você conhecerá pessoas tão diferentes, com formas de pensar e agir distintas da sua, que te farão entender que existem muitas possibilidades além das que você era capaz de imaginar.
O ideal mesmo é que houvesse um tutor para cada calouro, ou grupo de calouros. Um veterano, quase formado, o qual o calouro devesse consultar (e seguir cegamente) toda vez que ficasse em dúvida diante de questões elementares, do tipo “hoje é sexta: estudo pra prova de segunda ou vou pra festa?”, ou mesmo “Agora é noite de domingo, a prova é amanhã e não estudei nada, to de ressaca da festa de ontem e a galera ta chamando pra ir pro bar: estudo ou chego bêbado na prova?” Por que afinal, independente do perfil da pessoa que entra, todos saem pensando: Poderia ter aproveitado mais.
Enquanto vou articulando a idéia e angariando colaboradores para a versão completa do manual, deixo aqui alguns tópicos que julgo fundamentais para um bom proveito dessa memorável etapa de nossa passagem terrena, a que chamamos vida universitária:
- Vá a todas as festas universitárias que conseguir, o ideal é que tente fazer isso até o final da faculdade, independente do curso que estiver matriculado e sua carga horária. Vá desde a mais tradicional até o happy hour da Oceanografia (que pode ser muito mais legal do que você imagina). Por vezes os interesses vão mudando, e vão surgindo outros compromissos. Mas é importante tentar, essas festas te proporcionarão... várias coisas.
- Administre suas presenças em sala de aula e falte o máximo que puder. Não há motivos para ficar feito zumbi ou dormir na frente do professor. Mesmo as melhores faculdades tem várias aulas ruins, que imploram para que você aproveite melhor seu tempo. Depois de formado você não terá chance de matar o trabalho. Aproveite enquanto pode.
- Cole sempre que precisar! (e seja generoso caso alguém por perto necessite) Você já passou no vestibular e não precisa provar a ninguém que é capaz de tirar boa nota num teste. A maioria das provas que fazemos não prova absolutamente nada; vivemos num sistema de avaliação completamente arcaico e deficiente. Ademais, dividir o conhecimento com o semelhante é uma das coisas mais nobres que você pode fazer (tudo que integra é bom, tudo que separa é ruim)
- Mesmo que o melhor curso na área que você escolheu esteja na sua cidade natal, vale a pena priorizar estudar fora de casa. Você terá experiências muito valiosas tendo de se virar sozinho e não precisar dar satisfação a toda hora. Além disso, muito da faculdade quem faz é o aluno, dependendo de como você levar a coisa, não fará diferença alguma.
- Viaje o máximo que puder, seja para fazer estágio (em outro estado ou outro país) ou mochilão com os amigos. Essa é a época pra isso, só tem a enriquecer sua forma de entender as coisas, e saber lidar com as adversidades, além de toda diversão da viagem! (Não ter dinheiro não é desculpa – faça monitoria, estágios remunerados, pesquisas, lave os pratos do RU; Quem quer, sempre consegue – baseado em evidências!)
- E fundamental: Faça muitos amigos. Trate todo mundo bem e não prejudique ninguém. Com certeza você se decepcionará com algumas pessoas, e é provável que você mesmo também decepcione outras. Mas a maioria das coisas mostrar-se-ão pequenas bobagens, e nesse meio de caminho, essas mesmas pessoas se revelarão pessoas fantásticas, a quem chamaremos verdadeiramente de irmãos, e que iremos querer ter por perto por toda vida.
Algo que os fizesse entender a importância de levar a sério o compromisso de fazer valer a pena essa vida que se inicia. Mostrar que o tipo de profissional no qual se tornará não tem relação com a quantidade de cachaça consumida, de aulas não assistidas, e de 5,75 tirados. (Tenho 2 grandes amigos que foram os campeões de 5,75 e demais quesitos supracitados e hoje fazem residência médica na Unifesp e Unicamp. Repito: é baseado em evidências!)
Alias, ouso dizer que o melhor profissional está muito longe de ser aquele que dedicou todo o tempo de faculdade aos estudos. O que está em jogo não é simplesmente sua formação técnica, mas também sua formação humana, seu caráter, que será moldado de acordo com as experiências que você se permitir ter neste período, aliadas a base que você já trás de antes. Em nenhum outro momento da vida você conhecerá pessoas tão diferentes, com formas de pensar e agir distintas da sua, que te farão entender que existem muitas possibilidades além das que você era capaz de imaginar.
O ideal mesmo é que houvesse um tutor para cada calouro, ou grupo de calouros. Um veterano, quase formado, o qual o calouro devesse consultar (e seguir cegamente) toda vez que ficasse em dúvida diante de questões elementares, do tipo “hoje é sexta: estudo pra prova de segunda ou vou pra festa?”, ou mesmo “Agora é noite de domingo, a prova é amanhã e não estudei nada, to de ressaca da festa de ontem e a galera ta chamando pra ir pro bar: estudo ou chego bêbado na prova?” Por que afinal, independente do perfil da pessoa que entra, todos saem pensando: Poderia ter aproveitado mais.
Enquanto vou articulando a idéia e angariando colaboradores para a versão completa do manual, deixo aqui alguns tópicos que julgo fundamentais para um bom proveito dessa memorável etapa de nossa passagem terrena, a que chamamos vida universitária:
- Vá a todas as festas universitárias que conseguir, o ideal é que tente fazer isso até o final da faculdade, independente do curso que estiver matriculado e sua carga horária. Vá desde a mais tradicional até o happy hour da Oceanografia (que pode ser muito mais legal do que você imagina). Por vezes os interesses vão mudando, e vão surgindo outros compromissos. Mas é importante tentar, essas festas te proporcionarão... várias coisas.
- Administre suas presenças em sala de aula e falte o máximo que puder. Não há motivos para ficar feito zumbi ou dormir na frente do professor. Mesmo as melhores faculdades tem várias aulas ruins, que imploram para que você aproveite melhor seu tempo. Depois de formado você não terá chance de matar o trabalho. Aproveite enquanto pode.
- Cole sempre que precisar! (e seja generoso caso alguém por perto necessite) Você já passou no vestibular e não precisa provar a ninguém que é capaz de tirar boa nota num teste. A maioria das provas que fazemos não prova absolutamente nada; vivemos num sistema de avaliação completamente arcaico e deficiente. Ademais, dividir o conhecimento com o semelhante é uma das coisas mais nobres que você pode fazer (tudo que integra é bom, tudo que separa é ruim)
- Mesmo que o melhor curso na área que você escolheu esteja na sua cidade natal, vale a pena priorizar estudar fora de casa. Você terá experiências muito valiosas tendo de se virar sozinho e não precisar dar satisfação a toda hora. Além disso, muito da faculdade quem faz é o aluno, dependendo de como você levar a coisa, não fará diferença alguma.
- Viaje o máximo que puder, seja para fazer estágio (em outro estado ou outro país) ou mochilão com os amigos. Essa é a época pra isso, só tem a enriquecer sua forma de entender as coisas, e saber lidar com as adversidades, além de toda diversão da viagem! (Não ter dinheiro não é desculpa – faça monitoria, estágios remunerados, pesquisas, lave os pratos do RU; Quem quer, sempre consegue – baseado em evidências!)
- E fundamental: Faça muitos amigos. Trate todo mundo bem e não prejudique ninguém. Com certeza você se decepcionará com algumas pessoas, e é provável que você mesmo também decepcione outras. Mas a maioria das coisas mostrar-se-ão pequenas bobagens, e nesse meio de caminho, essas mesmas pessoas se revelarão pessoas fantásticas, a quem chamaremos verdadeiramente de irmãos, e que iremos querer ter por perto por toda vida.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Coisas de carnaval
O sujeito recupera parcialmente a consciência ao se levantar do vaso sanitário, olha ao redor e não faz a menor idéia de onde está, a bebedeira não permite que ele se preocupe da forma que convém. Sai a passos vacilantes pelo corredor que conduz à sala, onde encontra pessoas que julga comporem uma família. No que ele planeja ser uma simples tomada de fôlego para empregar solenidade ao que gostaria de dizer, consegue fazer um combo homérico iniciado com um soluço na inspiração e, provavelmente devido a uma tentativa retardada de conter o gesto anterior, um peido e um arroto simultâneo na expiração. Completa a seqüência com “Pode não parecer, mas eu sou médico”.
Situações assim só conseguem ser protagonizadas por aqueles que realmente compreendem o que é o carnaval. Há os que preferem o sossego, aproveitar o feriadão pra descansar de um ano que no fundo ainda nem bem começou. Mas sobre não gostar do samba e da folia, um dos nossos maiores entendedores do assunto já desvendou o mistério: “Quem não gosta de samba bom sujeito não é”. Diagnósticos diferenciais: “1) Ruim da cabeça ou 2) doente do pé”.
Este ano quase fui impedido de aproveitar o carnaval por conta de um cálculo renal. Ainda que devidamente medicado, diziam-me os médicos “isso pode complicar, o Rio é um lugar que você não conhece, aqui você tem toda assistência, não deve viajar de jeito nenhum etc”. Entretanto meu argumento era mais forte “mas é carnaval!”. E fui.
Pra quem há 2 anos quebrou o pé caindo de um barranco na primeira noite de folia e passou o resto dos dias com o pé imobilizado e sem muletas, pulando o carnaval feito saci, (há quem imaginasse ser uma fantasia), uma pedra no rim não parecia representar um grande problema.
Relembrando aqui, se fosse contar todas as histórias que vi ou vivi nos carnavais, dava um livro. Pessoal dando cambalhota toda vez que saia do metrô, chutado chinelo de gordinha ladeira abaixo porque tava ela regulando beijo, queimando o braço da moça com bituca de cigarro no meio do xaveco, abandonando amigo bêbado em cidade desconhecida na volta do carnaval (esse era realmente impossível trazer de volta), entre outras impublicáveis.
Sou capaz que afirmar que o carnaval comporta os dias mais importantes do ano. A satisfação de estar com os amigos e aproveitar ao máximo, como se não tivesse todo um ano de compromissos chatos esperando logo a seguir é impagável. Nem precisa ser tão simpatizante do samba. Lá no Rio tinha bloco que tocava Beatles, Raul, Mutantes, ouvi até Legião Urbana. Nada melhor do que ver uma multidão de gente se divertindo, dobrar uma esquina e ler na placa: Rua Vinícius de Moraes. Esse gostava de uma farra, certamente estava abençoando a bagunça. Saravá!
Foi neste dia, voltando de Ipanema, que resolvi que escreveria esta crônica. O metrô de lá fica num complexo batizado com o nome do maior cronista brasileiro: Rubem Braga. E adentrando o prédio, na parede oposta a quem entra, depara-se logo com um texto de outro grande escritor, o Ruy Castro. Nada como estar semi-bêbado (se estivesse bêbado teria esquecido) e prometer aos mestres: essa vai pra vocês.
(E também a todos os amigos que sabem a importância do carnaval e sempre fazem valer a pena).
Situações assim só conseguem ser protagonizadas por aqueles que realmente compreendem o que é o carnaval. Há os que preferem o sossego, aproveitar o feriadão pra descansar de um ano que no fundo ainda nem bem começou. Mas sobre não gostar do samba e da folia, um dos nossos maiores entendedores do assunto já desvendou o mistério: “Quem não gosta de samba bom sujeito não é”. Diagnósticos diferenciais: “1) Ruim da cabeça ou 2) doente do pé”.
Este ano quase fui impedido de aproveitar o carnaval por conta de um cálculo renal. Ainda que devidamente medicado, diziam-me os médicos “isso pode complicar, o Rio é um lugar que você não conhece, aqui você tem toda assistência, não deve viajar de jeito nenhum etc”. Entretanto meu argumento era mais forte “mas é carnaval!”. E fui.
Pra quem há 2 anos quebrou o pé caindo de um barranco na primeira noite de folia e passou o resto dos dias com o pé imobilizado e sem muletas, pulando o carnaval feito saci, (há quem imaginasse ser uma fantasia), uma pedra no rim não parecia representar um grande problema.
Relembrando aqui, se fosse contar todas as histórias que vi ou vivi nos carnavais, dava um livro. Pessoal dando cambalhota toda vez que saia do metrô, chutado chinelo de gordinha ladeira abaixo porque tava ela regulando beijo, queimando o braço da moça com bituca de cigarro no meio do xaveco, abandonando amigo bêbado em cidade desconhecida na volta do carnaval (esse era realmente impossível trazer de volta), entre outras impublicáveis.
Sou capaz que afirmar que o carnaval comporta os dias mais importantes do ano. A satisfação de estar com os amigos e aproveitar ao máximo, como se não tivesse todo um ano de compromissos chatos esperando logo a seguir é impagável. Nem precisa ser tão simpatizante do samba. Lá no Rio tinha bloco que tocava Beatles, Raul, Mutantes, ouvi até Legião Urbana. Nada melhor do que ver uma multidão de gente se divertindo, dobrar uma esquina e ler na placa: Rua Vinícius de Moraes. Esse gostava de uma farra, certamente estava abençoando a bagunça. Saravá!
Foi neste dia, voltando de Ipanema, que resolvi que escreveria esta crônica. O metrô de lá fica num complexo batizado com o nome do maior cronista brasileiro: Rubem Braga. E adentrando o prédio, na parede oposta a quem entra, depara-se logo com um texto de outro grande escritor, o Ruy Castro. Nada como estar semi-bêbado (se estivesse bêbado teria esquecido) e prometer aos mestres: essa vai pra vocês.
(E também a todos os amigos que sabem a importância do carnaval e sempre fazem valer a pena).
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Tulipa ou copo americano
Porco, um grande amigo da época de colégio, abriu um restaurante na Vila Jaguara, em localização suspeita: poucos metros do restaurante do próprio pai. Aliás, o motivo de tal localização foi um dos grandes assuntos entre mim e meus amigos, que em dado sábado, fomos provar a recomendadíssima feijoada de lá, tomar umas cervejinhas, caipirinhas, cachacinhas, e prestigiar nosso mais novo amigo-empreendedor.
Estavámos lá, Brunão, Digão, Guigas, Caião, Égon, Betinho, eu e o próprio Porco, relembrando os causos de outrora. Em meio a muito torresmo, couve com bacon e farofa, vieram histórias antológicas, protagonizadas por garotos que à época planejavam sei lá o que, se é que planejavam alguma coisa; apenas jogavam futebol com latinha de refrigerante amassada no recreio e agora, de repente, estão se formando médicos, engenheiros, economistas, abrindo restaurantes, dirigindo caminhões, casando, tendo filhos, sendo presos, entre outras atividades não convencionais.
Muito papo furado, muita risada, e num estalo a constatação: “Faz sete anos que a gente se formou!”. Isso não foi dito na roda, foi uma constatação interna, não ia atrapalhar uma narração empolgante sobre um episódio da viagem de formatura de Porto Seguro, seria um desperdício de história. Mas o fato é que muita coisa mudou de lá pra cá.
Uns com muito peso, outros com muita grana, ouvimos até um “agora sou rico e tenho um carrão”, e todos com uma bagagem e tanto nas costas. Apesar dos monotemas e pluritemas de praxe, passado um breve período pós-prandial a turma começou a se dispersar: um foi jogar seu sagrado futebol de sábado, outro pro escritório, outro ainda encontrar a namorada; acabamos que só ficamos Digão, o Porco e eu, enturmando vez ou outra com o restante das demais pessoas freqüentadoras do restaurante.
Depois de perdida a conta das garrafas de cerveja e algumas caipirinhas o papo começou a ficar mais filosófico, e o Porco percebeu isso de forma peculiar: “O papo tá muito sério, cêis não conseguem administrar a cerveja no tulipa, tá esquentando toda vez, vou trocar por copos americanos”. E assim procedeu.
O papo era mesmo sério, estamos ficando velhos. As expectativas aumentam, as responsabilidades aumentam, e muitas perguntas batem na cara. Compromisso sério ou Carnaval? Excesso ou falta de trabalho? Novidades ou mesmices? Mais jovens ou mais velhos? Muitos ou poucos amigos? Lembrar ou esquecer? Encarar ou evitar? Focar, expandir, distorcer? Ambição ou resignação? Esforço ou naturalidade? Simplicidade ou complexidade?
Como disse o Nico, outro grande amigo meu, se fosse simples, não haveria tantas perguntas complexas.
Não há nada pior do que dar-se conta de que uma oportunidade passou. É muito difícil entendermos as coisas enquanto estamos passando por elas, mas a constatação óbvia é que cada vez mais estamos por nossa conta, não há como voltar e cada vez menos a quem apelar.
A vida vai passando e há de se decidir o tamanho dos goles que vamos nos servir dela. E aí? Tulipa ou copo americano?
Estavámos lá, Brunão, Digão, Guigas, Caião, Égon, Betinho, eu e o próprio Porco, relembrando os causos de outrora. Em meio a muito torresmo, couve com bacon e farofa, vieram histórias antológicas, protagonizadas por garotos que à época planejavam sei lá o que, se é que planejavam alguma coisa; apenas jogavam futebol com latinha de refrigerante amassada no recreio e agora, de repente, estão se formando médicos, engenheiros, economistas, abrindo restaurantes, dirigindo caminhões, casando, tendo filhos, sendo presos, entre outras atividades não convencionais.
Muito papo furado, muita risada, e num estalo a constatação: “Faz sete anos que a gente se formou!”. Isso não foi dito na roda, foi uma constatação interna, não ia atrapalhar uma narração empolgante sobre um episódio da viagem de formatura de Porto Seguro, seria um desperdício de história. Mas o fato é que muita coisa mudou de lá pra cá.
Uns com muito peso, outros com muita grana, ouvimos até um “agora sou rico e tenho um carrão”, e todos com uma bagagem e tanto nas costas. Apesar dos monotemas e pluritemas de praxe, passado um breve período pós-prandial a turma começou a se dispersar: um foi jogar seu sagrado futebol de sábado, outro pro escritório, outro ainda encontrar a namorada; acabamos que só ficamos Digão, o Porco e eu, enturmando vez ou outra com o restante das demais pessoas freqüentadoras do restaurante.
Depois de perdida a conta das garrafas de cerveja e algumas caipirinhas o papo começou a ficar mais filosófico, e o Porco percebeu isso de forma peculiar: “O papo tá muito sério, cêis não conseguem administrar a cerveja no tulipa, tá esquentando toda vez, vou trocar por copos americanos”. E assim procedeu.
O papo era mesmo sério, estamos ficando velhos. As expectativas aumentam, as responsabilidades aumentam, e muitas perguntas batem na cara. Compromisso sério ou Carnaval? Excesso ou falta de trabalho? Novidades ou mesmices? Mais jovens ou mais velhos? Muitos ou poucos amigos? Lembrar ou esquecer? Encarar ou evitar? Focar, expandir, distorcer? Ambição ou resignação? Esforço ou naturalidade? Simplicidade ou complexidade?
Como disse o Nico, outro grande amigo meu, se fosse simples, não haveria tantas perguntas complexas.
Não há nada pior do que dar-se conta de que uma oportunidade passou. É muito difícil entendermos as coisas enquanto estamos passando por elas, mas a constatação óbvia é que cada vez mais estamos por nossa conta, não há como voltar e cada vez menos a quem apelar.
A vida vai passando e há de se decidir o tamanho dos goles que vamos nos servir dela. E aí? Tulipa ou copo americano?
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Felicidade - Produto adulterado
Se você perguntar a alguém “O que é felicidade?” a resposta será, quase sempre, alguma variação de “são pequenos momentos, pequeno gestos, feita de pequenos instantes”, e que a felicidade “anda por ai escondida, e que você tem de saber encontrá-la”, que temos que aprender a viver as “pequenas felicidades”.
É impressionante como conseguiram nos vender essa ideia: de que a felicidade é um “plus”, uma recompensa, um “algo a mais”. Ou pior ainda, que a felicidade será alcançada depois que conseguirmos uma série de coisas: um bom emprego, um bom salário, uma boa casa, uma família sem problemas... Aí sim, quando tivermos tudo isso, seremos felizes. É claro que se a felicidade for isso, temos que começar a enxergá-la em pequenos momentos. Mas não parece muito justo, nem faz tanto sentido.
A maioria das pessoas acorda dia após dia para ir trabalhar em algo que, na melhor das hipóteses, considera suportável. Alguém que dedica a maior parte do seu tempo a fazer algo que não gosta, pelo qual não é valorizado, e que só faz porque é o maior salário que consegue ganhar (afinal precisamos ao menos pagar as contas), não vai ter nem energia física, nem mental para dedicar sequer àqueles momentos, ou “instantes” que conceitua como “felicidade”.
Pra inicio de conversa, recebemos uma educação que pouco ou nada nos incentiva a acharmos nossas verdadeiras vocações. Muitos chegam à beira do vestibular (afinal, em nossa sociedade entende-se que todos tem de “formar-se” em alguma coisa) procurando suas vocações em revistas ou fazendo testes vocacionais.
Ninguém é totalmente burro ou não é bom em nada, mas acontece que todos recebem o mesmo tipo de educação, num mesmo ritmo, e em momento algum são valorizadas, nem sequer procuradas, as habilidades especificas de cada um. Daí, se alguns conseguem acompanhar as aulas e tirar boas notas, entende-se que todos deveriam conseguir, e castiga-se aqueles que não se dão bem com o sistema.
Todos saem da fôrma (formatura) sabendo mais ou menos qual o lugar certo de marcar o “X”, alguns sabem falar outras línguas, outros se dão muito bem com cálculos, a maioria sai sabendo um monte de baboseiras que nunca serviu nem servirá para nada (além de passar de ano), mas poucos sabem alguma coisa sobre si mesmos, canalizam suas energias para as coisas erradas, não sabem se relacionar, não sabem ser tolerantes, tem o conceito de justiça completamente deturpado e jamais terão a certeza de estarem fazendo a coisa certa.
Inteligência não é sinônimo exclusivo de intelectualidade. Abrange o emocional, o físico, a intuitivo e como você articula tudo isso. Felicidade é uma conquista inteligente e que todos, sabendo ou não onde botar o “X”, são capazes de alcançar.
A verdadeira felicidade jamais deveria ser uma exceção, coisa pequena, fugaz.
O caminho não é fácil, já está tudo muito enraizado e a solução depende de muitos fatores, internos e externos. Mas temos que partir de algum lugar.
Parece-me interessante tentarmos ao menos servir de mapa para que as gerações futuras tenham uma compreensão maior, e comprem o produto original.
É impressionante como conseguiram nos vender essa ideia: de que a felicidade é um “plus”, uma recompensa, um “algo a mais”. Ou pior ainda, que a felicidade será alcançada depois que conseguirmos uma série de coisas: um bom emprego, um bom salário, uma boa casa, uma família sem problemas... Aí sim, quando tivermos tudo isso, seremos felizes. É claro que se a felicidade for isso, temos que começar a enxergá-la em pequenos momentos. Mas não parece muito justo, nem faz tanto sentido.
A maioria das pessoas acorda dia após dia para ir trabalhar em algo que, na melhor das hipóteses, considera suportável. Alguém que dedica a maior parte do seu tempo a fazer algo que não gosta, pelo qual não é valorizado, e que só faz porque é o maior salário que consegue ganhar (afinal precisamos ao menos pagar as contas), não vai ter nem energia física, nem mental para dedicar sequer àqueles momentos, ou “instantes” que conceitua como “felicidade”.
Pra inicio de conversa, recebemos uma educação que pouco ou nada nos incentiva a acharmos nossas verdadeiras vocações. Muitos chegam à beira do vestibular (afinal, em nossa sociedade entende-se que todos tem de “formar-se” em alguma coisa) procurando suas vocações em revistas ou fazendo testes vocacionais.
Ninguém é totalmente burro ou não é bom em nada, mas acontece que todos recebem o mesmo tipo de educação, num mesmo ritmo, e em momento algum são valorizadas, nem sequer procuradas, as habilidades especificas de cada um. Daí, se alguns conseguem acompanhar as aulas e tirar boas notas, entende-se que todos deveriam conseguir, e castiga-se aqueles que não se dão bem com o sistema.
Todos saem da fôrma (formatura) sabendo mais ou menos qual o lugar certo de marcar o “X”, alguns sabem falar outras línguas, outros se dão muito bem com cálculos, a maioria sai sabendo um monte de baboseiras que nunca serviu nem servirá para nada (além de passar de ano), mas poucos sabem alguma coisa sobre si mesmos, canalizam suas energias para as coisas erradas, não sabem se relacionar, não sabem ser tolerantes, tem o conceito de justiça completamente deturpado e jamais terão a certeza de estarem fazendo a coisa certa.
Inteligência não é sinônimo exclusivo de intelectualidade. Abrange o emocional, o físico, a intuitivo e como você articula tudo isso. Felicidade é uma conquista inteligente e que todos, sabendo ou não onde botar o “X”, são capazes de alcançar.
A verdadeira felicidade jamais deveria ser uma exceção, coisa pequena, fugaz.
O caminho não é fácil, já está tudo muito enraizado e a solução depende de muitos fatores, internos e externos. Mas temos que partir de algum lugar.
Parece-me interessante tentarmos ao menos servir de mapa para que as gerações futuras tenham uma compreensão maior, e comprem o produto original.
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- Pedro
- Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.