segunda-feira, 28 de maio de 2012

Achados e perdidos


Senhor, desculpe o mau-jeito, vim correndo da chuva, já de saída perdi a hora, bem como o guarda-chuva, como pode perceber, mas nem é isso que vim procurar. Trouxe uma lista aqui, porque ando também perdendo a memória. Sei que não vai estar tudo aí, mas tem muita coisa que eu perdi, e não lembro onde, como ou quando, mas tenho que começar a procurar por algum lugar.
 Perdi tanta coisa pelo caminho... Onde é que está a lista? Até os cabelos, veja só! Acho que de tudo, só não perdi mesmo o juízo. Mas não sei se isso é bom.
 Devo ter deixado a lista em algum lugar. Perdi, hehe! Mas veja aí, por favor, não tem o meu sonho de juventude? Aposto que alguém o levou por engano, eles são todos tão parecidos, não é mesmo?

E aqueles dois ou três amores que tive na vida? Será que não foi aqui? Faz tanto tempo, me distraí com o trabalho, acabei perdendo também. Ah, mas aposto que aquelas chances de dizer às pessoas que amo o quanto elas foram importantes pra mim, essas não tem como não estarem por aí, pelo menos uma ou outra. Dá uma procurada melhor, deixa eu entrar aí que eu conheço bem como é.
 Não, meu senhor, relógio eu perdi também, mas isso a gente compra em qualquer esquina. Quero saber das coisas que não voltam, dessa categoria, será que não tem nada aí? Puxa, mas a minha lista era tão grande, revisei ela tantas vezes que perdi a conta.

Olha, o senhor não tá facilitando pro meu lado. Tem um monte de coisa aí que eu sei que ninguém vem buscar, nem percebe que perdeu. Eu trouxe aqui um material que talvez interesse pro senhor. Se achar que vale a pena, a gente faz negócio. Veja só, tá sobrando aqui pra mim: arrependimento. Dá pra trocar por alguma coisa? Eu tenho de monte. Vale pelo menos uma chance de passar ridículo? De ficar bêbado com os amigos e pular de roupa na Lagoa da Conceição. Ou de chegar na menina mais bonita da escola e dizer que to apaixonado, roubar um beijo, roubar no truco. Aprender a tocar violão, pedir o divórcio, mandar algum imbecil tomar no cú, mesmo que eu ganhe um olho roxo depois. Algum desses? Nenhum?!
               
 “Não temos nada parecido com chances perdidas”. É isso que o senhor tem a me dizer a essa altura do campeonato? Ora, é melhor o senhor sumir daqui antes que eu perca a cabeça! Vá para o diabo e leve consigo todos esses relógios, celulares, carteiras e chaves perdidas. O que eu quero agora é achar algo que valha a pena. Será que dá tempo? Vou lá pra fora ver o que é que tá tendo.
 Mas e aquele guarda-chuva ali? O preto, semi-automático. Eu tinha um tão parecido... 

sábado, 19 de maio de 2012

Sonhos de uma geração


- Pois é, minha filha! Levou um tombo, quebrou a costela, deu hemorragia...foi terrível! Isso, minha sogra!...
   Eu lia o “Clube da Luta” dentro de um ônibus que subia a Av. Angélica, as 7h15 da manhã, rumo ao meu estágio em geriatria no Hospital das Clínicas, quando percebi uma senhora bonachona narrando em alto e bom som, pelo celular, uma pequena tragédia doméstica que acometera sua sogra.
   Há um segundo atrás Tyler Durden dizia que há uma categoria de homens e mulheres jovens e fortes que querem dar a própria vida por algo. Mas que a propaganda faz essas pessoas irem atrás de carros e roupas de que não precisam. E que gerações tem trabalhado em empregos que odeiam para poder comprar coisas de que realmente não precisam. Que não temos uma grande guerra em nossa geração, ou uma grande depressão, mas na verdade temos, sim, uma grande guerra de espírito. Temos uma grande revolução contra a cultura. E a depressão é a nossa vida.
 Mais um pouco a senhora bonachona trocou de assunto e falava sobre alguma coisa que envolvia “ciclos de amaciante”, e que “por favor, não esqueça de estender as cuecas do meu marido, que ele anda sem, e se esquecer, amanhã não vai ter o que usar”.
               
  Ler no ônibus, ainda mais numa cidade como São Paulo, é a melhor coisa que se tem a fazer. É um paradoxo muito grande estar lendo “Elogio à Loucura”, ou uma biografia do Che Guevara e parar por uns segundos pra reparar nos seus companheiros de coletivo. O que será que essa galera tá pensando. Dá pra viajar legal analisando o cenário.
  Aprendi isso quando fazia cursinho, e subia aquela mesma Av. Angélica, para aprender uma porção de coisas que nos é cobrada para que passemos numa prova e vá aprender outras porções de coisas que nos darão condição de trabalhar em empregos que imaginamos que seja o melhor que podemos fazer. Hoje subo a Av. Angélica para aprender a tratar de velhos, o que, de fato, talvez seja o melhor que possa fazer.
 Olho em volta e vejo uma montoeira de gente de olhar vago, ainda acordando, todos em silêncio, (menos a senhora bonachona, que depois de quase quinze minutos de conversa, se despede da pessoa do outro lado da linha; mas não podemos culpá-la, já que a tarifa é de 25 centavos por ligação), como disse o Tyler, indo trabalhar em funções que detestam, ou não. Simplesmente, “era o que tava tendo”.
               
E nós? Doamos sangue, reciclamos lixo, escrevemos alguma citação bacana no mural do Facebook e achamos que estamos fazendo nossa parte. E no grosso da coisa, continuamos perseguindo os ideais da propaganda. “O meu sonho de consumo (FAIL!) é dirigir uma Lamborghini e ter uma casa em Jurerê, ou em Alphaville”. Como diz o grande Milton Leite: “Que beleeeza”!
Daqui uns anos estaremos as 7h15 da manhã, de cara amarrotada, olhar vago, num coletivo ou numa Lamborghini, pensando, quem sabe, em um dia ir trabalhar de helicóptero. E ter uma casa em Miami. Viver é isso, então?
               
“Advice for the Young at heart: Soon you Will be older. When you gonna make it work?” (Tears for fears, boa banda dos anos 80)

sábado, 28 de abril de 2012

Geração iPad: Onde queremos chegar?


Dias atrás conversei com uma pessoa que me contou que seu sobrinho ganhou de presente um iPad. Falava com alegria da facilidade com que o menino utilizava o aparelho, da destreza e movimentos intuitivos com que abria e fechava aplicativos e conseguia sempre executar os comandos que desejava. O único problema é que vez ou outra ele resolvia dar outras funções para o equipamento: em vez de concentrar-se na tela, resolvia arremessá-lo longe ou mesmo mordê-lo. Mas era compreensível, pois ele tinha recém completado dois anos.
A pessoa não disfarçava o orgulho que sentia da esperteza do sobrinho, até me mostrou uma foto em seu iPhone da criança olhando para a tela de seu presente e apontando o dedo para lá. No entanto, queixava-se de que ele nunca deixava pegá-lo no colo, apesar de, depois da mãe do menino, ela se sentir a pessoa mais próxima a ele. Beijos e demonstrações de afeto então, nem pensar.
              
  Sou de uma geração em que nossos pais começaram a comprar computadores quando éramos pequenos. Meus pais compraram o primeiro (para uso da casa) quando eu tinha oito anos. Até então eu já tinha muitos amigos, joelhos ralados, coleção de figurinha, bola de gude, e uma bicicleta “da hora, de 18 marchas!”. Foi legal quando o computador chegou, mais o PaintBrush, que era a maior diversão, perdia de longe para os amigos da escola e da rua.
 Os computadores e o mundo virtual chegaram às nossas vidas particulares sem que tivéssemos muita orientação de como poderíamos realmente nos beneficiar deles. É bem óbvia a praticidade e dinamicidade que eles proporcionaram em nossas atividades laborais, mas para muitos, o “Personal Computer” aos poucos foi deixando de ser uma ferramenta, um meio, para tornar-se um fim em si próprio.
 Resultado: boa parcela da minha geração, que hoje esta começando família e a terem filhos, estão apresentando de forma completamente alienada (alienação = ação sem reflexão) esses dispositivos à sua prole, antes que eles tenham contato com o mundo, pessoas, situações reais e estão achando isso uma maravilha, até porque eles mesmos (os pais) ainda não tem discernimento do real propósito de adquirir um aparelho desses. Mas numa sociedade democrática como a nossa, onde qualquer um faz o que bem entende, "se eu quero e posso, por que não devo?"
             
 Não vou discorrer sobre o uso ponderado dos aparelhos eletrônicos, da internet, ou das redes sociais, até porque a forma com a qual eu os utilizo fica muito aquém de seu verdadeiro potencial. Mas consequências desse tipo de atitude por parte dos novos pais são de fácil conclusão. Isso é um processo real e em curso, acho pertinente uma boa reflexão sobre o tema. Onde queremos chegar? Tem tanta gente que se diz preocupada com o mundo que deixaremos para nossos filhos, mas o que importará isso, se o mundo em que eles decidirem viver não for mais este?

sábado, 21 de abril de 2012

Último dia em Paris

Eu estava no Père-Lachaise procurando o túmulo do Jim Morisson quando encontrei um simpático casal, ele inglês, ela espanhola, mapa do cemitério na mão, a procura da morada eterna não só do vocalista dos Doors, mas como de uma dezena de outros figurões que por escolha ou acaso, jazem no terreno do 20º Arrondissement, em Paris.
 Em frente ao túmulo do Morrison há uma árvore com diversas inscrições de fãs, a maior e mais evidente delas clamando um dos sucessos da banda “Show me the way to the next whisky bar”. Foi defronte a ela que o casal resolveu me convidar para tomar uma cervejinha depois da caça aos túmulos.Tive de dar uma desculpa esfarrapada qualquer, pois sabia exatamente o que tinha na carteira: 3 passes de metrô e 5 euros, nada mais.
 No dia seguinte eu voltaria ao Brasil, e o dinheiro que levei para a viagem, depois de lambanças aeroportuárias e inconsequências etílicas, tinha literalmente acabado (na verdade há muito tempo, se não fosse o violão emprestado com qual resolvi improvisar alguns acordes e levantar uns trocados numa praça, durante minha estadia de um mês em Heidelberg).
 Evadiu-se o casal, e eu tracei meu plano: Um passe do metrô para ir à Basilica de Sacré Coeur, outro para voltar ao albergue. Cinco euros pagavam um lanche do McDonalds, e mais uma passagem de metrô garantiria minha chegada ao aeroporto no dia seguinte. Estando dentro da aeronave, não precisaria me preocupar em ser servido apenas de goiabinha ou clube social, e no mais, estando em Paris, me parecia uma boa ideia encarnar Gil Pender, alter-ego do Woody Allen no Meia-Noite em Paris, e ver no que ia dar.

A visita à Sacré Coeur foi um dos pontos altos da viagem. A basílica em si é bem bonita, mas o melhor de tudo foi o fato de que quando cheguei , havia uns artistas de rua tocando grandes sucessos para uma multidão sentada nas escadarias que dão acesso à basílica. Juntei-me a massa, de um lado uma japonesaiada (eles estão por toda parte), do outro o que parecia ser uma família local, mas estando por ali, impossível saber. O mundo inteiro estava ali, um pessoal da África vendendo barbantes entrelaçados multicoloridos para colocar no punho, paquistaneses vendendo crepe, turistas da América, Oceania, Antártida, Palhoça, todos ali, juntos, ouvindo os cantores entoarem os grandes sucessos.
 Sem nenhum compromisso em absoluto, apenas com a obrigação de voltar à terrinha no dia seguinte, permiti-me ficar por ali, a lembrar do que tinham sido aqueles dois meses de Europa, dos amigos e família que em breve eu reveria, da quantidade de gente, lugares e situações novas que conheci. Será que alguma coisa havia mudado? Do que serviu aquela viagem?
 Voltando ao albergue, parei no pub que ficava no piso térreo e a troco de nada comecei a conversar com uma funcionária egípcia que lá trabalhava. Nisso mais gente foi chegando ao balcão, pessoas que a conheciam, e por tabela me inseri na conversa. Papo vai, papo vem, uma caneca de cerveja surge a minha frente, depois outra, e mais uma. Meia-hora depois estava eu em outra mesa, conversando, num exemplar portunhol, com duas argentinas, uma mexicana e uma espanhola. “Como você fala bem espanhol”, me incentivaram elas, puramente reconhecendo meu esforço. E eu, achando que estava me dando muito bem (percepção ligeiramente bêbada) ainda perguntei: mas meu sotaque tá mais pro da Espanha, Argentina ou México? Entreolharam-se e com um sorriso amarelo de canto de boca, quase em uníssono, responderam: “Nenhum”.
 Uma bola fora de leve e quando menos esperei estava noutra mesa, de uma turma colombiana muito animada. Tenho foto dessa turma, qualquer hora posto; eles foram muito legais comigo, foram eles que me lembraram de que eu tinha um voo no dia seguinte e sugeriram que eu fosse me deitar, depois de perdida a conta de canecas de cerveja (tudo por conta de terceiros) e de eu ter convidado a funcionária egípcia para ir comigo até a salinha de bagagens a 1h da manhã.
 Uma noite até que bem-comportada comparada a uma outra, nesta mesma Paris, no início da viagem, quando, depois de algumas garrafas de vinho e uma gorfada na Lan House de um albergue, um amigo meu foi encontrado por mim dormindo dentro do elevador, subindo e descendo por sei lá quanto tempo.

 O que de fato mais marcou foi o crepúsculo na Sacré Coeur, sem nuvens, especificamente a hora em que os artistas estavam cantando “Imagine”, do John Lennon. E eu a ver toda aquela gente dos quatro cantos encontrando-se, conversando, observando, conhecendo-se, trocando ideias (literalmente) e percebendo como é rico e importante esse intercâmbio. Ouvindo as palavras de Lennon lembrei-me de alguns amigos meus que são viajantes por natureza, que se sobra algum dinheiro, estão de mochila nas costas se jogando pelo mundo e, lembrando-me de suas posturas diante do mundo e das outras pessoas, ficou muito claro a importância disso tudo.

 Volto a recordar um trecho célebre do Amyr Klink: “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver".

quarta-feira, 28 de março de 2012

Baseado numa consulta real

Seu José foi consultar-se com um cirurgião cardíaco por conta de uma estenose da válvula aórtica (abertura incompleta da válvula, devido ao seu enrijecimento, prejudicando a função cardíaca). Chegando ao consultório começou logo, como estava habituado, a despejar a montoeira de exames na mesa do doutor.

- Não Seu José, primeiro conta como tudo começou.

O senhor, recém-chegado à hoje denominada (de forma demagógica e controversa) “melhor idade”, estranhou (por mais absurdo que pareça) a pergunta, mas resolveu levar ao pé da letra. Contou que há tempos teve uma dor muito forte, em região lombar alta, irradiada para o abdome, acompanhada de vômitos. O médico que o atendeu na ocasião diagnosticou pedras nos rins e delas tratou, mas orientou-o a consultar um cardiologista, pois casualmente havia ouvido um “soprinho no coração”. Tratados os rins foi ao cardiologista, o qual disse que o soprinho era um soprão. Solicitou exames, que mostraram a tal estenose, cujo tratamento deveria ser cirúrgico. Por isso estava ali naquele momento, em frente ao especialista indicado.
Dado que o doutor até então não interviera no relato, Seu José sentiu-se a vontade para mostrar uma cicatriz no braço, que ganhou após a recente remoção de um ceratoacantoma, tumor de pele que leva ao aparecimento de uma massa crostosa, rija.
Somente quando o paciente se calou, foi que o cirurgião indagou:

- Mas seu José, o que é que está endurecendo o senhor? (pedra nos rins, pele grossa, enrijecimento valvar...)

Apenas com essa pergunta o doutor mostrou que por mais que a nossa medicina esteja cada vez mais fragmentada e quase puramente intervencionista, até um sub-especialista pode e deve ter uma visão holística dos pacientes.

A profissão médica exige uma compreensão do ser humano que vai muito além do físico-químico. Exige-se, acima disso, que se reconheça que por mais conhecimento que tenhamos acumulado, não somos únicos detentores do saber. Há outros profissionais da área da saúde que, quando partícipes, não somente na execução de ordens médicas, como também convidados a colaborar na tomada de decisões, são capazes de melhorar sobremaneira o tratamento do paciente e ajudar na promoção de sua saúde.
Seu José ficou aturdido com a pergunta. Não era iletrado nem nada, muito pelo contrário, tinha sólida formação acadêmica, e entendeu muito bem a pergunta. Daí em diante viu-se dizendo ao médico coisas que jamais imaginaria. Falou de como foi idealista na juventude, de como lutou por certas causas e da frustração de não ter conseguido aquilo que queria. Falou de um casamento fracassado e dos filhos que não o visitavam mais. Chorou.

Passou pela cirurgia, recuperou-se, deu-se conta que não perderia nada em tentar tornar a tal demagógica e controversa “melhor idade” em algo o mais próximo disso; retomou parte de seus projetos e tarde dessas me contou essa história.

terça-feira, 20 de março de 2012

Um conto insólito

Chegou em casa, desafroxou a gravata e começou a se embriagar: de súbito era corno. O pé de igualdade neste direito lhe era intragável, mais ainda do que aquele charuto vagabundo, pseudo-cubano, que ganhou de presente, e o tango argentino que resolveu botar na vitrola, onde mais tarde arremessaria o copo de Wyborowa pura com gelo (atitude da qual se arrependeria de imediato, imaginando ser típico da esposa, ainda mais com La Cumparsita ao fundo). Um pequeno escândalo pequeno-burguês no nível de clichê mais alto que se poderia supor.
A cada gole que tomava a cena de horas antes se tornava mais absurda, afinal, como podia sua namoradinha de infância, reencontrada na pós-graduação em pedagogia Freiriana, tornada esposa em cerimônia religiosa tradicional, lua de mel em Poços de Caldas (estavam mal de grana, comprando apartamento e aquela coisarada toda), mãe de seus dois filhos e entrando no Motel Dallas às quatro da tarde com outra pessoa que não ele!
Não que ele nunca tivesse feito coisa parecida, pelo contrário e desde o inicio, mas oras, não é assim que funciona em nossos tempos, e alias, em todos os outros? “Monogamia nunca foi algo natural no reino animal”, diria ele a esposa se algum dia ela viesse com papo furado pra cima dele. “Animais comem a própria merda”, disse a esposa de um amigo do departamento, quando este tentou enrolar com a história da poligamia, mas sua mulher jamais faria isso, era o que ele imaginava até então.
E a vida parecia ser tão boa, eles faziam sexo com frequência (no mínimo aceitável, ele julgava), faziam programas juntos, foram assistir ao show do Chico, à nova peça do Felipe Hirsch, tinham viagem programada para a Disney (levar os filhos, que estavam indo bem no colégio). Casa na praia, bons amigos, ele fabricava cerveja caseira, nem tinha uma amante fixa, apenas uma ou outra escapada eventual. Ela terminando o pós-doc, fazendo pilates e dando pra outro cara, ou outros!
Deixou a meia garrafa de Wyborowa de lado, apagou o charuto e tentou ser racional. Não conseguindo, pensou pela primeira vez no arremesso do copo, mas deixando-o de lado, pegou uma longneck de sua própria fabricação e aumentou o som. Carlos Gardel bombando na vitrola e os meninos por chegar, eles que nunca viram o pai bêbado, a não ser em festividades. A esposa (vagabunda!) ia chegar sabe-se lá quando, já não tinha certeza dos horários das aulas do pós-doc, a verdade é que depois daquela cena tinha certeza de pouca coisa.
A mistura etílica começou a fazer efeito, e ele decidiu que ficaria ali no sofá até alguém entrar pela porta da sala, e independente de quem fosse ele diria “Vagabunda!”. Se fosse a esposa, seria auto-explicativo, se fossem os filhos, trazidos pelo ônibus escolar, ele completaria com “sua mãe”. Esse sim seria o início da tragédia pequeno-burguesa, mas não havia outra alternativa, ele estava cada vez mais convicto de que este era o papel que lhe caberia a partir de então.
Passou um longo tempo e ninguém chegou, estava voltando para a vodka e entrando na fase de achar culpados. Culpou a rotina, os filhos, o feminismo, a si mesmo, a cerveja que estava tomando, o pilates e até Paulo Freire, mas não se contentou com ninguém. Foi então que do lado do sofá tocou o telefone, e ele num gesto automático atendeu. Era sua mãe, que morava alguns andares abaixo, e pediu que ele descesse para ajudar a consertar o chuveiro. Viúva que era, sempre apelava para o filho nesses pequenos consertos domésticos.
Ele de pronto aceitou, e bêbado, manteve a idéia de dizer “Vagabunda” a primeira pessoa que surgisse pelas portas (agora seria sua mãe, mas ele explicaria rápido). Estava resignado sobre seu novo status, e precisava compartilhar o dramalhão.
Antes de descer pegou finalmente o copo de Wyborowa e tacou-o na vitrola.

Desceu os andares do prédio ensaiando mentalmente tudo o que se seguiria ao “Vagabunda”, mas não foi capaz de elaborar nada muito sofisticado e resolveu que improvisaria. Chegou à porta, tocou a campainha, ouviu passos, a porta se abrindo, tudo muito escuro e como não enxergou nada, já teve de improvisar dizendo “Mãe?” Súbito as luzes se acendem, antes das pupilas se acomodarem à nova iluminação ele ouve “Surpresa!”, buzinas e bexigas fazendo barulho, duas criaturas se agarrando as suas pernas e um coro cantando “Parabéns pra você...”.
Quando se acostumou à luz e à idéia do aniversário, que ele não se lembrara em momento algum durante o dia, viu a mãe, os filhos, a esposa e outras pessoas que depois não se recordaria. Impossível descrever a insólita sensação da qual se apossou naquele momento. Beijou a cabeça das crianças, pegou o mais novo no colo, uma lágrima escorreu-lhe enquanto encarava a esposa. “Vagabunda”, foi o que mais uma vez ele quase disse, pensando que há poucas horas e sabe-se lá quantas vezes mais ela se entregara a outro homem, (“não poupou nem meu aniversário!”). Pensou na vergonha disso tudo, no pessoal da firma sabendo, se é que ela não saia com algum deles. E agora ali, linda, autêntica, a garota ginasial, a mãe de seus filhos, a adultera, todas elas, surpreendentemente numa só.
Ainda assim, o “vagabunda” saiu-lhe “obrigado”, não por bom-senso de ter ali seus filhos, sua mãe e uma festa surpresa, mas por render-se a cada vez mais banal hipocrisia conjugal. Neste caso, alguns ainda chamariam de “corno-mansice aguda” de sua parte, mas o que se entende sobre a vida e as relações? Dito isso, foi ajudar sua mãe a repartir o bolo.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Aos calouros

Se um dia me dessem a incumbência de escrever algo para deixar para a posteridade, dissessem: “de tudo o que você escrever, só vai sobrar isso”, acho que escolheria um apelo aos recém-ingressos na universidade. Algum manual do tipo “A melhor forma de aproveitar a universidade, baseado em evidências e narrativas daqueles que apesar de tudo conseguiram se formar”.
Algo que os fizesse entender a importância de levar a sério o compromisso de fazer valer a pena essa vida que se inicia. Mostrar que o tipo de profissional no qual se tornará não tem relação com a quantidade de cachaça consumida, de aulas não assistidas, e de 5,75 tirados. (Tenho 2 grandes amigos que foram os campeões de 5,75 e demais quesitos supracitados e hoje fazem residência médica na Unifesp e Unicamp. Repito: é baseado em evidências!)
Alias, ouso dizer que o melhor profissional está muito longe de ser aquele que dedicou todo o tempo de faculdade aos estudos. O que está em jogo não é simplesmente sua formação técnica, mas também sua formação humana, seu caráter, que será moldado de acordo com as experiências que você se permitir ter neste período, aliadas a base que você já trás de antes. Em nenhum outro momento da vida você conhecerá pessoas tão diferentes, com formas de pensar e agir distintas da sua, que te farão entender que existem muitas possibilidades além das que você era capaz de imaginar.
O ideal mesmo é que houvesse um tutor para cada calouro, ou grupo de calouros. Um veterano, quase formado, o qual o calouro devesse consultar (e seguir cegamente) toda vez que ficasse em dúvida diante de questões elementares, do tipo “hoje é sexta: estudo pra prova de segunda ou vou pra festa?”, ou mesmo “Agora é noite de domingo, a prova é amanhã e não estudei nada, to de ressaca da festa de ontem e a galera ta chamando pra ir pro bar: estudo ou chego bêbado na prova?” Por que afinal, independente do perfil da pessoa que entra, todos saem pensando: Poderia ter aproveitado mais.
Enquanto vou articulando a idéia e angariando colaboradores para a versão completa do manual, deixo aqui alguns tópicos que julgo fundamentais para um bom proveito dessa memorável etapa de nossa passagem terrena, a que chamamos vida universitária:

- Vá a todas as festas universitárias que conseguir, o ideal é que tente fazer isso até o final da faculdade, independente do curso que estiver matriculado e sua carga horária. Vá desde a mais tradicional até o happy hour da Oceanografia (que pode ser muito mais legal do que você imagina). Por vezes os interesses vão mudando, e vão surgindo outros compromissos. Mas é importante tentar, essas festas te proporcionarão... várias coisas.

- Administre suas presenças em sala de aula e falte o máximo que puder. Não há motivos para ficar feito zumbi ou dormir na frente do professor. Mesmo as melhores faculdades tem várias aulas ruins, que imploram para que você aproveite melhor seu tempo. Depois de formado você não terá chance de matar o trabalho. Aproveite enquanto pode.

- Cole sempre que precisar! (e seja generoso caso alguém por perto necessite) Você já passou no vestibular e não precisa provar a ninguém que é capaz de tirar boa nota num teste. A maioria das provas que fazemos não prova absolutamente nada; vivemos num sistema de avaliação completamente arcaico e deficiente. Ademais, dividir o conhecimento com o semelhante é uma das coisas mais nobres que você pode fazer (tudo que integra é bom, tudo que separa é ruim)

- Mesmo que o melhor curso na área que você escolheu esteja na sua cidade natal, vale a pena priorizar estudar fora de casa. Você terá experiências muito valiosas tendo de se virar sozinho e não precisar dar satisfação a toda hora. Além disso, muito da faculdade quem faz é o aluno, dependendo de como você levar a coisa, não fará diferença alguma.

- Viaje o máximo que puder, seja para fazer estágio (em outro estado ou outro país) ou mochilão com os amigos. Essa é a época pra isso, só tem a enriquecer sua forma de entender as coisas, e saber lidar com as adversidades, além de toda diversão da viagem! (Não ter dinheiro não é desculpa – faça monitoria, estágios remunerados, pesquisas, lave os pratos do RU; Quem quer, sempre consegue – baseado em evidências!)

- E fundamental: Faça muitos amigos. Trate todo mundo bem e não prejudique ninguém. Com certeza você se decepcionará com algumas pessoas, e é provável que você mesmo também decepcione outras. Mas a maioria das coisas mostrar-se-ão pequenas bobagens, e nesse meio de caminho, essas mesmas pessoas se revelarão pessoas fantásticas, a quem chamaremos verdadeiramente de irmãos, e que iremos querer ter por perto por toda vida.

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Quem sou eu

Médico da atenção básica de Sombrio - Santa Catarina. Escreve para o site da prefeitura, neste blog e eventualmente em outro veículos. Estuda filosofia. Toca violão e alguns outros instrumentos, nenhum verdadeiramente bem.